Fantasismo ingénuo

João Miranda critica a minha crónica de hoje (estará aqui mais tarde):


Rui Tavares diz que há 2 ou 3 especialistas que previram a crise e conclui daqui que a crise era previsível. Claro que há aqui um pequeno problema. Rui Tavares está a identificar os especialistas com capacidade preditiva a posteriori.

Em título, chama-lhe “empirismo ingénuo”. Em etiqueta, chama a isto “hindsight bias”. Há duas respostas diferentes: a primeira é que eu não disse que a crise era “previsível” (até porque a questão seguinte seria sempre de grau: saber se seria muito ou pouco previsível). Escrevi que houve gente que a previu e que, portanto, poupem-nos à treta do costume de que “ninguém poderia prever o que aconteceu”.

Quando ao “hindsight bias”, ou “previsão retrasada”, a questão é muito simples. Basta escolher quem levar a sério daqui para a frente: aqueles que previram correctamente a crise, ou o João Miranda e outros fantasistas. Na base da muita informação disponível, eu fiz a minha escolha já há muito tempo pelos primeiros, portanto o João Miranda não me pode acusar de hindsight bias. Pelo contrário, ele é que é um portento: nem a priori, nem a posteriori, não há maneira de ele acertar nesta crise, e ainda pensa que pode desvalorizar os que a previram porque, como sugere num comentário, poderiam não a ter previsto.

Mais comentários:

Eu não leio compulsivamente literatura económica, e vejo que há gente a falar disto há anos: o Dean Baker, o Robert Kuttner — pelo menos há seis anos —, o Nouriel Roubini, que tenho lido desde o início da crise em Agosto do ano passado, descreveu exactamente o que se ia passar. A Economist e o Financial Times falam disto há anos; no caso do Financial Times, o Martin Wolf, autor do How Globalization Works e tudo menos anti-capitalista diz simplesmente: Hyman Minsky estava certo (o falecido Hyman Minsky descreveu teoricamente este tipo de momentos). Desde que a crise começou, então, não era difícil ter achado qual era o pool de especialistas correctos — aqueles que falavam dela, a priori, e há mais tempo. Bastava ter-lhes dado ouvidos há cerca de um ano. Para começar pelos mais esperançados em que a crise não fosse grave, Paul Krugman disse logo que provavelmente as descidas de juros do FED não seriam suficientes para estancar o problema. Brad deLong e James Kenneth Galbraith (o filho do Galbraith mais famoso) disseram imediatamente que a estratégia então seguida era a de tapar o dique com um dedo, mas que não deveria bastar.

E já que há aí quem gosta de ler o Financial Times, basta pegar no exemplar de há dois dias e ler o Nouriel Roubini, que de facto foi quem mais acertou, descrever as várias fases do desmanchar do sistema bancário paralelo (que também não é um fenómeno da natureza: é qualquer coisa que só existe porque a legislação que o impedia foi abolida).

Mas não é preciso ser um Roubini. Bastava não ter feito ouvidos moucos a uma série de gente. Alguns deles propondo mudanças no sistema de incentivos dos gestores: Martin Wolf, desde há cerca de um ano.

Isso sobre o hindsight bias. E agora o que fazer daqui para a frente? A escolha é simples. dar ouvidos a esta gente que previu correctamente a crise. Ou dar ouvidos ao João Miranda, que acha que há sempre especialistas que prevêem crises que não acontecem. Pois há. Mas estes previram uma que aconteceu.

6 Responses to “Fantasismo ingénuo”


  1. 1 Santa Paciência

    desde a criação do mundo que há gente que diz que o mundo vai acabar. alguns até têm descrições do modo como isso vai acontecer.

    o mais certo é mesmo que o mundo acabe, porque nada é eterno e o mundo também não.

    nesse momento vai aparecer alguém (imaginando que alguém sobreviverá ao fim do mundo) a dizer que a coisa já estava prevista.

    enfim… é tão fácil que até dói.

  2. 2 Miguel

    Offtopic:

    O uso de itálico com um tipo de letra serifado (título dos textos) não resulta bem. Sugiro o uso de um tipo de letra não serifado ou uso de bold com o serifado.

  3. 3 maloud

    A SICN devia transmitir novamente uma entrevista com o Dr.Silva Lopes feita há uns meses. Estava lá tudo, em linguagem perceptível para o comum dos mortais.

  4. 4 Saloio

    Sr. Dr. Rui Tavares, não sei se o senhor também publica críticas neste espaço, mas penso que no mínimo, lerá esta que é construtiva: ontém, na livraria “Pó dos Livros”, nem eu nem o público que me cercava gostámnos das suas intervenções porque, além de enfadonhamente extensas, tinham em vista o desespero de tentar por a ridículo as ideias do Prof. César das Neves, e evitar que ele nos explicasse as suas teorias sobre a crise financeira que vem dos EUA.

    Eu nunca o tinha visto a si e desculpe-me mas o que vi não foi animador, pois não era apenas o facto das suas críticas e observações serem descabidas e mera repetição dos cabeçalhos esquerdistas, mas o facto de querer pôr o professor, convidado da noite, a ridículo – o que foi intelectualmente hiliariante.

    No entanto, e como o respeito e aprecio alguns dos seus escritos, espero que o senhor, um dia próximo, também venha a falar com a clareza, a sabedoria, a graciosidade, a oportunidade, a ironia, a alegria e a evidência do Prof. César das Neves.

    Digo eu…

  5. 5 agitador

    economistas há muitos…

    mas os que eu detesto são aqueles que aprenderam a tal ciencia economica que ao invés de usarem como ciencia (um instrumento), usam-na como um conjunto elaborado de dogmas para vindicarem a sua visao do mundo.

    claro que há os mais cepticos que sabem o que a ganancia pode fazer, ou os que sabem separar o que são relaçoes sociais do que é o mercado.

    para ser sincero nunca levei os economistas a sério, há uns que respeito mas a maioria nem por isso.

    por fim, acho que mesmo os “catastrofistas”, embora nao me acredite que os que preveram esta sejam daqueles que acordam todos os dias à espera do fim do mundo, devem ser ouvidos e ter tidos em conta. quanto mais nao seja isso torna-nos prudentes. e isso é bom.

  6. 6 eff

    Aos comentaristas anteriores:

    O ponto do Rui é que houve especialistas de topo a prever esta crise e não apenas que alguém (qualquer) a previu. Para esse João Miranda, de quem até agora só ouvi tontarias, qualquer voz é igual a qualquer outra voz.

    Agradeço-lhe a paciência, Rui, e por favor não esmoreça.

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