Não é defeito, é feitio

Passar o risco para a sociedade não é um exemplo do mau funcionamento da coisa; é um exemplo de como a coisa tem funcionado.

 

Vamos fazer um exercício. O cidadão informado poderia estar a par da bolha do imobiliário há, pelo menos, dois anos. Bastaria ler a imprensa. Uma capa já antiga da The Economist trazia a imagem de uma casa em queda; lá dentro, a única questão era saber se o embate iria ser mais suave ou mais brutal.

Explorando um pouco mais, encontraria economistas como Dean Baker, que escreveu sobre isto há seis anos; Nouriel Roubini, que acertou em todas as etapas da crise; ou o já falecido Hyman Minsky, que descreveu teoricamente o que se está a passar.

Então e os gestores dos grandes bancos de investimentos — os cinco maiores dos quais faliram, foram vendidos ou mudaram de ramo nos últimos dias — não sabiam o que se estava a passar?

Não me cheira. Além de serem pagos a peso de ouro, trata-se de gente inteligentíssima. A questão é que não tinham incentivo para agir de outra forma; ou, conversamente, não havia punições adequadas para deixar de agir assim. Não — é pior ainda: tinham incentivos para agir como agiram.

Não é defeito; é feitio. Agora é comum dizer que os lucros foram privados e os prejuízos vão ser do público. Mas isso não é uma novidade nem se restringe à economia. Passar o risco para a sociedade não é um exemplo do mau funcionamento da coisa; é um exemplo de como a coisa tem funcionado. O debate sobre a Guerra do Iraque foi assim; alguns enganaram-se, todos sofreram as consequências. Os que se tinham enganado, salvo honrosas excepções, não se deram por achados e passaram a exigir que se lhes fizesse a vontade no Irão.

Por isso há sempre este momento na dança — no Iraque, no Katrina, na bolha do imobiliário — em que se diz: “ninguém poderia prever o que se passou!”. Poupem-nos.

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A economia tem crescido na última geração mas os cidadãos comuns são tratados como enteados — nas pensões, na educação, e por aí adiante. Os outros são tratados como filhos a quem se pagam todas as dívidas depois de terem estourado o dinheiro da família no casino. E verdade seja dita, parece não haver outro remédio.

Há maneiras melhores e piores de o fazer, porém, e enquanto a fasquia do risco não for distribuída de forma mais justa — se a compra de dívidas não tiver como contrapartida uma mudança de regras —, haverá responsabilidades a pedir. Afinal, não foi por milagre que coisas que não são exactamente bancos puderam passar a comportar-se como bancos sem darem as garantias que os bancos têm por lei de dar. Foi por acção legislativa de alguns dos nossos representantes eleitos.

Digo “nossos” porque isto não se limita aos EUA. A cultura de passar os riscos para o público foi comum e partilhada por governos de direita e de esquerda, americanos e europeus. O mesmo Nouriel Roubini que passámos a ter de escutar com atenção nesta crise escreve no Financial Times que os bancos europeus estão em risco por terem comprado muitos dos “produtos tóxicos” financeiros que estiveram na origem disto tudo. Os economistas Daniel Gros e Stefano Micossi avisam que se os bancos americanos eram demasiado grandes para os deixarmos falhar, os bancos europeus são demasiado grandes para os conseguirmos salvar país a país.

Onde está Durão Barroso? Quando o conhecíamos, era um dos mais dogmáticos sacerdotes do mercado. Hoje está desaparecido em combate. Esta crise financeira global vai precisar de regulação global; mas antes que ela chegue precisamos de nova (e melhor) regulação europeia. Eu não estou optimista. Os americanos, ao menos, têm uma escolha entre mudar de defeitos e mudar de feitio nas próximas eleições. [do Público]

3 Respostas a “Não é defeito, é feitio”


  • isto de passar para responsabilidade publica pecados privados nao é novidade. desde as famosas externalidades, até empresas que depois de falirem tornaram-se publicas e passaram a dar lucro e entao retomaram o seu caminho pela via privada.

    a historia repete-se só que desta vez a dimensao é outra e isto é que me preocupa.

