Menino Pangloss está irritado e exige silêncio

Rodrigo Adão da Fonseca insurge-se contra a minha crónica de hoje no Público, que estará aqui mais tarde. Não o vejo apresentar nenhum argumento contra um texto em que critico três intervenções recentes (de Alberto Gonçalves, António Borges e da campanha de John McCain) para defender uma coisa simples: provar que o nosso pudim ideológico é delicioso em teoria pode dar uma grande satisfação psicológica; mas se o vamos servir a milhões de pessoas convém que ele não tenha salmonelas. Agora é altura de o leitor adivinhar uma coisa: o que faz um dogmático de direita quando está irritado com alguém mas não consegue responder? Errado! Não, Rodrigo Adão da Fonseca não me chamou “esquerda caviar”. Desta vez puxou muito muito muito pela cabeça e saiu-se com um insulto original: “humanista caviar”. Estou mesmo ofendido.

O mais portentoso, porém, é o excerto seguinte:

«Espanta-me, mais uma vez, ler tudo isto num jornal supostamente moderado, no Público. Depois, senhores da SONAE, que deixam que o seu dinheiro dê voz a radicais, não se queixem, nos momentos da verdade, que o país está enviesado, entregue à extrema esquerda, e que encontram resistência na mentalidade dos portugueses para promover a mudança.»

Se eu digo que no texto que as falências podem provar a saúde do sistema em teoria mas prejudicam pessoais reais na prática, o Rodrigo Adão da Fosenca pode achar que isto é anti-capitalismo. Eu acho, pelo contrário, que o radical aqui é ele, e não é no bom sentido. É mesmo típico, aliás, da impotência do extremista a sugestão de que não se “dê voz” a quem com ele não concorda. Se fosse com o estado, ou com muçulmanos, até estaríamos certamente a falar de incitação à censura. Como é com um privado, o Rodrigo tem bom remédio: ponha as mãos em forma de concha em frente à boca, e grite: “Engenheiro Belmiro! Engenheeeiro Belmiiiiro de Azeveeedo! Mande calar aquele menino que disse coisas feias sobre o meu dogma!”. Se quiser, pode também fazer beicinho e bater com os pés.

14 Respostas a “Menino Pangloss está irritado e exige silêncio”


  • Fiquei surpreendido com a crónica de hoje no P, integralmente de acordo com ela, brilhante!
    Ao lê-la logo me surgiu uma frase,
    Ousaram privatizar o lucro, agora impõem a privatização do prejuízo!

    Possa, mas que banhada maior precisa o povo para acordar?

  • Errata:
    OUSARAM PRIVATIZAR O LUCRO, AGORA IMPÕEM A NACIONALIZAÇÃO DO PREJUÍZO

  • Caro Rui Tavares,

    Nunca me dei mal com gente que pensa diferente de mim, pluralidade é normal em democracia. Não me passa pela cabeça limitar o teu campo de expressão, que é um pressuposto de uma sociedade livre.

    Numa sociedade livre, quando escreves um artigo que não tem uma tese, só considerações sobre a natureza dos que pensam diferente de ti, dizendo, entre outras coisas, que poderiam “viver na Idade Média e ver méritos na peste negra”, não deves estar à espera que te respondam com “argumentos técnicos”, embora alguns estejam lá: falas, v.g., da Segurança Social; aplica-lhe as mesmas regras de solvência que se ecigem à AIG e Lehman. Se a Segurança Social não estiver falida, retiro tudo o que disse. Quando te arrogas que quem defende coisas diferentes das tuas – quando as tuas estão ainda por cima na linha do Nostradamus – não se preocupa com “as pessoas”, encaixas no protótipo do “humanista caviar” na perfeição.

    Por mim, espero que o país te patrocine toda a liberdade de expressão do mundo; eu, enquanto leitor do Público, dos que pagam para ler o jornal, reservo-me ao direito de não querer chocar na última página com colunas onde em vez de argumentos impera um estilo de pensamento ressabiado, moralista e justicialista, de extrema esquerda, que em Espanha não encaixaria sequer no El Pais, estilo de que a SONAE tantas vezes se queixa com amargura. Estás um pouco umbigocêntrico: a farpa, no post scriptum, não te é dirigida, destina-se aos responsáveis da SONAE mesmo.

  • Não, caro Rodrigo, nada me choca nem surpreende numa pessoa que não consegue perceber a hipérbole na metáfora da “peste negra” — ou que talvez consiga perceber, mas faz de conta que não para poder continuar a dizer que a minha coluna é ofensiva, extremista e não argumenta — quando o texto, pelo contrário, cita três intervenções recentes e argumenta que na aplicação política de uma teoria económica a medida última é o bem estar das pessoas e não a pureza ideológica dos sistemas. O extremista aqui é você; eu limito-me a ser um pragmático e digo-lhe mesmo que prefiro salvar o capitalismo a vê-lo rebentar.

    Quanto ao Público, você tem bom remédio. Em vez de mandar bitates para a SONAE, deixe de comprar à segunda e à quarta, para lhes dar um sinal de mercado. Tem o Vasco Pulido Valente que escreve três dias por semana e acha que esta é uma crise trivial.

