Abertura

[Público, 4 junho 2008]

 

Se há crise na Europa ela está nesta ideia crucial: abertura. E há dois campos onde a crise de abertura é ainda mais alarmante do que no alargamento: democracia e imigração.

 

No outro dia chamaram-me para discutir a “crise na Europa”, por causa do petróleo, e eu lá fui pensando que há sempre uma crise na Europa, real ou imaginária. E no entanto, a crise do petróleo não tem origem na Europa, que até fez algum trabalho de casa no consumo dos seus automóveis e no uso do transporte público (Portugal atrasado no segundo ponto, infelizmente). E no entanto, se pegarmos em alguns livros recentes, vemos que os norte-americanos mais informados, de Fareed Zakaria a Parag Khanna (não por acaso imigrantes) nutrem uma franca admiração pelo que a Europa tem conseguido, nomeadamente pela sua forma de resolver conflitos através do alargamento.

 

Se há crise na Europa ela está nesta ideia crucial: abertura. E há dois campos onde a crise de abertura é ainda mais alarmante do que no alargamento: democracia e imigração.

 

O primeiro está à vista de todos. A forma como os líderes europeus trataram do processo constitucional e estão a tratar da nomeação do Presidente do Conselho Europeu, com Sarkozy sempre à cabeça das manobras, é pouco menos do que humilhante para a opinião pública europeia. O que nos resta é seguir com inveja a energia das eleições primárias nos EUA — ou, vá lá, esperar pelas eleições para o Parlamento Europeu, as únicas em que temos voz directa.

 

***

 

O verdadeiro título de crise na Europa é este: Sarkozy quer endurecer o combate à imigração “ilegal” através de uma política comum.  É assim: primeiro dificultamos a legalização, depois combatemos os “ilegais”, a quem alguns propõem encerrar em centros de deportação até dezoito meses sem terem cometido crime algum, e aos quais o novo governo italiano propõe criminalizar e prender até quatro anos (bela ideia: em vez dos imigrantes trabalharem para pagar os nossos impostos, vamos nós trabalhar para pagar os custos de encerrar mão-de-obra na prisão).

 

Sarkozy, que exigiu fugir ao eleitorado no tratado de Lisboa, tem a sua popularidade em baixa. Solução: vender aos franceses a ideia de que vai combater a imigração na Europa. Como é hábito, sempre que se vê em dificuldades, Sarkozy está a falar em código para o seu eleitorado envelhecido e xenófobo. O resultado seria fazer os seus parceiros europeus pagar pelas falhas na integração da comunidade árabe em França — obrigando-nos por exemplo em Portugal a prescindir de imigrantes com os quais partilhamos em geral a língua, os hábitos, e que podemos integrar com relativa facilidade. E de caminho, fazer os imigrantes pagar pelo aumento dos combustíveis e pela descida na popularidade dos políticos.

 

Mas nós precisamos de políticos com coragem para dizer que precisamos de imigrantes: não só para trabalhar, não só para pagar a nossa segurança social e impostos, não só para rejuvenescer o país, mas porque ninguém conseguirá preparar-se para o mundo do futuro se não tiver um pouco de globalização à porta de casa. Voltando aos livros de Fareed Zakaria e Parag Khanna: felizmente para os EUA, dizem eles, a Europa não é competitiva na imigração — apesar do dólar baixo ser menos atractivo para os imigrantes. Alívio: afinal, vinte e cinco por cento das patentes americanas são assinadas por imigrantes indianos ou chineses (sem contar com os cérebros europeus que para lá continuam a fugir).

 

Mas não se iludam: não dá para atrair o engenheiro indiano e expulsar o pedreiro indiano ou o comerciante indiano — os imigrantes, principalmente os “qualificados”, vão para onde sentem abertura. E se o medo da democracia e o medo da imigração nos provam alguma coisa, é esta: a Europa vive numa crise de abertura.

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