Desesperadamente procurando atenção

[do Público de ontem]

Esta semana Paulo Portas fará uma tentativa desesperada para que lhe dêem importância, e comentadores e analistas políticos dissertarão sobre que importância Paulo Portas tem. Até esta crónica, caro leitor, é o meu modesto contributo para a magna questão: trará Paulo Portas algo de novo?

Tal como todos os portugueses, por estes dias o leitor certamente espera com incontido frémito que Paulo Portas se decida sobre o seu futuro. A tensão se adensa, a dúvida nos dilacera, a incerteza é insuportável, já ninguém aguenta mais. Espere, mas não desespere: segundo o Expresso, Paulo Portas tem deixado passar as últimas três semanas à espera do momento certo para fazer “o” anúncio, mas há um pré-anúncio de que “o” anúncio será feito no fim desta semana, e um pré-pré-anúncio de que “o” anúncio consistirá no regresso de Paulo Portas à liderança do CDS/PP, logo que se proporcionar. O que deixa a questão de saber para que é preciso anunciar algo que toda a gente já sabe.

Os últimos dois anos foram duros para Paulo Portas.


Claro que pôde ir mais ao cinema e fazer as coisas que trazem felicidade às pessoas comuns. Mas lá no fundo, porém, algo lhe negava consolo. Paulo Portas era irrelevante. Muito. O que é quase uma contradição nos termos, principalmente quando se tem o seu próprio programa de televisão. De quinze em quinze dias, mergulhado num estúdio que era um cruzamento entre aquário e bolo de casamento, Paulo Portas esticava o indicador, arremelgava os olhos e às vezes deixava escapar do canto da boca aquele sorrisinho, sinal sempre certo de que se prepara para fazer uma maldade a alguém. O que dizia exactamente? Ninguém sabe, ou se lembra. Talvez o som do televisor estivesse desligado: parecia um político sequestrado por extraterrestres.

Esta semana Paulo Portas fará uma tentativa desesperada para que lhe dêem importância, e comentadores e analistas políticos dissertarão sobre que importância Paulo Portas tem. Até esta crónica, caro leitor, é o meu modesto contributo para a magna questão: trará Paulo Portas algo de novo?

A resposta é fácil: Paulo Portas traz sempre algo de novo. O problema, aliás, é que já não há nisso qualquer novidade. Do euro-cepticismo ao euro-calmismo, do luso-gaullismo ao neo-conservadorismo, do populismo ao estadismo, Paulo Portas passou a vida redescobrindo em que coisas novas quereria tornar-se e apresentar aos nativos como se fossem absolutamente inéditas. Ainda há por aí, perdida nas catacumbas da internet, uma gravação dos anos 90 em que Paulo Portas garante que nunca seria “ministro do Mar”, precisamente aquilo em que viria a tornar-se, para enorme surpresa sua, naquela inesquecível tarde em que tomou posse no governo de Santana Lopes como corresponsável pela maior tragicomédia jamais encenada no governo deste país.

A passagem de Paulo Portas pelo governo foi inútil quando não foi irresponsável. Pretenderá agora ser a “verdadeira” oposição a Sócrates, mas sempre com um olho numa aliança com o mesmo Sócrates, caso este não obtenha a maioria absoluta em 2009.

Mas para isso, lá terá outra vez de tomar posse do CDS/PP. Lá terá de enxotar o actual locatário, um sujeito apagado que rapidamente se vergará à realidade de que o coração do partido a Paulo Portas pertence. Assim está escrito. Por puro entretenimento, seria até interessante que Ribeiro e Castro não tivesse lido o guião e decidisse vender caro o orgulho. Não que isso conte para alguma coisa.

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