    Fique descansado que se no Público acharem que as minhas crónicas são más não têm problema nenhum em despedir-me. Mas pelo contrário, têm sempre pedido para eu passar a escrever mais.

  • Caro Rui Tavares,

    Lamento dizer-lhe que o “brilhantismo” aparente do seu texto esconde uma grande confusão de conceitos que, infelizmente, está na moda.

    Aviso desde já que não sou de direita e que as minhas críticas que seguem se destinam a evitar que o RT prejudique uma visão realmente de esquerda, que é a que me interessa.

    A confusão mais importante consiste em identificar mercado com capitalismo e, por tabela, perder de vista os reais defeitos e problemas do capitalismo. Ao afunilar o ataque no mercado, coisa para a qual não se conhece alternativa que funcione, desvia as atenções dos desmandos do capitalismo. Suponho que os “detentores do capital” até gostam das suas teorias.

    Mercado já existe há muito, muito tempo e creio que continuará a existir mesmo quando a sociedade se organizar para produzir em novos moldes. Não é por funcionar em mercado que o capitalismo é mau mas sim porque no mercado capitalista quem produz valor não é adequadamente remunerado.

    Ninguém que esteja de posse de todas suas faculdades mentais acredita que os funcionários do Ministério do Manuel Pinho possam substituir-se, com vantagem, às decisões económicas que milhões de portugueses têm que tomar todos os dias. Essa via já foi experimentada e já se sabe aonde conduz.

    É um sofisma contrapor o Estado, pretensamente detentor do “bem comum”, ao mercado. O Estado não dá à partida quaisquer garantias pois as eleições que determinam, a posteriori, o “interesse público” são exactamente um mercado de votos. Os cidadãos votantes são exactamente os mesmos que, enquanto trabalhadores e consumidores, enchem os bolsos do Belmiro de Azevedo e dos outros. Porque haviam esses cidadãos de ser melhores como votantes do que como consumidores ?

    Quando os cidadãos forem capazes de subverter este sistema nas urnas é porque já o terão feito, antes, no seu dia a dia como cidadãos. Como sempre na história o Estado virá então, a posteriori, legitimar uma situação de facto económica e social que a sociedade já criou.

    Em vez de perseguir pistas falsas, à esquerda compete forjar novas formas de produzir e distribuir em sociedade. Ganhar e organizar as “forças populares” para essa transformação em vez de ficar à espera que o mítico Estado a imponha (mesmo contra a vontade do povo ?) de cima para baixo.

  • este senhor adão da fonseca deve ter saudades de quando se podia mandar calar alguém nos jornais.

  • O Rui Tavares tem que admitir que é corajoso e complicado procurarem atacar a sua dieta e o seu sentido de altruísmo num só argumento.

  • Ora aqui está um post e um cojunto de comantários muito interessantes.

    Continuem, sff.

    Digo eu…

  • Haja quem explique a RAF que um sistema – como é o caso da nossa Segurança Social – que funciona, sobretudo, pela redistribuição – apenas muito pouco está num fundo de capitalização – não pode ser “testado” pelo que designa por regras de solvência adequadas /exigidas, sim, aos fundos geridos por entidades privadas, porque estes têm que se submeter ao regime de capitalização.
    Se quer invocar “argumentos técnicos”, bom será que saiba do que fala.

  • voces sao todos é uns grandes… humanistas.

    sinceramente depois disto já nada me espanta.

    por mim o capitalismo pode acabar que nao me importo, muito pelo contrario. no entanto nao deve ser desta forma.

  • Este RAF na sua ignorancia desconhece que desde varios meses há existe em Espanha um outro jornal (prensa escrita chamado EL PUBLICO) precisamente para isso: Para encaixar comentarios, informaçoes e opinioes que algúm (alguns) não deixam encaixar precisamente no “El Pais”.

  • Peço desculpa por me meter ao barulho.
    Na minha santa ignorância “capital”,rima com “mercado”, apesar de não parecer. Aliás, ao contrário do que afirma F. Penim Redondo, já há uma alternativa ao tal “mercado”. Olhe o que se vai passando a Oriente, nas economias mais desvairadas da actualidade. Aquilo na China é “mercado”? É “capital”? É uma coisa e não outra mas também, talvez, note bem que eu digo TALVEZ, uma mistura das três!
    Eu também estou assustado com esta treta toda. A economia ou é estúpida ou anda maluca, mas lá que está um pouco descontrolada para o que é habitual…
    Vamos metendo na cabecinha que ao “Sonho Americano” se vai seguir em breve o “Pesadelo Chinês”.

  • pq é isto me lembrou o Achmed the dead terrorist?

    ah, foi a parte do “Silence, I Kill You” :)

  • nao foi um comediante que disse:

    o sonho americano tem esse nome porque so existe quando se está a dormir.

    o problema é que para os neo liberais o que eles defendem é “natural” e que como tal ir contra essa “natureza” é artificial e logo prejudicial.

    e… pronto e é este o argumento…

    resumindo:

    “natural” = bom, argumento que eu uso para defender a minha dama, sendo que esta definiçao é o que eu bem entender.

    “artificial” = mau, tudo o que tu entenderes e for contra a minha forma de ver.

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