
[Oliphant, para o International Herald Tribune, 20-21 Setembro 2008]
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SÁBADO, 20 DE SETEMBRO DE 2008
RAIO QUE O PARTA
É difícil dizer tanta asneira em tão pouco tempo, ou destilar tanto ódio à vida em três meias colunas. Refiro-me ao artigo do senhor Rui Tavares, ínsito na passada 5ª feira no jornal privado chamado “Público”.
Consiste a tese do fulano na defesa absoluta da vital necessidade de obrigar os canalhas que são proprietários de imóveis vazios e degradados a pagar impostos fabulosos e a recuperá-los, arcando com todas as despesas. Se não cumprirem as ordens do Tavares, como criminosos que são, ficam sujeitos às mais graves sanções, das quais, presume-se, a mais suave será a expropriação.
Para o senhor Tavares, os tais proprietários não são pessoas propriamente ditas, com direito a ter bens, bens que compraram com o seu dinheiro e com o suor do seu rosto, ou que são fruto do trabalho dos que os antecederam no mundo dos vivos. Não. Os proprietários são meros detentores de bens públicos (a habitação é um direito!), que gerem, ou deviam gerir, a bem do Tavares (aposto que paga 50 euros por mês por um T7). Têm, por isso, a mais elementar obrigação de, mesmo não recebendo qualquer rendimento, ou recebendo rendimento negativo, gastar o que têm para que terceiros vivam de borla. Se não têm dinheiro, então que se hipotequem, que se endividem, que vendam os tarecos lá de casa e o anel da avó para satisfazer a sede de “justiça” do Tavares. E, se quiserem reconstruir para tentar viabilizar o património, que se metam na câmara a pedir batatinhas, que esperem uns largos anos até que os engenheiros, os arquitectos, os vereadores, os contínuos da câmara, se dignem debruçar-se sobre o septengentésimo requerimento, sobre o milionésmo papel e, anos passados, lá digam que sim seja ao que for. Se a propriedade, entretanto, cair, a culpa é do proprietário, como é óbvio.
Desde que me conheço – vai um ror de anos – ouço falar na célebre história do mercado de arrendamento, que a primeira República começou a destruir, que a segunda re-destruiu, e que a terceira arruinou definitivamente, acabando a história, até ver, com o socretinismo, que pariu a lei mais estúpida que se fez em Portugal desde 1140: o Novo Regime do Arrendamento Urbano.
Uma pequena conta, para se ver onde param as modas, considerando o 25 de Abril como princípio dos tempos:
- Diz-se que há 150.000 andares (ainda “vivos”, isto é, ocupados) com rendas antigas;
- Consideremos um jóvem casal da classe média, que alugou uma casa em 1974;
- Ele, chefe de vendas, ganhava 6.000 escudos (um bom ordenado, à época);
- Ela, técnica de terceira classe da função pública, ganhava 4.500 escudos;
- Rendimento do casal, depois de impostos: 8.400 escudos;
- Renda de casa, 2.500 escudos, ou seja, 30% do rendimento familiar;
- Hoje, mesmo sem progressos de maior nas respectivas carreiras, ele ganha 750.000 escudos, ela 375.000;
- Depois de impostos, o rendimento do casal será de cerca de 844.000 escudos;
- A renda da casa, entretanto, depois de reajuste extraordinário da AD (1982) e das consequentes actualizações anuais, será de cerca de 25.000 escudos, ou seja, cerca de 10 vezes menos!
