O ponto cego

[Público 26 junho 2007]

Nunca, em nenhuma introdução à política de um lugar, é indiferente saber qual é o sentido de voto da maioria da população. Menos ainda se esse sentido de voto é constante há décadas.

Anda por aí uma publicidade em que se apresentam fotografias de Lisboa sem os monumentos principais e alguém diz: “parece que havia ali um castelo”, ou “isto tinha aqui uma torre – de Belém, ou lá o que era”. Agora imaginem que alguém tinha visitado Lisboa e ao regressar lhe perguntavam pelo Tejo. Tejo, qual Tejo? Não vi lá Tejo nenhum. Não só passa um rio em Lisboa como parece impossível que alguém pretenda descrever a cidade ser dar conta desse facto.

No entanto, o impossível acontece. Considere-se o texto de Helena Matos no Público de ontem.


Logo no primeiro parágrafo, o leitor verá que se trata de uma introdução à política do País Basco espanhol. No segundo parágrafo, confirmará que a autora lamenta o desconhecimento da realidade basca em Portugal, “apesar da proximidade geográfica”. Mas se percorrer todo o texto até à última palavra do último parágrafo, o leitor ficará sem saber quem ocupa neste o governo do País Basco, qual é o nome do seu presidente ou em que partido vota a maioria dos seus eleitores.

Será possível falar da política no País Basco sem dizer que ela é dominada pelo centenário Partido Nacionalista Vasco, de centro-direita, que ocupa o governo da região desde 1980 e que tem ganho sistematicamente todas as eleições locais nas últimas décadas? Que diríamos se um jornalista estrangeiro desejasse escrever sobre política madeirense sem falar de Alberto João Jardim ou, em termos gerais, sem dizer quais são os principais partidos na região e quais foram os resultados nas eleições mais recentes? Não é possível escrever sobre política madeirense sem explicar que o PSD-Madeira tem ganho todas as eleições no arquipélago desde 1974, e essa lacuna seria tanto mais grave se o jornalista em causa pretendesse desvendar-nos a verdade sobre a política madeirense.

Tenho, portanto, este problema de base com o texto de Helena Matos: nunca, em nenhuma introdução à política de um lugar, é indiferente saber qual é o sentido de voto da maioria da população. Menos ainda se esse sentido de voto é constante há décadas.

Há, como é evidente, uma boa razão para Helena Matos não ver este elefante na sala de jantar. A explicação é que ele se encontra tapado por outro elefante, o terrorismo da ETA, sem o qual também não se pode falar de política no País Basco. Partilho com Helena Matos a condenação sem hesitações da ETA, e estou disposto a tomar como fundada a sua opinião de que a ETA não está (infelizmente) isolada na sociedade basca. Mas não podemos esquecer que os partidos que apoiam a ETA têm tido votações minoritárias nas eleições bascas, só ultrapassando os dez por cento em época de tréguas. Ignorá-lo não é só um erro factual; é acima de tudo um erro de estratégia.

Como qualquer primeiro-ministro de Espanha, Zapatero negociou com o governo do País Basco as questões do País Basco. Com os terroristas da ETA, declarou só ter a negociar o fim do terrorismo. Falhou. Mas só falha quem tenta. Se a ETA chantageia o País Vasco e tenta intimidar a Espanha com a violência e o terrorismo, aí está uma razão para não os considerarmos mais representativos do que aquilo que são. A verdade é que há muito mais gente a votar nos nacionalistas não-violentos, e este é um dado essencial para toda a gente que se preocupa mais com o terrorismo da ETA do que com o nacionalismo do PNV. Só o ignoraremos se deixarmos que a ETA nos cegue.

1 Resposta a “O ponto cego”


  • Já vi apoiantes da ETA nos últimos desfiles do 25 de Avril, naquela altura achei que alguém na organização das comemorações errou (qual a relação entre uma celebração da liberdade contra o fascismo e um grupo nacionalista de outro país, com ideias essencialistas e violentas?). Já vi cartazes contra a “presença espanhola” no País Basco, perto dos Armazéns do Chiado. E, em conversas com amigos portugueses, alguns achavam que a luta pela independência en Euskadi era legítima (e embora ninguém apoiasse a violência, houve quem achava que a luta armada “contra o invasor estrangeiro” é legítima). Acredito na livre determinação dos povos, mas essa liberdade tem de atingir-se por vias pacíficas. De qualquer forma, o País Basco nunca na história teve tanta autonomia quanto tem hoje. Que no futuro possa atingir mais autonomia, desde que se procure dentro do marco democrático e desde que seja o desejo da maioria dos bascos, sem discriminação de ideias nem de sensibilidades. (Peço desculpas pelo mau português). Cumprimentos.

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