O Grande Português

[da coluna “Svengali”, na Blitz]

Confesso: sou cavaquista.

Não, não é bem assim. Sou cavaquinhista.

O maior português de sempre mede entre trinta e quarenta centimetros e não pesa quinhentas gramas sequer. Tem quatro cordas, um orifício apenas, e é conhecido por vários nomes: machete, maxim, braguinha, rajão, cavaco, cavaquinho. Ah, e ukulele. Pode ser tocado com palheta, ou rasgado com os cinco dedos da mão. Pode ter dezassete ou doze trastos. Braço alçado ou plano. Pode fazer acompanhamento. Pode fazer solo. Pode até fazer as duas coisas ao mesmo tempo. O cavaquinho às vezes parece menos do que um instrumento musical, mas é muito mais. O cavaquinho é uma filosofia, e uma filosofia que me agrada. Uma filosofia leve, uma filosofia portátil, uma filosofia prática. Uma filosofia que se pode levar na mochila.

Em que consiste a filosofia do cavaquinho? As suas principais linhas de força são a adaptabilidade, a doçura, a ironia, a discrição, a inquietude. O cavaquinho é uma mistura de hedonismo — ou a ideia de que o prazer é o principal imperativo da vida — com epicureanismo — a valorização da tranquilidade e do retiro —, mas compensa o lado egoísta destas escolas com a sua enorme capacidade de sociabilizar. Esta é um mistério: o cavaquinho é expansivo sem ser impositivo, como prova a sua presença global.

Algures num canto esquecido de um barco, lá estava um cavaquinho. Alguém pegou nele e brincou por um momento. Depois numa casa de uma ilha longínqua alguém encontrou um cavaquinho cheio de pó, ficou intrigado e aprendeu a usá-lo. deve ter sido mais ou menos assim. Conquistou o mundo sem ter tido o peso de qualquer autoridade nem a compulsão dos instrumentos oficiais e eruditos.

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Se tivesse de escolher um manifesto para a filosofia do cavaquinho teria de ser “Caminhando”, um chorinho de menos de dois minutos que é sucessivamente ligeiro, agradável e pensativo.

“Caminhando” sugere um passeio de fim de tarde pelas ruas de uma cidade (no caso, o Rio de Janeiro, mas poderia ser qualquer outra) no fim de um dia de verão, quando o calor abranda e as brisas frescas sobem do mar. As pessoas regressam a casa e um indivíduo despreocupado segue pela calçada de mãos nos bolsos, assobiando por distracção, com a cabeça desocupada de qualquer pensamento mas cheio de uma intuição imediata de compreensão pelo mundo em torno. Às vezes desvia-se para deixar passar alguém, perde tempo apreciando os rostos em torno, senta-se num banco para atar os cordéis dos sapatos. Está em estado de graça.

O autor desta jóia musical não poderia apenas ser um exímio tocador de cavaquinho, mas alguém que tivesse o instrumento colado ao temperamento ou que tivesse crescido com ele. Assim é, e de tal forma que ninguém conhece Nelson António da Silva, autor de “Caminhando”. Só se sabe quem foi Nelson Cavaquinho, conhecido pelo nome do instrumento favorito desde a sua grande infância, numa identificação quase completa.

Nelson Cavaquinho era um poeta, compositor e boémio nascido no ano de 1910 no Rio de Janeiro. Viveu quase sempre no bairro suburbano de Mangueira mas era na Praça Tiradentes, no centro da então capital brasileira, que gostava de vir beber, tocar e cantar com os amigos. Talvez nas caminhadas entre um lado e outro tenha imaginado a doçura da sua música, não só em “Caminhando” mas também em “Folhas Secas”, o seu samba mais conhecido, que descreve os seus pensamentos tristes ao regressar a casa, subindo o morro.

