Da politicagem à política

[Público, 11 junho 2008]

 

A rivalidade entre lideranças da esquerda portuguesa tem, costuma dizer-se, raízes históricas. Talvez seja, mas a verdade é que a manutenção da rivalidade tem sido do interesse dessas lideranças.

 

Em tudo aquilo que um político faz há sempre uma parte de “politicagem” — prático brasileirismo que designa as manobras de curto prazo contra rivais, adversários e às vezes companheiros de partido. O ritmo do ciclo noticioso dá mais atenção à politicagem do que à política, e mais atenção a alguns efeitos da politicagem do que a outros. Foi assim que na semana passada, quando Manuel Alegre participou num comício do Bloco de Esquerda, o efeito imediato foi pensar na irritação que isso provocaria a José Sócrates — o que foi favorecido pelas reacções de dois políticos que devem pouco à subtileza, Vitalino Canas e José Lello.

 

Menosprezou-se o efeito sobre os outros partidos da oposição. O PSD acabara de eleger o seu líder, pela primeira vez uma mulher, Manuela Ferreira Leite. Três dias depois, de que se falava? A agenda jornalística oscilou completamente para a esquerda do PS, esvaziando o fôlego que o PSD trazia do seu debate interno. E atenção: nas próximas eleições vai haver um eleitorado flutuante que o PSD vai ter de disputar com a oposição à esquerda do PS — e neste momento, as sondagens dão ao PSD pouca distância sobre o conjunto PCP+BE.

 

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Mas há um aspecto de política (por oposto a politicagem) que dá relevância de longo prazo àquele evento. Agora que passou algum tempo, demos-lhe a devida importância.

 

A rivalidade entre lideranças da esquerda portuguesa tem, costuma dizer-se, raízes históricas. Talvez seja, mas a verdade é que a manutenção da rivalidade tem sido do interesse dessas lideranças, que para segurar votos apresentam as respectivas diferenças como inultrapassáveis. À esquerda do PS, por exemplo, faz-se sempre um grande alarido à volta dos “desvios de direita” do governo. Não é que eles não existam: mas o alarido serve para disfarçar as mudanças por que passaram os próprios desde os tempos em que defendiam a colectivização revolucionária.

 

A verdadinha é que toda a gente é hoje mais ou menos reformista e social-democrata. Na mente do povo de esquerda, que é uma porção considerável do eleitorado, está acima de tudo: equidade e justiça, qualidade dos serviços públicos, protecção social na saúde e na velhice, aposta na educação. Este povo de esquerda português (ao qual — já agora — me orgulho de pertencer) quer ver estes temas no centro do debate político. As linhas de fractura partidária e as rivalidades entre lideranças dizem-nos pouco, às vezes nada. A imagem do país que gostaríamos de ter, e do papel activo que toda a esquerda deve ter nele, dizem-nos muito mais.

 

Não há, ainda, um discurso articulado de combate às desigualdades. Manuel Alegre e o Bloco estiveram longe de o apresentar. Mas refutaram ao menos o preconceito de que não podiam falar em conjunto. Serão premiados por isso — o que dará às outras lideranças a lição de que a abertura compensa. O problema é que, a seguir, deixam de ter pretextos para continuar a não falar. Até porque, esquecendo as lideranças, há outras iniciativas na calha: o povo de esquerda quer mais.

 

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O Presidente da República tem a obrigação de ser rigoroso quando fala e de pedir desculpas quando falha. Mais vergonhoso do que enganar-se no nome de um feriado é não admitir comentar e corrigir o erro. Ontem não foi dia de lembrar a “raça”, como disse Cavaco Silva com encantadora ignorância. Ontem comemorou-se o Dia de Portugal, no aniversário da morte de Luís de Camões, sozinho e abandonado por todos, menos por um estrangeiro da ilha de Java, que era o seu mais fiel amigo. Onde estava então a “raça” portuguesa?

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