O ideal universitário

{Público 11 abril 2007}

O resto pode ser importantíssimo. Mas quando se salta a etapa do ideal universitário tudo o resto, por importante que seja, corre mal.

Há qualquer coisa no ideal universitário que o torna difícil de explicar, apesar de ser tão simples. O ideal universitário é as ideias. Ideias sobre como são as coisas, sobre como funcionam, sobre como deveriam funcionar, ideias sobre ideias. Algumas dessas ideias são conhecimento, outra são comentário, outras criatividade, a maior parte delas um pouco disso tudo. Mas é difícil explicar aos alunos, ou até ao resto da sociedade, que dentro daquelas paredes (metafóricas: pode ser cá fora, na esplanada, no trabalho de campo, na visita de estudo) essas ideias devem ter precedência sobre tudo o resto. Se os alunos querem um diploma e os pais pagam por um bom emprego, não é fácil dizer-lhes que por agora a única coisa importante é o que escreveram alguns mortos de há mais de cem anos, ou como se comporta a partícula x, ou que interpretação dar à arte de y. Só depois de ganhar verdadeiro interesse ou paixão por tais coisas chega a altura de se poder começar a tratar de notas, de diplomas e de empregos.

Isto parece idealista, e é.


Não poderia deixar de sê-lo, porque a razão de ser da Universidade é precisamente o idealismo, e não falo da doutrina filosófica do mesmo nome mas do projecto e da experiência histórica de haver um lugar inventado pelas ideias e só para as ideias. O resto pode ser importantíssimo. Mas quando se salta a etapa do ideal universitário tudo o resto, por importante que seja, corre mal.

Esta é uma das razões pelas quais o episódio da Universidade Independente nos enche de vergonha alheia. Sabemos que foram defraudadas pessoas que queriam o seu diploma e pessoas que queriam uma carreira académica, que alunos ficaram sem aulas e professores sem salários. Mas se ouvirmos os autores da fraude, como não esperar este resultado? Desde há semanas nos media só os ouvimos falar de andares e piscinas, lutas pelo poder e diamantes, acções e hipotecas. Nunca por uma vez sequer nos disseram para que queriam uma universidade. Que gostariam de fazer com ela. Que diferentes concepções defendia cada facção em confronto, se é que pensavam em tal coisa.

Infelizmente, estão longe de ser caso único. Os sinais de degradação do Ensino Superior Privado no nosso país são claros: as instituições esquecem-se que antes de serem privadas têm de ser universidades. O relaxamento geral em que viveu a UnI não é, ao contrário do que pretendeu o Ministro, coisa recente nem isolada. O que é preciso explicar é como se deixou atingir este ponto, o que não coloca apenas em causa o seu ministério. Por exemplo: como podem ter leccionado tantos jornalistas importantes na UnI sem a imprensa ter investigado aquele ninho de mafiosos? O ideal universitário pode vingar em qualquer ambiente – público, privado, cooperativo, livre, há excelentes universidades para todos os gostos. Mas é um ideal frágil. Tem de ser protegido sem ser asfixiado: pelo estado, pela sociedade, pelas próprias instituições.

Por mero acaso, Portugal tem algumas condições para se sair bem no mercado universitário, à escala global e a longo prazo. Um país pequeno, agradável e seguro com uma língua falada por duzentos milhões, uma universidade das mais antigas do mundo, uma capital com potencial cosmopolita e meia-dúzia de cidades históricas ou com razoável vida cultural, integração à escala europeia e laços em todo o mundo. Neste contexto, as universidades podem ser boas para o desenvolvimento e para a economia. Mas em primeiro lugar, se não quisermos as universidades para aquilo que elas servem, elas não servirão para mais nada.

7 Respostas a “O ideal universitário”


  • raramente o leio sem ter vontade de lhe agradecer a experiência. hoje cedo gostosamente à tentação.
    mt

  • Rui, parabéns pelo premio que o Silvares conferiu ao seu blog. Estão absolutamente claras as ra^~oes e cabe agora a vc dar continuidade a essa corrente elegendo seus cinco melhores blogs e posta-los a seu críterio. Parabéns e forte abraço.

  • Rui, parabéns pelo prêmio que o Silvares conferiu ao seu blog. Estão absolutamente claras as razões, e cabe agora a você dar continuidade a essa corrente elegendo seus cinco melhores blogs e posta-los, a seu críterio. Parabéns e forte abraço.

  • Maria da Graça Frazão

    Gostava de lhe dar os parabéns por este seu artigo do Público cujos primeiros parágrafos sobre o ideal universitário exprimem exactamente aquilo que, enquanto docente universitária, sempre norteou a minha vida.
    Penso porém que infelizmente a deturpação daquele ideal tanto ocorre em instituições privadas como públicas. A transformação do ensino superior em “fábricas de produzir canudos” não poupou nada nem ninguém, ainda que em escalas variáveis.

  • Rui, partilho da sua opinião quando diz que o ensino universitário assenta pouco na questão das ideias. Isso deve-se essencialmente ao facto de se dar pouca importância à discussão, preferindo “empaturrar” os alunos de conhecimentos. Ora bem, a discussão dos assuntos seria sempre uma boa forma de ajudar os alunos a sedimentar os conhecimentos, mas o que se verifica essencialmente é dar a matéria tendo como objectivo a realização do exame no final do semestre. Para, no semestre seguinte, o aluno esquecer essa matéria, porque já tem muita matéria nova para assimilar.

    Trocando por miúdos, no caso da História há uma preocupação fundamental com datas, personagens, dados que implicam uma maior memorização do que reflexão. E também na população universitária acaba por existir essa lacuna e no secundário a falha ainda é mais gritante. Isso ajuda a explicar a falta de conhecimento e reflexão histórica da população e com isso, por exemplo, a eleição do Salazar como grande português.

  • “Isso deve-se essencialmente ao facto de se dar pouca importância à discussão, preferindo “empaturrar” os alunos de conhecimentos.”

    Não nos podemos esquecer que uma discussão, para ter algum conteúdo, precisa de conhecimentos.

    Discutir por discutir não leva a lado nenhum.

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