Consultório sentimental

Perguntas de Luís M. Jorge, Z. Alves da Costa e Rodrigo Adão da Fonseca.

1. Luís M. Jorge pergunta: “quem distingue hoje em dia o Rui Tavares de um socialista com cartão e quotas em dia?

Este é o tipo de pergunta para um gajo protestar já aqui a sua independência. Eu aproveito para dizer que a maneira como as pessoas usam a sua independência, pelo menos em Portugal, é mais ou menos como as moças de antigamente usavam a castidade. Mais produtivo, penso eu, é usar a liberdade. O que me distingue, por exemplo, de um amigo como o Pedro Adão e Silva — militante do PS com cartão e quotas em dia — ou de um grande amigo como o Daniel Oliveira — militante do BE com cartão e quotas em dia? Sendo que qualquer deles tem muitas qualidades que eu não tenho, distingue-nos facilmente quem perceber que eles usaram a liberdade de entrar num partido como eu usei a de não entrar. E liberdade nunca é vergonha. [Sim eu sei: a pergunta vem no quadro de um post sobre a magna questão de se o PS e o BE se devem aproximar, e se isso significará a absorção do BE pelo PS. Enquanto gajo que já votou nesses dois partidos e que vê vantagens numa governação à esquerda, passo boa parte das minhas conversas com gente do BE desdiabolizando o PS e vice-versa. Já escrevi inúmeras vezes sobre o assunto e não vejo nada de chocante nele: prefiro que o PS não tenha a maioria absoluta, acho que o BE tem de servir para mudar as coisas e acho que o país tem a ganhar com um governo de ambos — e não teria mesmo nada a perder se entrasse também o PCP, no qual nunca votei a não ser em coligações municipais. Para mais, a irritação que essa aproximação causa em todos os conservadores de esquerda e de direita é para mim uma razão a mais, um pouco fútil confesso. Enfim, os tabus são para quebrar. Mas o contexto é tudo — e eu posso vir a mudar de opinião.]

2. Z. Alves da Costa pergunta: «já agora, o RT podia também pronunciar-se sobre o caso Baptista Bastos, esse eminente ideólogo e moralista “de esquerda”, que, interrogado pelo “Expresso” sobre o facto de viver há 14 anos numa casa da Câmara cedida pelo Jorge Sampaio, respondeu: “Não há aqui prendas”.»

Se está mesmo empenhado em saber, compre o Público de amanhã e leia a crónica da última página.

3. Last but not least, uma resposta para Rodrigo Adão da Fonseca, para ver se o rapaz me tira finalmente da cabeça. Pergunta ele, num post escrito com os seus característicos bons modos: «estás ou não indignado com as pressões levadas a cabo por José Sócrates e pelo seu gabinete, relatadas pela ERC, ao accionista do Público e à sua direcção?».

Isto já vem de trás, pois Rodrigo Adão da Fonseca defendeu (o que lhe ficou muito bem) que não era do interesse da SONAE pagar dinheiro para “dar voz a um radical” como eu no Público. Mas porque os desejos de Rodrigo Adão da Fonseca são ordens, devo agora ficar indignado. Pois bem: estou indignado. Ao passo que a incitação à censura por parte de um leitor como Rodrigo Adão da Fonseca é legítima (de mau gosto, frívola e pouco inteligente — mas legítima), uma sugestão com intuitos editoriais por parte do poder político invocando o detentor económico de um título de imprensa nunca é legítima. Temos apenas um testemunho, o caso foi apreciado por quem de direito, eu não sou actor no assunto nem tenho dados adicionais, mas aqui tem a posição de princípio. A sua sugestão deixa-me apenas divertido por haver gente assim na blogosfera e no mundo. Uma pressão como a descrita acima deixa-me indignado.

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