[do Público de 30 setembro 2006]
Antes de saber se as civilizações podem chocar ou devem dialogar, é preciso ver bem se esta história de dividir as pessoas por civilizações faz sentido.
A semana passada, ao escrever sobre o discurso de Ratzinger em Ratisbona, lembrei aquela banalidade segundo a qual não é necessário concordar com o conteúdo de um texto para se defender o seu direito à liberdade de expressão. No entanto, há muito quem exija uma carta branca para Ratzinger só pelo simples facto de ele ter sido atacado. Não se deve discordar de Ratzinger, dizem, porque devemos estar todos unidos escrevendo corajosos panfletos contra os malvados dos fanáticos religiosos… muçulmanos. Isto quando Ratzinger, no seu discurso, passava mais tempo a atacar as liberdades modernas do que a defendê-las. Penso então que deveria antes ter lembrado o seguinte corolário: um texto não passa a ser consensual, nem muito menos uma brilhante defesa da liberdade, pelo simples facto de ter sido atacado “pelo outro lado”.
Isto faz lembrar aquele momento dos filmes em que o herói luta contra os mauzões que estão à sua frente, sem reparar que nas suas costas surge um tipo empunhando uma garrafa de whisky já destinada a escaqueirar-se-lhe na moleira. É aí que a mocinha, que estava desmaiada cinco segundos antes, grita: cuidado, aí atrás!
Guardem esta imagem.
A notícia triste da semana é o cancelamento da ópera Idomeneo, de Mozart, na Ópera Alemã de Berlim, por preocupações de segurança com o potencial ofensivo de uma cena em que apareciam as cabeças cortadas de Maomé, Cristo, Buda e Poseídon. Terá talvez havido uma ameaça de bomba, ou outros sinais credíveis que levaram a directora do teatro a temer pela segurança de artistas e público. Neste momento discute-se a reprogramação da obra de Mozart (que não incluía a dita cena no original), mas com toda esta publicidade é incerto garantir que a segurança seja agora maior.
Na semana passada escrevi que, para lá do inviolável direito à livre expressão, não deveríamos nunca deixar de colocar a questão de se quando um líder político ou religioso fala está à altura das suas responsabilidades públicas, ou seja, se desempenha bem o seu trabalho. Valerá a mesma consideração para toda a gente e, nomeadamente, para os artistas?
Certamente que sim, mas as responsabilidades não são as mesmas. A única responsabilidade de um artista é fazer arte. E o seu trabalho, bem desempenhado, inclui comover-nos, assustar-nos, divertir-nos e — isto é essencial — ofender-nos. É para isso que lhes pagamos, literalmente, através da compra do ingresso ou do pagamento do subsídio. Para que nos possam ofender (ou alegrar, ou irritar) em segurança, porque isso é importante para nós enquanto a comunidade.
A arte deve ter a liberdade de nos ofender, e o público de se sentir ofendido, desde que de forma não-violenta.
Um caso interessante é o da peça Maomé, ou O Fanatismo, de Voltaire, cuja exibição tem sido complicada ou cancelada por protestos e medos semelhantes. Os muçulmanos devotos sentem-se ofendidos por ela, o que é suficiente para agradar aos anti-muçulmanos de serviço. Uns e outros desconhecem a história dessa peça.
No início da década de 1740, Voltaire já estava chamuscado com a igreja católica. Vendo que então (como agora) era mais fácil atacar os muçulmanos do que os poderosos, fez correr o rumor de que compensaria os seus pecados com uma peça contra os infiéis. A estreia foi um sucesso e os devotos ficaram deliciados até que um bispo mais desconfiado concluiu que tudo o que na peça se dizia sobre o fanatismo muçulmano era para aplicar ao catolicismo. Como é evidente, Voltaire não escrevia para converter muçulmanos, que não vinham às suas peças, mas para instilar uma desconfiança da religião organizada entre os franceses. Durante dez anos, a peça foi sendo proibida de forma intermitente, enquanto sucessivos censores coçavam a cabeça para perceber se o texto era anti-muçulmano ou anti-católico, anti-religião ou anti-devoção.
A Igreja de França estava tão distraída na sua oposição aos muçulmanos que não viu Voltaire chegar por trás, de peça na mão.
Como antes, o “caso Idomeneo” fez surgir uma série de propostas, umas mais bem intencionada do que outras: além do célebre “choque de civilizações” (de Huntington) e do “diálogo de civilizações” (de Ratzinger e outros), temos agora “o pacto de não-agressão” (proposto por Saramago) que pretende colmatar as falhas da “aliança de civilizações” (de Zapatero). Modestamente, devo dizer que estão todos errados. Felizmente, também tenho um prémio Nobel do meu lado, o indiano Amartya Sen, que diz o seguinte: antes de saber se as civilizações podem chocar ou devem dialogar, é preciso ver bem se esta história de dividir as pessoas por civilizações faz sentido.
Quem choca ou dialoga não são civilizações mas indivíduos. Ora bem, enquanto os oportunistas desejam a guerra entre civilizações e os restantes se assustam com ela, o que está a acontecer aos indivíduos? Façamos como Voltaire e olhemos primeiro para “nós”. Estamos em “guerra contra o terrorismo”, mas a própria guerra tem feito aumentar o terrorismo (últimos rendidos à evidência: os dezasseis serviços secretos americanos, num memorando recente). Mais ainda do que o terrorismo, aumenta o medo do terrorismo. Com o medo do terrorismo, diminuem as liberdades individuais (António Vitorino, aqui há uns tempos, já se perguntava na TV “como preservar um mínimo de liberdade”; pensava eu que a questão era como preservar um máximo de liberdade).
Da privacidade na internet, nos telefones e nos telemóveis não vale a pena falar, porque não existe. Mas há pior. Os EUA já não se contentam em interpretar a Convenção de Genebra a seu bel-prazer; repudiam-na com todo o descaramento. E se os EUA podem torturar, por que não os outros? Há prisões conhecidas com humanos sem direitos, e prisões secretas ninguém sabe com quê. Ralf Dahrendorf elenca estas e outras misérias num texto em que chama a Blair e Bush representantes de um “Novo Autoritarismo” (está disponível, numa tradução de Ivan Nunes, em http://ruitavares.weblog.com.pt). Vale a pena lembrar que Dahrendorf é um centrista e liberal que a nossa direita outrora nos servia em doses diárias; agora parecem ter-se esquecido dele, talvez porque escreva coisas assim: “a democracia e o estado de direito sofreram um golpe muito mais sério às mãos dos seus defensores do que dos seus atacantes”.
Estamos, pois, muito empenhados na “guerra ao terrorismo” e no “choque de civilizações”. Tão empenhados, que nem olhamos para trás.






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