Jerusalém e Sodoma

[do Público de 15 Julho 2006]

Se tivessem fé verdadeira deixariam esse trabalho para as mãos de Deus: “Jerusalém transformar-se-á em Sodoma, e Deus aniquilá-los-á naquele lugar”.

No Médio Oriente e, em particular, na Terra Santa, o conflito entre religiões é tão perigoso que a opinião pública mundial chega a revelar sinais de desespero. Em todo o mundo perguntam-se as pessoas: não haverá sequer um ponto de contacto, ao menos um único assunto sobre o qual as religiões do livro — judaísmo, cristianismo e islamismo — estejam de acordo? Ao contrário do que poderia parecer, há uma esperança de concórdia, muito simples por sinal. Resume-se numa palavra: homossexuais.

Conforme noticiou a imprensa desta semana, todos os líderes religiosos de Jerusalém condenaram a possibilidade de passar pelas ruas da “cidade santa” uma marcha de homossexuais. Houve protestos unânimes de rabinos, imãs e xeiques; padres católicos, coptas e ortodoxos; líderes xíitas, sunitas e sufitas; judeus hasídicos, sefarditas e ashkenazitas.


Mais de cinquenta líderes religiosos de todas estas e outras comunidades demonstraram uma invulgar unidade numa visita conjunta ao knesset, o parlamento israelita, cujo único objectivo foi exigir aos deputados que impedissem os homossexuais de marchar por Jerusalém. Os líderes religiosos palestinianos, que não podem entrar em Israel, telefonaram para o knesset para manifestar solenemente o seu apoio ao protesto dos congéneres israelitas.

Por uma vez, deve ter sido divertido ver toda esta gente competir pelo prémio da maior barbaridade dita na ocasião. Os representantes de três organizações cristãs descreverem a possibilidade da marcha homossexual como “um acto de confronto, provocação e ofensa contra todos os que aderem às intemporais normas morais bíblicas”. O severo rabino Yehuda Levin subiu a parada: “prometo-vos que correrá sangue — e não somente naquele dia, mas por meses ainda a vir”. O xeique Ibrahim Sarsur não se deixou ficar: “este é um ataque mais venenoso do que os ataques dos sionistas… se os gays ousarem aproximar-se do Monte do Templo, terão de fazê-lo por cima dos nossos cadáveres”, embora tenha tido o cuidado de esclarecer que a homossexualidade “é um problema que não existe na sociedade muçulmana” — precisão que, segundo os relatos, provocou uma onda de riso no parlamento.

Por absurdo que possa parecer numa região onde renasce agora um conflito sem fim à vista, num país cujo exército voltou a ocupar a Faixa de Gaza menos de um ano após a retirada, provocando umas dezenas de mortos pelo caminho, num momento em que os sequestros de soldados se repetem e já se bombardeia o território de países vizinhos — nesta parte do mundo onde a violência e a morte campeiam, aquilo que mais preocupa os líderes religiosos é a possibilidade de homens que gostam de homens e mulheres que gostam de mulheres marcharem pelas ruas de Jerusalém pedindo direitos iguais às pessoas que preferem o sexo oposto, ou às que não preferem sexo nenhum.

A “abominação” da homossexualidade conseguiu junto dos líderes religiosos aquilo que a verdadeira abominação das matanças recíprocas, ocorrendo diariamente sob os piedosos olhos destes mesmos homens, nunca teve força para os levar a fazer. Um deputado ultra-ortodoxo, membro do partido “Judaísmo da Torá Unida”, até se lembrou de propor um arranjo: caso o parlamento proibisse a marcha homossexual, tentaria convencer a nova coligação entre líderes judeus, cristãos e muçulmanos a “promover a paz e a fraternidade em Israel”. Quem diria? Congratulemos então os homossexuais pelo nascimento involuntário desta singela ideia de que talvez os religiosos possam vir a fazer qualquer coisinha pela “paz e a fraternidade em Israel”.

Não se vê, para já, grande resultado. Num bairro de Jerusalém conhecido pela estrita observância do judaísmo foram distribuídos folhetos apelando à morte dos homossexuais. Há duvidas sobre se estes folhetos foram produzidos no próprio bairro ou se são obra de colonos da Cisjordânia a quem não bastam os seus próprios problemas. Do que eu não tenho dúvidas, porém, é que quem apela ao assassinato dos homossexuais só pode se gente de pouca fé. Se tivessem fé verdadeira deixariam esse trabalho para as mãos de Deus, como explicou um clérigo sufi, ramo do Islão conhecido pelo seu carácter contemplativo: “Jerusalém transformar-se-á em Sodoma, e Deus aniquilá-los-á naquele lugar”.

Até aos dias de hoje só tínhamos visto judeus e cristãos concordar na sua antipatia pelos muçulmanos; muçulmanos e judeus juntos na sua desconfiança dos cristãos; cristãos e muçulmanos revezando se no ódio mortal aos judeus. Mas agora vemos até o rabino-mor sefardita, Shlomo Amar, escrever ao papa católico-romano Bento XVI pedindo-lhe que intervenha para impedir a marcha homossexual em Jerusalém. Shlomo Amar deve provavelmente estar impressionado com a recente visita do papa a Valência, onde Ratzinger veio defender a exclusividade do modelo heterossexual de família (na sua qualidade de não-praticante, como é evidente).

No entanto, a única coisa que a visita do papa a Valência significa é o seguinte: mesmo num país tão católico como a Espanha, Ratzinger já perdeu. Ainda há um ano o porta-voz do Vaticano para a família, Cardeal Trujillo, apelava à desobediência civil dos funcionários públicos espanhóis. Sem resultado. Passado um ano, políticos do conservador Partido Popular já celebraram matrimónios homossexuais, já houve até o primeiro divórcio gay. Ninguém se incomoda e a vida segue como dantes. Que pode Ratzinger fazer? Discursar. No tempo longo das relações entre Estado e Igreja na Península Ibérica, a única coisa que impressiona é a facilidade com que hoje um político com um mandato claro e o casamento homossexual no programa com que venceu as eleições pode fazer passar a medida num país como a Espanha. E Portugal não é diferente.

2 Respostas a “Jerusalém e Sodoma”


  • A cidade de Sodoma foi conhecida e destruida pela preversão que ali acontecia, foram assim castigados os seus habitantes. Preversões de indole sexual. Em Jerusalém, nos dias de hoje, não consta que a preversão seja comum e significativa ao ponto de castigar a cidade. Mas que tipo de deus é esse, que é adorado pelas três grandes religiões, que permite que nessa cidade exista, com tanta profundidade, tanta discórdia e morte e guerra. Não serão esses assuntos mais gravosos que a preversão sexual?

  • Esse Deus não existe, porque o Deus das religiões é um produto, uma embalagem! Existe o meu Deus, esse existe, aquele que um dia vai rir-se na cara daqueles que hoje discriminam e colocam de lado o preto ou o branco, o amarelo ou o vermelho, a mulher ou o honem, o gay ou o hetero, o casado ou o divorciado!

    Grande blog
    Parabéns!

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