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		<title>Esquecer caras, escolher palavras</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Sep 2010 15:10:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[blog]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu não dou opiniões: escolho palavras. Umas palavras desdobram as outras. Tenho um caso moderado de prosopagnosia, diz uma amiga que estuda estas coisas. Chama-se prosopagnosia à dificuldade de reconhecer rostos. Para compensar, uso pequenas manhas. Aviso toda a gente. Quando dei aulas, fazia questão de dizer aos meus alunos, na aula de apresentação: “se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote>
<p style="text-align: center;"><strong>Eu não dou opiniões: escolho palavras. Umas palavras desdobram as outras.</strong></p>
</blockquote>
<p><img class="alignleft" src="http://farm4.static.flickr.com/3446/3266612159_7c4c02a16e.jpg" alt="" width="225" height="300" />Tenho um caso moderado de prosopagnosia, diz uma amiga que estuda estas coisas. Chama-se prosopagnosia à dificuldade de reconhecer rostos.</p>
<p>Para compensar, uso pequenas manhas. Aviso toda a gente. Quando dei aulas, fazia questão de dizer aos meus alunos, na aula de apresentação: “se eu não vos cumprimentar no corredor&#8230;” (e aqui poderia ter acrescentado: “&#8230;é porque tenho um caso moderado de prosopagnosia”. Passado algum tempo, porém, esqueço-me se já avisei aquelas pessoas ou não, tenho receio de me tornar repetitivo. E então, de vez em quando, lá vão regressando as queixas: serei mal-educado, não cumprimentei fulano, já não conheço os velhos colegas, etc.</p>
<p>Quando isso acontece, passo à fase seguinte: cumprimento toda a gente que julgo conhecer. Atravesso a rua para os saudar. E quando chego perto deles, pronto a abraçá-los, passo pela vergonha de ter de admitir perante um estranho que o tinha confundido com alguém. Sucedem-se os episódios: uma vez acariciei o pescoço de uma jovem atriz (que nunca me fora apresentada) pensando que era uma amiga dos tempos da faculdade. Outra vez confundi duas mulheres que tinham, entre elas, uma diferença de quarenta anos de idade (a mais nova não achou graça — ou melhor, riu à gargalhada, mas não achou graça à mesma). E aí nascem novas histórias: que sou distraído, que faço figuras ridículas.</p>
<p>Envergonhado, deixo de cumprimentar toda a gente. Passo por arrogante. Envergonhado, volto a cumprimentar toda a gente. Passo por tontinho.</p>
<p>A prosopagnosia já me deu uma lição de humildade<span id="more-1623"></span>. Ao entrar numa loja de televisões e câmaras de vídeo, daquelas que filmam a imagem do cliente e a transmitem em simultâneo, vi a cara de alguém projetada num televisor. Pensei: “que cara de idiota”. Aproximei-me, o tipo da televisão também. O tipo com cara de idiota era eu.</p>
<p>A maior ironia da minha vida é passar a vida dando opiniões. Digo e repito: eu praticamente não tenho opiniões.</p>
<p>Filosoficamente, sou pirronista. O pirronista é aquele que nem sequer sabe que nada sabe. Politicamente, sou anarquista. E cada anarquista é-o de vinte formas diferentes, sempre imperfeitas. O verdadeiro pirronista, porém, pergunta-se: como sei que sou pirronista? O verdadeiro anarquista, porém, afirma: ninguém é o verdadeiro anarquista.</p>
<p>Para ser sincero, não gosto de ter opiniões. Opiniões não são coisas que se tenham, como quem constrói um relatório ou um portfólio. Tenho para aí uma opinião ou duas, no máximo. Que a música faz de nós pessoas melhores, eis uma. A segunda não me lembro agora.</p>
<p>Se eu expusesse aqui, duas vezes por semana, as minhas opiniões, não passaria da primeira semana.</p>
<p>Eu não dou opiniões: escolho palavras. Umas palavras desdobram as outras. Certas ideias levam a outras. Tudo tem de ser reconstruído. Com o tempo vamos ganhando uma certa prática. As opiniões que não temos parecem nascer naturalmente; na verdade, são conjeturas, temporárias vitórias de significados.</p>
<p>A tragédia é que, quanto mais vou cultivando a palavra escrita, mais fracasso na palavra falada. Hesito antes de dizer. Ainda não pronunciei e já imagino a objeção. Mais: antecipo já duas ou três objeções de sinal contrário. Calo-me. Quando escrever descobrirei o que penso.</p>
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		<title>Lições de há cinco anos</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Aug 2010 12:31:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Os analistas que aplaudiram a escolha de Francisco Lopes pelo Comité Central do PCP parecem ter esquecido a lição de há cinco anos. O que interessa é se a candidatura tem condições para ter relevância para lá de um quadro partidário. Há cinco anos, mais ou menos, a política portuguesa estava assim. Mário Soares tinha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Os analistas que aplaudiram a escolha de Francisco Lopes pelo Comité Central do PCP parecem ter esquecido a lição de há cinco anos. O que interessa é se a candidatura tem condições para ter relevância para lá de um quadro partidário.</strong></p>
<p>Há cinco anos, mais ou menos, a política portuguesa estava assim. Mário Soares tinha apresentado a sua candidatura à Presidência da República, instado por José Sócrates entre outros, e entre outras razões porque havia sondagens (algumas delas publicadas, as outras confidenciais) que o davam como vencedor das eleições e, se não isso, pelo menos o único candidato capaz de interromper um passeio tranquilo de Cavaco Silva até Belém.</p>
<p>Ato contínuo, o PCP e o BE apresentaram os seus candidatos, os mais fortes que tinham, mas que de certa forma se anulavam mutuamente: os líderes. As candidaturas de Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã foram o equivalente, em xadrez eleitoral, a uma troca de rainha por rainha. Um esforço de soma zero.</p>
<p>Qualquer destes três candidatos, de uma forma ou outra, se sacrificou pelo seu partido.</p>
<p>Entretanto, Manuel Alegre apresentou-se correndo por fora e acabou por ter o melhor resultado da esquerda. E Cavaco Silva foi eleito à primeira volta, sim, mas com a maioria mais reduzida de qualquer eleição presidencial da democracia. O passeio tranquilo esteve a pouco mais de meio ponto de se perder.</p>
<p>O que se passou?<span id="more-1614"></span> Para mim, erros de leitura de dois géneros, aliás já evidentes na altura.</p>
<p>O primeiro foi um erro na leitura das sondagens, especialmente visível no resultado de Mário Soares, muito pior do que o esperado.</p>
<p>O que uma leitura simplista das sondagens esquece é que quando colocadas perante hipóteses que consideram implausíveis, as pessoas permitem-se dar respostas igualmente implausíveis. Como ninguém acreditava que houvesse mesmo possibilidade de Soares querer ser de novo presidente, as pessoas tomavam a liberdade de dizer que era isso mesmo que prefeririam. (É o caso, quanto a mim, das sondagens em que um grande número de portugueses aparece dizendo que quer ser espanhol: a verdade é que ninguém considera que a hipótese esteja mesmo em cima da mesa.)</p>
<p>Mas os políticos que decidem com sondagens na mão, como era Sócrates na altura (e foi Guterres antes dele) cometem este erro crasso de acreditar mais no número do que em tentar interpretá-lo.</p>
<p>O segundo erro foi na leitura das próprias eleições presidenciais, que são eleições muito especiais onde se revela aquilo que eu considero (porventura isoladamente) um entranhado republicanismo dos portugueses, que afinal vivem numa República com cem anos, e uma das mais três mais antigas da Europa. Os portugueses não gostam de mais do que uma reeleição (Soares que o diga) tal como não gostam de dinastias políticas (João Soares que o diga) tal como não gostam de ver candidaturas “do partido” em eleições pessoais (o PCP e o BE que o digam).</p>
<p>Curiosamente, os analistas que aplaudiram a escolha de Francisco Lopes pelo Comité Central do PCP parecem ter esquecido esta lição de há cinco anos. O resultado pode ser pior o melhor, mas o que interessa é se a candidatura tem condições para ter relevância para lá de um quadro partidário. Caso não tenha, é uma candidatura para picar o ponto.</p>
<p>Estas eleições, contudo, não podem ser para picar o ponto. A crise económica e o impasse político fazem delas um momento essencial para definir o que vai ser o país na próxima década. Cavaco e Alegre têm mais diferenças entre si do que, por exemplo, Sócrates e Passos Coelho. Antes do debate entre eles começar, as sondagens de 2010 estão tão incompletas como as de há cinco anos.</p>
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		<title>A nossa agente em Petersburgo</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Aug 2010 12:06:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Claro, quem melhor denuncia a identidade dos nossos espiões é sempre o ministro da tutela, desde Veiga Simão que publicou uma lista com os nomes deles, a Augusto Santos Silva que anteontem anunciou que ia enviar espiões militares para o Líbano. “Temos de ir beber um copo com o gajo do SIS”. “Com o gajo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Claro, quem melhor denuncia a identidade dos nossos espiões é sempre o ministro da tutela, desde Veiga Simão que publicou uma lista com os nomes deles, a Augusto Santos Silva que anteontem anunciou que ia enviar espiões militares para o Líbano.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">“Temos de ir beber um copo com o gajo do SIS”. “Com o gajo do quê?”. “Do SIS, pá, com o nosso espião”. “E tu sabes quem é?”; “toda a gente sabe”; “toda a gente, como?”; “oh pá, toda a gente: os estudantes de piano, os de matemática, e o português que veio para cá atrás da namorada — todos”. “Mas então o gajo revela assim a identidade?”. “Eh pá, tens que ver que ele está um bocado dependente de nós” — o meu interlocutor encolheu os ombros — “é que o gajo do SIS não sabe falar russo”.</p>
