Em busca do dia perfeito

[Público 25 abril 2007]

Dias destes, meus queridos amigos, há muito poucos na história de um país, e a pouquíssimos é dada a oportunidade de vivê-los.

A pergunta com que se começa é sempre: como escolher as palavras? É a pergunta que eu me faço, que sou forçado a fazer-me, mas em cada texto ela é mais implícita do que explícita. Hoje essa pergunta tem uma forma e uma personagem concreta.

Há trinta e três anos, em plena confusão do Largo do Carmo, pediram a Francisco Sousa Tavares que escolhesse as palavras.


À frente dele, uma multidão assistia a um golpe militar da maneira mais bizarra que se pode imaginar: em cima dos acontecimentos, em cima das árvores, no meio das partes beligerantes. Os militares não davam conta do recado e daí o pedido, a um civil, que se dirigisse à multidão de civis. No fundo, que realizasse o primeiro discurso político da democracia. Caso viesse a haver democracia.

É por isso que me pergunto: como conseguiu Francisco Sousa Tavares escolher as palavras certas, assim de repente e naquele lugar? As palavras que saíram, conforme preservadas em banda magnética, foram estas:

“Povo português, vivemos um momento histórico como desde os dias de 1640 não se vive: é a libertação da Pátria!”

Imagino Francisco Sousa Tavares observando aqueles acontecimentos inesperados, exaltantes, inacreditáveis até. Ao mesmo tempo, não parava de vasculhar na sua mente: quando terá havido, na história deste país, algo que se compare ao que estou vivendo? Há cem anos atrás? Há duzentos? Com as referências históricas que lhe eram próprias, a data a que chegou estava mais de trezentos anos para trás. Outros chegariam a outras datas. Pode dizer-se até que há uma certa candura em falar de história a uma multidão: quantas daquelas pessoas saberiam o que “1640” significava? Mas estou certo que ninguém deixou de compreender o que Francisco Sousa Tavares tinha para dizer: dias destes, meus queridos amigos, há muito poucos na história de um país, e a pouquíssimos é dada a oportunidade de vivê-los. Todos compreenderam isto, ou algo como isto: provavelmente, até já o sabiam antes de ser dito.

Nesse sentido, estas foram as palavras certas para o dia perfeito. Efectivamente, que outro dia português se lhe pode comparar? Continua aberta a pergunta que Francisco Sousa Tavares fez a si mesmo. Percorra-se as cronologias em busca de datas e os calendários atrás de feriados. De poucos dias, como de 25 de Abril de 1974, se poderá dizer: amanheceu numa ditadura com polícia política, censura, presos de opinião. Quando entardeceu tudo isso era inaceitável, e essa é a diferença que acaba com qualquer regime. Vejam que todos os regimes, do mais livre ao mais brutal, se fundam no consenso. Voluntário ou forçado. Nem que seja o consenso do medo. Se as pessoas se apinhavam naquela praça, entre o quartel e os tanques, era porque o consenso do medo tinha acabado.

No que a dias perfeitos concerne, seja na vida de uma pessoa ou de um país, sabemos que eles são poucos e sabemos que viram tudo do avesso. Foi o que aconteceu também. Pelo caminho descobriu-se que havia outras coisas que tinham deixado de ser aceitáveis: eleições forjadas, guerras absurdas, donos da nação ou da história. É claro que antes e depois de um dia perfeito, os outros podem parecer cinzentos, penosos, absurdos. Acontece assim, e acontece muitas vezes.

Mas não ter vivido o dia perfeito seria como nunca ter vivido de todo.

5 Respostas a “Em busca do dia perfeito”


  • É verdade!
    Como me orgulha a distinção de ter vivido momentos tão altos da nossa História!

  • as minhas dúvidas sobre o que fica da revolução não se dissipam, mas percebi que não deveria perder o dia 25 a pensar nisso, esse é dia de festa. Belíssimo texto, com as palavras da, aparentemente, tímida exaltação muito bem escolhidas.

  • Lembro-me que ía ter uma aula de Desenho. Era o dia da semana de que eu mais gostava.

    Creio que era uma Quarta-Feira.

    Nesse dia, acordei antes da minha Mãe me chamar e achei estranho um barulho que vinha da sala do fundo. Parecia ouvir as vozes da família toda.

    Levantei-me pelo meu próprio pé e lá fui eu pelo corredor fora, de pijama e descalça.

    Chegada à sala, vejo os meus pais, avós e irmã, à volta do Rádio. Entro e pergunto em voz alta, porque ninguém me tinha acordado.

    Schiu, schiu. Lembro-me da voz do meu pai, alterada e nervosa. Olhei para a minha mãe que delicadamente pôs o dedo sobre os lábios. O meu avô paterno, muito direito dizia, até que enfim, até que enfim.

    Eu não percebia nada.

    - “Daqui, posto de Comando…”

    É uma revolução, filha!

    Em poucos minutos, a porta tinha-se aberto para um mundo que eu não conhecia. Ditadura, Fascismo, os bons e os maus, Revolução. E o meu avô continuava, como que hipnotizado, até que enfim, até que enfim.

    Afinal aquele Sr. que aparecia na TV nas «Conversas em Família», o Marcelo, era dos maus. Mas ele tinha um ar tão bonzinho. A GNR era dos maus. A Pide. E lembro-me de pensar, que os meus pais e avós afinal tinham segredos, dos quais eu não sabia nada.

    E não ía ter a aula de Desenho.

    Se eu te perguntar, onde estavas no 25 de Abril, como é que tu o recordas?

  • Maria Emília Ramalho

    Mandei as últimas palavras para o meu Filho na Irlanda-eles são bons no que fazem e os “bons” países levam-nos os Filhos,hoje-porque este belíssimo texto dizia as palavras do nosso coração,que ,de tão fortes,não sabemos deixar sair de dentro de nós.Obrigada pelas palavras perfeitas!

  • muito obrigada, mais uma vez. mt

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