[Público 19 abril 2007]
Foi através do uso das ferramentas que nos tornámos quem somos e, em certa medida, nós não as fizemos: elas é que nos fizeram. Por isso, uma ferramenta nunca é só uma ferramenta
Quando um atirador tresloucado massacra uma pequena multidão, a discussão recorrente é sobre o controle de armas. Se a mortandade ocorreu nos EUA, a discussão ganha rapidamente fronteiras irredutíveis, de natureza ideológica, que a impedem de ganhar qualquer valor construtivo. O que é, em parte, a intenção: dentro dos EUA, porque o lóbi das armas é poderoso e pretende bloquear a discussão o mais rapidamente possível; fora dos EUA, porque há quem ache que a única discussão que interessa é a entre pró-americanismo e anti-americanismo. Para uns e outros, interessa defender que a abundância e disponibilidade de armas nos EUA não tem nada a ver com os massacres, de forma que o ideal é encerrar a discussão num chavão e depois forçá-la a não sair dali. O chavão predilecto costuma ser: não são as armas que matam pessoas, as pessoas é que o fazem.
Este chavão tem uma lógica impecável: as armas são, na verdade, objectos inanimados.
Quem diria? Nunca ninguém viu uma arma levantar-se sozinha, dirigir-se a um lugar público e fazer uma chacina. Quando tal acontece, a arma é invariavelmente empunhada ou detonada por alguém. A culpa, portanto, não pode ser da pobre arma mas das malvadas pessoas. Se as armas não têm culpa, não se deve proibir as armas. Deveríamos, talvez, proibir as pessoas?
Quando o discurso começa a não andar muito longe do que seriam os pensamentos tresloucados do atirador (as armas não têm culpa… as pessoas é que são más… vamos acabar com as pessoas… ) é porque o conseguiram colocar abaixo do nível do senso-comum. E se o senso-comum às vezes não nos leva longe, imaginem o que é discutir abaixo do senso-comum. Ora é verdade que as pessoas podem ser perigosas. As pessoas têm surtos de agressividade. Às vezes apetece-lhes que o mundo acabe. É precisamente por isso, aliás, que não devem ter armas por perto. Assim quando tiverem o seu acesso de loucura limitar-se-ão a atirar a sobremesa contra a parede do refeitório universitário (já vi isto acontecer, e confesso que como não era num país onde se vendem armas na mercearia nem cheguei a ficar preocupado).
Com isto esqueci-me de dar continuidade ao pingue-pongue de ontem, que versava sobre a maneira como os blogues começam a ser tratados no discurso político. O procurador-geral da República chegou a afirmar, em pleno parlamento, que isto dos blogues “é uma vergonha”. Ocorreu-me que o chavão pró-armas seria aqui uma resposta possível: os blogues, afinal, não se escrevem sozinhos. São as pessoas que o fazem e, como sempre, há tantos blogues quanto pessoas que os escrevem. Alguns são lixo, mas também é verdade que as pessoas, às vezes, podem ser talentosas. Às vezes têm surtos de genialidade. Às vezes apetece-lhes partilhar uma coisa com todo o mundo, e um blogue é uma belíssima ferramenta para o fazer. Se o procurador-geral não lê blogues e o diz com orgulho isso é, francamente, um problema para a cultura geral do procurador-geral.
E agora? Sei que depois desta analogia entre armas e blogues haverá certamente quem me exija aquilo a que eu chamo coerência com “c” minúsculo. Se a culpa (ou o mérito) é sempre das pessoas, como se explica eu defender ao mesmo tempo o controle apertado para as armas e a liberdade ampla para os blogues?
Porque, na verdade, as pessoas são em larga medida aquilo que as suas ferramentas lhes permitem. A nossa espécie foi homo habilis antes de passar a homo sapiens. Foi através do uso das ferramentas que nos tornámos quem somos e, em certa medida, nós não as fizemos: elas é que nos fizeram. Por isso, uma ferramenta nunca é só uma ferramenta. Com um acesso de loucura e um blogue é possível fazer de tudo. Uma arma oferece possibilidades mais limitadas.






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