Leitura de uma onda

Diz-se das ondas tsunami que, se não houvesse continentes, dariam várias voltas ao mundo. Olhando para as bolsas mundiais ontem e anteontem, era essa a imagem. Uma onda que se prepara para dar duas voltas ao mundo. Vinha da noite da véspera, enquanto os telejornais divulgavam o dia catastrófico nas bolsas europeias. Na manhã seguinte as edições dos jornais na internet davam notícias do pânico que a onda causara na Ásia. E já vinha aí de novo varrendo o globo, acompanhando o Sol, reincidindo sobre as bolsas europeias, que temiam o pior. Ao fim da manhã de ontem o receio era a abertura da bolsa de Wall Street, em Nova Iorque.

 

Sucede que a véspera fora um feriado nos EUA. É surpreendente, mas neste mundo frio e digital ainda há coisas como feriados. Esse feriado permitira a Wall Street passar debaixo da onda. Todos esperavam agora para ver como ia ser aquele encontro adiado.

 

Mas quando o Sol já ia alto na Europa, a Reserva Federal americana anunciou de surpresa que iria cortar 0,75% da sua taxa de juros. No que à onda diz respeito, isto era um dique. As acções recuperaram em Wall Street, e ainda foram a tempo de recuperar no fim de tarde europeu.

 

***

 

Por incrível que pareça, não estamos assim tão globalizados. Pense no seu dia: noventa por cento das chamadas que faz são locais, noventa por cento das notícias que vê são locais, e mais de noventa por cento das suas transações são locais. Muitas das empresas que estão em cada uma daquelas bolsas tem pouco a ver com as outras. Mas temos uma coisa abundantemente globalizada: estados de alma. Os economistas, que têm uma linguagem metafórica poderosa, falam do dinheiro com termos como “bolhas de liquidez”. Pois bem, poucas coisas são tão fluídas como a desconfiança e o desânimo, poucas encontram de humano para humano tão poucas barreiras. A recessão, que antes podia parecer inverosímil, parece agora inverosímil que não venha. O receio é viscoso, o pânico é inflamável.

 

Haverá certamente muita coisa a aprender com isto tudo. Se algum banco for mais atingido pela crise, veremos ser gasto com ele o dinheiro dos nossos impostos que não havia para coisas como escolas e hospitais e jardins. Não teremos outra opção, embora nos perguntemos que incentivos terão os bancos para arriscar menos da próxima vez se souberem que estaremos sempre lá para os safar. Com a onda reflui também o debate: e entendemos que os bancos têm um papel demasiado central nas nossas economias para poderem ser deixados só aos banqueiros.

 

Mas isso é para depois. Agora ficamos pela leitura de uma onda. A propósito, o título foi roubado a um conto de Italo Calvino, no qual o protagonista começa por ver uma onda “crescer na distância, aproximar-se, mudar de forma e de cor, dobrar-se sobre si mesma, quebrar, sumir, e fluir de novo” para depois terminar “caminhando ao longo da praia, tenso e nervoso como quando chegou, e ainda mais incerto sobre tudo”. Dir-se-ia: parece alguém que observa a bolsa.

 

PS: Afinal o Index Librorum Prohibitorum foi abolido ou não foi abolido? Não quero induzir os leitores em erro, e o texto da minha última crónica era menos preciso do que eu gostaria. Em suma, o Vaticano considera o Index abolido, embora a nota sobre a sua abolição (de Junho de 1966) esclareça que o documento mantém a sua “autoridade moral” e deponha nos fiéis “o direito e o dever” de impedir a publicação de livros nocivos.

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