Futlit: Itália

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A Itália joga em catenaccio (e não catennacio como escrevi antes), que quer dizer literalmente “cadeado”. é um sistema ultra-defensivo que se destina a ganhar jogos por 1-0, em contra-ataque. embora a itália já não pratique verdadeiro catenaccio, continua a ter um futebol defensivo, e é ainda pelo catenaccio que é conhecida. os italianos defendem-se dizendo que defender também é jogar.


O catenaccio é 1-4-3-2 . Aquele “1” da primeira linha é uma característica peculiar: trata-se do líbero, um jogador que joga atrás dos restantes defesas e que tem duas funções: 1) ir à dobra, ou seja, apanhar bolas que o defesa falhou em interceptar e 2) fazer jogo táctico, colocando os avançados adversários em fora-de-jogo.

GUARDA-REDES Brunelleschi: o único arquitecto da equipa, o construtor da catedral de Florençå tem os ângulos todos na cabeça, vê o jogo em perspectiva, tem a noção de escala e o golpe de vista, tira as bissectrizes e prevê as elipses. Não há trompe-l’oeil que o engane. O seu substituto pode ser Leone Battista Alberti, historiador da arte e da arquitectura.

DEFESA

líbero: atrás da defesa joga Andrea del Verrochio, o famoso professor de Leonardo. Está aqui por homofonia: uma vez que o líbero é o ferrolho do cadeado, o nosso pintor será o Verrochio do catenaccio.

quarteto defensivo: os dois centrais vêm do pré-renascimento. Giotto, o mais velho desta equipa, um jogador revolucionário no seu tempo e sempre um valor seguro. Tal como o seu companheiro Piero della Francesca, temos aqui dois jogadores um pouco estáticos e lentos, mas de técnica muito completa.

os dois laterais têm de ser muito móveis e correr ao longo das linhas para apoiar o contra-ataque. em jargão futebolístico, chama-se jogar verticalmente. Ora, em verticalidade não há melhor do que Sandro Botticelli, lateral esquerdo, e Andrea Mantegna, lateral direito. Utilizemos aqui imagens dos seus quadros mais conhecidos, O Nascimento de Venus e São Sebastião, respectivamente, para vermos a importância das linhas verticais na pintura de ambos. EM O Calvário, de MAntegna, [ http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/mantegna/calvary.jpg ] as linhas são tão verticais que quase não há espaço para a cabeça dos crucificados.

MEIO CAMPO

Os médios defensivos (na prática, sete dos dez jogadores de campo no catenaccio são defensivos) são um par de venezianos, Ticiano e Tintoretto, ambos já do renascimento pleno do século XVI, com um jogo voluptuoso, redondo, generoso e abundante. Fantasiosos, capazes de rasgos dramáticos, embora por vezes pouco objectivos e algo maneiristas e até barrocos.

O médio ofensivo ou play-maker é, só poderia ser, Leonardo, um dos maiores de todos os tempos, e cujo valor no mercado não para de subir. Não só é um jogador imaginativo, pleno de cor e volume [mostre-se a a Virgem com o Menino e Santa Ana], como tem um bom desenho de jogo [mostra-se o famoso desenho do homem vitruviano]. Tão depressa é um artista como um engenheiro; sabemos como a polivalência é um valor cada vez mais respeitado no futebol actual.

FRENTE Na frente um par de jogadores indiscutíveis, jogando lado a lado, os melhores tecnicistas da sua geração. Cada um tem os seus admiradores; saber qual é o melhor leva os adeptos a polémicas intermináveis nos bares italianos. A familiaridade é tanta, que cada um é conhecido mais pelo seu primeiro nome. São eles Raffaelo Sanzio, mestre de um jogo colorido, encantador, envolvente; e Michelangelo Buonarroti, inexcedível na perfeição do desenho e também polivalente (pintor e escultor) embora um pouco individualista e temperamental, já a caminho do arquétipo do artista romântico. Dois rivais, é certo, que nem sempre sabem jogar em equipa, mas invejados por qualquer treinador de bancada do mundo.

A ESCALAÇÃO (leiam isto à Gabriel Alves ou Rui Tovar e digam-me lá se não fica lindo):

Sanzio Buonarroti

Leonardo

Botticelli Mantegna

Giotto Piero

Verrochio

Brunelleschi

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