<p style="text-align: justify;">Estávamos numa cidade de cujo nome não quero recordar-me, mas onde falar russo não era insignificante. Bastava aguçar os ouvidos: toda a gente ali falava russo — menos eu e o gajo do SIS.<span id="more-1610"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Dias antes eu tinha estado na famosa MGIMO, a escola diplomática russa a que também chamam “fábrica de espiões”. Ali não se aprende só o idioma; conversei vinte minutos com um tipo de perfeito sotaque beirão até lhe perguntar se ele não era da Mealhada (gosto de identificar sotaques como há quem goste de decorar matrículas). Resposta dele: “não, sou de Moscovo mesmo”. Ainda boquiaberto, mas seguro dos meus conhecimentos de português brasileiro, dei por mim a confirmar “você é carioca, certo?” junto de um outro que deveria ser de Vladivostok.</p>
<p style="text-align: justify;">Mandar para a Meca da espionagem um desgraçado que nem fala a língua local só se pode explicar por ele, em Lisboa, ter irritado um chefe qualquer. Mas ninguém merece. A história é talvez apócrifa; eu não cheguei a conhecer o nosso tuga que foi para o frio. Mas ocultei-a até hoje por cautela com a segurança dele, não fosse perder-se no caminho para casa com um vodca a mais e cair às águas de um rio que não posso identificar.</p>
<p style="text-align: justify;">Claro, quem melhor denuncia a identidade dos nossos espiões é sempre o ministro da tutela, desde Veiga Simão que publicou uma lista com os nomes deles, a Augusto Santos Silva que anteontem anunciou que ia enviar espiões militares para o Líbano. Estou convencido de que o ministro nos dirá que não há problema nenhum em pôr de sobreaviso as pessoas que queremos espiar. Nesse caso, estou em boa companhia para o que vou fazer a seguir.</p>
<p style="text-align: justify;">Dias depois, conheci a nossa agente em São Petersburgo. Vou revelar aqui o nome dela: Elena Golubeva. Linda, como é da praxe: mais de oitenta anos, olhos espertos e uma voz delicada.</p>
<p style="text-align: justify;">Não, não é agente do SIS, embora fale russo melhor do que eles — e, pensando bem, melhor português também. Que eu saiba não recebe um centavo do nosso governo. O que é pena.</p>
<p style="text-align: justify;">Há sessenta anos, Elena Golubeva descobriu a língua portuguesa. Foi a primeira pessoa a traduzir Fernando Pessoa na URSS. Camões, também. E nunca mais parou. De Torga e Saramago até aos novíssimos como Gonçalo M. Tavares. Persistente, doce, a princípio sozinha, foi reunindo uma tribo da lusofonia. A ajuda de um estudante português de música é preciosa; a visita de um escritor é um tesouro. Ali numa sala pequenina da Universidade de São Petersburgo, rodeados pelos departamentos poderosos em dinheiro e meios (espanhol, inglês, alemão) eles vão mantendo a chama acesa.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde que a conheci que abri uma excepção e faço campanha para que lhe dêem uma medalha no 10 de Junho. Ela preferiria que lhe enviassem livros, ou um leitor do Instituto Camões.</p>
<p style="text-align: justify;">E é assim, caro Ministro: também conheço uma luso-libanesa com o curso da faculdade de letras; fala um árabe perfeito e tem rudimentos de persa. Mande-a para uma boa universidade em Beirute. Mas se quer um conselho, esqueça isso dos espiões até deixar de ser irremediavelmente nabo.</p>
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		<title>Pancada no pequeno</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Aug 2010 11:02:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O que a França está a fazer é ilegal, uma clara violação dos tratados e do espírito fundamental da União Europeia. A Comissão Europeia, que é suposta ser a &#8220;guardiã dos tratados&#8221;, não se insurge. Durão Barroso está silencioso. Sabem o que eu gostaria de ser? Um colunista de direita. Se eu fosse um colunista [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>O que a França está a fazer é ilegal</strong><strong>,</strong><strong> uma clara violação dos tratados e do espírito fundamental da União Europeia. </strong><strong>A Comissão Europeia, que é suposta ser a &#8220;guardiã dos tratados&#8221;, não se insurge. </strong><strong>Durão Barroso está silencioso.</strong></p>
<p><span style="font-family: georgia, serif;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Sabem o que eu gostaria de ser? Um colunista de direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Se eu fosse um colunista de direita poderia comparar a minha ida ao Algarve para férias, — de avião, e em primeira classe — com o avanço do exército nazi pela Europa fora (o leitor que achar isto impossível faça o favor de ler a crónica de Vasco Pulido Valente de ontem).</p>
<p style="text-align: justify;">Sendo um cronista de esquerda, não posso sequer comparar o salazarismo com o fascismo. Porém, se fosse um cronista de direita poderia defender que o salazarismo foi o primeiro construtor do estado social, um grande escolarizador e, se tivéssemos dado uma chance (mais outra) ao marcelismo, uma quase democracia civilizada. (O leitor que achar isto impossível faça o favor de ler o ensaio de Rui Ramos sobre Salazar no &#8220;Atual&#8221; do Expresso).</p>
<p style="text-align: justify;">Sendo um cronista de esquerda, não tenho estas liberdades: devo até justificar-me por tudo e um par de botas, do PREC ao Guterrismo. Ora, se eu fosse um colunista de direita, teria o problema correspondente resolvido. Poderia simplesmente declarar que não existe nenhum partido de direita em Portugal, que o PSD e o CDS são na verdade socialistas, e que nenhum deles é digno das minhas extraordinárias ideias. (O leitor que achar isto impossível leia qualquer crónica de Henrique Raposo no Expresso).</p>
<p style="text-align: justify;">Sabem o que eu não queria? Chatear-vos nas vossas férias, reais ou simplesmente imaginadas. Mas cá vai disto.<span id="more-1585"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Em Portugal, que é a nossa província, um membro do governo que é Secretário de Estado da Segurança Social anuncia uma poupança de dez milhões nos Rendimentos Sociais de Inserção, afetando em  período de crise 44% dos beneficiários desta prestação, que estão entre as pessoas mais vulneráveis do país. &#8220;Compromisso cumprido&#8221;, afirmou o Secretário.</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo governo promete pensar em começar a estudar formas de baixar os custos com a renovação do seu parque automóvel, que são de 7,5 milhões de euros anuais. Isto é capaz de ser coisa mais demorada.</p>
<p style="text-align: justify;">Na Europa, que é o nosso mundo, o governo francês continua com a sua política de repatriação de ciganos romenos. A imprensa ajuda sendo eufemística — ninguém usa a expressão &#8220;limpeza étnica&#8221; — ou incorreta — aqui ou ali vai aparecendo a expressão &#8220;imigrantes ilegais&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos ser rigorosos sobre o que isto é e o que não é. Não, não se trata de imigrantes ilegais: os cidadãos romenos são comunitários e têm direito à livre circulação pelo território da União. E, sim, isto é uma limpeza étnica, ou seja, uma expulsão de um dado território de uma população circunscrita por critérios étnicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Como seria de esperar, a Itália de Berlusconi já manifestou vontade de seguir o exemplo francês. Quando a Croácia entrar na União Europeia, até 2012, ouviremos discursos sobre o caminho que ela fez desde as limpezas étnicas dos anos 90. Da maneira que as coisas estão, parece-me que é antes a UE que vai aderir à Croácia dos anos 90.</p>
<p style="text-align: justify;">O que a França está a fazer é ilegal, uma clara violação dos tratados e do espírito fundamental da União Europeia. A Comissão Europeia, que é suposta ser a &#8220;guardiã dos tratados&#8221;, não se insurge. Durão Barroso está silencioso. Dá-se tempo a que Sarkozy faça o seu número para as sondagens.</p>
<p style="text-align: justify;">Bom regresso de férias. Reabriu a época da pancada no pequeno. Na verdade, acho que nunca chegou a fechar.</p>
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		<title>Ray Bradbury não morreu</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Aug 2010 14:07:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Fantástico não era desembarcarem extraterrestres como nos outros livros de Ray Bradbury. Era ser rapaz e ler livros em que desembarcassem extraterrestres. Era no tempo dos telefones fixos e havia um coronel aposentado que ligava para um velho amigo na Cidade do México. Abre a janela e espeta o telefone do lado de fora, dizia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>
<div>
<div>
<p style="text-align: center;"><strong>Fantástico não era desembarcarem extraterrestres como nos outros livros de Ray Bradbury. Era ser rapaz e ler livros em que desembarcassem extraterrestres.</strong></p>
<p><span style="font-family: georgia, serif; font-size: small;"> </span></p>
<div class="wp-caption alignleft" style="width: 207px"><img class="  " src="http://heyoscarwilde.com/wp-content/uploads/2007/10/mayerik_bradbury.thumbnail.jpg" alt="" width="197" height="255" /><p class="wp-caption-text">Ray Bradbury </p></div>
<p>Era no tempo dos telefones fixos e havia um coronel aposentado que ligava para um velho amigo na Cidade do México. Abre a janela e espeta o telefone do lado de fora, dizia ele; eu quero escutar os barulhos que sobem da praça do Zócalo, e as vendedoras apregoando mamão e polpa de cacto, e os índios dos 400 povos fazendo confusão aí embaixo.</p>
<div>
<div>