- Se a renda média dos tais 150.000 fogos for, como se diz, de 50 euros (10.000 escudos), eis o que acontece:
a) Considerando, a valores actuais, as rendas pagas pelos 150.000 fogos em 34 anos (50x12x34x150.000), teremos 360.000.000 de euros;
b) Se esta importância é cerca de 10% do que, actualizada em função do rendimento/inflacção, deveria ser, temos um défice, no mercado, de 275.000.000 de euros, ou seja, de 55,08 milhões de contos de réis;
c) Se atendermos aos números das finanças (15%), aceites como despezas de conservação, teremos que o Estado roubou, à conservação dos imóveis, 41.250.000 euros e, aos proprietários, 233.750.000, sendo que, se estes gastassem em conservação do património aquilo que o Estado acha que deveriam gastar, não só não teriam qualquer rendimento do que é seu, como, ainda, teriam que ir arranjar, sabe Deus onde, 13.750.000 euros, ou seja 2,75 milhões de contos, para que os seus bem amados inquilinos vivessem em prédios devidamente conservados. Além disso, teriam, como têm, que inventar o dinheiro para o IMI, os esgotos, e os condomínios, os fundos de obras, etc., quando fosse caso disso.
Para além destes pequenos pormenores, que só têm, directamente, a ver com os proprietários, calcule-se o montante que deixou de poder ser canalizado para a economia, e imagine-se (embora não seja preciso, porque a realidade aí está) o que, em consequência, aconteceu. O imobiliário atingiu preços inacreditáveis e o jovem casal que, para uma casa à sua medida, pagava 30% do rendimento familiar em 1974, hoje, para casa equivalente, nem com 50% se safava.
Consequências do socialismo, sejo o do Afonso Costa, o do Salazar ou o desta gente.
Mas, para o senhor Tavares, os canalhas que têm prédios ou andares velhos são os culpados de tudo. É seu socialistíssimo dever ir suar as estopinhas para arranjar o dinheiro que o Estado, há anos e anos, lhes vem roubando. Senão… senão caem-lhes os Tavares (ou os costas, ou os salazares, ou os socrélfios, ou os estalines) em cima.
Entre a justa indemnização que, na minha opinião, o Estado deveria pagar aos expoliados e a “solução” do senhor Tavares, há um mundo de ideias e de hipóteses, a menos justa das quais seria que o Estado puzesse à disposição do mercado as importâncias que o próprio Estado acha que deveriam ter sido gastas em conservação e que os proprietários jamais receberam. Estes, neste caso, não deixando de ter sido roubados, talvez vissem (e o mercado, a economia, a sociedade, os jovens à procura da primeira casa também), alguma luz ao fundo do túnel.
Mas o socialismo e o senhor Tavares não são de modas.
Raios partam o senhor Tavares.
António Borges de Carvalho
Carvalhos há muitos ó cobarde.
Raios par….
Quantas pessoas já mandaste pró… este rol de tempo todo??
Saiba ABC, há coisas que só a lei da biologia vão resolver, e saiba também que o seu tempo está mesmo a acabar, vá-se, dê espaço…
arre
Quero desde já fazer um pedido de desculpas por não ter trazido nada de novo ao debate, e não trouxe é verdade. Não volta a acontecer.
Mas esta coisa que li no post do tal ABC… francamente…
Mandar alguém para o raio que o parta é sintoma de ódio, não é o contraditório, recuso-me a fazer o mesmo…
E obviamente considero o Rui Tavares alguém elevado e educado, sem abdicar de ter opiniões, sem abdicar de viver em democracia. E claro, Rui, nunca mande ninguém para o raio que o parta, estará a mostrar fraqueza…
É sempre assim. Os paus costumam ter dois bicos. Há bicos mais afiados que outros e seres mais atormentados que os restantes. O Senhor ABC parece saber do que está a falar, com tantos números e dados tão precisos, e está piurso e sentiu-se ofendido com as propostas de Rui Tavares que, se calhar, depois de ter analisado com muito cuidado o que acima ficou registado já mudou de opinião. Ah, o pormenor das contas em “contos de reis” dá que pensar… e se fizessemos contas em “contos da carochinha”?
Parabéns pelo novo “look” do blogue, bastante bonito. Acho o Rui Tavares um dos mais talentosos cronistas que temos e o novo blogue uma razão ainda melhor para continuar a lê-lo. Continuação do bom trabalho!
esta bonito o blog, Rui;)