A certa altura da sua carreira, Nelson Cavaquinho mudou do cavaquinho para o violão, mas os seus sambas continuaram a ter uma mistura surpreendente de um máximo de melancolia envolta em ligeireza, para enganar os incautos.

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O cavaquinho percorre toda a gama sentimental, precisamente porque é enganoso. À primeira vista é curioso, alegre e irrequieto, mas os seus agudos têm uma certa tendência para um tipo de queixume lânguido que não é perceptível no imediato.

No ano de 1879 entrou na barra do porto de Honolulu, capital do então reino independente do Hawai, o navio Ravenscrag. A seu bordo vinham passageiros madeirenses que emigravam para trabalhar no corte de cana do açúcar. Sabemos o nome de alguns deles: João Fernandes, Manuel Nunes, José do Espírito Santo, Augusto Dias. Sabemos que traziam cavaquinhos, mas que provavelmente não os chamavam por esse nome, mas pelos termos madeirenses de machete ou rajão.

Nas décadas seguintes, os havaianos ficariam encantados com aquele instrumentos, a que deram o nome de “pulga saltitante” — na língua local, ukulele. O nome era uma referência directa às tonalidades alegres do cavaquinho, mas rapidamente os havaianos perceberam que o instrumento também se adaptaria aos acordes lentos da sua música tradicional, de tal forma que o adoptaram como instrumento nacional.

Em 1915, quando o Hawai já pertencia aos Estados Unidos da América, uma exposição em São Francisco revelou o ukulele à população californiana e foi adoptado pelos jovens afluentes. Umas centenas de quilómetros mais a Norte, Hollywood começava a regurgitar de estúdios de cinema. O cavaquinho também chegou lá e entrou nos hábitos das gerações despreocupadas dos anos 20 e 30. Nesses tempos, o ukulele era um adereço típico dos quartos das residências universitárias de Princeton ou Yale. Os estudantes aprendiam a tocá-lo quando caloiros, e esqueciam dele pouco depois de acabarem os cursos. O cavaquinho não se queixava. Não era o seu estilo.

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Um jovem havaiano chamado Lyle Ritz era contrabaixista. Talvez por um sentido de humor intrínseco decidiu juntar ao maior instrumento da família das cordas o domínio do ukulele oriundo das suas ilhas. Tinha piada, tocar alternadamente contrabaixo e cavaquinho. A pouco e pouco, foi recuperando a tradição que ligava o cavaquinho ao charleston, ao ragtime e ao jazz dos anos 30, à medida que ia trabalhando em bandas sonoras para os filmes de Hollywod, aí já depois da IIª Guerra Mundial. O cavaquinho, ou melhor o ukulele, era então presença esporádica na música pseudo-exótica das bandas sonoras cinematográficas, principalmente para evocar ilhas paradisíacas e distantes.

Um dia Lyle Ritz, que acompanhava Ray Charles na sua banda, ficou só com o contrabaixo. O cavaquinho não se queixou. Anos mais tarde, Lyle Ritz aposentou-se, e de repente lá estava o cavaquinho à espera. Voltou a dedilhá-lo, a brincar com ele, a encantar-se com as possibilidades do instrumento. Foi à rua, comprou um computador e começou a gravar um disco de cavaquinho e contrabaixo com ele.

Este disco chama-se “No Frills”, mas se me permitem, deixem-me aconselhar-vos antes “A Night of Ukulele Jazz” que regista uma sessão ao vivo de Lyle Ritz e de outro virtuoso do ukulele, Herb Ohta, num clube de Santa Monica, Califórnia. O cavaquinho sobe e desce toda a paleta dos seus estilos, da música havaiana e do jazz até à bossa-nova.

Mas poderia haver mais: no Minho, o cavaquinho acompanha chulas e viras; na Madeira, bailinhos; em Cabo Verde, mornas e coladeras; no Brasil, choros e sambas. No Havai, aquece as noites sensuais dos luaus.

É por isso que o cavaquinho é uma filosofia. Na boa.

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