[Público 08 outubro 2007]
No espaço de poucos dias, os bispos declararam a guerra, lançaram os morteiros e proclamaram vitória. Com um pormenor: ninguém sabia do que estavam eles a falar.
Há uma certa leviandade na forma como as coisas mais banais ganham a dignidade de polémica. Mas não é por acaso: em cada polémica fajuta, há sempre alguém que beneficia. Consideremos o episódio das capelanias hospitalares.
A Constituição, a Concordata e a Lei da Liberdade Religiosa concordam todas nos seguintes princípios:
– A assistência religiosa nos hospitais deve ser solicitada pelo paciente;
– O Estado não é obrigado a pagar a assistência religiosa;
Aparentemente, o Governo dispõe-se a respeitar o primeiro princípio e (como é hábito) esquecer que o segundo existe. E isto é uma polémica?
Para os bispos, dá jeito que seja: o primeiro a declarar uma “polémica” ocupa território. Alegremente vão atrás os jornalistas: nasce a “polémica das capelanias”. Se há polémica certificada, o público convence-se que no meio está a virtude. Logo, quanto mais agravada se mostra uma parte, mais puxa a bissectriz para o seu lado. E já agora por que não chamar-lhe antes uma guerra? Seguem-se manifestos como o de Graça Franco no Público de sexta-feira, acusando os “jacobinos” de perseguir a Igreja e contando as espingardas dos votos católicos: “Querem reintroduzir a questão religiosa em Portugal? Esperem por 2009!”. Se o Primeiro-ministro declara em frente a uma plateia de bispos que “o diálogo é positivo”, a Igreja clama vitória: o Governo recuou.
No espaço de poucos dias, os bispos declararam a guerra, lançaram os morteiros e proclamaram vitória. Com um pormenor: ninguém sabia do que estavam eles a falar.
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Recapitulemos esta história mal contada. Há um diploma do Ministério da Saúde sobre assistência religiosa nos hospitais. Até há quatro dias, a imprensa não o tinha visto. Só a Conferência Episcopal Portuguesa lhe tivera acesso há meses e (como é habito) em exclusivo. Anunciou o seu escândalo por estas razões principais: não haveria assistência fora do horário das visitas; o governo pretendia despedir os capelães que são funcionários públicos; os amigos e familiares não poderiam pedir assistência depois da entrada do doente. Só há um problema: estas medidas não estão no diploma. Nenhuma delas.
Pelo contrário, o diploma permite a assistência fora das horas das visitas e pedida a qualquer momento por amigos, familiares ou pelo próprio. Os empregos na função pública estão garantidos até à reforma. O estado vai continuar a pagar a assistência religiosa. Quem não tem religião não tem direitos (em contrapartida, exigirei um professor de filosofia ou um lanche reforçado pelos meus impostos). E agora que nós mortais começamos a ter acesso a toda esta timidez em forma de texto, só há duas explicações para a “polémica”: ou os bispos não souberam ler o diploma, ou induziram o público em erro sobre o seu conteúdo.
Por isso, ao invés de ameaçar com a retaliação do voto católico, mais vale fazerem um esforço para evitar as distorções sensacionalistas, guerras anunciadas e vitórias precoces. A “polémica” teve o efeito involuntário de chamar a atenção para isto: mais de cem capelães são pagos nos hospitais com o dinheiro de todos os contribuintes e com acesso irrestrito a todos os doentes, católicos ou não. Para mais, escandalizam-se ao descobrir que a Constituição não lhes dá o privilégio de tratar todo o cidadão como católico à partida.
Agora que já fizeram a festa e lançaram os foguetes, eu teria algum cuidado: as canas ainda não caíram todas.






Nesta crónica, Rui Tavares refere um problema tão recorrente quanto enervante:
As pessoas que escrevem sobre um determinado assunto sem, antes, lerem acerca dele.
Essa bizarria foi, em tempos, abordada por Scott Adams, numa saborosa tira de Dilbert que se pode ver em:
http://sorumbatico.blogspot.com/2007/08/os-elbonianos-da-blogosfera.html
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Quando se usa a expressão ‘o peso da tradição católica’ em relação ao nosso país, deveria ler-se, muitas vezes, ‘o peso da mão católica’. Como neste caso, quem sabe.
rvn
Coisas normais no Clero