A Mãe de Bragança

Foi então que compreendi: Pacheco Pereira tem ciúmes do futebol. Tal como as Mães de Bragança, é mais forte do que ele; não consegue deixar de falar no motivo do seu tormento.

Fascinou-me, aqui há uns anos, aquela organização que deu a si mesma o nome de “Mães de Bragança”. Nome enganoso, diga-se. As fundadoras do movimento apresentavam-se como mães mas, na realidade, era como esposas que se indignavam. Os seus maridos, diziam, andavam enlouquecidos pelas casas de alterne da região. Mulheres estranhas faziam-nos gastar o dinheiro que não tinham. A obsessão deixava os homens irreconhecíveis e, por vezes, até motivava uma pergunta: haveria feitiço? talvez droga nas bebidas?

Portugal, que raramente dá notícias ao mundo, encheu páginas de jornal com esta história pungente de mulheres assarapantadas por realidades que não dominavam. Como não havia ali nada de propriamente novo, justificou-se a atenção com diagnósticos sobre a globalização, o mercado livre, o fast food dos afectos. Mas lá no fundo era de ciúme, do antiquíssimo ciúme que se tratava. E como já todos sentimos ciúme, todos simpatizámos com aquelas mulheres a um nível humano e fundamental.

Confesso que é mais ou menos da mesma forma que tenho andado fascinado, nas últimas semanas, com Pacheco Pereira.


Este homem, habitualmente sisudo e grave, parece igualmente assarapantado com o Mundial de Futebol. Já não compreende Portugal mas, de repente, acha que o compreende até bem demais. Portugal perdeu a cabeça: “O País está aos saltos, doente de futebol: subitamente, Portugal no lugar da cabeça pôs uma bola”, disse Pacheco Pereira na televisão, repetindo o que no mês anterior já dissera no blogue, no jornal e na revista.

No início, senti alguma dificuldade em compreender o meu fascínio, desde logo porque eu concordo com Pacheco Pereira. Até o mais fanático torcedor da selecção fica enjoado com o excesso da “cobertura” do Mundial. Eu, que gosto de futebol, tento preservar-me só ligando a TV na hora do jogo. E — até hoje! — tentei preservar-vos a vós, leitores, não escrevendo sobre o assunto. Ai de mim: esforcei-me para não acrescentar conversa sobre futebol ao futebol, fazendo modestamente a minha barragem à sua omnipresença asfixiante.

Foi isso, aliás, que me fez desconfiar. Como se explicava que um homem precavido desse tanto espaço a um tema que já tem espaço demais? Foi então que compreendi: Pacheco Pereira tem ciúmes do futebol. Tal como as Mães de Bragança, é mais forte do que ele; não consegue deixar de falar no motivo do seu tormento.

E eu, que já senti ciúmes, simpatizei com ele. É próprio do intelectual e colunista querer que o público o acompanhe nas suas oscilações. Como escreveu uma vez Ricardo Araújo Pereira, o mais estimulante em Pacheco Pereira é mesmo “aquela compulsão para dizer o contrário do que o resto do mundo estiver a dizer na altura. Se houver muita gente indignada, Pacheco Pereira apela à serenidade. Se houver serenidade, Pacheco Pereira apela à indignação.” O nosso problema é que, com um mês inteiro de futebol, ninguém liga nenhuma à nossa indignação e assim é impossível a Pacheco Pereira manter a serenidade.

Às vezes uma pessoa desanima, e é aí que escreve no blogue, como escreveu Pacheco Pereira: “Saltem muito, é o que vos desejo. A sério, saltem, saltem, pode vir daí uma desorganização das ideias que seja salutar à Pátria. Duvido, mas não excluo nenhum milagre.” Pior ainda: às vezes achamos que o problema é só nosso. E aí verbalizamos, como Pacheco Pereira na televisão: “nenhum país tem a vida pública tão dominada pelo futebol como Portugal”.

