A sangue frio

Pensei que as eleições europeias tivessem bastado para se aprender esta lição: uma campanha eleitoral, por mais acalorados que pareçam estar os seus principais participantes, é um desporto que se destina a ser ganho pelos animais da sangue-frio.

Uma das piadas que prefiro é tão volátil que mesmo quando vista sob a forma original — um cartune que encontrei por acaso há uns anos — nem sempre consegue fazer despertar um breve sorriso. Mas eu afeiçoei-me a essa piada e, apesar de nunca ter tido sucesso, persisto em contá-la, em várias ocasiões e até línguas, sem mímica ou com mímica, tentando ou não descrever o desenho que a acompanhava. Algumas pessoas reagem quando eu a conto, mas é só por pena, ao verem o meu esforço. E é essa piada sem graça, que funciona mal sob desenho e não funciona nunca quando contada oralmente, que eu vou tentar agora reproduzir aqui por escrito. É uma estreia mundial; preparem-se.

A coisa é assim. Um crocodilo está sentado no banco dos réus de um tribunal (sim! um crocodilo no banco dos réus) sem trair qualquer arrependimento ou emoção no rosto, ou focinho. O advogado de acusação ataca-o por um qualquer crime hediondo cometido pelo crocodilo quando é interrompido pelo advogado de defesa, que lança uma objecção. “É claro que foi a sangue-frio, seu idiota!” grita o advogado de defesa, “Não vês que é um réptil?”.

Não é hilariante? Um réptil! A sangue-frio! Ah ah.

Bem. Serve isto para ilustrar o ambiente pré-eleitoral em que vivemos. Tal como o advogado não deveria surpreender-se com o sangue-frio do crocodilo, também nós não deveríamos surpreender-nos com o sangue quente das campanhas eleitorais. E, porém, todos os dias me liga alguém ofendido com qualquer coisa que outro alguém disse. Entre os independentes de esquerda, em que me incluo, uns irritam-se com os governistas por serem governistas, e outros com os oposicionistas por serem oposicionistas. Uns irritam-se com Miguel Vale de Almeida por ter aceitado ser candidato a deputado pelo PS (boa sorte, Miguel!) outros com Joana Amaral Dias por ter recusado o mesmo convite (boas férias, Joana!).

***

Entre esta gente, que toda diz desejar um Portugal mais igualitário, progressista e moderno (embora discordem, como é evidente, sobre a forma de lá chegar), inventam-se temíveis taxonomias e divisões para justificar, a posteriori, estas divisões de percurso. O diálogo é impossível, alega-se, por causa de uma qualquer categoria abstracta que está lá longe no passado — e que esconde que o diálogo é difícil, na verdade, pela contingência bem mais presente e concreta de serem adversários agora.

Não há campanha que seja campanha eleitoral sem que isto aconteça. Mas atenção: os efeitos não são iguais para todos.

O papel da oposição é fazer com que a campanha seja sobre o governo. Isto é assim, e tão evidente que não deveria espantar ninguém — se pensam irritar-se por isso vão passar por dois meses impróprios para cardíacos. Por outro lado, se o governo faz com que a campanha seja sobre si mesmo, perde. E se deixa que a campanha seja sobre a oposição, também perde. Isto acontece porque o eleitorado espera que a oposição faça oposição mas não espera que o governo caia no erro narcísico de fazer oposição à oposição. De cada vez que o PS cai nesse erro passa como um partido fechado e agressivo, que se irrita por não ver reconhecida a sua intrínseca bondade. Isto pode ser assimétrico e parecer injusto, mas é assim. A política não tem de ser simétrica, e resta sempre a alternativa de falar sobre o país.

Pensei que as eleições europeias tivessem bastado para se aprender esta lição: uma campanha eleitoral, por mais acalorados que pareçam estar os seus principais participantes, é um desporto que se destina a ser ganho pelos animais de sangue-frio.

[do Público]

5 Respostas a “A sangue frio”


  • Augusto Küttner de Magalhães

    “também nós não deveríamos surpreender-nos com o sangue quente das campanhas eleitorais.” “Pensei que as eleições europeias tivessem bastado para se aprender esta lição: uma campanha eleitoral, por mais acalorados que pareçam estar os seus principais participantes, é um desporto que se destina a ser ganho pelos animais de sangue-frio.”
    tenho que estar de acordo com o que escreve. Mas acho pouco, muito pouco, prar uma qualquer campanha eleitoral, dado que nõ dignifica muito a politica, quando se anda neste disse que disse!

