Destino à cidade feliz

[da coluna “Svengali”, na Blitz de Junho 2007]

Está para acontecer. Na verdade, talvez já tenha acontecido. Pela primeira vez na história da humanidade, este é o primeiro ano em que mais humanos viverão em cidades do que no campo.

Não estamos no fim nem no princípio; estamos no meio de uma revolução. Mas é uma revolução lenta. Talvez tenha começado há quatro mil anos atrás, quando as cidades da Mesopotâmia e do Egipto juntaram escrita e poder, embora as escavações de Çatalhüyük na Turquia tenham encontrado uma cidade com mais de dez mil anos. Um momento decisivo foi quando as cidades gregas se dotaram de constituições e auto-governo e inventaram a política. Quero mesmo dizer que inventaram a política. Antes havia poder, mas não política, que é (por assim dizer) outra disciplina. Resultado: sempre que falamos de política, estamos a repetir a palavra grega para cidade-estado, polis. Mesmo que falemos da política de uma vastidão como a Rússia ou a China ou o mundo inteiro, na verdade ainda é o nome das pequenas cidades-estado gregas que vamos buscar.

Claro que isto de chamar-lhes pequenas é uma maneira de falar. Ainda na Antiguidade houve uma cidade-estado chamada Roma que tanto cresceu que passou de um milhão de habitantes. Um milhão! Só no século XIX é que voltou a haver outra cidade com mais de um milhão: Londres. Claro que cada uma dessas cidades, com dois mil anos de intervalo, dominava um império que se estendia pelo mundo conhecido das épocas respectivas. E nesses impérios, como é evidente, a maior parte era campo – ou melhor – a maioria dos habitantes vivia no campo, que é uma maneira inteiramente diferente de viver.

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Mas o próprio império era, em desde logo, uma rede de cidades. E conforme se foi estendendo chegou à cidade que aqui me interessa. Era do lado ocidental da Hispânia, na foz do Tejo, e como era muito seu costume, os romanos baptizaram-na com mais de um nome. Na verdade, três nomes: Felicitas, Iulia, Olisippo. O último nome era o que a cidade já trazia não se sabe bem de quando e que hoje se diz Lisboa. O do meio era a consagração da cidade ao imperador. E o primeiro era o qualificativo. Lisboa era Felicitas, felicidade, como Évora era Liberalitas, generosidade. Lisboa era, em suma, a terra da felicidade.

Acho uma bela coincidência (para não dizer uma coincidência feliz…) que Lisboa vá ter eleições daqui a poucas semanas, no mesmo ano em que a maior parte da humanidade vai passar a viver em cidades. O mesmo aconteceu a Portugal ainda não há muito tempo, e agora somos – para o bem e para o mal – uma linha contínua de cidades que vai de Braga até Setúbal, e depois mais outra que acompanha a costa algarvia. Isto quer dizer que grande parte dos problemas do país passaram a ser problemas urbanos. E tal como a vida no tempo do campo era completamente diferente, a vida no tempo das cidades vai ser muito diferente. E uma vez que é assim talvez não fosse má ideia irmos pedir aos romanos, que sabiam da poda, se têm alguma grande sugestão para as eleições em Lisboa.

Por uma enorme sorte, a sugestão está no nome da cidade. Lisboa é suposto ser a terra da felicidade. Mas agora o que é que isso quer dizer?

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Que têm eleições a ver com felicidade e outras coisas agradáveis? Podemos dizer que sempre tiveram: aquela história do “bem comum” tem tudo a ver com evitar ao máximo as coisas desagradáveis (nunca haverá como evitar de todo) e maximizar as agradáveis. Num mundo em que a maioria vive nas cidades, tem tudo a ver com uma coisa: qualidade de vida.

Parece simples, mas não é. Tem sido muito discutido se há um direito à qualidade de vida ou não. Mesmo quando se concede que esse direito à qualidade de vida existe, pode considerar-se que ele não deve prevalecer sobre outros direitos. Deve o direito à qualidade de vida prevalecer sobre a liberdade de movimentos? Discutível. Mas na prática, quererá isso dizer que a liberdade de movimentos justifica entupir a cidade de carros? Ou pelo contrário significa que criar ruas pedonais é uma intolerável tirania do poder político? Devemos então recusar o princípio de fechar bairros ao trânsito? Se assim for, não estaremos a alimentar outra tirania que é a do carro sobre as pessoas?

Se há direito à qualidade de vida, será legítimo criar um bilhete único para todos os transportes públicos? Então e o direito à concorrência? Em suma: por detrás de cada uma destas questões prosaicas está política, a mesma política que vem dos gregos: o justo, a liberdade, o bem comum, a democracia. Essa política que nasceu nas cidades e que, agora que vivemos principalmente nas cidades, vai passar a ser cada vez mais sobre as cidades.

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Mas voltemos atrás. Mesmo que a qualidade de vida não seja um direito (já que ninguém me pergunta, evidentemente que é), a qualidade de vida é outra coisa: uma vantagem. Com a diluição das fronteiras e o regresso gradual das cidades-estado – Londres, mais uma vez, é aqui pioneira – as cidades concorrem globalmente. Umas concorrem com indústria, outras com infraestruturas, outras com cultura. Outras, com uma mistura de algumas destas coisas, que é a qualidade de vida. As cidades que a têm terão um futuro melhor, se a conseguirem manter. As que a conseguirem criar ou recuperar ganharão de duas formas: porque isso será bom para quem já vive nelas, e porque isso será manterá a cidade activa, procurada, desejada.

Lisboa tem aqui muito a ganhar, não porque os romanos a chamaram de “Felicitas”, mas porque ainda tem algumas das condições que talvez tenham inspirado os romanos a dar-lhe esse nome. Neste momento, contudo, é uma cidade cada vez mais asfixiada, mais desumana, mais passiva. É ainda belíssima, o que é óptimo para os turistas. Mas uma cidade que não é boa em primeiro lugar para os seus habitantes não é boa para mais ninguém. Lisboa tem que ser, em primeiro lugar, amada por quem nela vive.

A única boa notícia é que, como estamos no fundo, há muito caminho para recuperar. Começamos agora?

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