  • Desculpe lá – eu prometo que não maço mais – mas nem eu nem ninguém pode perceber o ponto deste artigo. Acha que foi por falta de regulação? Há muito boa gente – tão honesta como nós e que sabe muito mais do assunto do que nós – que acha com óptimos argumentos que a regulação já existente, que é extensíssima, como deve saber só agrava os problemas. As regras existentes chegam e sobram para punir os abusos que se verificaram e não tenha dúvidas que os EUA nisso são muito melhores que a Europa em geral e do que Portugal nem é bom falar.
    Achar que o problema é da regulação é o mesmo que dizer que os assassínios é da falta de regulação (que talvez devesse impedir-nos de nos aproximarmos uns dos outros).
    Acresce, por fim, que não é verdade que os benefícios sejam de poucos e os prejuízos de muitos. A dimensão desta crise resulta precisamente da popularização do crédito no Ocidente e da signficativa melhoria das condições de vida do Terceiro Mundo.
    O que tem de ser tem muita força.

  • Caríssimo R Tavares!
    É evidente o que refere! E tem razão!
    Nos fundamentais já se adivinhavam estes problemas, era um acidente à espera de acontecer.
    O problema para mim resulta é o seguinte.
    Há alguma esquerda que regozija com este problema por ser visto, por eles, como a consequencia lógica do liberalismo económico.
    Há uma outra esquerda que, não querendo afundar o liberalismo económico, refere ser o evento o ocaso da desregulação do mercado e a derrota do “neo-liberalismo”.
    Há a direita ortodoxa liberal que tem um sentimento misto, era quem maioritariamente lançava avisos de que “o desastre estava à espera de acontecer” e que os fundamentais da economia estavam a ser subvertidos. A democratização do crédito atiçava, em crescendo, a gula irresponsável dos trabalhadores e consumidores. A dierita ortodoxa é fiduciária o suficiente para saber os riscos que se estavam a correr e não aprecia minimamente estes riscos. Esta direita não vive atormentada pela exigencia do crescimento económico, nem vê necessário adequar os fundamentais da economia ao serviço de políticas expansionistas.
    A direita “neo-liberal”, aquela que acha que consegue fazer a ponte entre a democracia económica e o mercado, a tal que é criativa o suficiente para criar estes mecanismos de oferta e que joga no limite da racionalidade económica, parece ser aquela que hoje sofre o constrangimento da derrota, pois foi também aquela a quem se atribui o crescimento económico das duas últimas décadas.
    Ou seja o meu ponto é o seguinte, à consideração do R Tavares.
    Sendo que nos propósitos finalisticos da economia a esquerda progressista, amiga do crescimento económico baseado no crescimento do mercado se identifica mais com a direita “neo-liberal” doque se identifica com a esquerda “contra economia de mercado” ou com a direita ortodoxa, como pode esta, de certo modo, regozijar com a falencia dos instrumentos financeiros que possibilitaram o momento da história da humanidade em que um maior número de pessoas teve acesso a bens que são instrumento de realização máxima de dignidade da pessoa humana e satisfazem necessidades de conforto sem igual na história da humanidade (habitação, consumo de conforto…automóvel, comunicaçoes…).
    Parece-me corresponder mais à ideia de “cuspir no prato onde comeu”.
    Eu compreendo que a inimizade, que desune socialistas democráticos e “neo-liberais”, é forte mas daí a abandonar a defesa do modelo aos “neo-liberais” acantonados, parece-me ser cruel com a história.
    Lula da Silva regozija com a falencia dos mercados que nos últimos 20 anos levaram ao Brasil capital suficiente para transformá-lo no maior produtor alimentar mundial e consequentemente retirar da pobreza milhões de Brasileiros.
    Lula não deixou de manter a liberdade dos mercados funcionarem e importar capital para financiar projectos produtivos que de outro modo estariam ainda por realizar (não obstante manter controlo sobre a exportação de capitais – o Brasil não é uma economia aberta).
    Do mesmo modo o R Tavares advoga a política de expansão do crédito para o imobiliário vetuzto das nossas cidades, sabendo ou não, que somos um País deficitário em termos de capital (o nosso déficit comercial é de cerca de 10% do PIB), ou seja que teriamos de importar mais capital, como temos feito, para financiar o imobiliário e deste modo espor os Bancos Portugueses à dívida muito para além da capacidade da economia Nacional.
    O que sobra!?
    Sobram os ortodoxos que avisavam para “o acidente à espera de acontecer”, os conservadores proteccionistas, a Esquerda anti mercado e sobretudo sobram a esquerda progressista, isto pressupondo a derrota dos “neo-liberais”.
    Qual a resposta dos democratas progressistas não querendo repetir as mesmas receitas!?

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