No Index

Bento XVI deve saber que é isso de “tom censório” porque, enquanto cardeal, o actual papa detinha precisamente o cargo de censor pontifício.

 

“Toda a gente tem direito à sua própria opinião, mas ninguém tem direito aos seus próprios factos”. A frase é de um falecido senador norte-americano. Por exemplo: “declinar um convite para evitar protestos desagradáveis” não é a mesma coisa que “ser impedido de ir” a um lugar. A imprensa internacional noticiou que, sob protesto, o papa declinara o convite para presidir à abertura de ano lectivo da Universidade “La Sapienza”, de Roma. Vasco Pulido Valente escreveu que o papa fora “impedido” de ir à Universidade, coisa que ninguém sugeriu, nem o próprio Vaticano. Lamento, mas os factos são os mesmos para mim, para Pulido Valente, e para toda a gente. 

 

É pois dos factos que devemos partir e nem eles são tão inimagináveis como foram qualificados em editorial por José Manuel Fernandes. La Sapienza é talvez a maior universidade da Europa. Protestos como neste caso, de algumas centenas dos seus cento e cinquenta mil alunos, não são invulgares. Também João Paulo II foi recebido com manifestações, tal como os políticos Gianfranco Fini (pós-fascista) e Fausto Bertinotti (comunista) — isto só para falar de anos recentes. Apesar de “protestos desagradáveis”, João Paulo II e Bertinotti não deixaram de ir à Universidade. Bento XVI não foi.

 

Os factos que temos são lamentáveis, mas não vindicam a tese de que a Igreja tem de se preparar para viver na clandestinidade — antes a ideia mais prosaica de que a Igreja vive no mundo real, onde há protestos e gente que não gosta de nós.

 

***

Há algumas ironias neste caso.

 

No seu último discurso antes de ser eleito papa, Ratzinger condenou o marxismo, o liberalismo e o relativismo. Claro, todos sabemos que não faltam católicos liberais, como não faltam católicos marxistas. Mas a ironia é que já em 1990, para comentar o caso Galileu, Ratzinger tivera de socorrer das palavras de Paul Feyerabend, talvez um dos filósofos do século XX que mais foi acusado de relativismo. E foram as palavras do relativista Feyerabend, que o anti-relativista Ratzinger citava aprovadoramente quando pareciam desculpar a Inquisição no processo de Galileu, que agora voltaram para assombrar o anti-relativista Ratzinger diante de físicos que se consideram ainda mais anti-relativistas do que ele, naquilo que a Rádio Vaticano descreveu como “um tom censório”.

 

E aqui está uma nova ironia: Bento XVI deve saber que é isso de “tom censório” porque, enquanto cardeal, o actual papa detinha precisamente o cargo de censor pontifício. Sabemos que silenciou teólogos, como Leonardo Boff e outros, mas deixemos essas questões disciplinares “internas”. Mais interessante é que, enquanto prefeito da antiga Inquisição (hoje Congregação para a Doutrina da Fé) Ratzinger tinha a seu cargo o Index Librorum Prohibitorum. O “Index” é a célebre lista de livros proibidos entre os quais se contam autores como Hobbes, Kant ou Sartre, e que deixara de ser publicado em 1966 sem ter sido abolido. Ao contrário do que muitos esperavam, o prefeito Ratzinger não defendeu a abolição do Index junto de João Paulo II, e manteve a “obrigação moral” de todo o católico não ler nem divulgar os livros que a lista contém.

 

Como cientistas que se julgam donos exclusivos da Universidade, os autores do protesto de La Sapienza conseguiram aparecer mais tacanhos do que o seu adversário, o que não é coisa pouca. Por outro lado, para que Ratzinger seja realmente um herói da liberdade de expressão, há uma coisa muito simples que ele — aliás, só ele e mais ninguém no mundo — pode fazer: abolir finalmente o Index Librorum Prohibitorum.

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