Derrotados e indecorosos

[Público 16 julho 2007]

O eleitorado foi claro: “ajudem” na oposição.

A direita é a derrotada das eleições em Lisboa. Foi uma derrota feita de mediocridade e ligeireza. Carmona Rodrigues é o símbolo desse descalabro, até na forma como finge que não é nada com ele e se oferece para governar.

Com um sexto dos votos, os comparsas de Carmona festejaram a sua vingança sobre o PSD com tal profissionalismo que, passado alguns minutos, os jornalistas lá na sede já perguntavam a Gabriela Seara o que achavam da “vitória” da candidatura e chamava a Carmona “o grande vencedor da noite”. Os apoiantes gritaram “vitória”. Mas qual vitória?


Provavelmente, a vitória da falta de matemática e de decoro. Há dois anos, Carmona Rodrigues e o PSD tiveram juntos 42% dos votos. Hoje, mesmo juntando os votos de Carmona e do PSD, pouco passariam dos 30%. Mas não se pode juntar estes votos, não é verdade? Carmona encarregou-se disso: envergonhou Lisboa e a sua Câmara Municipal; mergulhou-a em suspeições, favoritismos e velhacarias; destruiu o PSD na capital; está ainda amarrado a processos judiciais. Dois anos bastaram para descer de presidente eleito com 42% para candidato derrotado com apenas um sexto dos votos.

Carmona, no entanto, falou de resultado histórico e disponibilizou-se para “ajudar”. Fontão de Carvalho, ex-vereador das Finanças de toda a gente; Pedro Feist, ex-vereador das finanças, ex-CDS e ex-PSD; Gabriela Seara — todos falaram em “contribuir para a governação” e “cumprir tarefas”. Ninguém duvida que Carmona e os seus vereadores colocariam ao serviço do PS os mesmos talentos que usaram com o PSD, envenenando a próxima vereação com a sua incompetência, os seus processos pendentes e o seu despudor agora em roda livre — sem sequer um partido para lhes retirar a confiança política. O eleitorado foi claro: “ajudem” na oposição.

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A restante direita foi mais digna, embora desnorteada. Os seus comentadores justificavam a derrota falando da abstenção, como se apenas os eleitores de direita fossem de férias em Julho. A abstenção, meus caros amigos, não nasce do acaso: com esta espécie de candidatos, é mais do que natural que os vossos eleitores se abstenham, e se abstenham mais do que os da esquerda. Apresentar candidatos medíocres é sinal de que não se compreende a importância do que está em jogo. Acima de tudo, é uma falta de respeito pelos eleitores. Não se queixem do resultado.

Juntando todos os votos, a direita tem pouco mais de um terço do eleitorado na capital do país. É um resultado trágico, até quando comparado com as anteriores tragédias: PSD e CDS tiveram 37% nas europeias e 36% nas legislativas com Pedro Santana Lopes. O CDS não merece mais do que uma frase: perde o seu vereador e tem de contentar-se com cerca de metade dos votos do Bloco de Esquerda. Já o PSD sofreu uma derrota amarga que coloca Marques Mendes à mercê dos seus adversários internos. Essa diversão vai desviar a atenção das razões mais fundas desta derrota.

Entretanto, Pacheco Pereira bem tentou alegar que António Costa teve uma vitória fraca. Vejamos então se nos entendemos: António Costa fez o PS subir de 26% para 30%, mesmo tendo ao lado a candidatura de Helena Roseta com mais de 10%. Simplesmente, a esquerda conseguiu arranjar espaço para que quatro candidaturas se apresentassem e tivessem sucesso. Foi assim que a esquerda ganhou, ponto final parágrafo.

A próxima crónica será sobre as responsabilidades desta vitória.

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