<div><span style="font-family: georgia, serif; font-size: small;">Isto era em A Cidade Fantástica, de Ray Bradbury, já mais de metade do livro andado. Eu tinha chegado até ali desconfiado. Mas então não passa disto? Numa coleção de ficção científica? Quando é que desembarcam os extraterrestres?<span id="more-1574"></span></span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif; font-size: small;">Não apareciam monstros. Havia um rapaz a quem tinham dado ténis novos e que brigava com o irmão por desfastio. À noite eram levados pelos avós a comer sorvetes. Na rua do lado morava o coronel velho com saudades do México. O rapaz levantava-se de madrugada, ia para o sótão, e cheio de amor pela sua cidade, fingia comandar as luzes que se acendiam uma a uma.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif; font-size: small;">O “fantástico” do título enganava (só em português; em inglês o livro chama-se Dandelion Wine — Vinho de Dente-de-Leão); no fundo, acho que Bradbury escreveu aquele livro para nos ensinar uma ou duas coisas sobre o mágico e o maravilhoso. Fantástico não era desembarcarem extraterrestres como nos outros livros de Ray Bradbury. Era ser rapaz (ou ter sido rapaz) e ler livros em que desembarcassem extraterrestres.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif; font-size: small;">Repito a história de Eduardo Prado Coelho, que escreveu </span><span style="font-family: georgia, serif; font-size: small;"> nesta página muitos anos, e que se queixava de lhe ligarem sempre para comentar a morte de mais um escritor. O que eu queria mesmo, sugeria ele, era que me ligassem uma vez que fosse para noticiar o nascimento de um escritor, hoje de madrugada na maternidade, e me pedissem para comentar a obra futura dele.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif; font-size: small;">Ainda não tenho uma notícia dessas para vos dar. Mas acho que posso reclamar o segundo prémio: Ray Bradbury não morreu.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif; font-size: small;">Há pelo menos cinco anos que eu estava convencido do contrário. E de repente, vejo numa livraria um número da The Paris Review com uma entrevista a Ray Bradbury. Póstuma, certamente, pensei eu. E quando vou confirmar, era póstuma uma ova. O homem está vivo. Enviuvou, teve um enfarte, fez agora noventa anos, mas está vivo. Quando perdeu a capacidade de datilografar resolveu telefonar à filha e ditar-lhe um livro. Saiu um policial, chamado Vamos Todos Matar a Constança. Vamos todos reler este título.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif; font-size: small;">Na entrevista, Ray Bradbury fala sobre não ter tido educação formal, e recorda: “Sou um produto das bibliotecas. Nunca fui à universidade. Mas fui para a biblioteca e descobri-me. Depois de acabar o liceu, fui para a biblioteca três vezes por semana, durante dez anos, até à altura em que me casei. Aí achei que tinha feito o meu trabalho. Licenciei-me da biblioteca com 27 anos.”</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif; font-size: small;">Isto eu li anteontem. E ontem compro o DN e leio que Ray Bradbury disse umas coisas sobre Barack Obama, protestando, dizendo que os EUA precisavam de uma revolução (não dessas, mas das outras, ao que parece). Logo ele, o velhaco, que esteve tão caladinho durante os anos do George W. Bush que eu até achei que ele tinha morrido.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif; font-size: small;">Mas eu perdoo-lhe tudo. Ray Bradbury esteve vivo dois dias seguidos, e continua. Ena pá ena pá ena pá, agora se lhe dessem o Nobel é que era.</span></div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
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		<title>Chorar a 3D</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Aug 2010 06:53:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[As coisas que nos fazem chorar e as que nos fazem rir funcionam de maneira diferente. Nós rimos por explosões e choramos por implosão. Contaram-me uma vez esta história: uma pessoa que durante dez anos não tinha conseguido chorar. Apesar de nessa década ter acontecido o que por força acontece no decurso de uma década, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>As coisas que nos fazem chorar e as que nos fazem rir funcionam de maneira diferente. Nós rimos por explosões e choramos por implosão.</strong></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-family: georgia, -webkit-fantasy;">Contaram-me uma vez esta história: uma pessoa que durante dez anos não tinha conseguido chorar. Apesar de nessa década ter acontecido o que por força acontece no decurso de uma década, mortes, separações, despedidas, e o sofrimento em cada uma dessas coisas ser igual ao que sempre tinha sido — essa pessoa queria chorar, e tentava forçar o choro, mas o choro não vinha.</span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-family: georgia, -webkit-fantasy;">Um dia foi ver um filme melodramático italiano, e chorou baba e ranho. Ficou envergonhada ao pensar afinal que raio de pessoa era, que não chorava com uma morte ou uma separação, mas que desabava com um filme que nem sequer era muito bom.</span></p>
<div><span style="font-family: georgia, serif;">Esforçou-se então, através de uma laboriosa rememoração, por ir buscar a última vez que tinha chorado antes da década sem choro. E descobriu algo que sempre tinha sabido, mas que tinha também esquecido. O acontecimento em causa tinha ocorrido quando ainda era jovem. <span id="more-1571"></span>Para tentar conter o choro tinha então dito essa pessoa para si mesma: “isto não é verdade, isto não está a acontecer, é como se fosse um filme”.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;">Era na palavra “filme” que estava a chave do enigma. O acontecimento traumático de dez anos antes tinha sido dominado ao fingir que se tratava de um filme. E o alçapão que fora encerrado dessa forma só pôde ser reaberto, muito tempo depois, por um filme verdadeiro.</span></div>
<div></div>
<div><span style="font-family: georgia, fantasy;">Nós, animais ficcionais, contamos histórias de uma forma que mais animal nenhum faz. Desde o início; mitologias, lendas, fábulas, genealogias, histórias de cavalaria. Começa quando somos crianças; contam-nos histórias a nós, e nós inventamos brincadeiras com histórias dentro, “agora eu era isto e tu eras aquilo”. Contamos histórias coletivas, sobre o país, e sobre o regime, e sobre por que são as coisas desta ou daquela forma. Algumas das histórias são inventadas e é mesmo assim inventadas que as queremos. Outras são verdadeiras, e são sobre nós mesmos, e omitem alguns pormenores e realçam outros. Ajudam-nos a fazer sentido de nós.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;"><span style="font-family: georgia, -webkit-fantasy;">É a primeira tentativa de levar o meu afilhado ao cinema, e falhou. Queríamos ver um filme de animação com brinquedos, a três dimensões. Mas parámos antes numa loja para eu lhe oferecer um joguinho eletrónico e, quando chegámos à bilheteira do cinema, os ingressos para o filme já estavam esgotados.</span></span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;">A minha inexperiência destas coisas deitou a perder a nossa tarde. Eu tinha lido uma crítica ao filme no Financial Times — um jornal sisudo. E nela o crítico — certamente também um homem sisudo —, confessava ter chorado durante o filme todo. Sim, dizia ele, o filme é muito bem feito, e as três dimensões estão ali aproveitadas de uma forma magnífica. Mas foi a história que me fez chorar, dizia o crítico sisudo, só as boas histórias conseguem isto.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;">Ele tem razão; sobre o filme não sei, mas sobre o resto. As coisas que nos fazem chorar e as que nos fazem rir funcionam de maneira diferente. Nós rimos por explosões e choramos por implosão. As coisas que nos fazem rir podem ser mais unidimensionais. As coisas que nos fazem chorar têm de funcionar por dentro, e apanhar-nos por diversos pontos ao mesmo tempo — como as memórias da infância.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;">Pergunto ao António se ele não ficou chateado por perdemos o filme. E olho para ele: seis anos, franjinha na testa, óculos vermelhos, ossos de passarinho. Ele diz: “não; pelo menos sempre tenho o meu joguinho”. Uma história para ajudar a explicar aquele pequeno desaire. E faz uma carinha estóica, como quem diz: não vou chorar.</span></div>
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		<title>Traduzam-se para a guerra</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Aug 2010 11:24:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A sociedade contemporânea precisa de uma internet livre, justa e igual para a ONG, a banda de garagem, a empresa da esquina ou a companhia multinacional. Lembra-se quando as traduções automáticas do Google produziam resultados ridículos? Já experimentou recentemente traduções automáticas do Google e reparou como a qualidade delas melhorou enormemente? É interessante conhecer a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>
<div style="text-align: center;"><strong>A sociedade contemporânea precisa de uma internet livre, justa e igual para a ONG, a banda de garagem, a empresa da esquina ou a companhia multinacional.</strong></div>
<div style="text-align: center;"><strong><br />
</strong></div>
