[Público 12 novembro 2007]
A chave está no povo, na democracia, e no respeito pelo povo que a democracia implica. Respeitar Aznar, segundo esta leitura, é respeitar o povo espanhol, que o elegeu.
O caldo entornou na cimeira ibero-americana. O venezuelano Chávez chamou “fascista” ao ex-primeiro ministro espanhol Aznar, na ausência deste. Zapatero, actual primeiro-ministro de Espanha, exigiu respeito para o seu rival e antecessor lembrando que esse era o respeito devido ao povo espanhol que elegera Aznar e o elegera a ele mesmo. Chávez interrompeu Zapatero para reincidir nos qualificativos a Aznar, que considera ter apoiado o golpe de estado que o afastou momentaneamente do poder, há alguns anos. O rei de Espanha mandou calar o presidente da Venezuela.
Há três heróis possíveis.
A direita espanhola (e a portuguesa) escolhe o rei de Espanha. Deveria ser um pouco mais surpreendente, mas as nossas direitas continuam a não resistir à sedução de um “porque não te calas?”. Exigir silêncio é uma coisa que lhes atinge directamente os centros de prazer. Mariano Rajoy, actual líder do PP, já veio até virar a história do avesso sugerindo que o rei saiu em defesa de Aznar, — na verdade, foi Zapatero que veio em defesa de Aznar e o rei mandou calar Chávez para que Zapatero pudesse continuar — apenas porque se quer reivindicar da intempestiva frase do rei, como se desejasse fazer dela um lema.
Em pleno êxtase, esquecem-se os admiradores do “porque não te calas?” que esta frase acabou por ser um favor feito a Chávez. O mestizo venezuelano foi tratado com aspereza pelo rei da Espanha de los conquistadores e isso fará dele um herói entre muitos latino-americanos. Para quem gosta de se apresentar como herdeiro do libertador Bolívar, esta humilhação foi um pequeno momento de glória que lhe garantirá a solidariedade de muito compatriotas. Quem não entende porquê, que se pergunte: qual seria a nossa reacção se Juan Carlos tivesse mandado calar um primeiro-ministro ou presidente português, mesmo que se tratasse do mais impertinente e cabotino dos espécimes? Qual seria a reacção dos brasileiros se Cavaco mandasse calar Lula?
Além disso, haverá munições suficientes para a guerra que se segue entre chavistas e juancarlistas. Chávez fez os possíveis por encerrar um canal de televisão venezuelano que lhe era desfavorável. Mas Juan Carlos não está isento de telhados de vidro: ainda há poucos meses foi suspensa a edição de uma revista que publicara uma caricatura desfavorável à Casa Real espanhola, e seguiu-se logo depois a polémica dos jovens levados a tribunal por terem queimado fotografias do rei.
No meio disto, há um terceiro herói possível, que é Zapatero. Não mandou calar ninguém, o que o desqualifica perante autoritários de todos os matizes, mas foi ele que apresentou a melhor grelha de leitura para o sucedido. A chave está no povo, na democracia, e no respeito pelo povo que a democracia implica. Respeitar Aznar, segundo esta leitura, é respeitar o povo espanhol, que o elegeu. Chávez merece o respeito que merece o povo venezuelano, que o elegeu. Para lá disto, o respeito que merecem os indivíduos que transitoriamente desempenham os seus cargos depende do respeito que eles fizerem por merecer. Ao demonstrar contenção e paciência, ficando até ao fim da reunião, Zapatero colocou o seu povo à frente dos impulsos da sua vontade. Nos tempos que correm, é todo o heroísmo que pedimos àqueles que elegemos.






A sua posição, neste acaso, era claramente difícil. Admito que acredite que o regime espanhol tem os mesmos tiques que o Venezuelano (essa da caricatura está bem amanhada, sim senhor) mas ainda me interrogo se podemos, de facto, aproximá-los tanto. Temos Fidel pelo meio, e julgo que sabe que as coisa, lá na ilha, são um pouco – pouco – repressivas. De qualquer forma, desiludiu-me. Trocou de herói num momento de afirmação alto e digno do próximo dirigente máximo da América latina.
Tem toda a razão!Parabéns!
“Com a verdade nem ofendo nem temo”
Assim respondeu Chavez ao Rei, que ao contrário dele não foi eleito pelo povo mas nomeado por Francisco Franco e quanto a credenciais democráticas I rest my case…
Chavez mais uma vez põe, com seu estilo popular e irreverente, o dedo na ferida. A mim não me interessam muito os Zapateros deste mundo. São elegantes, urbanos, civilizados e inócuos. Para inverter relação de forças actual pede-se mais, pede-se a capacidade de polarizar vontades e capacidades capazes de desencadear processos de transformação Sócio-políticos num sentido solidário e progressista. Queremos travar a actual fúria privatizadora? Queremos melhorar os actuais serviços públicos, Saúde, Educação, Segurança Social de forma a que permanecendo propriedade de todos sejam mais justos e eficientes? Queremos uma Europa democrática? Queremos trabalho que dê dignidade e realização pessoal, ou ir pelo caminho actual de transformar os assalariados em mercadoria? Será com Zapateros que vamos lá?
Quanto ao que se está a passar de há uns anos para cá na Venezuela a palavra que melhor me ocorre é “consequente”. Este processo mais do que qualquer outro dos dias de hoje tem tido consequências ao nível do quotidiano (saúde, educação, etc…), ao nível da alteração da relação de forças na América Latina e, sobretudo, tem fomentado o “empowerment”, tem construído cidadania.
Quando a população, antes excluída, entra no círculo da tomada de decisão, as campainhas de alarme soam entre os defensores do status quo…
Para mais convido-vos a ler “O Mundo Em Guerra” http://www.mundoemguerra.blogspot.com/