Gráfico da Harper’s, há dois anos e meio. Clique para aumentar.
Vamos supôr que você é um decisor político (e é, pelo menos enquanto eleitor) e que está perante uma crise. Pode ser uma epidemia, uma vaga de incêndios, etc — não é um acidente mas uma crise, ou seja, tem uma duração no tempo e é preciso responder aos acontecimentos antes e durante a crise; é legítimo supor também que depois da crise possa ser importante tomar medidas preventivas em relação a crises semelhantes — isto no interesse do bem público, que você é obrigado a defender.
Você tem dois assessores. O assessor A disse-lhe, antes da crise: temos uma situação preocupante aqui (ex: deixámos construir um palheiro debaixo do teatro) que não está sob vigilância (ex: abolimos as leis que obrigavam os gerentes de teatros a abrir as portas às inspecções dos bombeiros) e na qual os actores têm os incentivos errados (ex: os gerentes de teatros são beneficiados ou não são punidos por comportamentos irresponsáveis). Poderíamos corrigir a situação agora, diz o assessor A, corrigindo certos mecanismos (ex: obrigando os teatros a fazer inspecções periódicas, obrigando-os a realizar seguros, impedindo-os de ter mais do uma proporção de palha no porão, etc.). Se não o fizermos, a crise pode extravasar as fronteiras do sector em causa (ex: passar para o cinema do lado, a clínica da rua do lado, etc.).
Passado algum tempo, a crise inicia-se, no sector de que tinha falado o assessor A e da forma que ele tinha prevenido. Você tenta remendar a situação. O assessor A diz-lhe: esse remendo é capaz de não ser suficiente (ex: baixar a taxa de juros) porque já não vai a tempo de evitar certos colapsos. Passado uns tempos, há um colapso, que você tenta remendar (ex: nacionalizar o Bear Sterns). O assessor A diz-lhe: tudo bem, precisávamos de remendar esse colapso, mas pode não ser suficiente: precisaríamos de uma solução geral. Passado uns tempos há um segundo, um terceiro e um quarto colapso. A certa altura, há colapsos que são os maiores de sempre mas já ninguém liga, de tão normais se tornaram (ex: nacionalização e revenda do Washington Mutual, ontem). A cada passo, você remenda, o que parece aliviar as coisas, mas não estancá-las.
Durante todo este tempo, você teve também o assessor B, que lhe dizia: vai sempre haver uma crise e é impossível saber qual. Quando começou a crise no sector de que tinha falado o outro assessor, ele dizia: eu tinha dito que há sempre crises, mas nada garante que esta seja como diz o assessor A, apesar de ter começado como ele previa. Depois dizia: o assessor A adivinhou mas antes nada garantia que ele tivesse adivinhado, portanto estivemos bem em não ter feito nada do que ele dizia que poderia “evitar” a crise. Depois dizia: não precisamos de fazer nada agora, porque a crise pode parar sozinha. Depois dizia: ainda não parou mas vai parar. Depois dizia: errei em todas vezes anteriores mas isso não garante que esteja errado agora. Depois dizia: o assessor A acertou em todas as etapas anteriores e propôs corrigir os mecanismos que — confirmou-se depois — desempenharam um papel importante na crise, mas isso não garante que ele soubesse como evitar a crise. Talvez eu, que errei em todas as etapas e não propus corrigir nenhum mecanismo esteja certo.
Talvez, diz você. Mas vocês dizem coisas diferentes, e eu tenho de me inclinar mais para um para outro. Caramba, se houvesse alguma maneira de eu saber quem tem mais razão e agir em conformidade? Diz o assessor A: claro que existe essa maneira, basta olhar para o que sucedeu e corrigir agora os mecanismos que estavam defeituosos, e inventar mecanismos novos para prevenir os defeitos novos que indentificámos agora. Diz o assessor B: empirismo ingénuo!, empirismo ingénuo!, empirismo ingénuo!, empirismo ingénuo!, empirismo ingénuo!
O assessor A poderia ficar tentado a responder: como estamos a falar da realidade, talvez seja menos ingénuo ser um empirista do que um dogmático em estado de negação, e ainda por cima repetitivo. Mas vamos imaginar que o assessor A era um tipo paciente, assim como o João Galamba. Nesse caso, responderia assim: olhando para a evolução da crise ao longo do tempo, e pensando que ainda estamos a meio dela, concluo que há uma diferença entre ter sorte e ter razão. Eu não tive apenas sorte: tive razão. Tu não tiveste apenas azar: estavas errado.







Muito bom . Parabéns.