</div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;"><img class="alignleft" src="http://www.tgdaily.com/sites/default/files/stock/article_images/misc/matrix.jpg" alt="" width="284" height="216" />Lembra-se quando as traduções automáticas do Google produziam resultados ridículos? Já experimentou recentemente traduções automáticas do Google e reparou como a qualidade delas melhorou enormemente?</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;">É interessante conhecer a história desta evolução. Ela começa por ser uma lição de linguística e acaba sendo uma lição de política.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;">Primeiro, a linguística. Uma definição simples de “língua” consiste em dizer que ela é um conjunto de significados mais um conjunto de regras.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;">Quando a Google tentou ensinar línguas aos seus computadores, quis fazê-lo dessa forma, dando-lhes os significados, as regras, e tentando que eles fizessem o trabalho da mente humana. Só que os computadores não pensam (ainda?) linguisticamente como as mentes humanas. Numa tradução, a máquina poderia apanhar todas as palavras bem e, todavia, o sentido geral ser absurdo.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;">Até que a Google mudou de estratégia. Em vez de ensinar gramática aos computadores, usou aquilo em que eles já eram bons: estatística. Hoje, a máquina não “entende” a frase: limita-se a procurar entre milhares de exemplos de traduções semelhantes e sair-se com a mais provável. As traduções melhoraram muito. O segundo parágrafo deste texto fica assim em inglês, sem nenhum retoque meu: “It is interesting to know the history of this development. It starts as a lesson in linguistics and ends up being a lesson in politics.”</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;">Ah, e então a tal lição de política?</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;"><span id="more-1564"></span></span><span style="font-family: georgia, serif;">Ei-la: para encher as suas bases de dados com milhões de traduções, onde foi a Google buscá-las? Entre outras, às traduções para 22 línguas do Parlamento Europeu, pagas pelo contribuinte. O material disponível é gratuito, e se mesmo assim a tradução não for boa, você pode ajudar a Google a melhorá-la, oferecendo-lhe o seu trabalho, também gratuito.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;">Agosto é o melhor mês para lançar uma guerra: um lobo em pele de cordeiro. Nesta época em que as redações estão meio-vazias, os jornalistas que restam ficam de atalaia. Algo de terrível está para acontecer: uma guerra entre Israel e o Líbano, como em 2006; um golpe de estado no Kremlin, como em 1991.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;">Este ano, já houve um fogacho no Líbano e Moscovo está rodeada de fogo. Mas a guerra mais importante — e discreta — foi lançada na internet. A Google e a gigante de telecomunicações Verizon negociaram um acordo que pretende mudar as regras de trânsito na rede.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;">Nas regras de trânsito reais, um semáforo vale o mesmo para um condutor rico ou pobre. E assim é na internet. Mas nas regras de trânsito que a Google e a Verizon cogitam implementar, o condutor poderoso (como a Google) passa a dispor dos sinais verdes que a Verizon lhe der; nós outros encontraremos mais luzes vermelhas ou amarelas. Isto significa, como diz Paulo Querido no Correio da Manhã, “o fim da igualdade de oportunidades, para quem cria e produz, e o fim da liberdade de acesso para quem consome”.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;">Esta é uma guerra declarada ao melhor repositório de conhecimento, ação e desenvolvimento de que a humanidade dispõe. A sociedade contemporânea precisa de uma internet livre, justa e igual para a ONG, a banda de garagem, a empresa da esquina ou a companhia multinacional.</span></div>
<div><span style="font-family: georgia, serif;">Essa internet somos nós todos. E as grandes empresas têm tendência a esquecer de quanto nos devem, principalmente quando têm a sua crise da meia-idade, e começam à procura de expedientes para empurrar a concorrência para trás. Quando a Google vier reivindicar privilégios, perguntem-lhes onde foram eles buscar as traduções.</span></div>
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		<title>Um historiador</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Aug 2010 12:02:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Para indignar-se ele não usava o passado. Tinha a atualidade, e não a poupava. Nem ela a ele. A short film about Tony Judt (YouTube) Entender é difícil. Ler os primeiros capítulos de Pós-Guerra — uma História da Europa desde 1945, de Tony Judt (editado em Portugal pelas ed. 70) — é perguntar &#8220;que continente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Para indignar-se ele não usava o passado. Tinha a atualidade, e não a poupava. Nem ela a ele.</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=dwePmYzQn68&amp;feature=related">A short film about Tony Judt (YouTube)</a></strong></p>
<div class="wp-caption alignleft" style="width: 361px"><img class="     " src="http://www.jezblog.com/images/20080520143653_jezc_prof_judt_nyc_usa512.jpg" alt="" width="351" height="234" /><p class="wp-caption-text">Tony Judt - O Historiador</p></div>
<p>Entender é difícil.</p>
<p>Ler os primeiros capítulos de Pós-Guerra — uma História da Europa desde 1945, de Tony Judt (editado em Portugal pelas ed. 70) — é perguntar &#8220;que continente é este&#8221;? Que continente é este que se matou e deportou desta forma. Numa página qualquer lá estão eles: os milhões de judeus mortos, milhões de ciganos mortos, centenas de milhares deste ou daquele povo (ucranianos, bielorussos, polacos, alemães) mudados de um lugar para o outro. A escrita é quase graciosa, de uma forma perturbante. Pousa sobre coisas que estão nos nossos alicerces sem ocultar nem escavacar nada.</p>
<p>Citado ao acaso: &#8220;Entre 1939 e 1941 os Nazis escorraçaram 750000 camponeses polacos para Leste e ofereceram a terra esvaziada a alemães&#8221;. &#8220;Poucas semanas após o fim da Guerra, uma em cada cinco pessoas de Varsóvia sofriam de tuberculose&#8221;. &#8220;As clínicas e médicos de Viena documentaram que 87000 mulheres foram violadas à passagem do exército vermelho&#8230;&#8221;. &#8220;Na Baviera em 1951, 94 por cento dos juízes e procuradores tinham sido membros do partido Nazi&#8221;.</p>
<p>Coisas pavorosas. Mas Tony Judt não escreveria tal palavra num livro de história.<span id="more-1553"></span></p>
<p>Para indignar-se ele não usava o passado. Tinha a atualidade, e não a poupava. Nem ela a ele. Um único artigo seu sobre Israel e a Palestina — ele, judeu inglês morando em Nova Iorque, que na juventude trabalhara nos kibbutzim israelitas, dizendo que &#8220;Israel é hoje má para os judeus&#8221; — valeu-lhe inimizades profundas.</p>
<p>O texto começava assim: &#8220;O processo de paz no Médio Oriente acabou. Não morreu. Mataram-no.&#8221; Mesmo nesses artigos Tony Judt era preciso e elegante. E tal como não traficava a política para a história, também não usava a história para resolver as suas brigas políticas. As suas melhores qualidades apareciam de forma diferente na escrita histórica e na escrita política.</p>
<p>Há pouco mais de seis meses, Tony Judt publicou na New York Review of Books um ensaio chamado &#8220;Noite&#8221;. Logo na abertura explicava que sofria de esclerose lateral amiotrófica. Tinha perdido o uso dos quatro membros e o controlo do tórax. Sabia que perderia a fala, e que depois disso ficaria fechado no seu mundo. Depois deixaria de respirar, e morreria.</p>
<p>O texto descrevia como eram as noites de quem não &#8220;pode coçar-se, ajustar os óculos, ou fazer as coisas que — se pensarmos um momento — todos fazemos dúzias de vezes ao dia&#8221;. &#8220;Não se perde o desejo de nos espreguiçarmos, nos dobrarmos ou até de fazer exercício. Mas não há nada — nada — que possamos fazer para satisfazer esse desejo&#8221;. Tony Judt chamava à sua doença (traduzindo livremente): &#8220;o pior tipo de prisão domiciliária&#8221;.</p>
<p>De máscara de oxigénio presa ao rosto, deu as suas últimas aulas e palestras. De uma delas resultou o seu último livro, político, uma apologia da social-democracia europeia.</p>
<p>Passou-se então uma coisa extraordinária. Tony Judt já era um ensaísta de primeira água, como historiador ou como &#8220;político&#8221;. Ele já tinha ideias; decidiu também abrir a sua escrita à intimidade, ao humor e à leveza. Limitado à fala e à memória, Tony Judt foi ditando ensaio após ensaio: sobre a infância, sobre o tempo em que as pessoas andavam de barco, sobre apaixonar-se por uma aluna, sobre &#8220;crescer rodeado de palavras&#8221; e, finalmente, viver agarrado a elas.</p>
<p>Tony Judt morreu na sexta-feira passada, mais repentinamente do que esperado. Desconfio que não quis ficar sem palavras.</p>
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		<title>Diógenes Laércio</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Aug 2010 09:14:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quando não sobra muito da obra de alguns dos filósofos, Diógenes Laércio é considerado uma fonte essencial, talvez a única em alguns casos. Há dois Diógenes importantes na antiga filosofia grega. Um deles é Diógenes o Cínico, que vivia como vagabundo, andava nu pelas ruas, fazia as necessidades onde calhava, e dormia dentro de uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Quando não sobra muito da obra de alguns dos filósofos, Diógenes Laércio é considerado uma fonte essencial, talvez a única em alguns casos.</strong></p>
<p><span style="font-family: georgia, -webkit-fantasy;"> </span></p>
<div class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class=" " src="http://farm3.static.flickr.com/2395/1908388817_8a9d1422b8.jpg" alt="" width="300" height="225" /><p class="wp-caption-text">Diógenes Laércio da Cilícia</p></div>
<p><span style="font-family: georgia, serif;">Há dois Diógenes importantes na antiga filosofia grega. Um deles é Diógenes o Cínico, que vivia como vagabundo, andava nu pelas ruas, fazia as necessidades onde calhava, e dormia dentro de uma barrica. A sua indiferença aos preceitos da sociedade está na origem do nome cínico, que não quer dizer aquilo a que estamos habituados, mas vem de kynikos, palavra grega relativa ao cão. Diógenes de forma tão livre e liberta como a de um cão — daí “cínico”, ou canino. Foi também o primeiro filósofo a declarar-se “cosmopolita”, cidadão do mundo. Diz-se que o imperador Alexandre o Grande pediu para o ver e lhe perguntou se ele queria alguma coisa. Diógenes disse-lhe que a única coisa que desejava do imperador era que ele se afastasse do Sol (Diógenes não queria estar à sombra). Alexandre proclamou: “Se eu não fosse Alexandre, gostaria de ser Diógenes”. Diógenes disse-lhe: “estou à procura dos ossos do teu pai” — o rei e voraz conquistador Filipe, da Macedónia — “mas não consigo distingui-los dos de um escravo”.</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, fantasy;">O outro Diógenes é Diógenes Laércio, historiador da filosofia, ou melhor, biógrafo de filósofos.<span id="more-1547"></span> Tenho lido partes das suas “Vidas, doutrinas e sentenças dos filósofos ilustres” nos últimos dias.</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, fantasy;">Quando não sobra muito da obra de alguns dos filósofos, Diógenes Laércio é considerado uma fonte essencial, talvez a única em alguns casos. Por vezes tem uma ou duas páginas sobre um obscuro pré-socrático. Outras vezes dedica um “livro” inteiro (na verdade, um capítulo) ao chefe de uma escola. Tem, por exemplo, uma das mais completas biografias de Epicuro. Dedica também um livro aos estóicos.