Não façam só alguma coisa, fiquem parados

[do Público de 7 de Outubro 2006]

As reformas verdadeiras fazem-se com as pessoas reais. Uma reforma séria precisa tanto de identificar o que está bem como corrigir o que está mal.

Portugal está a caminho do abismo. Tudo funciona mal. É preciso recomeçar do zero. Certo?

Errado. Errado e perigoso.

O consenso nacional, de há uns anos para cá, consiste em fazer o discurso mais catastrófico possível para afirmar a necessidade de reforma. Diz-se que de outra maneira os portugueses não acordariam. Pelo contrário: esta é a nossa canção de embalar preferida. Como os portugueses sempre adoraram gente austera e o nosso catolicismo inato nos empurra para o sentimento de culpa, dizer-nos que tudo está mal tem rendido votos e louvores. Quanta carreira pública se tem feito em concorrência pelo posto de maior pessimista do reino, o mais sisudo e recriminador, o que apresente os piores cenários e as soluções mais dolorosas. Se o mal for incurável e o remédio for amputar os quatro membros, diz-nos a nossa tendência colectiva, é porque deve ser verdade.

Nenhum exemplo descreve melhor este traço da cultura nacional do que o da educação.


Mais uma vez, o consenso é o de que o estado da educação em Portugal é catastrófico. Se Vasco Graça Moura diz mata, Vasco Pulido Valente diz esfola, Maria Filomena Mónica desmancha, Miguel Sousa Tavares incinera, António Barreto espalha as cinzas e recomeça o ciclo: os professores são ignorantes, os alunos são violentos, os ministros são dominados pelos sindicatos e os sindicatos sentem prazer em que na escola não se aprenda nada. Esta imagem absurda é de tal forma dominante que a Ministra da Educação não hesita em tirar dela proveito para diminuir publicamente os professores. Só há um problema: não é verdade. A descrição vigente é um acumulado aberrante de exemplos extremos, indícios anedóticos e arrogância paternalista. Nas raras vezes em que o lamento é acompanhado de dados estatísticos, esquecem-se que só comparados com as séries históricas eles fariam sentido. Claro que o nosso ensino tem problemas e que os resultados são piores do que os da Suécia. Mas a verdade é que a Suécia já pouco analfabetismo tinha há 250 anos. A pergunta certa é: estamos hoje pior, proporcionalmente ou em termos absolutos, do que nos anos 60, 50, 40 e por aí abaixo? Se não estamos, onde e como melhorámos? E nesse caso, onde nos falta melhorar e como poderemos melhorar mais depressa?

No domínio dos remédios, exige-se que se faça tudo de novo mas, atenção: sem gastar dinheiro. Os professores já ganham bem demais, Portugal já investiu demasiado em educação e não adianta lançar dinheiro para cima dos problemas. Como é evidente, onde há administração há dinheiro mal distribuído e maneiras de distribuí-lo melhor; o que não se pode é dizer que o doente está em estado terminal mas que ficará óptimo quando o desligarmos da máquina. Portugal tem, sim, investido mais dinheiro em educação, mas desde quando começou a fazê-lo e por quanto tempo estarão as nossas elites dispostas a permitir que continue? O verdadeiro desperdício não está no investimento que se fez mas em interrompê-lo a meio e lançar o trabalho feito, pouco ou muito que tenha sido, pela janela fora.

(Dito isto, há que notar que quando a contradição entre diagnóstico e remédio se torna demasiado evidente, muitos dos nossos comentadores apressam-se a desvalorizar a importância da educação; nesse passo da argumentação, diz-se que a educação não garante crescimento económico, que a revolução industrial se fez com um exército de iletrados, e que a China cresce sem ter investido em educação. Mas veja-se para onde tem ido grande parte dos recursos desse crescimento senão para criar as melhores escolas e universidades possíveis.)

A ausência de propostas realistas é disfarçada com uns laivos de exigência moral: restaure-se a autoridade na sala de aula, proclame-se que só se aprende com esforço e peça-se sangue, suor e lágrimas. A partir daí, tudo se torna fácil: os professores serão óptimos e os alunos excelentes, saberão decorar como coreanos e inovar como finlandeses, respeitarão a autoridade como em Singapura e usarão capital de risco como nos EUA.

É nesse momento que se torna necessário lembrar duas verdades básicas de qualquer reforma.

A primeira: as reformas verdadeiras fazem-se com as pessoas reais. É fácil imaginar reformas com as pessoas que ainda não existem e achincalhar as que existem. Mais difícil é reconhecer que, se queremos restaurar a autoridade do professor na sala de aula, alguma coisa teremos de fazer para restaurar o seu prestígio na sociedade. Se queremos que os professores ganhem autonomia e se adaptem aos alunos que têm pela frente, em algum momento teremos de lhes dar confiança. E, acima de tudo, teremos de perceber que é com estes professores que qualquer reforma se fará, e que entre estes (ou quaisquer outros professores, da Tanzânia à Tasmânia) os excelentes serão sempre uma minoria. Uma reforma é um exercício de realismo.

A segunda razão parte precisamente daí: no mundo real, uma reforma séria precisa tanto de identificar o que está bem como corrigir o que está mal. Não devemos exigir para o país e para educação um ponto de partida diferente do que aplicamos nas nossas vidas e nas nossas casas: saber onde não precisamos de mexer, onde não vamos gastar energias, para nos concentrarmos no que é decisivo. E isto não tem nada a ver com conservadorismo. Ser de esquerda, ser progressista como outrora se dizia, significa querer construir em cima do que já conseguimos. Quem quiser recomeçar do zero, fá-lo por sua conta e risco; na verdade andará sempre muito próximo do zero. Não se esqueçam que “começar do zero” é vantajoso apenas para políticos e governantes: por pouco que façam parece sempre qualquer coisa. Eu, pelo contrário, acreditarei no primeiro reformista português que me diga o que não é preciso fazer, para que se possa fazer o resto.

[O título deste texto foi roubado a uma crónica de Daniel Davies no The Guardian. Mais uma vez, se funciona bem não há razões para não reutilizar.]

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