Confesso que pequei

[Público 20 junho 2007]

O velho Bolkonski era um homem do século XVIII: gabava-se de nunca ter tido um momento inútil na sua vida.

Plagiei o título da minha última crónica – “As Paixões e os Interesses” – a um livro de 1977. Se ninguém mo levou a mal, contudo, é porque as pessoas que poderiam ter dado conta estão provavelmente na mesma posição que eu: gratos ao autor do livro e condenados a repetir de vez em quando algum dos seus achados.

Cheguei a As Paixões e os Interesses por causa de um curioso problema de história literária que encontrei há uns anos. Se hoje perguntarmos a alguém porque gosta de um livro ou de um filme, a resposta comum é: acho interessante. Ora acontece que no século XVIII ninguém daria esta resposta. A justificação aceitável seria que determinado livro é “útil” ou no mínimo “curioso” (que na época poderia quase significar “prático”). “Interessante”, nunca. Raras vezes se encontra a palavra naquela época, e quando se encontra é num sentido diferente do que utilizamos hoje.

É evidente que também há 250 anos as pessoas liam livros por interesse.


Mas as justificações que damos para os nossos actos, e quais delas são ou não aceitáveis, são importantes. E dizem-nos muito sobre uma sociedade. Dizer, no século XVIII, que um livro não era útil ou curioso equivaleria a uma condenação. Dizer hoje que um livro é pouco interessante serve para o mesmo. A explicação egoísta que era inaceitável antes é agora a mais usual. Isto significa coisas muito diferentes a diversos níveis, desde a forma de entender a cultura à maneira de melhor utilizar (ou desperdiçar) o nosso tempo de vida disponível. O velho Bolkonski, uma das personagens secundárias de Guerra e Paz (já agora: um título que Tolstoi plagiou a Proudhon), era um homem do século XVIII: gabava-se de nunca ter tido um momento inútil na sua vida. Para ele, a inutilidade era coisa do diabo; ler um livro por ser “interessante” seria pecaminoso – e coisa de mulheres, o que dava no mesmo. Para os reaccionários de ontem ou de hoje, à direita e à esquerda, a despreocupação, a falta de propósito e o hedonismo continuam a ser pecado.

Foi então, já não sei como, que fui dar com um livro escrito por um economista, Albert O. Hirschman, cujo título era As Paixões e os Interesses, e no qual em pouco mais de cem páginas se aprendia como as paixões foram deixando lentamente de ser vistas como elementos descontrolados e perniciosos do ser humano. O interesse-próprio, em particular, sofrera uma enorme evolução. Em tempos fora visto como um primo da cupidez e da avareza mas fora ganhando valores positivos até ao momento em que o lugar-comum é dizer-se que “se cada um for perseguindo os seus interesses a sociedade ganha como um todo”. Como o termo “interesse” quer também dizer “juro” e “lucro”, outras coisas vieram agarradas a esta evolução e possibilitaram, nas palavras do autor, o “triunfo do capitalismo”. Veja-se a diferença entre Jesus expulsando os vendilhões do templo e as novas igrejas onde os fiéis pedem a Jesus que lhes dê sucesso profissional e financeiro.

Por um lado, o interesse-próprio é uma arma contra a preguiça e apatia. Mas paradoxalmente passa também a ser uma justificação aceitável para actos preguiçosos, como ler um livro que não tem qualquer utilidade. Consequências opostas da mesma evolução, que Albert Hirschman dava a perceber com enorme talento para a maleabilidade das palavras e das justificações que elas sustentam. E assim sucedeu que um livro de um economista me ajudou a entender um problema de história literária, o que foi ao mesmo tempo de uma grande utilidade e muito interessante. Dedico-lhe uma crónica, talvez inútil para os leitores. E faço-o não para expiar um pecadilho (que cometi tanto por interesse como por amor) mas para retribuir. Está publicado em português pela editora Bizâncio.

4 Respostas a “Confesso que pequei”


  • Por acaso reparei; uso bastante o Hirschman nas aulas de psicologia social, tenho também o Auto-Subversão e a Retórica da Intransigência ( contra a argumentação conservadora, como você bem sabe).Pareceu-me no entanto que você faz uma interpretaçõ criativa: os interesses são menos funestos do que as paixões…

    Cumprimentos,
    FNV
    PS: tenho gostado dos seus textos sobre Lisboa

  • O autor do livro «O Mistério Colombo Revelado» quer agora promover uma Regata desde o Novo Mundo até Lisboa seguindo as pegadas de Colombo:
    http://www.colombo.bz/events_novidades.htm
    daqui a pouco todo o mundo saberá que foi para Lisboa que o descobridor se dirigiu com as novas e não para Espanha.

  • Your answer lifts the inlnctigeele of the debate.

  • That’s an expert answer to an interesting question

Deixar comentário