No pesadelo do Barba-Negra

[Público 10 setembro 2007]

Os talibã no Afeganistão, como o GIA na Argélia e os salafistas em geral fracassaram em toda a linha no campo político. A única coisa que têm para oferecer ao mundo muçulmano é o martírio.

Ao sexto aniversário do 11 de Setembro, Bin Laden gravou em vídeo uma mensagem para o povo americano. Em tradução para o inglês o seu discurso enche sete páginas, é fácil de encontrar na internet, e tem um pouco de tudo: desde opiniões sobre o sistema eleitoral americano, passagens sobre o aquecimento global e o poder das multinacionais, referências elogiosas ao cristianismo e o argumento – aparentemente decisivo – de que segundo a lei islâmica é proibido cobrar impostos. Ao lê-lo, fica-se com a impressão de que Bin Laden tem a esperteza típica dos fanáticos: usa de todos os argumentos, dos mais ponderosos aos mais absurdos, para nos tentar converter às suas fantasias.

Em resposta, o mundo encolheu os ombros e notou que ele tinha tingido a barba de negro. Bin Laden pensa que vive na sua juventude e continua a sonhar com os tempos em que foi lutar para o Afeganistão e os mujahidin derrotaram uma superpotência no Médio Oriente. Aparentemente, acredita que a receita que serviu para o colapso da URSS se poderá aplicar aos EUA. No entanto, a vitória dos taliban no Afeganistão conduziu a um estado inviável e miserável mesmo para os padrões do Médio Oriente. Bin Laden acha que a política é impura e a política responde-lhe com a realidade. Os talibã no Afeganistão, como o GIA na Argélia e os salafistas em geral fracassaram em toda a linha no campo político. A única coisa que têm para oferecer ao mundo muçulmano é o martírio.

Por outro lado, Bin Laden ameaçou escalar a violência no Iraque. Curiosamente, tanto Bin Laden como Bush exageram a influência da Al Qaeda naquele país. Segundo dados de diversas fontes citadas pela Washington Monthly (incluindo fontes do exército dos EUA) os ataques da Al Qaeda no Iraque não representam mais do que cinco por cento dos ataques totais em solo iraquiano. Mesmo os ataques reivindicados pela própria Al Qaeda não passam de dez por cento dos ataques a xíitas e seis por cento dos ataques a tropas americanas. Bin Laden reclama os louros mas é um dos actores com menos importância no Iraque; as milícias xíitas, as tribos sunitas, o exército curdo e os ex-partidários de Saddam ocupam o centro do palco.

No entanto, Bin Laden e a Al Qaeda ainda são perigosos. E são muito mais perigosos do que aquilo que alguma vez precisariam de ter sido. As guerras no Iraque e no Afeganistão foram a resposta às suas preces. Segundo um outro estudo, do Center for American Progress, os ataques terroristas no mundo diminuíram entre o 11 de Setembro e a Guerra do Iraque, quando a invasão do Afeganistão destruiu os campos da Al Qaeda. Mas após a Guerra do Iraque o mundo ficou mais perigoso. Mesmo excluindo atentados no próprio Iraque e no Afeganistão, os ataques terroristas ocorridos anualmente no resto do mundo tiveram um aumento de 35 por cento, nos quais se incluem os atentados de Londres e Madrid (se contarmos com Iraque e Afeganistão, o aumento é de uns aterradores seiscentos por cento).

Seis anos depois do 11 de Setembro, os recentes sucessos das polícias europeias no desmantelamento de células terroristas deixam-nos pensar como poderíamos estar mais seguros se a resposta ao terrorismo fosse essencialmente policial, como foi tantas vezes defendido em todo o mundo. Graças à irresponsabilidade de Bush e dos seus apoiantes na Guerra do Iraque estamos ainda presos neste pesadelo.

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