</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, -webkit-fantasy;">Tanto estóicos como epicuristas almejavam alcançar um estado definido pela palavra grega “ataraxia”. Em português diríamos “imperturbabilidade”. A imperturbabilidade está descrita no famoso poema de Ricardo Reis chamado “Os Jogadores de Xadrez”, que começa assim:</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, fantasy;">“Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, serif;">Tinha não sei qual guerra,</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, serif;">Quando a invasão ardia na cidade</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, serif;">E as mulheres gritavam,</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, serif;">Dois jogadores de xadrez jogavam</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, serif;">O seu jogo contínuo.”</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, fantasy;">E que vale a pena ler até ao fim.</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, fantasy;">A coisa melhor de ler Diógenes Laércio é ver um desfile de doutrinas filósoficas, cada uma não só com seus postulados, mas também com o seu temperamento, as suas semelhanças, as suas rivalidades.</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, fantasy;">(Aristóteles disse uma vez que ensinava “porque seria vergonhoso calar-me e deixar falar Xenócrates” — certamente um filósofo que desprezava — dando uma excelente explicação de porque falam muitas pessoas que falam sobre, por exemplo, política.)</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, fantasy;">De ser muito usado por filósofos sisudos, às vezes temos de Diógenes Laércio uma ideia também sisuda, e errada. Vejam uns excertos desta biografia de Epiménides, filósofo da ilha de Creta:</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, fantasy;">“Mudou de rosto e de cabelos da seguinte forma: seu pai enviou-o um dia a procurar uma ovelha; ele entrou numa caverna e ali adormeceu durante cinquenta e sete anos. Uma vez viajou para Atenas e negociou um tratado de paz. Recusou dinheiro. Regressou para a sua terra e morreu pouco depois com cento e cinquenta e sete anos de idade. Os cretenses dizem que foi com duzentos e noventa e nove. Xenófanes de Colofón afirma que foi com cento e cinquenta e quatro.”</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, fantasy;">Todos errados. Que maravilha. Viva Diógenes Laércio.</span></p>
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		<title>E se a verdade não for novidade?</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Aug 2010 08:37:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[blog]]></category>

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		<description><![CDATA[A guerra do Afeganistão é agora pior do que uma guerra perdida: é uma guerra que não quer acabar. Quando 90 mil documentos secretos sobre a guerra do Afeganistão são revelados, que ficamos a saber? Que os militares ocidentais matam mais civis inocentes do que revelam; que as chefias militares comandam esquadrões da morte; que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>A guerra do Afeganistão é agora pior do que uma guerra perdida: é uma guerra que não quer acabar.</strong></p>
<p style="text-align: left;">
<p>Quando 90 mil documentos secretos sobre a guerra do Afeganistão são revelados, que ficamos a saber? Que os militares ocidentais matam mais civis inocentes do que revelam; que as chefias militares comandam esquadrões da morte; que as alianças no terreno são ambivalentes e hipócritas. Sim, é verdade: ficamos a saber aquilo que já sabíamos.</p>
<p>Mas não é por isso que estas revelações deixam de ser históricas. Aqueles que agora as desprezam como sendo triviais são os mesmo que antes se recusavam a admiti-las. Dizer que a verdade é trivial é apenas a nova forma que encontram de continuar a recusá-la.</p>
<p>Estranhamente, esta resposta tornou-se também opinião convencional entre os jornalistas. &#8220;Isto é verdade&#8221;, dizem, &#8220;mas não é novidade&#8221;. E então? <span id="more-1541"></span>Ao escolher a novidade contra a verdade, os jornalistas prestam um favor ao comando de guerra e um mau serviço à sociedade. A guerra do Afeganistão é agora pior do que uma guerra perdida: é uma guerra que não quer acabar.</p>
<p>Um exemplo: os ataques aéreos feitos por drones (ou seja: pequenos aviões telecomandados e não tripulados). Para a opinião pública dos EUA, os drones eram ovos de Colombo. Os &#8220;nossos&#8221; pilotos não estão lá nem pode ser abatidos; só os &#8220;maus&#8221; é que morrem. Genial!</p>
<p>Mas os documentos secretos revelados pela Wikileaks demonstram que estes drones matam muitos inocentes e que, quando caem, dão origem a custosas e violentas operações de resgate para que a tecnologia não caia em mãos inimigas. Os militares sempre souberam disso, e ocultaram-no.</p>
<p>E nós sempre pudemos saber — sem acesso a documentos secretos — que todas as novas armas de guerra têm um retorno. Tal como nas minas anti-pessoais, o problema não é o inimigo deter a tecnologia: é o conceito ter sido legitimado aos olhos da sua população-alvo. Quando um grupo terrorista telecomandar um drone sobre uma cidade ocidental, descobriremos que esta é uma arma cobarde. Toda a gente o dirá, — e se esquecerá de quem foram os primeiros a utilizá-la.</p>
<p>Desvalorizar a verdade como trivial só nos fará pagá-la mais cara.</p>
<p>Outra linha de ataque às revelações é comparativa. Diz-se nas redações: &#8220;o caso wikileaks não é como os papéis do pentágono, revelados em 1971, nem como o escândalo Watergate, que o Washington Post noticiou em 1972&#8243;. E aqui os jornalistas estão simplesmente equivocados. Deixaram que a memória os traísse e não fizeram trabalho de arquivo.</p>
<p>Como lembra corretamente Frank Rich, colunista do New York Times, é verdade que os documentos da wikileaks tiveram de partilhar as primeiras páginas com o casamento de Chelsea Clinton. Mas a revelação dos &#8220;pentagon papers&#8221; também partilhou a primeira página do mesmo jornal com o casamento da filha de Nixon. O trivial e o fundamental sempre partilharam as primeiras páginas.</p>
<p>E quem viu Os Homens do Presidente — filme de 1976 sobre Watergate — sabe como ele acaba, já depois do escândalo revelado (quem não viu o filme talvez queira saltar este parágrafo): os dois jornalistas trabalham noite adentro enquanto as televisões dão a notícia da vitória esmagadora de Richard Nixon na sua segunda eleição.</p>
<p>No filme, os ruídos do telex e o fato de veludo castanho de Robert Redford estão para os anos 70 como os documentos secretos gravados em CDs da Lady Gaga e a figura de Julian Assange, fundador da wikileaks, estarão para a nossa época. Seremos coloridos pelo trivial e definidos pelo fundamental. É que a verdade pode não ser novidade, e pode até não ser notícia. Mas não deixa de ser história.</p>
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		<title>Montaigne</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Jul 2010 15:47:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[As nossas vontades e os nossos fados tão contrários são, que por terra deitam todo o nosso engenho. Os nossos pensamentos são nossos; os fins deles já nada têm connosco. Após treze anos de Parlamento na segunda metade do século XVI, Montaigne abandonou a cidade de Bordéus e instalou-se no campo para esperar pelo seu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote>
<p style="text-align: center;"><strong>As nossas vontades e os nossos fados tão contrários são, que por terra deitam todo o nosso engenho. Os nossos pensamentos são nossos; os fins deles já nada têm connosco.</strong></p>
<p style="text-align: right;"><strong><br />
</strong></p>
</blockquote>
<div class="wp-caption alignleft" style="width: 234px"><img src="http://pascalitsa.unblog.fr/files/2006/10/Michel%20de%20Montaigne.jpg" alt="" width="224" height="240" /><p class="wp-caption-text">Michel de Montaigne (1533 - 1592)</p></div>
<p>Após treze anos de Parlamento na segunda metade do século XVI, Montaigne abandonou a cidade de Bordéus e instalou-se no campo para esperar pelo seu próprio fim. Tinha aprendido com os antigos que &#8220;filosofar é aprender a morrer&#8221;. Mas, pensando melhor agora que tinha tempo, aprender a morrer é um empenhamento fútil &#8211; com ou sem aprendizagem, o momento chega. Montaigne chegou então a outra pergunta.</p>
<p style="text-align: left;">Tenho lido nos últimos tempos um livro sobre Montaigne por uma autora inglesa chamada Sarah Bakewell. Todos os seus vinte capítulos são tentativas de resposta à pergunta que Montaigne encontrou na filosofia antiga (e já ficando fora de moda face a uma filosofia mais abstrata) e a que se dedicou então &#8211; Como Viver?<span id="more-1532"></span></p>
<p>P: Como viver? R: Não penses na morte.</p>
<p style="text-align: left;">P: Como viver? R: Presta atenção.</p>
<p>P: Como viver? R: Nascendo.</p>
<p>P: Como viver? R: Lê muito, esquece a maior parte, sê lento de raciocínio.</p>
<p>P: Como viver? R: Sobrevive ao amor e à perda.</p>
<p>P: Como viver? R: Faz uso de pequenas manhas.</p>
<p>P: Como viver? R: Questiona tudo.</p>
<p>P: Como viver? R: Mantém um quarto só para ti.</p>
<p>P: Como viver? R: Vive com os outros.</p>
<p>P: Como viver? R: Desperta do sono do hábito.</p>
<p>P: Como viver? R: Com temperança.</p>
<p>P: Como viver? R: Preserva a tua humanidade.</p>
<p>P: Como viver? R: Faz algo que não foi feito antes.</p>
<p>P: Como viver? R: Vai ver o mundo.</p>
<p>P: Como viver? R: Faz um bom trabalho, mas não demasiado bom.</p>
<p>P: Como viver? R: Filosofa apenas por acaso.</p>
<p>P: Como viver? R: Reflete sobre tudo, não te arrependas de nada.</p>
<p>P: Como viver? R: Abandona.</p>
<p>P: Como viver? R: Sê comum e imperfeito.</p>
<p>P: Como viver? R: Deixa que a vida seja a sua própria resposta.</p>
