Ilegais

[Público 19 dezembro 2007]

E deixar de lhes chamar ilegais mudaria alguma coisa? Sim. Seria um passo pequenino para tirar a imigração da esfera da segurança, tipicamente sob a alçada de um Ministério do Interi

Chamam-lhes ilegais. Um dia compreenderemos que não é palavra para se chamar a uma pessoa. Mas é isso que lhes chamamos. A existência deles não é permitida neste lado do Algarve. Este é o Algarve de Aquém-Mar, já dentro da Europa-fortaleza. E eles vieram do outro Algarve, o “Algarve de Além-Mar em África”, lembram-se? — é aquele de que os nossos reis se proclamaram senhores durante séculos. São marroquinos. São mouros. São muçulmanos. Quem sabe o que mais serão?

Peça um café ou uma água. Talvez venham servidos por mãos ilegais. Mãos que vieram do outro lado do Atlântico, provavelmente de um país de que os nossos reis também chegaram a proclamar-se senhores. Mãos ilegais, servindo o seu café.

Na Europa há até gente que nasce ilegal, sem ter cometido nenhum crime. Aliás, quem se limita a nascer ainda não cometeu nada. Mas ainda assim nascem já ilegais. O nosso medo é que se as mães deles os parirem aqui, e nós admitirmos que eles são legais, talvez tenhamos de legalizar a família toda.

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Nesta história dos ilegais, há preocupações legítimas e às vezes até bem intencionadas. Se deixarmos que estes ilegais aqui fiquem, o que fazer com os outros potenciais milhões? Outras vezes, há apenas pura paranóia: a imigração de massas não se faz à conta de mulheres grávidas, náufragos recolhidos por razões humanitárias e casamentos que as mentes mais desconfiadas insistem em supor fraudulentos.

E deixar de lhes chamar ilegais mudaria alguma coisa? Sim. Seria um passo pequenino para tirar a imigração da esfera da segurança, tipicamente sob a alçada de um Ministério do Interior. A imigração também é segurança, pelo menos na entrada, mas está longe de ser só segurança. A imigração, de que a Europa sabe que necessita, é uma realidade demasiado importante para ficar dependente de um ministério cuja principal razão de ser é não deixar entrar.

Inventem o que quiserem. Ministério da Economia, Ministério da Solidariedade, Presidência do Conselho de Ministros, Ministério da Imigração. Mas arranjem alguém cuja razão de ser seja aproveitar a imigração.

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Há então questões práticas, como sempre as houve. Mas antes delas há uma questão de princípio: saber de que lado estamos. É depois de definir esta que teremos de resolver as outras a partir daí.

Podemos estar do lado de cá. Temos alguma riqueza, alguma segurança, e queremos manter ambas. É uma opção.

Mas poderíamos ter nascido do lado de lá, e aí faríamos contas de cabeça. Viveríamos num subúrbio pobre de Rabat pensando em conseguir melhor para os nossos filhos. Meter-nos-íamos num barco, e arriscaríamos a vida por uma vida nova. Eu nem preciso de pensar nos milhões de portugueses que já fizeram o mesmo. Não precisar de pensar sempre em portugueses para tomar decisões. Às vezes basta-me pensar em pessoas. Chamem-lhes ilegais, se quiserem. Mas eu estou com eles.

5 Respostas a “Ilegais”


  • Belo poste. Se os portugueses tivessem sido tratados assim nos idos anos das imigrações maciças para França, Luxemburgo e Alemanha, muitos mais teriam morrido por cá, sem comida e sem esperança – porque nem só de pão vive o Homem.

  • Concordo com o Zé de Portugal. Não sei se já reparou mas foi condecorado pelo puxapalavra

  • Brilhante texto, Ruy; e parabens pela forma de pensar, e mais ainda pela coragem de declarar.
    Nisso somos da mesma argila.

    Abs,
    Louis

  • Ilegais? Quem são os ilegais aqui? Quando nasci era ilegítimo – uma situação muito próxima do ilegal- e nasci aqui!Emigrei, depois, e fui “sans papiers” em Champingny.Roubei,falsifiquei “papiers”e sobrevivi
    mercê das imensas solidariedades da “colónia” emigrante em terras de frança.Como não posso estar solidário com toda essa gente que foge da miséria? Hoje, se a força mo permitisse,ainda, voltaria a fugir a “salto” desta(in)sufiência socrátia

  • Já tinha saudades de ler esses textos que tão bem descrevem o que eu penso.

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