[Público 12 setembro 2007]
Afrontar os chineses é pois muito difícil, se estivermos a falar do governo da República Popular da China. Mas se os chineses em causa forem imigrantes lutando pela vida em Portugal já qualquer político de segunda categoria serve.
1. A partir de 1624 chegaram os primeiros europeus ao Tibete. Só por curiosidade: os nomes deles eram António de Andrade, Francisco de Azevedo, Estevão Cacela e João Cabral e quando escreveram para Portugal contaram que era então vivo o quinto Dalai Lama.
Hoje chega a Portugal o décimo-quarto Dalai Lama, líder no exílio dos tibetanos, Prémio Nobel da Paz. Ao contrário do que acontece por todo o mundo, o Ministro dos Negócios Estrangeiros já anunciou que o governo português não receberá o Dalai Lama “pelas razões que são conhecidas”. Uma vez que não especificou, presume-se que essas razões sejam o calculismo e a cobardia.
Num país que exigiu ao mundo coragem e respeito pela autodeterminação no caso de Timor Leste, isto é vergonhoso. No íntimo, todos os portugueses sabem disso. Bem vindo, Dalai Lama: mas perdoe-nos por estes ministros.
2. Afrontar os chineses é pois muito difícil, se estivermos a falar do governo da República Popular da China. Mas se os chineses em causa forem imigrantes lutando pela vida em Portugal já qualquer político de segunda categoria serve. Aqui há uns tempos foi Alberto João Jardim a insultar lojistas chineses e indianos. E agora é Maria José Nogueira Pinto, hipotética futura comissária da Câmara Municipal de Lisboa para a Baixa-Chiado, defendendo a expulsão das lojas chinesas da Baixa e a sua deslocação para uma Chinatown no Martim Moniz.
Serve este episódio como refutação para a opinião comum de que, ao nível local, não há diferenças políticas e basta saber “gerir” a cidade. Da última vez que a esquerda teve o poder em Lisboa, João Soares foi abordado para que se fizesse uma Chinatown na capital. A sua resposta foi que a cidade desejada pela esquerda não segregaria comerciantes pela sua nacionalidade e não os empurraria para ghettos.
A bola está agora em António Costa. A fronteira é clara: não foi a visão de Nogueira Pinto que ganhou as eleições há apenas dois meses. De que serve ser presidente em Lisboa para entregar a Baixa-Chiado, do Rossio ao Tejo, a uma czarina que não foi eleita, que está determinada a obedecer apenas a caprichos que não levou a votos, e que já desfez uma maioria na CML por uma discussão sobre nomeação de administradores?
3. Referindo-se ao meu texto de segunda-feira, Helena Matos começa assim: “Mais um parágrafo e Rui Tavares quase teria acabado a concluir que não fosse a administração norte-americana e o pesadelo do terrorismo estaria mais ou menos terminado”.
Tenho uma grande ideia para Helena Matos: da próxima vez que comentar um texto meu porque não partir das coisas que eu efectivamente escrevi em vez de fantasiar sobre as que eu quase poderia eventualmente se calhar ter escrito?
E que, acrescento eu, nunca poderia ter escrito. Pelo contrário, foi Bush e os neoconservadores quem apresentou esta “Guerra Global” como se o objectivo de extinguir o terrorismo fosse realizável e sustentou que a invasão do Iraque era a peça essencial da estratégia para o conseguir. O resultado foi o aumento do terrorismo no mundo, como documentavam os estudos aos quais – isso sim – eu tinha dedicado a minha coluna.
Helena Matos alega agora que a Guerra do Iraque não teve como questão essencial as armas que Saddam (por assim dizer) quase poderia talvez ter tido, nem sequer o combate ao terrorismo, mas sim fazer do Iraque qualquer coisa como a Coreia – suponho que do Sul – ou o Japão. Seis anos de predomínio neoconservador deram nisto: um mundo mais perigoso, politicamente mais maniqueísta, moralmente mais desonesto e intelectualmente mais pobre. É um triste legado.






Caro Rui Tavares,
Importa-se que transcreva(mos) algumas das suas crónicas no blogue SORUMBÁTICO?
Abraço
CMR
Vou seguindo os seus textos no Público e raras são as vezes em que não me revejo neles. Mas este merece-me a maior discordância pelas razões que a seguir explico.
Estou em crer que o governo português agiu bem pelas razões erradas, ou seja, que embora não devesse receber o Dalai-Lama porque tem a obrigação constitucional de se prestar à imparcialidade religiosa, o governo não o recebeu por cobardia e calculismo como referiu, pesando os prós e os contras de uma ofensa à China ao invés do servilismo a alguém que se arroga à personificação dos direitos humanos.
Longe da cobardia do governo, como podemos nós bem receber um ex-ditador que chefiou uma teocracia feudal com toda a servidão e miséria que se conhece?? Acresce ainda que este se acha na posse de autoridade moral para viajar pelo mundo, falando em nome dos tibetanos e pedindo a autodeterminação por eles. Diz-nos que “Num país que exigiu ao mundo coragem e respeito pela autodeterminação no caso de Timor Leste, isto é vergonhoso”, a minha opinião é que para exigir a autodeterminação do Tibete, basta exigir a autodeterminação do Tibete, não é preciso receber nenhum Dalai-Lama, porque ele não tem, nem autoridade moral, nem legitimidade democrática (aliás, nunca teve) para pedir o que pede ou para falar em nome de quem quer que seja.
Cumprimentos