<p>Roubei as respostas a Sarah Bakewell, que as roubou a Montaigne. Montaigne roubou principalmente ao greco-romano Plutarco, por vezes sob a forma de histórias intrigantes. (Ou às vezes apenas inconvenientes. Para explicar como devemos tirar sempre o melhor de cada situação, Plutarco conta &#8211; e Montaigne repete &#8211; a história do homem que tentou atirar uma pedra a um cão e em vez disso acertou na sua sogra, exclamando depois: &#8220;Olha, afinal não foi tão mau quanto isso!&#8221;)</p>
<p>Montaigne foi por sua vez pilhado por Shakespeare, como identificaram muitos autores.<em>A</em><em>Tempestade</em> de Shakespeare rouba o ensaio <em>Dos Canibais</em> de Montaigne e o discurso de Hamlet -</p>
<p>&#8220;As nossas vontades e os nossos fados tão contrários são, que por terra deitam todo o nosso engenho. Os nossos pensamentos são nossos; os fins deles já nada têm connosco.&#8221;</p>
<p>- reverbera ecos de Montaigne (segundo um tal de John M. Robertson, que sobre ambos escreveu em 1897).</p>
<p>Montaigne é às vezes muito familiar. Encontro nele referências a André de Gouveia, o humanista português que foi reitor do colégio de Bordéus onde Montaigne estudou. O irmão de André, Diogo de Gouveia (e &#8220;grande reacionário&#8221;, como lhe chamou Lucien Febvre) foi reitor da Sorbonne aos 25 anos e nasceu na minha aldeia, onde escrevo estas linhas. Após Diogo de Gouveia, nenhum letrado da Arrifana poderá desejar mais do que ser o segundo melhor da aldeia. O que é muito montaignesco, penso eu, enquanto olho para a serra do Montejunto tão indiferente.</p>
<p>É aprazível. Mas passado um pouco vejo que Montaigne também sabe ser cruel, como quando escreve que &#8220;as pessoas não deveriam estar unidas nem coladas de tal forma que não possam ser separadas sem arrancar a pele e alguns pedaços de carne também&#8221;.</p>
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		<title>Primeiro vá a votos</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Jul 2010 00:44:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Neste país onde nenhuma reforma verdadeiramente importante se consegue fazer, os políticos e editorialistas especializam-se em qualquer reforma que venha à rede. Pedro Passos Coelho propôs uma revisão da Constituição e de repente toda a gente se pôs a falar do conteúdo dessa revisão. Foi uma semana delirante. Pedro Passos Coelho é o líder do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Neste país onde nenhuma reforma verdadeiramente importante se consegue fazer, os políticos e editorialistas especializam-se em qualquer reforma que venha à rede.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Pedro Passos Coelho propôs uma revisão da Constituição e de repente toda a gente se pôs a falar do conteúdo dessa revisão. Foi uma semana delirante.</p>
<p style="text-align: justify;">Pedro Passos Coelho é o líder do PSD, evidentemente. Para além disso não é sequer deputado. O partido dele foi a votos e obteve menos de um terço deles; Passos Coelho nem isso. No entanto, a revisão proposta é “a revisão de Pedro Passos Coelho”. Como?</p>
<p style="text-align: justify;">Claro, qualquer um pode propor uma revisão constitucional. Santana Lopes queria um Senado à italiana, Passos Coelho quer um Presidente à francesa, Paulo Teixeira Pinto — responsável pelas propostas constitucionais de Passos Coelho — preferiria uma rainha à inglesa.</p>
<p style="text-align: justify;">Perante a salganhada, pergunto: esta revisão é para se fazer ou para se falar? <span id="more-1529"></span>Na atual Assembleia da República, a composição partidária reflete os votos das últimas eleições, em que bem mais de metade dos votos foram à esquerda. Se uma revisão precisa de dois terços dos votos, parece difícil que esta se faça (e muito menos que seja tão à direita como Passos Coelho pretende, mas já lá vamos).</p>
<p style="text-align: justify;">De forma que Passos Coelho, se quer uma revisão constitucional que seja de fazer e não apenas de falar, tem bom remédio. Primeiro trate de ir a votos. Trate de fazer campanha com as suas propostas constitucionais, para saber se as pessoas as apoiam. Depois trate de ser eleito. E depois, com a maioria que tiver, faça a revisão constitucional que discutiu com o eleitorado e que a maioria parlamentar permitir.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta proposta de revisão, porém, foi apenas para se falar. E, nesse campo, até resultou. Ela serve propósitos essencialmente táticos. O seu objetivo é marcar agenda e atrair os rivais para um debate sobre o conteúdo ideológico de algumas propostas — e fazer com que elas ganhem a legitimidade que até agora nunca tiveram. Se falarmos agora na abolição do Sistema Nacional de Saúde, conseguiremos pelo menos a sua amputação, e por aí adiante.</p>
<p style="text-align: justify;">Pedro Passos Coelho tem talento político. Sendo o único líder dos partidos parlamentares que nunca foi a votos, é o que melhor tem dominado o debate nos últimos tempos. A sua tática é falar, falar sempre, e ocupar espaço. Alguma coisa há-de ficar.</p>
<p style="text-align: justify;">Se de hoje para amanhã, Passos Coelho propuser o relançamento do programa espacial português, incluindo uma missão tripulada a Marte, é possível que todos os outros líderes lhe respondam histericamente, que o primeiro-Ministro convoque o Secretariado Nacional do PS, e que os editoriais levem a ideia a sério, concluindo que se deveria pelo menos fazer uma viagem à Lua. No fim ninguém se lembrará de dizer “relançar? mas nós tínhamos algum programa espacial?”. Na semana seguinte, um tema novo.</p>
<p style="text-align: justify;">O que me espanta é que os outros líderes vão na cantiga, o que me sugere que estão a precisar de férias.</p>
<p style="text-align: justify;">E espanta-me também isto. Neste país onde nenhuma reforma verdadeiramente importante se consegue fazer, os políticos e editorialistas especializam-se em qualquer reforma que venha à rede. Não se resolve o desemprego, a dívida, a estagnação europeia? Reveja-se a Constituição. Ninguém consegue lembrar-se de nenhum problema grave causado pela Constituição? Precisamente por isso, vamos rever a Constituição. Deve ser mais fácil.</p>
<p style="text-align: justify;">É como se eu, por não conseguir consertar o meu esquentador avariado, decidir antes desmontar e arrumar de forma completamente diferente o meu aspirador — que funcionava.</p>
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		<title>A petrofonia</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Jul 2010 12:50:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Pretende-se que a CPLP seja uma comunidade de democracias e que essa comunidade seja assente na língua. Não tanto uma comunidade para onde entram ditaduras assentes no petróleo. Parece que depois de amanhã a Comunidade de Países de Língua Portuguesa se prepara para acolher como membro a Guiné Equatorial. Num país e numa comunidade linguística [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Pretende-se que a CPLP seja uma comunidade de democracias e que essa comunidade seja assente na língua. Não tanto uma comunidade para onde entram ditaduras assentes no petróleo.<br />
</strong></p>
<p style="text-align: left;">Parece que depois de amanhã a Comunidade de Países de Língua Portuguesa se prepara para acolher como membro a Guiné Equatorial.</p>
<p>Num país e numa comunidade linguística em que o acordo ortográfico gerou e gera debate infindo, oposição estrénua e arrancar de vestes, a entrada da Guiné Equatorial na CPLP é uma coisa mais ou menos indiferente. O que é estranho, porque a língua portuguesa com mais ou menos trema ou consoante muda não continua sempre sendo a língua portuguesa. E mais estranho ainda, porque essa língua portuguesa pode ser muita coisa, mas não é a língua que se fala na Guiné Equatorial. À língua que se fala na Guiné Equatorial pode chamar-se castelhano, ou espanhol, mas dificilmente se chamará português.</p>
<p>Poderão dizer-me que houve uma decisão do governo da Guiné Equatorial em consagrar o português como língua oficial (sem que se note que essa decisão tenha mais influência do que estar escrita em lei — nada na Guiné Equatorial se fala ou escreve em português, se exceptuarmos uns quantos milhares de falantes de crioulo na ilha de Ano Bom). Mas acontece que essa decisão foi tomada por um ditador dos mais insanos e caprichosos, Teodoro Obiango, recorrentemente eleito por 95% dos votos no país de que é dono e senhor. E agora dizem-nos que a entrada da Guiné Equatorial é favorecida pelo Brasil, por Angola e por São Tomé por aquele país ter muito petróleo.</p>
<p>E aqui chegamos a outro ponto. Pretende-se que a CPLP seja uma comunidade de democracias (Angola esquece-se de fazer eleições como certas pessoas se esquecem de arrumar os papéis: para o ano é que é!). Pretende-se que essa comunidade seja assente na língua. Não tanto uma comunidade para onde entram ditaduras assentes no petróleo.</p>
<p>Se a CPLP está numa atitude expansionista, tem bem para onde se virar. Existe no extremo da Ásia um país que decidiu democraticamente reintroduzir a língua portuguesa: Timor-Leste.</p>
<p>Timor-Leste vem muito a propósito neste caso.</p>
<p>Em primeiro lugar por uma razão moral: quando a Indonésia introduziu ditatorialmente a sua língua naquele país nós protestámos, pelo que não podemos agora aplaudir a decisão de Obiango de introduzir ditatorialmente o português na Guiné Equatorial.</p>
<p>Em segundo lugar por uma razão tática. A geração pró-lusófona de Timor-Leste não dura para sempre, e a reintrodução da língua portuguesa não terá futuro a não ser que os países lusófonos façam o seu trabalho e dêem a ajuda que os timorenses pediram.</p>
<p>Em terceiro lugar por uma razão estratégica. Timor-Leste está numa região do mundo onde ainda há muitas comunidades influenciadas pela língua ou pela cultura portuguesa: na Indonésia, na Malásia, no Sri Lanka, para não falar da Índia. Essas comunidades não estão organizadas em estados, mas dispersas em rede. Muitos dos seus membros são governantes, ou pertencem às elites locais — o candidato da oposição à presidência do Sri Lanka dava pelo apelido de Fonseka. Não deve ser impossível estudar essas comunidades, saber onde estão, manter contactos regulares com elas. Talvez até compensasse fazê-lo numa das regiões mais dinâmicas do mundo.</p>
