[do Público de 25 novembro 2006. Atrasado por causa dos problemas da plataforma weblog em Portugal que, aparentemente, têm sido também a causa dos bloqueios nos comentários.]
E a mensagem para os políticos é a seguinte: estamos tão zangados, mas tão zangados convosco, que até nos dá vontade de ser espanhóis.
Aqui há uns meses, houve um assomo de polémica quando se anunciaram sondagens segundo as quais uma porção importante dos portugueses gostaria de fazer parte de uma união com Espanha. Mas eu não compreendo o que desejam realmente os meus compatriotas. Nós já vivemos numa união com Espanha: chama-se União Europeia. Melhor, é uma união com a Espanha, a França, a Inglaterra, etc. — e a Estónia. Se os portugueses estão assim tão empenhados na diluição das fronteiras do seu país, têm então bom remédio: investir no aprofundamento da integração europeia. Como não lhes vejo grande entusiasmo nesse particular, dou-me ao luxo de achar que é por capricho e desfastio que alguns portugueses falam da união que não têm quando pouco querem saber daquela que têm.
Mas esse capricho tem motivações que pode ser interessante explorar. Há então duas hipóteses conhecidas: ou os portugueses estão zangados, ou os portugueses estão cansados.
A primeira hipótese parte do princípio de que os portugueses — parte deles — desejavam enviar uma mensagem. A quem? Àqueles que vivem de ler sondagens — os políticos, por exemplo. E a mensagem para os políticos é a seguinte: estamos tão zangados, mas tão zangados convosco, que até nos dá vontade de ser espanhóis. Não é que o queiramos realmente ser, mas é para que vão sentindo o tamanho da zanga, e a ideia é magoar, como quando numa discussão de casal se diz: porque é que não és como fulano ou sicrana?
A segunda hipótese: os portugueses estão cansados da crise, do distanciamento em relação à Europa, da perda de poder de compra. Nesta ordem de queixas também culpam os políticos, é certo, mas quando se está cansado já não se sabe a quem culpar, nem isso interessa muito. Quer-se apenas que os maus tempos passem, que “isto” mude. E é então que se começa a invejar o vizinho, ou melhor: a casa do vizinho, o emprego do vizinho, a conta bancária do vizinho. Segundo o filtro do nosso cansaço, os portugueses não gostariam de ser espanhóis — gostariam apenas de ter a vida que os espanhóis têm. O vizinho é aqui meramente instrumental.
Nisto tudo vai-se perdendo um pouco aquilo que o vizinho verdadeiramente é, nas coisas boas e más, e as razões (também boas e más) por que nós não somos o nosso vizinho.
Um exemplo: os portugueses invejam a taxa de crescimento da economia espanhola, que anda à volta dos quatro por cento. Mas não se vê um único político português fazer suas as palavras do principal conselheiro económico de Zapatero, o economista Miguel Sebastián, que atribui grande parte desse crescimento económico aos imigrantes. No discurso português, a imigração é apresentada, meio envergonhadamente, como um problema. Miguel Sebastián, que Zapatero decidiu designar como candidato socialista para alcalde de Madrid, diz que o afluxo de imigrantes dinamiza a economia. Aqui a grande preocupação é o défice: Miguel Sebastián lembra que a contribuição líquida dos imigrantes para os cofres do Estado espanhol, nos últimos cinco anos, é de 4,7 mil milhões de euros. Nas palavras do diário francês Libération, que fez eco das declarações de Sebastián e que sigo na compilação destes dados, os imigrantes são o doping da economia espanhola.
Junto com a preocupação do défice, o outro grande problema português é o da Segurança Social. Aqui vale a pena citar os dados de um estado do banco catalão Caixa: os imigrantes estão a aumentar a taxa de fertilidade em Espanha, que é das mais baixas do mundo, e com eles já foi detida a queda da população. Os espanhóis, que são hoje cerca de quarenta e quatro milhões, seriam menos de quarenta milhões sem os imigrantes e os filhos que estes entretanto tiveram. Mas há mais: com o afluxo de mão-de-obra para os trabalhos domésticos, mais de um milhão e meio de espanholas pôde entrar no mercado de trabalho, aproveitando a descida na taxa de desemprego, e aumentando as contribuições para a Segurança Social. No nosso debate sobre segurança social, a imigração é uma variável de que nem sequer se fala, talvez porque a alternativa seja muito melhor: trabalhar mais, ganhar menos, aposentar-se mais tarde e, além disso, ter mais filhos e cuidar deles com menos poder de compra e menos tempo para estar em casa.
Nestas coisas, como diz o nosso primeiro-ministro, há sempre alternativa, mas a questão é saber se queremos viver com ela. Em Espanha — segundo Raquel Vázquez, co-autora do estudo do Banco Caixa — “o nível de vida teria caído 0,6% em vez de subir 2,6%” entre 1995 e 2005, se os imigrantes não tivessem contribuído para fazer crescer o bolo. Miguel Sebastián diz que, para prosseguir nesta fase de crescimento, a Espanha precisará de 200 mil imigrantes por ano até 2020. No ano passado, o governo espanhol chegou à conclusão que é melhor ter os imigrantes documentados do que na ilegalidade, e regularizou 600 mil de uma assentada.
Para contrariar a geral visão depressiva da imigração, aqui ficam estas pepitas. Claro que, como sabemos, nem tudo é fantástico: quase todos estes imigrantes têm vínculos de emprego precários e também em Espanha as sondagens de opinião lhes são adversas, o que demonstra uma certa ingratidão. Sinto-me tentado a dizer que se não os quiserem por lá, nós deveríamos aceitá-los de bom grado. Mas sem dúvida que preferiremos antes continuar a sonhar com a casa do vizinho, reconhecidamente muito simpática, sem querer fazer nada do que o vizinho fez. Em última análise podemos até, como já muitos fazem, mudar-nos para lá. Certamente que os cofres do Estado espanhol nos agradecem, e que mesmo que alguns espanhóis não o reconheçam, até esses se poderão queixar consumindo com os seus salários mais altos e as suas reformas de velhice mais seguras.






0 Respostas a “A casa do vizinho”