O fim não é o fim

Manuel António Pina
(Foto: crédito não encontrado)

Manuel António Pina escrevia bem e sabia muitas coisas e era bom amigo, todos o dizem, mas o que impressiona é que era sábio de uma maneira que às vezes parece que já não há muito no nosso tempo.

Leio que um filósofo, adaptando o argumento de Copérnico sobre a posição da nossa espécie no universo, chegou a um cálculo sobre o que já vivemos e sobre aquilo que nos resta viver. Garantem-me que o princípio está tecnicamente correto. A conclusão é a de que vivemos um pouco mais de cem mil anos e que nos resta viver um pouco menos de cem mil anos. Como no título do primeiro livro de poesia de Manuel António Pina: “Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde”.

E agora Manuel António Pina morreu, e diz-se que os jornais estão para acabar, e ele próprio escreveu que “a poesia vai acabar” — ao ver um funcionário de uma repartição e perguntar-se «Que fez algum poeta por este senhor?», e ver que essa pergunta o afligiu tanto “por dentro e por fora da cabeça” que era “como uma coroa de espinhos”, e escreveu com isso um poema — e os amigos de Manuel António Pina estão tristes porque gostavam das suas crónicas e dos seus poemas e dos seus livros infantis mas ainda gostavam mais dele.

Que fazer com tanto acabar? É que nós não vivemos sob o princípio copernicano; vivemos sob a finitude das nossas vidas. Por isso nada é insignificante e tudo nos dói, e por isso precisamos de saber que não, as coisas não estão no fim, ainda não perdemos tudo, estamos só numa corrida de estafetas, e Manuel António Pina acabou de nos passar o testemunho a todos.

Onde quero chegar? Em resumo, é isto: tivemos um homem sábio, e isso é raro. Escrevendo nas páginas de jornais e nas páginas de livros e nas conversas de cafés e nas conversas de entrevistas. Manuel António Pina escrevia bem e sabia muitas coisas e era bom amigo, todos o dizem, mas o que impressiona é que era sábio de uma maneira que às vezes parece que já não há muito no nosso tempo.

Pois há ruído, ou seja, aquilo que nos impede de aceder aos dados. E depois há dados. E depois há informação. É isso que julgamos que procuramos quando procuramos o jornal. Mas na verdade, mais do que informação procuramos conhecimento.

Aquilo que não esperamos num jornal, e em geral não temos, é sabedoria. A sabedoria não nos ajuda a controlar as coisas; depende às vezes de não as querermos controlar. E havia um homem, aqui, em 2012, em Portugal, que parecia que tinha facilidade de trato com a sabedoria. Mas não pode ser, aquilo devia custar-lhe muito.

Manuel António Pina deu algumas extraordinárias entrevistas. Só do último ano, devem ser lidas completas as entrevistas a Anabela Mota Ribeiro, no Público, a Carlos Vaz Marques, na Ler, e a Nuno Ramos de Almeida no jornal “i”. Da primeira: “o amor é a bondade que se aplica a tudo. É a bondade, é a beleza. De maneira que o amor ou a bondade é tudo o que temos. Memória é tudo o que temos, palavra é tudo o que temos.” Na segunda: “A publicação é uma forma de morte, de separação. Mas justamente por ser uma forma de morte, é uma forma de nascimento”. Na terceira: “sabemos que aquilo que escrevemos no dia seguinte está a embrulhar o peixe”. É verdade. Mas o peixe vai para alimentar os gatos.

(Crónica publicada no jornal Público em 22 de Outubro de 2012)

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