<p>Mas dá trabalho, lá isso dá. Trabalho que a diplomacia portuguesa deveria gostar de ter. Daria certamente mais gozo do que acolher caprichos de ditadores.</p>
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		<title>Uma história de gosto duvidoso</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Jul 2010 08:11:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Paulo Portas é como o gajo que está em sério risco de ficar sozinho mas anuncia com bravata que só lhe faltam duas pessoas para uma ménage à trois. Contam os jornais que Paulo Portas, dono e senhor de um partido com cerca de onze por cento, se ofereceu para formar governo com os dois [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Paulo Portas é como o gajo que está em sério risco de ficar sozinho mas anuncia com bravata que só lhe faltam duas pessoas para uma ménage à trois.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Contam os jornais que Paulo Portas, dono e senhor de um partido com cerca de onze por cento, se ofereceu para formar governo com os dois partidos “grandes” do sistema.</p>
<p style="text-align: justify;">Permitam-me uma glosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Há anos vi um tipo atravessar a rua. Era numa cidade estrangeira, eu estava sentado numa esplanada de esquina, e aquele tipo chamou-me a atenção porque trazia uma daquelas t-shirts com uma frase escrita e eu — leitor compulsivo que sou — nunca consigo deixar de prestar atenção, apesar da minha miopia me obrigar a semicerrar os olhos muitos metros antes de conseguir ler o que lá vem escrito.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso fui observando o tipo. <span id="more-1515"></span>Ele tinha pinta de quem passava os dias a jogar videojogos, saía à rua de pantufas e ainda vivia em casa dos pais aos trinta e tal anos; pelo descuido na vestimenta e na higiene, dir-se-ia que não deveria ter muita facilidade para encontrar namorada. Mas isto era apenas uma maneira de interpretar, claro; ele próprio demonstrava olhar para a sua situação com outra soberba. Quando se aproximou, deu finalmente para ler qual era a frase que expunha escrita na t-shirt. E era ela:</p>
<p style="text-align: justify;">“Só me faltam duas pessoas para uma ménage à trois”.</p>
<p style="text-align: justify;">Naquela altura eu ainda não escrevia crónicas, mas desde que comecei tive de esperar anos até poder contar esta história de gosto duvidoso, o que finalmente faço graças a Paulo Portas — obrigado! Paulo Portas, na política portuguesa, é como o gajo que está em sério risco de ficar sozinho mas anuncia com bravata que só lhe faltam duas pessoas para uma ménage à trois. Alguém lhe deveria dar aquela t-shirt.</p>
<p style="text-align: justify;">Sabem? Pensando melhor, isto não tem graça nenhuma. A única coisa divertida é o desespero de Portas, que anseia voltar para o poder (mas não o pode fazer enquanto Sócrates for o líder radioativo de quem toda a gente disse tanto mal que ninguém se pode aliar a ele) e que tem pavor do Bloco Central ou de um futuro governo PSD em maioria absoluta. O resto é, se nos detivermos um pouco a considerá-lo, francamente assustador.</p>
<p style="text-align: justify;">Só existe uma razão para se fazer um governo por três partidos com oitenta por cento dos votos. É para fazer coisas contra oitenta por cento das pessoas. A democracia tem destes paradoxos: é para ser governada em maioria, mas quando se forma uma supermaioria é apenas porque o programa é tão-antidemocrático que nenhum dos atores se quer queimar com ele.</p>
<p style="text-align: justify;">E assim, quando virem um governo PS+PSD+CDS podem ter a certeza que aí virão os cortes de 15-20-30% nos salários que os talibãs da economia têm andado a propor. Eles dirão “ainda bem”, porque estão convencidos que funciona. Mas pode também não funcionar — a Irlanda já o fez e não serviu para nada — e em troca ficarmos com uma depressão profunda em que a diminuição do poder de compra nos lança numa espiral de maior endividamento, falências e desemprego. Os acontecimentos com que tivesse de lidar um governo de supermaioria seriam provavelmente os mais sérios testes por que o país teria de passar desde os tempo do PREC.</p>
<p style="text-align: justify;">PS: O regulamento das bolsas que aqui anunciei há um mês já está publicado, bem como o formulário para candidatura. Podem aceder a tudo em <a href="http://ruitavares.net/bolsas">http://ruitavares.net/bolsas</a> . Tenham em conta que serão privilegiados projetos de curta duração e que sejam efetivamente projetos. Se conhecerem potenciais candidatos de mérito, peço o favor de que ajudem a divulgar.</p>
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		<title>Deve ser do calor</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Jul 2010 00:07:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A última edição do Expresso revelou que José Sócrates tentou formar um governo de coligação com o CDS/PP, chegando mesmo a oferecer a Paulo Portas o lugar de Ministro dos Negócios Estrangeiros. A ter acontecido, isto foi ao mesmo tempo que Sócrates recuperava o seu arsenal retórico contra o conservadorismo, e depois contra o neoliberalismo. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A última edição do Expresso revelou que José Sócrates tentou formar um governo de coligação com o CDS/PP, chegando mesmo a oferecer a Paulo Portas o lugar de Ministro dos Negócios Estrangeiros. A ter acontecido, isto foi ao mesmo tempo que Sócrates recuperava o seu arsenal retórico contra o conservadorismo, e depois contra o neoliberalismo. Pouco depois começou a governar numa coligação tácita com o PSD de Pedro Passos Coelho, isto sem deixar — em simultâneo — de o atacar, e o outro a ele. Desde então José Sócrates e Pedro Passos Coelho têm desempenhado uma espécie de versão política de uma roda de capoeira: um finge que ataca, o outro finge que se esquiva. Os seus partidos juntam-se num círculo em torno deles e batem palmas disciplinadamente. Sócrates pode declarar-se progressista e querer governar com Paulo Portas, antineoliberal e negociar com Passos Coelho, keynesiano e não dar nenhuma abébia à esquerda. Já nada disto quer dizer nada.</p>
<p>A missão de José Sócrates é chegar ao dia de amanhã vivo e primeiro-ministro. O convite de hoje destina-se a resolver a contradição de ontem; o beco-sem-saída de amanhã ver-se-á depois como fazer. É angustiante e fascinante e até um tanto aterrador. É como a pessoa que paga as dívidas do cartão de crédito anterior com o novo cartão de crédito e começar a pensar pagar essas dívidas com o cartão seguinte. Uma parte considerável de vocês, segundo as estatísticas, saberá do que estou a falar.</p>
<p>Deve ser do calor; mas<span id="more-1510"></span> nem está assim tanto calor. A Ministra da Cultura regozija-se pela demissão do Diretor-Geral das Artes, acusando-o retrospetivamente (numa manifestação de irresponsabilidade hierárquica e falta de civismo) de ter causado mil e um problemas. Ao mesmo tempo diz que não o demitiu antes porque ele era indispensável.</p>
<p>O tribunal da Relação desagravou as penas a Isaltino Morais, até agora um dos casos mais conhecidos de corrupção autárquica no país. Absolveu-o também do crime de abuso de poder e, indo mais longe, o tribunal decidiu reabrir a audiência — basicamente voltando a dar como improvados os factos que já estavam investigados e dados como provados. Para o próximo passo, as apostas dividem-se: beatificação ou canonização?</p>
<p>Num evento do PSD, o economista Ernâni Lopes defende que os salários dos funcionários públicos deveriam ser cortados em quinze por cento, ou vinte por cento, ou trinta por cento e — sem parar para tomar fôlego — proclama que isso deve ser feito de um momento para o outro e &#8220;sem explicar&#8221;. Ou, vá lá, explicando que não há alternativa, ou não explicando a explicação.</p>
<p>A cabeça roda e a gente imagina um governo com Paulo Portas na rampa para a popularidade fácil, Passos Coelho ventriloquando os ditâmes de Ernâni Lopes, Isaltino Morais como Secretário de Estado da Reforma Administrativa, assessorando um ministro Ricardo Rodrigues. Ou mais prático ainda: uma calculadora decente e Medina Carreira bastariam para governar a coisa sem eleições ou parlamento. O povo só dá problemas.</p>
<p>Em tempos nós teríamos uma boa piada para fazer sobre isto. Mas eramos então um país mais legível. Agora que a confusão tomou conta, resta-nos depositar todas as nossas esperanças na geração do filho do Cristiano Ronaldo.</p>
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		<title>O homem contra o polvo</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Jul 2010 12:26:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Sem quase ter visto o futebol, acabei por ver o Mundial um pouco à maneira deles. Desse ponto de vista, foi um bom Mundial. Vi este Mundial entre aeroportos e hotéis, jogos entrecortados e resultados sabidos por SMS. Na verdade, não vi este Mundial. Mas vi uma coisa que nunca tinha visto: o mundo a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Sem quase ter visto o futebol, acabei por ver o Mundial um pouco à maneira deles. Desse ponto de vista, foi um bom Mundial. </strong></p>
<p>Vi este Mundial entre aeroportos e hotéis, jogos entrecortados e resultados sabidos por SMS. Na verdade, não vi este Mundial. Mas vi uma coisa que nunca tinha visto: o mundo a ver o Mundial.</p>
<p>Por vezes, nem vi: ouvi. Numa tarde abafada em Bruxelas, ouvi gritos e aplausos sucessivos que vinham de uma praça ao lado do Parlamento, certamente a abarrotar de gente. &#8220;Deve estar a ser um jogo emocionante&#8221;, pensei. Era o Eslováquia-Itália. Confirmei pela Internet que esse jogo pareceu perdido para Itália, recuperado, renascido, perdido de novo.</p>
