O fim da quadratura do círculo (1)

[Público 23 julho 2007]

Na política, como em tudo na cultura humana, o aborrecimento desempenha um papel fundamental. E a coisa não ficará por aqui.

Durante anos, Portugal teve quatro partidos. Dois à esquerda, dois à direita. De cada dois, um era maior – o PS à esquerda, o PSD à direita – o outro menor – o PCP à esquerda, o CDS à direita. A simetria só não era completa porque o CDS de vez em quando chegava ao governo (o PCP nunca) e o PCP tinha muito poder nas autarquias, nos sindicatos e melhor implantação social (e o CDS muito menos de tudo). Este desenho era um ovo de Colombo: quadrado, mas com o dinamismo bastante para parecer que duraria para sempre.

O resto era enfeite, ou era transitório.


Nos anos 80 os limites do quadrado foram testados duas vezes: com o Bloco Central (governo PS+PSD) e com o PRD, que teve 18% de votos (roubados ao PS – reservem este número). Ambas as experiências morreram; o quadrado regressou.

No fim do século passado, a esquerda passou a ter três partidos, com a fundação do Bloco de Esquerda. E a direita agora parece ter espaço para apenas um. A simetria foi quebrada. As razões e a extensão desta mudança estão em discussão. Parece certo que isto reflecte as mudanças por que passou a sociedade portuguesa (europeízação, urbanização), mas não podemos excluir o simples cansaço da fórmula. Na política, como em tudo na cultura humana, o aborrecimento desempenha um papel fundamental. E a coisa não ficará por aqui.

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Nos últimos tempos aconteceu uma coisa imprevista. Ao contrário do que sucedera com a maioria absoluta do PSD de Cavaco Silva, que esvaziara o partido menor à sua direita, a maioria absoluta do PS de José Sócrates não esvaziou nenhum dos partidos menores à sua esquerda. Pelo contrário: o partido esvaziado pela maioria absoluta volta a ser o CDS.

O próprio PSD passa por algumas dificuldades mas a sua doença é relativamente normal. Sabe que é o partido da alternância, mas não sabe qual é o líder que interpretará esse papel. O que não parece entender é que essa alternância não é só de actores, mas de estilos, entendidos no mais lato dos sentidos. Até hoje, só António Guterres apanhou bem essa ideia, quando percebeu que para acabar com os anos da secura cavaquista teria de inventar um estilo novo, a que chamou “razão com coração”.

Os cavaquistas não entenderam o que se passou então e, pelos vistos, não o entendem hoje, uma vez que fantasiam ainda opôr a José Sócrates o estilo severo e intransigente de Manuela Ferreira Leite ou de Rui Rio. Quanto a Aguiar Branco, é uma pena que tenha desistido: se a esquerda gostou de se confrontar com Fernando Negrão, adoraria certamente ter por adversário um cinzentão. Com todos os seus defeitos, Luís Filipe Menezes tem pelo menos uma estratégia a propôr: fazer um discurso para o povo das fábricas que fecham e outro para os empresários dinâmicos que de vez em quando fecham fábricas. Defender o “social” e a privatização das águas. Chama-lhe a isto “voltar às tradições do PSD”, e é capaz de não estar completamente enganado.

Quanto ao CDS, a situação é mais grave. Trata-se um partido que deixou pura e simplesmente de ter objecto. A única solução seria ganhar vergonha na cara e reconstruir tudo com paciência, mas acabaram de pôr na rua o homem que propunha essa estratégia. Ainda por cima, o partido deixou de ter acesso aos canais de distribuição de lugares. E sem nada para dar, fica tão debilitado que o melhor é nem mexer-lhe muito antes que se estilhaçasse. Com sorte, pode ser que a Câmara de Lisboa abra vagas para limpadores de graffitis.

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