[Público 14 janeiro 2008]
Não há melhor país para um cronista senão Portugal. Numa semana, está prestes a ser implantado um regime fascista. Na outra, já toda a gente se esqueceu disso, mas em seu lugar está em curso um ataque concertado à liberdade de opinião.
A primeira palavra da crónica vai para Helena Matos, com quem joguei pingue-pongue nestas páginas durante o último ano. Aqui foi franca, generosa e combativa. Em privado, foi sempre de uma simpatia e correcção sem falhas. Tal como eu, imagino que um dia se recordará de 2007 como o ano em que nos pagaram para discordarmos algo que faríamos até de graça. Quero aproveitar para lhe agradecer e desejar as maiores felicidades.
Bem, acabou o pingue-pongue, mas não me queixo. Não há melhor país para um cronista senão Portugal. Numa semana, está prestes a ser implantado um regime fascista. Na outra, já toda a gente se esqueceu disso, mas em seu lugar está em curso um ataque concertado à liberdade de opinião. A sério.
O tema do fascismo fora proclamado por Pacheco Pereira e Pulido Valente, o mesmo que em tempos escarnecera do PCP por não haver nada a que não tenha chamado fascista. Há efectivamente uma diferença crucial. Para os dois historiadores nem tudo é fascista. Só enxergam sinais de fascismo que lhes cheguem da esquerda. A lei do tabaco e a acção da ASAE são dois desses sinais. Já a invasão de países sob falsos pretextos, as leis de espionagem interna do Patriot Act, a conversa sobre civilizações superiores e inferiores, e extraordinariamente até o racismo ostensivo dos skinheads portugueses tudo isto lhes tem passado tranquilamente sob uma certa indiferença, branqueamento, e por vezes até aplauso.
Por isso, onde e quando a direita estiver no poder, lá esperaremos pelas novas lições de boa-educação e rigor conceptual dos mesmos autores.
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Uma vez que o tema do fascismo higiénico não foi recebido com a devida reverência, note-se então como foi discretamente abandonado, embora não pareça.
Pulido Valente respondeu a Pedro Magalhães com a má-vontade habitual, mas sem verdadeiramente defender o que dissera antes ou contrariar o que lhe haviam dito. Até ao último parágrafo: depois de ter sugerido que o seu oponente é adepto da ordem e muito respeitinho remata avisando que ou muito me engano ou já ouvi isto. Isto o quê? Ouviu onde? Não nos é dito, só insinuado.
A resposta de Pacheco Pereira é ainda mais bizarra. Começa por denunciar que está em curso um ataque à independência da opinião (viram?) cujos alvos são [ele] próprio, Vasco Pulido Valente e António Barreto. E depois segue-se uma longa lista de pessoas que Pacheco Pereira acha que não gostam de Pacheco Pereira. Lista de pessoas, não. Como opinador independente e corajoso que é, Pacheco não consegue citar um nome, responder a uma opinião, refutar um argumento. O seu confronto faz-se fantasmagoricamente, contra categorias vagas de gente os modernizadores, os pensadores-engraçadistas, os inocentes úteis em estilo críptico de treinador de futebol.
E é assim que numa semana a conversa deixou de ser sobre o fascismo higiénico: passou a ser sobre eles. Deixou de ser sobre as posições que defendem: passou a ser sobre as posições que detêm. Para dizer a verdade, nem reconhecem poder existir qualquer debate, a não ser sobre a pura ilegitimidade de alguém lhes interpelar as opiniões. E é uma pena, porque estes novos temas têm pouquíssimo interesse.






ahhh! Carago meu, onde é que eu te posso apertar esses ossos?
[ acabaram as crónicas no Público? :( ]
Muito bem, Rui Tavares. Excelente texto. Talvez sejas hoje o melhor colunista da nossa praça. VPV também já o foi.
Pacheco Pereira é o Octávio Machado da política: Vocês sabem do que eu estou a falar!
De quando em vez JPP é ridículo
Sr. Rui Tavares:
Muito bem!
Sabe, Pacheco e Pulido, de tanta importância que os “media” lhes dão, já não são só “pessoas”, já são “instituições”. E gostam disso. Parece, aliás, não se aperceberem que esse é o caminho para o seu definhamento como opinadores.
Em retaliação, também poderemos incluir Pacheco Pereira num substantivo colectivo: “admiradores-de-Bush”. Que brilho, que destinção!
Lamento. Talvez o Público também lamente. Haverá com certeza dois dias por semana com menos vendas. O que é bem feito e oxalá. Desconheço as razões desta saída, mesmo que delas desconfie (não conheço o J.M. Fernandes nem quero conhecer)e espero vivamente voltar a lê-lo, a si, Rui Tavares. Se me disser onde.
Um abraço.
Carlos Reis
Quando se fala nos intelectuais portugueses, está-se a pensar em indivíduos como VPV e JPP. Tenho a certeza que daqui a 10 anos já se pensar-se-á noutros pessoas. E tenho a certeza também que, nessa altura, o nome Rui Tavares será um dos primeiros a vir à memória. Também é por isso que eu acredito que o futuro será melhor que hoje.
Ahhhh ´ganda Rui!!!
Chega-lhes que o Pulidinho já anda gágá e tu ainda és novito nisto dos dichotes!
Óhhhh mar salgado quanto do teu sal são lágrimas de Portugal……
Meus amores as coisas, ou as pessoas só tem a importancia ou o valor que nós lhe damos, Um abraço para todos os que aqui escreveram