Em aporia

[do Público de 3 setembro 2006]

Os políticos vão para a guerra porque acham que a vitória está no papo.

Quando a guerra do Líbano começou escrevi aqui que a raiz do conflito estava na fraqueza intrínseca do governo israelita. Ehud Olmert retaliou de forma desproporcionada em Gaza por três razões: 1) porque podia, 2) era fácil — afinal o território nunca deixou de estar dominado pelo exército israelita — e 3) precisava de ocupar o lugar que pertencera a Ariel Sharon. Mas retaliou no Líbano porque não tinha outra hipótese: se havia atacado Gaza pelo rapto de um soldado, como não atacar o Sul do Líbano pelo rapto de dois soldados? Quanto ao Hizbollah, a aposta estava ganha à partida: se Israel não retaliasse poderiam gabar-se de ter provocado os seus inimigos e saído impunes; se Israel retaliasse estariam implicitamente a ser elevados ao estatuto de adversário militar de um estado e de um exército poderosos — e então bastaria aguentar para não perder. Numa guerra assimétrica, mais importante do que a assimetria de meios é a assimetria de objectivos.


Esta era, resumidamente, a minha leitura daquilo a que chamei as fraquezas de Israel. A primeira estava em ter-se tornado previsível e facilmente manipulável pelos seus inimigos. A segunda, pelo contrário, estava em correr atrás dos caprichos dos seus “amigos”, que pintavam este confronto menor como se fosse uma luta de “tudo ou nada” pela existência de Israel e espicaçavam os contendores gabando a invencibilidade do exército e o apoio maioritário do eleitorado israelita. Passado pouco mais de um mês, o que temos? O poder de contenção de Israel saiu severamente chamuscado. A opinião pública local procura descobrir os culpados pelo fracasso (“quem não deixou o exército ganhar”, uma desculpa velha e com alguns precedentes desagradáveis). À vilipendiada ONU coube a tarefa ingrata de aguentar o cessar-fogo — os EUA, que supostamente defendem Israel, nem podem pôr os pés naquela parte do mundo sem piorar a vida de toda a gente. A desprezada União Europeia paga a conta dos estragos que os outros fizeram. E os “amigos”, esses, esforçam-se por não reparar em nada disto e esperam discretamente pela próxima guerra.

E é já na próxima guerra que se fala. Segundo um artigo de Seymour Hersh numa New Yorker recente, a Guerra do Líbano seria apenas um ensaio militar para uma futura Guerra do Irão. A Casa Branca não desmentiu. Mesmo que o tivesse feito, é hoje bem mais seguro acreditar em Seymour Hersh, o homem que nos revelou a verdade sobre Abu Ghraib, do que em George W. Bush, o homem que nos mentiu sobre o Iraque. E segundo Seymour Hersh, o Pentágono sabia antecipadamente dos planos de Israel para atacar o Hizbollah na primeira oportunidade e experimentar armamento que pode no futuro ser útil contra os túneis das instalações militares do Irão, além de proporcionar uma espécie de pisadela nas pontas dos longos dedos que os iranianos têm no Sul do Líbano. A titânica “luta pela existência” de Israel teria sido afinal uma “guerra a pedido” dos EUA e uma cobrança por favores passados.

Talvez por me custar abandonar a minha primeira teoria, pergunto-me se não será isto uma tentativa de racionalizar a posteriori uma guerra absurda. Afinal, é nisto que jornalistas e intelectuais se especializam: procurar razões, e quando as não acham, imaginá-las. Para as mentes sistemáticas, de esquerda ou de direita, faz mais sentido uma razão qualquer — por mais perversa que seja — do que imaginar que as guerras se façam por motivos fúteis. E assim nascem e ganham livre curso teorias, do “Choque de Civilizações” à “Guerra pelo Petróleo”, que (não me entendam mal) algum fundo de verdade hão-de ter, até porque os próprios governantes e altos-funcionários são também mentes sistemáticas que precisam de arranjar razões plausíveis para os seus actos.

Para a Guerra do Iraque existem, a propósito, mil teorias — já incluindo as explicações de substituição de todos aqueles que disseram apoiar a guerra unicamente, note-se, por causa do arsenal de armas de destruição em massa de Saddam. Uma vez que essa única razão invocada para a guerra é precisamente aquela que não vale um caracol, todas as outras fazem um trabalho excelente para explicar a Guerra do Iraque de acordo com uma grelha de análise bem desenhada. Mas depois chegam relatos “dos bastidores” (estou a pensar no de Michael R. Gordon, editor militar do New York Times, e do general Bernard E. Trainor, que ouvi no podcast do Council on Foreign Relations) e fica-se confundido pelas motivações mesquinhas, as ilusões de grandeza, os orgulhos feridos, as carreiras fulgurantes e as reputações brilhantes que se põem na balança para exigir uma guerra. Em princípio, as democracias deveriam ser menos vulneráveis à irracionalidade dos seus dirigentes. Mas como vimos nos últimos anos, pode vender-se uma guerra contra a vontade da maioria, desde que se insista o suficiente.

O resultado destas informações contraditórias é fazer-nos ficar naquele estado de indecisão ou hesitação filosófica a que os antigos chamavam aporia. Como não faço disto profissão, a aporia não me incomoda: posso, ao ler os jornais, ficar convencido de que as guerras se explicam todas por uma linear equação geoestratégica e mais tarde, antes de dormir, chegar à conclusão de que os políticos vão para a guerra simplesmente porque acham que a vitória está no papo.

Algures no meio deste nevoeiro está a resposta para a pergunta do cofre: vai ou não haver guerra com o Irão? Se os estados forem entidades racionais, nada o aconselha: as consequências serão terríveis e o mais certo é os objectivos não serem alcançados. Mas se imaginarmos, entre milhentas outras causas igualmente pueris, que Bush não deseja ficar na história apenas pelo fracasso do Iraque e pode ver-se tentado a cobrir as perdas com mais um episódio da luta entre o Bem e o Mal… aí talvez não cheguemos a pregar olho.

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