Lá vai Lisboa

[Público 13 dezembro 2007]

Europa sem democracia não passa de geografia e conversa-fiada.

Sim, sou sensível ao bairrismo, ao patriotismo e a isso tudo. Da última vez que Portugal ocupou a presidência europeia, eu era emigrante. O nosso país foi elogiado, e a sensação era inegavelmente reconfortante. A The Economist, se bem me lembro, chegou a sugerir que o melhor para a União Europeia seria deixar-se de presidências rotativas e entregar o assunto de vez aos portuguesinhos, que se tinham safado bem. Bom para a Europa, bom para Portugal e, se tudo tivesse corrido de outra forma, bom para António Guterres que teria dado um excelente presidente da Comissão Europeia. Como não gostar?

Agora, não estou tão seguro. A acreditar nos líderes europeus, há um novo espírito, o “espírito de Lisboa”, que vai levar a Europa para um novo patamar. O problema é que esse novo patamar não é mais acima, nem mais próximo.

Depois de os Açores ficarem internacionalmente conhecidos por uma cimeira vergonhosa, eu gostaria que o nome Lisboa evocasse aos europeus mais democracia e mais clareza. Em vez disso, arriscamo-nos a que “Lisboa” signifique líderes com medo dos seus eleitorados e uma constituição (perdão, um “tratado reformador” que em tempos era para ter sido um “mini-tratado”) deliberamente confuso. É bom isto?

Já escrevi uma vez que os meus instintos europeístas colidem com os meus instintos democráticos. Não teria de ser obrigatoriamente assim, mas é: por culpa da maneira como os líderes europeus fazem as coisas. Se for forçado a escolher, eu escolho os meus instintos democráticos. Europa sem democracia não passa de geografia e conversa-fiada.

***

Pois enfim, celebrem. Há razões para isso. Seis meses cheios, algumas coisas boas (a cimeira com o Brasil), os trabalhos de casa bem feitos, as tarefas cumpridas. José Sócrates, em particular, merece por uma vez que a sua lendária teimosia seja elogiada. As culpas pela fuga dos líderes estão partilhadas: de Sarkozy, a Merkel, passando por Durão Barroso e pelo governo inglês.

Ainda assim, eu gostaria que Portugal deixasse de ser o país que cumpre com as tarefas menores “pelas razões que todos conhecem”, como diria Luís Amado. Ao contrário daquilo a que nos habituou o nosso triste choradinho, os países pequenos não saem prejudicados quando assumem a defesa dos princípios democráticos. Durão Barroso quis fazer-nos crer que, antes da Guerra do Iraque, não tínhamos outra alternativa senão fazer o que os EUA de nós esperavam (e que retaliações sofreram os países pequenos que não apoiaram a guerra?).

Também agora nos dizem que tivemos de nos prestar ao papel que os “grandes” designaram para nós. Cavaco Silva acorre pressurosamente a garantir que não quer referendos, como se fosse uma ideia de lesa-pátria. Por que razão, então, a Irlanda ou a República Checa não seguem o guião e decidem levar o Tratado de Lisboa a referendo? Serão menos europeus por isso?

Os políticos vivem obcecados com fazer boa figura. Mas há coisas mais importantes. Eu preferia que pensássemos um pouco mais nos europeus e um pouco menos na figura que fazemos. Aí talvez o nome “Lisboa”, a prazo, evocasse coisas mais dignas aos nossos concidadãos.

1 Resposta a “Lá vai Lisboa”


  • «TERMINADA A PRESIDÊNCIA PORTUGUESA da União, atiraram-se imediatamente as armas de arremesso. Entre outras, o referendo e a remodelação. O primeiro é já usual. Nenhum dos grandes partidos acredita nele, nem no seu contributo para a democracia. Só se lembram dele quando pretendem agredir ou incomodar o adversário.
    Sócrates e o PS garantiram, durante anos, que se faria referendo europeu. A direcção nacional do PSD prometeu, por unanimidade, realizar um referendo. Agora que não vêem nenhuma vantagem puramente partidária, ambos negam o que garantiram. Para o que recorrem aos conhecidos argumentos defensivos. Os resultados são previsíveis. O referendo é tão democrático quanto o parlamento. Não é uma constituição, é um tratado. Este tratado é igual ao anterior. Um referendo é caro. A participação dos cidadãos é reduzida. Os outros parceiros europeus também não fazem. Não se pode pôr em causa a eficácia da União. Não os choca o facto de ser evidente que não há referendo porque não interessa directamente a um partido. Nem os incomoda saber-se que a Nomenclatura europeia combinou não o realizar e força quem tem dúvidas. Aos dois grandes partidos é-lhes totalmente alheia qualquer preocupação relativa à participação política ou à identificação dos cidadãos com os ideais europeus. Interessa-lhes, isso sim, o que pode ajudar o seu próprio partido e prejudicar o adversário.»

    Extracto do «Retrato da Semana» de António Barreto que pode ser lido no blogue onde ele os publica às segundas-feiras [aqui]
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