Correcto, correto, korreto

[Público 11 dezembro 2007]

Meus amigos, não há nada de errado em a ortografia ser uma norma “artificial”: é para isso que ela existe.

Há talvez quinze anos que se discute o novo acordo ortográfico da língua portuguesa e eu continuo a ouvir dizer que deveríamos respeitar a ortografia “natural” de cada país. O que isto tem de extraordinário é as pessoas acreditarem que a ortografia é “natural”. Pois bem, não só a ortografia não é “natural” como a intenção é precisamente a de não acompanhar a naturalidade com que se fala. Se assim fosse, os portuenses escreveriam “Puârto” e os lisboetas “Ljboa”. Os cariocas não escreveriam “boa noite” mas “boa noitchi”. Meus amigos, não há nada de errado em a ortografia ser uma norma “artificial”: é para isso que ela existe.

Depois há quem se escandalize por os governos poderem legislar sobre a língua e ache isso fonte de totalitarismo. Vamos lá ver: o que me acontece se eu escrever “pharmacia”? Alguém me multa? Alguém me prende? Não, porque a ortografia oficial serve em primeiro lugar para se usar em documentos oficiais. Certamente expandir-se-á para outros usos, por inércia ou pragmatismo, mas que tem isso de mal? Fernando Pessoa continuou a escrever “monarchia” em vez de “monarquia” muito depois da reforma de 1911 e não veio daí mal ao mundo. Tal como na blogosfera já existem portugueses (e galegos) a escrever segundo o futuro acordo antes de ele entrar em vigor. Os rappers kontinuarão a eskrever koisas kom a letra “k”. E isso tudo será óptimo. Porém, ninguém pode achar estranho que os governos adoptem uma ortografia oficial (em Espanha é a da Real Academia). E se for comum a todos os países lusófonos, tanto melhor.

***

Mas há mais: depois de se escandalizarem com o acordo ortográfico por ser terrivelmente megalómano, os seus críticos ridicularizam-no por ser muito modesto. O acordo vai ser inútil, alegam, porque não vai mudar a maneira como os brasileiros e os portugueses escrevem ou falam, nem as diferentes expressões e vocabulário que usam. Mas claro que não vai mudar! Até porque isso, lembram-se?, seria terrivelmente megalómano. Ninguém pretende obrigar brasileiros, portugueses e timorenses a usar as mesmas palavras com o mesmo significado: isso não é ortografia. Um acordo ortográfico diz respeito à maneira como as coisas se escrevem. Os significados desenrascam-se sozinhos — como é hábito deles.

Falhando tudo o resto, vem o argumento proteccionista: que o acordo ortográfico vai permitir aos brasileiros entrar no mercado dos livros escolares em África, por exemplo, porque as editoras portuguesas não tiveram tempo de se adaptar.

Ora eu nem faço um tabu do proteccionismo, mas que raio de argumento é este? Se queremos adoptar medidas proteccionistas, adoptemo-las. Por exemplo: as editoras brasileiras não podem ter mais de trinta por cento detidos por estrangeiros. Mas se não desejamos introduzir medidas assumidamente proteccionistas, não desçamos então à hipocrisia de inventar pretextos pseudo-proteccionistas.

Para mais, se a África lusófona, que precisa de livros e alfabetização, for inundada de edições brasileiras baratas numa ortografia comum, isso é bom para os africanos em primeiro lugar, e eu fico contente por eles. E se as editoras portuguesas, que aliás são cada vez mais detidas por espanhóis, não tiveram tempo para se adaptar a um acordo ortográfico que há quinze anos se sabe que vem aí, então estamos pior do que eu pensava.

6 Respostas a “Correcto, correto, korreto”


  • Não, para mim não está lá muito korreto nem sequer correto. E não se trata de escrita ‘natural’, toda a escrita é arbitrária e serve apenas para representar graficamente a fala. Ou serviu, a nossa já se afastou muito da fonética. No entanto, há uma história, uma etimologia e não vou ter bom perder quando a grafia se alterar. Custa-me que se perca a raíz ainda comum às outras línguas nossas primas, o francês, o espanhol, algum vocabulário inglês e alemão, etc. e que permite muitas vezes deduzir o sentido das palavras por analogia com a nossa língua.
    Só não faço como o Pessoa porque profissionalmente me está vedado.

  • Eu compreendo perfeitamente o que ele (o rui) está a dizer: A nossa cultura sai a ganhar com um contacto muito mais directo (direto) com essas culturas, nossas irmãs. Porque a ortografia é uma marca cultural – no brasil muito mais pragmática, dada a promiscuidade com a língua inglesa. Agora, confesso, o meu primeiro instinto foi de repulsa: ação, ator, então porque não “istória, omen”? omo? omo-sexual lava mais branco ? não, não concordo com isto. É anti-natural!

  • discordo um pouco dos colegas. durante muito tempo as ortografia das duas principais nacoes lusófonas manharam distantes e isto fez com que as duas línguas quases ficassem desfiguradas. Somente quase no meio do sec 20 que se começou a tentar unificar a ortografia.
    nao se trata de uma tentar mandar na outra. apenas de tentar unificar. de qualquer maneira, muitas palavras ainda ficarão com 2 alternativas. mas é óbvio que as pessoas pouco a pouco mudaram o seu modo de escrever. se o fernando pessoa continuou a escrever monarchia, isso foi pq ele viveu na transiçao, mas desconheco UM BRASILEIRO PORTUGUES, ou o diabo SEQUER que atualmente escreva assim! lógico q vai pegar, e as pessoas, especialmente que lidam coma lingua oficial vao ter que sentar novamente para estudar um pouco. a lingua é dinâmica e acho q o acordo traz mais vantagens do que desvantagens. pode ser que num futuro proximo brasileiro, portugueses, timorenses, africanos nao falem mais a mesma lingua nem se entendam mais entre si (se é bom ou ruim eu nao sei, mas será um processo natural, se ocorrer). mas pode ser que com os meios de comunicacao cada vez mais poderosos as pessoas passem a falar cada vez mais parecido (tb sem nenhum julgamento se é bom ou ruim). o fato é q com um numero cada vez maior de pessoas alfabetizadas e com os grandes meios de comunicaçao, foi possível “aprisionar” a norma culta, perpetuando-a. pq nao padronizá-la tb para que esse intercambio se facilite sem preconceitos!?

  • NAO LI O SEU TEXTO SO QUERO SABER SE VC É O COISARUIM SE FOR PLESE,ENTRA EM CONTATO COMIGO,NAO SEI ESCREVER E NEM PORTUGUES DIREITO, MAS PRECISO FALAR COM YOU OK. THANKS VERY MUCH ANNE.

  • “. In today’s modern “mobile” world of internet savvy travellers, packing for a trip abroad is no longer just about suntan lotion and a great book, it is all about the travel gadgets. For any antivirus program to truly be effective, it must offer real-time protection to ensure that threats are dealt with before they have a chance to cause a real problem.

  • Anne por favor me telefona: 92896452. Quero fazer amor com você.

Deixar comentário