Agora em voz alta, por favor

Toda a gente fala deste corte como se já estivesse adotado, mas nenhum daqueles deputados é obrigado a votar este imposto extraordinário, sem ao menos impôr condições.

Para começar claro, eu acho que se tivesse havido na campanha eleitoral um partido X que dissesse “este ano o Estado vai arrecadar todo o vosso subsídio de Natal para resolver os seus problemas de tesouraria e podermos voltar ao crescimento económico” — esse partido teria ganho as eleições.

“Imaginem”, pensaria o eleitor, “resolver todos os problemas de uma só penada, sacrificando o subsídio de Natal, mas depois ficar mais tranquilo em relação à possibilidade de desemprego ou falência, se tal coisa fosse possível” — mas tal coisa não é possível. Sabemos todos que metade do subsídio de Natal (ou o equivalente a esse subsídio para quem o não ganha) se destina a reunir meros 800 milhões de euros para tapar um buraco.

Reparem: o mesmo papel de tapa-buracos poderia ser cumprido pela venda de uma pequena parte das nossas reservas de ouro. Portugal tem cerca de 380 toneladas de ouro, reservas que estão no décimo quarto lugar mundial em termos absolutos e serão das maiores no mundo por comparação com o tamanho da economia. As nossas reservas valem, à cotação atual, cerca de 12,5 mil milhões de euros.

Mas a hegemonia do discurso do sacrifício é tão grande que se tivesse havido em Portugal um partido Y dizendo: vamos vender 24 toneladas de ouro para fazer 800 milhões de euros — esse partido teria perdido. E no entanto, o corte do subsídio de Natal tem efeitos sobre a economia (no pequeno comércio, no trabalho sazonal, etc.) que a venda de um quinze avos do nosso ouro não teria.

(Em ambos os casos, é claro, o encaixe de dinheiro ocorre só uma vez. Já a legalização e taxação da cannabis, com recolhas estimadas de 20 mil milhões de euros em toda a EU, talvez permitisse ao estado português um encaixe equivalente aos 800 milhões, repetido todos os anos. Mas Passos Coelho é só um daqueles liberais que acham que deve ser fácil despedir pessoas, e não um liberal-liberal disposto a legalizar drogas leves.)

Mas agora vamos à questão séria. Houve eleições há menos de um mês. Nenhum partido falou em cortar o subsídio de Natal. Esta medida não só é um roubo mas é também um maltrato violento à nossa democracia. Não haverá ninguém que a possa impedir?

Há — e aqui olho diretamente para os deputados da maioria. A democracia não funciona só nas eleições. Entre cada ato eleitoral a democracia passa por um Parlamento digno desse nome. Toda a gente fala deste corte como se já estivesse adotado, mas nenhum daqueles deputados é obrigado a votar este imposto extraordinário, sem ao menos impôr condições.

Os deputados da maioria ainda recentemente desobedeceram às ordens que tinham para votar em Fernando Nobre como Presidente da Assembleia. Mas esse era um voto secreto, e portanto era fácil ser corajoso.

E agora onde estão deputados com peso específico dispostos a erguer-se contra esta medida, nem que seja condicionalmente? Porque não diz o próprio Fernando Nobre “eu não voto isto enquanto não me mostrarem um plano de luta contra a pobreza”? Porque não diz Carlos Abreu Amorim, deputado e cronista independente, “eu não voto isto enquanto não adotarem as medidas anti-corrupção propostas por João Cravinho”? E porque não haverá ao menos um que diga: “eu não voto isto porque não estava no programa com que fui eleito”?

Será que é por não ser um voto secreto? Balelas. Sois representantes do povo e não do vosso chefe. Agi como tal.


5 Respostas a “Agora em voz alta, por favor”


  • Excelente pedrada no charco!

  • Essa sua afirmação é resultado de uma convicção, de uma adivinhação ou de qualquer outra coisa que vai para além da minha capacidade de perceber?

  • José Paes de Faria

    Pois é…Acho apavorante a passividade, a indiferença, direi mesmo a concordância bovina da nossa sociedade (deputados da oposição e da maioria, sindicatos, todas as organizações da sociedade civil, comentadores dos media, etc), ao ouvirmos anunciar um autêntico assalto aos nossos rendimentos, quando não fazia parte dos acordos com a chanada “troika”, não constava de nenhum programa dos partidos, e tinha sido exigido pelo atual PM quando fez o acordo com o PS, que este nunca faria tal maldade aos portugueses.

    Acho ainda mais temivel que aceitemos sem um protesto um PM com tiques ditatoriais, já mostrados durante a campanha sendo o mais evidente o episódio Nobre, e agora confirmados com este infeliz anúncio do que vai acontecer daqui a seis meses !!! E isto só para prevenir possíveis derrapagens!!!??? O melhor que êle podia fazer para que aconteçam essas derrapagens, é que tenham desde já cobertura assegurada !!!???

    E tão lesto a executar o assalto porquê ? Será para nos experimentar e preparar novos inevitáveis assaltos?!

    Parece ser certo que os portugueses gostam de gente que saiba exercer a autoridade, mas será que lamentávelmente tambem gostam de autoritarismos e atropelos às regras democráticas e da falta de caracter de quem muda de opinião em meia duzia de dias sem sequer dar uma explicação para tal ???!!!

    Salazar endireitou as finanças e deixou-nos substanciais reservas de ouro, mas á custa duma disfarçada escravatura do povo português que durou meio século. Esperemos que com a capa duma pseudo-democracia permitida pela passividade da sociedade portuguesa e com a cumplicidade dos nossos legitimos representantes transformados em bichinhos amestrados a dizerem sempre “SIM SR.PM”, não venhamos a ter novamente um espécime semelhante, embora mais sofisticado e apoiado pelas novas tecnologias da desinformação.

    Já pensei se não seria possível fazer-se uma petição que acordasse os deputados do seu sonambulismo habitual. Mas tenho muitas dúvidas
    sobre o resultado da mesma, dado adormecimento da sociedade civil…

  • martins dos santos

    eu creio que a ideia de legalizar as drogas leves com o intuito de criar receita é uma boa ideia e está a ganhar algum terreno noutros países como os EUA, agora se é certo que não ocorre a Passos Coelho medida tão arrojada, também é certo que os partidos de esquerda geralmente mais adeptos de tal medida também não souberam colocar o tema na agenda política. O caso mais flagrante é o do seu antigo partido, o BE, que sempre conhecido por defender abertamente a legalização das drogas leves, resolveu meter o tema na gaveta para nunca mais se falar dele.

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