  • Bom dia,

    Concordo em geral com o seu texto, mas algo em particular chamou-me a atenção. O facto de desejar boa sorte a Miguel Vale de Almeida (MVA). A interpretação mais óbvia é a de que deseja que MVA tenha sorte no que se refere ao objectivo a que se propôs para as próximas eleições legislativas: ser eleito deputado pelo PS. Ora, não deixa de ser estranho que alguém que se opõe a tantas políticas implementadas pelo PS, efectivamente deseje que o PS tenha sucesso eleitoral. Pode argumentar que está desejar boa sorte a MVA e não ao PS, porque até conhece MVA, que é uma pessoa fantástica. Ora, acontece que este tipo de atitude constitui o tipo de compadrio que tanto, e correctamente, criticou a propósito dos casos BPP e BPN: a supervisão bancária não actuou como devia, porque do outro lado estava “gente respeitável”. Ou seja, em vez de avaliarem os actos, que se foram revelando, como se fossem praticados por “pessoa de identidade desconhecida”, preferiram basear-se na sua opinião pessoal, fortemente assente na identidade social comum. A atitude do Rui Tavares perante o MVA é exactamente a mesma: apoia alguém que conhece, do seu meio social, que acha respeitável e merecedor de admiração, apesar dos actos efectivamente realizados por MVA, que fosse outro o executante, teriam muito provavelmente merecido a sua condenação. E o que fez MVA de tão grave? Não, não foi o ter apoiado o PS. Toda a gente tem o direito a mudar de opinião. O grave é MVA ter decidido apoiar o PS apesar de não ter mudado de opinião, e não ser suficientemente honesto para o afirmar perante os eleitores. A evidência? O post onde revela o seu apoio ao PS contém uma longa lista de elogios ao… BE, terminando com uma breve e ridícula justificação de apoio ao PS: “tem um projecto modernizador para a sociedade”. Desde então, não identificou uma única política (relevante e polémica) defendida pelo PS que apoie. Porquê? Ou porque não consegue, ou porque não quer entrar em conflito com os eleitores mais à Esquerda, do que resultaria a anulação do efeito da sua entrada nas listas do PS. Qualquer das duas atitudes revela desonestidade intelectual e política. E MVA fá-lo, porque sabe que assim é, plenamente consciente do jogo em que o PS o convidou a entrar. E para quê? Por táctica. Para tentar assegurar que no PS o casamento homossexual não vai desaparecer da agenda política na próxima legislatura. E nada mais. Importa as pessoas afectadas pelo desemprego, pelo código laboral, pelos problemas na educação e saúde? Quem actua assim, merece ser eleito? Merece “boa-sorte”? As pessoas, em particular em política, devem ser avaliadas pelos seus actos, e não pela sua simpatia.

  • Sinceramente há coisas que tenho dificuldade em compreender. Devo dizer que, em relação à anedota, não tenho quaisquer dúvidas. É humor e de primeira. Agora em relação ao resto do discurso….enfim, o que dizer. Eu até percebo que uma boca dita no calor da campanha, de uma forma temperamental, seja vista numa perspectiva de sangue quente, mas o que é que o caso da Joana Amaral, dos assédios e suas consequências têm a ver com o sangue quente? Aquilo foi coisa premeditada e racional, só não sei dizer qual a ordem da sequência dos factos, mas que para dizer a verdade também é coisa que não me interessa. Se a Joana Amaral tivesse aceite o convite era agora vista pelo comum dos portugueses como uma burguesa disfarçada que se vendeu, como não aceitou o convite ( embora pelos vistos até tenha pedido um tempo para pensar ( a tentação nunca nos larga ) ) espera ser vista como uma pessoa fiel e leal aos seus, logo uma pessoa decente. Pois para mim não é uma coisa nem outra. Não a conheço, ponto final. A única coisa que verdadeiramente me agita os neurónios é que não consigo perceber como é que alguém fica feliz com este tipo de “desporto “ feito desta forma ( agora chama-se desporto a uma campanha eleitoral ), que prazer têm os políticos neste tipo de diversão quando o país ( para não dizer o mundo ) está à beira do naufrágio? Se a politica não for para resolver problemas é para isto que serve? Peço desculpa se a pergunta dá ares de muita ingenuidade.
    Afinal tem razão, não aprendi mesmo nada com a última campanha eleitoral.

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Efectivamente necessitamos cada vez mais de novos politicos e novas politicsa, ou diferentes politcos e diferentes politicas. Hoje é mais do mesmo…o que é muuto pouco!covenhamos…..mudem-se, e deixem entar outos…

  • Curiosamente, num contexto diferente mas nem por isso menos relevante, o Bob Dylan disse recentemente algo parecido sobre a política: “It’s a sport. It’s for the well groomed and well-heeled. The impeccably dressed. Party animals. Politicians are interchangeable.” E há quem não se canse de o demonstrar cabalmente. Bem e pessimamente mal.

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