Como se pode ser Persa

[do Público de 26 de Agosto]

A ingénua francesinha não achava natural que houvesse mundo para lá dos salões da Tulherias ou de Versalhes, e também parece hoje a muitos impossível que se possa ser outra coisa que não ocidental.

Foi para desenjoar das maçadas que lhe dava o seu cargo no parlamento-tribunal de Bordéus que o jovem barão de Montesquieu começou a escrever às escondidas um divertimento literário. Imaginou primeiro um romance de tons exóticos, de preferência orientais, embrulhando nas entrelinhas uma sátira local, de preferência anti-parisiense. Chamou-lhe As Cartas Persas. Mas ao escrevê-lo acabou por descobrir uma fórmula de tal sucesso que durante o resto do século XVIII ninguém se cansou de o imitar: um romance epistolar que tinha uma mistura, em partes quase iguais, de filosofia e erotismo. A Europa cristã estava sedenta de ambas as coisas e quando o livro saiu, em 1721, o sucesso e o escândalo vieram também em doses iguais. Uma das personagens tinha o descaramento de escrever nas suas cartas que a Europa tinha um “grande mágico chamado Papa que faz crer às pessoas que três são apenas um, que o pão que se come não é realmente pão, e que o vinho não é realmente vinho”. Perante os protestos dos católicos, Montesquieu justificou-se dizendo que se as suas personagens eram persas, forçoso era que pensassem como persas e não como cristãos. Ora se os cristãos chamavam feiticeiros aos aiatolas, não seria provável que fizessem coisa semelhante os persas? A resposta dava-a uma personagem do próprio romance, uma jovem francesa encontrada na Ópera ou num dos palácios reais: “Ai, senhor, que coisa mais extraordinária! Como se pode ser persa?”


Avancemos quase trezentos anos e veremos que, nos nossos dias, há gente que ainda não percebeu como se pode ser persa. A ingénua francesinha não achava natural que houvesse mundo para lá dos salões da Tulherias ou de Versalhes, e também parece hoje a muitos impossível que se possa ser outra coisa que não ocidental. Por sua vez, do outro lado há também gente a quem parece impossível que se possa ser — venha o diabo e escolha — judeu, ateu, ou até as duas coisas juntas. Isto surpreenderia pouco Montesquieu, cujo romance só não é hoje tratado de relativista, multiculturalista e outras coisas hediondas porque Montesquieu também escreveu, vinte anos depois, esse texto fundador da modernidade política que é O Espírito das Leis — e a alguns convém pouco lembrar que a cabeça de onde saiu a separação dos poderes é a mesma de onde se imaginou que os persas pensassem e agissem à sua maneira.

Porém, saber como se pode ser persa vai ser a grande questão dos próximos meses ou anos. Os Persas de Montesquieu e de tantos séculos antes são agora Iranianos (Irão é o nome que sempre deram ao seu país) e as suas raízes podem ser seguidas até aos Medos que há mais de 2500 anos eram os grandes rivais dos Gregos. Muitos iranianos pensarão aliás que pelo simples facto de poderem ser considerados parte de uma grande civilização têm direito a ser também uma potência regional e a tudo o que isso implica — nomeadamente ter armas nucleares. Outros olharão simplesmente em volta e chegarão à conclusão de que muitos dos seus vizinhos já têm essas armas: a Índia, o Paquistão, Israel, a Rússia, a China e os Estados Unidos (em submarinos e bases na região). Se eles têm, porque não nós? — eis como é possível que pense uma maioria de persas.

Os restantes de nós poderiam responder que não, por esta simples razão: depois, todos quererão o mesmo. Se o Irão tiver armas nucleares, é mais do que natural que os seus grandes rivais da Turquia as queiram ter. E se os Turcos as tiverem, os Árabes (do Egipto, da Arábia Saudita, ou de outro lugar) também não passarão sem elas. Aquilo de que menos precisamos é de um Médio Oriente com inimizades mortais e armas nucleares por todo o lado. E não só no Médio Oriente: a Argentina anunciou esta semana que deseja enriquecer urânio (para fins pacíficos). Como pode a Argentina fazê-lo sem que o Brasil volte a ter planos de conseguir um arsenal nuclear? Poderíamos ainda lembrar aos iranianos que foi precisamente para impedir este efeito de escalada que eles assinaram, juntamente com quase todos os estados do mundo, o Tratado de Não-Proliferação Nuclear [TPN].

Mas se formos Montesquieu por um momento e nos metermos na cabeça de um persa, de preferência um dos que está no poder, rapidamente chegaremos à conclusão de que três dos nossos vizinhos (o Paquistão, a Índia e Israel) têm armas nucleares e não assinaram o TPN. Lembraremos que os EUA invadiram os dois países com quem temos fronteiras mais extensas (o Afeganistão e o Iraque), que praticamente nos têm cercados e que nunca esconderam que nos querem derrubar. Olhando para o lado, veremos que mais vale ter armas e não ser invadido (como a Coreia do Norte) do que não tê-las e ser invadido à mesma (como o Iraque). E mais: rapidamente veremos que estamos na mó de cima. Se houver sanções económicas, o custo do petróleo subirá tanto que os outros sofrerão mais do que nós. Se nos atacarem, poderemos sempre retaliar no Iraque através da maioria xíita e no Norte de Israel através do Hizbollah. Para já, basta-nos ir dando para fora sinais equívocos e contraditórios. Os nossos rivais enfraqueceram-se com os seus próprios erros e fortaleceram-nos no nosso país; terão agora coragem para cobrir a aposta e bombardear, por exemplo, a Isfahan de onde saíram as personagens das Cartas Persas e onde agora vivem mais de dois milhões de seres humanos próximo de uma central nuclear?

Pensando em algo como isto, Montesquieu respondeu impecavelmente, dizendo que se soubesse de uma arma terrível para os inimigos do seu país não revelaria o segredo ao seu rei, “porque sou Homem antes de ser francês, e sou forçosamente Homem e francês apenas por acaso”. Infelizmente, a maior parte dos outros humanos não acha o mesmo, sejam eles Persas ou Americanos.

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