As paixões e os interesses

Vamos começar assim: um país sem interesses é um país morto. Se alguém comprou terreno que mais tarde vem a valorizar-se pela proximidade de uma infraestrutura importante, como por exemplo um aeroporto, a única coisa que eu tenho a dizer é: bom investimento. Bem jogado. Se há incerteza na localização da nova infraestrutura e o investidor sabe que há dois lugares possíveis em discussão, provavelmente o melhor teria sido investir em ambos para minimizar os riscos. Mas também pode apostar num lugar apenas. Faça o que quiser, menos esperar que o resto do país tome uma decisão em função dos seus interesses. Isso seria transferir para a comunidade o risco que cabe ao investidor.

Por outro lado, o país não pode querer colocar um aeroporto num lugar onde não beneficie ninguém.


Não só porque isso vai contra o objectivo da construção de uma infraestrutura, mas principalmente porque esse lugar não existe. Alguém vai ganhar com a construção de um novo aeroporto. Não podemos dizer que o novo aeroporto é importantíssimo e depois esperar que ele não beneficie ninguém. Um novo aeroporto beneficia regiões, cidades e vilas, umas mais do que outras. Ainda bem.

Em Portugal, contudo, há uma categoria que alega não ter qualquer interesse no assunto. E como não tem interesse, age por puro amor.

De uma confederação de capitalistas como a CIP esperar-se-ia que defendesse o capitalismo. Mas no momento em que esta entra no debate sobre o novo aeroporto, o que nos diz? Que os patronos de um estudo sobre o assunto são empresários anónimos “que não têm quaisquer interesses na localização do novo aeroporto”. E a pergunta é: como raio os foram descobrir? Há empresários de referência em Portugal a quem a localização de um novo aeroporto é indiferente? E que, mesmo nesse caso, gastam dinheiro num estudo sobre o assunto? Fui de fim-de-semana pensando que os nossos empresários são, então, piores do que eu pensava.

Mas entretanto descobriu-se que a Lusoponte ajudou a pagar o estudo; faz sentido, porque seria uma das principais beneficiárias da localização a Sul. E descobriu-se que o governo acompanhou o estudo desde o início; lá se foi a bela desculpa de que os empresários eram anónimos porque temiam represálias do estado. O mundo entrou nos eixos, e uma nova semana começou.

***

E agora, um pouco de pingue-pongue à trois: na sua crónica de sábado passado, Vasco Pulido Valente chama-me “puro” por me ter abstido de comentar o conteúdo do estudo da CIP por causa do anonimato dos seus patronos. É uma acusação divertida para uma crónica cujo título é “Quem Pagou?” e cujo texto é ele próprio um processo de intenções do princípio ao fim: aos que gostam do estudo, aos que não gostam do estudo e aos que nunca ouviram falar do estudo. A única coisa que não se encontra na crónica de Vasco Pulido Valente é a menor referência, uma palavra que seja, ao conteúdo do dito estudo. Não que Vasco Pulido Valente considere irresponsável comentar um assunto sobre o qual não dispomos dos dados todos, bem pelo contrário – esses escrúpulos são para os “puros”. Vasco Pulido Valente até acha que o conteúdo do estudo deve ser comentado mas, infelizmente, não está para se dar ao trabalho de o fazer. Ora isto é impagável e eu devo um franco agradecimento a Vasco Pulido Valente. O meu texto de quinta-feira, que lhe motivou o comentário, tinha por tema os cronistas que privilegiam a desconfiança sobre o conteúdo. Por motivos de espaço, saiu sem ilustração. Fiquei grato por ver Vasco Pulido Valente, dois dias depois, correr para preencher essa lacuna.

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