Bem nos poderiam dizer que na Holanda e na Itália é igual, que em Inglaterra e no Brasil é pior. Também as mães de Bragança, até terem ganho consciência de classe, achavam que só elas eram infelizes e que nenhuma tinha um marido pior. Também elas desanimaram e os incitaram a sair de casa e prometeram mudar a fechadura (e escreve-se no blogue: “Ah! minha bela Futebolândia! Segue o exemplo do Montenegro e torna-te independente. Leva a televisão, a rádio e os jornais…”). E depois lhes pediram que afinal não fossem, lembrando que eram vãos aqueles prazeres que procuravam: “a glória anunciada do escapismo futebolístico, que nos vai encher as casas nos próximos meses, com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma”, como escreveu Pacheco Pereira aqui no Público.

Também elas usaram os filhos para convencer os maridos. Como escreveu Pacheco Pereira na Sábado: “Alguém vai pagar a conta: os nossos filhos que tanto estimamos e de cujo infinito carinho por eles nunca permitiríamos que alguém duvidasse lá estarão a pagar a prazo a festa de todas estas férias, de todos estes feriados, de todo este Algarve, de todos estes ecrãs de plasma gigantes, de todo este futebol fandango.” Eis a Mãe de Bragança tentando chegar a Velho do Restelo: subitamente, o problema já não é só o futebol. É tudo. Os passeios nos feriados, as férias no Algarve, o povo que vai para a praia quando está calor.

O meu fascínio mantém-se, portanto. Apenas atenuado quando vejo Pacheco Pereira começar a duvidar de si mesmo: “Eu não tenho jeito para calvinista e admoestador dos costumes alheios”, escreveu na Sábado. Não se menospreze, homem. Usando linguagem futebolística, dir-se-ia: é um calvinista e admoestador já com alguma experiência mas que ainda tem margem de progressão.

7 Respostas a “A Mãe de Bragança”


  • Se olharmos bem para a personagem aqui referida, vemos uma criança.
    Com as crianças há sempre algo a aprender.

  • ao ler o seu texto, percebi melhor as “mães de Bragança”. Escrever assim, só com feitiço. com estilo, elegância, clareza, sobretudo inteligência. Parabéns pelo textyo brilhante

  • Apenas porque não tinha jeitinho nenhum quando era puto e mesmo sendo o dono da bola, os outros nunca o escolhiam para nenhuma equipa. Com o passar dos anos, a coisa foi-se refinando e, após ter retalhado a bola que a avó lhe havia comprado, nunca mais pôde encarar com essa coisa redonda.

  • Normalmente os artigos de Rui Tavares surpreendem-me pela sua pertinência social e pela ausência de diatribes “ad hominem”. Este, porém, quebrou o padrão e desapontou-me.

    Qual foi a necessidade de acusar Pacheco Pereira de ser tão vaidoso, tão sequioso de atenções, ao ponto de sentir ciúmes do futebol? Acaso Rui Tavares é telepata e lê os pensamentos de outrem, a ponto de poder fazer julgamentos de intenções de forma tão categórica? Ou será que RT projecta em JPP o ciúme que deveras sente, enquanto rival nos blogues e nas colunas jornalísticas?

    Condenar uma pessoa por actos destrutivos é legítimo. Criticar-lhe as opiniões e refutá-las, idem. Atribuir-lhe arbitrariamente certos sentimentos e condená-la por eles, muito pelo contrário, é infame e faz lembrar certos pesadelos orwellianos.

  • Que zangado que está Pedro. O comentário não era tão mau assim, mas o seu, é um ataque tão feroz que apetece perguntar se não há mais nada por trás. O JPP com a posição que toma em relação ao football dá azo a que se brinque com ele. Mas o que ele não vale é tanta zanga. Que falta de sentido de humor!

  • Maria: foi precisamente por admirar Rui Tavares ética e intelectualmente que lancei esta crítica.

  • Maria: foi precisamente por admirar Rui Tavares ética e intelectualmente que lancei esta crítica.

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