<p>O Portugal-Coreia de Norte vi-o até aos 4-0, num intervalo para almoço. Alguém interrompeu uma reunião com o partido de oposição de Singapura para me dizer que o resultado tinha chegado aos sete. No dia seguinte, um trotskista dinamarquês cruzou-se comigo no corredor e disse-me: &#8220;Estou chocado convosco! Como puderam fazer isto aos camaradas norte-coreanos?&#8221; (para registo: era ironia; os trotskistas não gostam do regime de Kim Jong-il).</p>
<p>Vi o Portugal-Brasil num carro do aeroporto (metade) e num hotel em Atenas (a segunda metade). Vi o Portugal-Espanha (só a segunda parte) num quarto de hotel em Washington, só, enquanto escrevia uma crónica sobre outro assunto.</p>
<p>Ver o Mundial a ser visto nos EUA foi talvez o mais interessante.<span id="more-1498"></span> Quando cheguei ao aeroporto, estava no prolongamento o EUA-Gana. Enquanto comia num <em>fast-food,</em> os americanos sofriam com o tempo que se esgotava. Dei por mim a sofrer com eles e a torcer pelo Gana ao mesmo tempo.</p>
<p>Os americanos estadunidenses admitiam prontamente que não entendiam o jogo, ou que estavam a seguir um Mundial pela primeira vez. Para eles, aquilo não era exatamente futebol, mas um festival de bandeiras, hinos e países. Uma sociedade das nações imprevista e alegre. As reuniões começavam com o anfitrião dizendo que estava inclinado a torcer pela Alemanha ou pela Holanda (mas nunca por Inglaterra). Sabiam dos resultados e incluíam-nos na conversa &#8211; &#8220;Você é português? Foi pena aquilo ontem, lamento muito&#8221; &#8211; com a calorosa cortesia que eles costumam ter.</p>
<p>Sem quase ter visto o futebol, acabei por ver o Mundial um pouco à maneira deles. Desse ponto de vista, foi um bom Mundial. Houve grandes potências derrotadas, países sem grandes expectativas que chegaram longe e, finalmente, uma decisão inédita com dois países que nunca foram campeões.</p>
<p>Final essa que, por sinal, não estou a ver. O meu avião está atrasado, na sala de embarque há uma televisão ligada, e ouço dos meus companheiros de espera um<em> aah</em>ou um <em>ooh</em> ou até um <em>aii</em> quando um jogador espanhol apanha com os pitões de um holandês no lombo. Eu tinha previsto escrever outra crónica no avião mas com o atraso e o receio de que a redação já esteja fechada quando eu desembarcar, envio estas notas de recurso.</p>
<p>Não estão muito pensadas, como é evidente, mas não tem importância. Daqui a uns dias, tudo isto, as vuvuzelas e o polvo <em>Paul</em>, começará a ganhar tonalidades de memórias de Verão. Para alguns miúdos, isto será o que para mim foi o México 86, com as fintas de Maradona e o golo de Negrete contra a Bulgária.</p>
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		<title>A fatia dourada</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Jul 2010 13:09:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quanto menor é o país maiores podem ser as ilusões. Um combate entre Portugal e Espanha por causa do Brasil — vá lá, entre uma empresa espanhola e uma empresa portuguesa por causa de uma empresa brasileira — anda à volta de uma expressão inglesa: a golden share, ação de uma empresa que vale mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Quanto menor é o país maiores podem ser as ilusões.</strong></p>
<p><img class="alignleft" src="http://www.asminasgerais.com.br/zona%20da%20mata/UniVlerCidades/História/imagens/1111000017%20A%20atração%20dos%20%C3%ADndios%20pelos%20colonizadores%20.JPG" alt="" width="288" height="216" />Um combate entre Portugal e Espanha por causa do Brasil — vá lá, entre uma empresa espanhola e uma empresa portuguesa por causa de uma empresa brasileira — anda à volta de uma expressão inglesa: a golden share, ação de uma empresa que vale mais do que o seu capital, porque detém o poder da guilhotina, do sim ou do não. Traduzida à letra, a golden share poderia ser a fatia dourada — se não me engano, o nome de uma iguaria.</p>
<p>A utilização da golden share não tem muito que saber. Os defensores da infalibilidade do mercado costumam muito falar de &#8220;transparência&#8221;, mesmo em situações em que a complexidade artificial de um produto se destina a iludir, enganar, ocultar. Já a golden share do estado na PT é extraordinariamente simples: toda a gente sabia que existia e que detinha um poder de veto. Toda a gente que comprou ações da PT estava implicitamente informada da possibilidade de ela ser usada. Foi isso que aconteceu e — independentemente de outras considerações — ninguém se pode queixar de não ter contado com este cenário. Assunto encerrado.<span id="more-1491"></span></p>
<p>Isso deixa muito espaço em crónica para um assunto que me interessa mais: o lugar do nacionalismo neste debate. Um colega espanhol abordou-me para demonstrar o seu espanto pela atitude do governo espanhol e deplorar o que lhe parecia ser o colonialismo lusitano. Em Espanha, país de grande soberba e vistas dominantes sobre o continente americano, surpreendem-se pelo que certamente consideram o devaneio do país seu vizinho. Se nos ouvissem falar sobre a posição de Portugal no mundo, julgariam que estamos loucos e diriam que somos demasiados pequenos para isso: um país pequeno tem localização no mundo, mas não mais. Felizmente, eles não estão atentos às nossas conversas. Não imaginam que quanto menor é o país maiores podem ser as ilusões.</p>
<p>Do outro lado do atlântico, há no Brasil muito antilusitanismo que se esforça por não nos querer. É comum ouvir suspirar que &#8220;se tivéssemos, nós brasileiros, sido colonizados por outro povo que não os portugueses&#8230;&#8221; (divirto-me sempre a completar: &#8220;&#8230;naturalmente, não seriam brasileiros&#8221;). Os ingleses, os holandeses, os franceses e até os espanhóis são muitas vezes os colonizadores retroativamente ansiados por brasileiros que, não querendo entender Portugal, terão sempre grande dificuldade em entender-se a si mesmos. Não sabem que mesmo as comparações, hoje na moda entre a elite brasileira, com a China e a Índia, não são originais: foram introduzidas na reflexão sobre o Brasil em pleno século XVIII, por portugueses como Luís da Cunha e luso-brasileiros como Alexandre de Gusmão. A propósito, duvido que José Sócrates saiba que este último foi seu antecessor, e muito menos que ele foi nascido em Santos, no litoral paulista. E quantos portugueses sabem que tiveram um Presidente nascido no Rio de Janeiro? Também deste lado, os devaneios sobre o Brasil são feitos de muita ignorância.</p>
<p>Tanta obsessão com o Brasil fez-nos distrair da visita de Cavaco Silva a Cabo Verde. Dos cinco discursos com que foi brindado, três citaram palavras ou o nome de José Saramago, o escritor cuja homenagem ele mesquinhamente evitou. Cabo Verde é o lugar onde podemos aprender quem fomos, quem somos e — se prestarmos atenção — talvez quem viremos a ser. Cabo Verde detém, modestamente como é seu hábito, uma fatia dourada da nossa consciência.</p>
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		<title>Uma derrota anunciada</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Jul 2010 11:41:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um bom zombie nunca morre à primeira. Em 2001, após o 11 de Setembro, a Administração Bush começou a pilhar em segredo os dados das transferências bancárias europeias. Fizeram-no através dos servidores do consórcio bancário SWIFT, que estavam em solo americano. E fizeram-no sem a mínima intenção de avisar os seus maiores amigos e aliados do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um bom <em>zombie</em> nunca morre à primeira.</p>
<p>Em 2001, após o 11 de Setembro, a Administração Bush começou a pilhar em segredo os dados das transferências bancárias europeias. Fizeram-no através dos servidores do consórcio bancário SWIFT, que estavam em solo americano. E fizeram-no sem a mínima intenção de avisar os seus maiores amigos e aliados do que estava a acontecer. E teriam continuado a fazê-lo se não tivessem sido descobertos pela imprensa em 2006.</p>
<p>Depois do escândalo, a SWIFT &#8211; Society for Worldwide Interbank Financial Transfers &#8211; acabou por mudar todos os seus servidores para solo europeu. Só que aí os EUA negociaram com o Conselho da União Europeia um acordo segundo o qual nós continuaríamos a ser pilhados, mas com o consentimento dos nossos governos e da Comissão Europeia. Que o deram, evidentemente, e às escondidas, 24 horas antes de entrar em vigor o Tratado de Lisboa.</p>
<p>Só que aí matámos o <em>zombie </em>pela primeira vez.<span id="more-1484"></span> Numa das coisas boas que o Tratado de Lisboa tem, o Parlamento Europeu ganhou o poder de rejeitar acordos internacionais assinados em nome da UE. E foi o que fizemos. Nem foi difícil: bastou perguntarmo-nos se o Congresso dos EUA aprovaria enviar os dados das contas americanas para uma potência estrangeira. A resposta era negativa, o voto foi também. Acordo rejeitado.</p>
<p>Ato contínuo, a Comissão começou a negociar um novo acordo com os EUA, sob mandato do Conselho Europeu para &#8211; adivinharam &#8211; se poder enviar dados em bloco para os EUA, desde que sob controlo de uma &#8220;autoridade judicial independente&#8221;.</p>
<p>E aí matámos o <em>zombie</em> pela segunda vez. Numa resolução do Parlamento Europeu, declarámos que a transferência em bloco de dados bancários europeus era contrária à lei. No quadro da luta contra o terrorismo justificar-se-ia enviar os dados pontuais dos suspeitos e acusados de atividades terroristas, mas não dos 99% de cidadãos inocentes. Parecia-nos justificado e sensato. E parecia a alguns deputados &#8211; a mim nem por isso &#8211; que arrumava o assunto.</p>
<p>Só que aí &#8211; eu sei, é a terceira vez que uso esta expressão, mas é assim que se contam os filmes de <em>zombies</em> &#8211; apareceu o acordo de novo. Onde se dizia &#8220;autoridade judicial independente&#8221; passou a aparecer a Europol, que não é nem judicial nem independente, e que passará a carimbar os pedidos dos americanos (nos quais tem interesse direto, pois recebe pistas policiais em troca &#8211; um caso clássico de pôr o bêbado a cuidar da garrafeira). E onde se dizia &#8220;dados em bloco&#8221;, a expressão deixa de aparecer para não violar a resolução do parlamento. Mas a realidade não muda. Segundo fomos informados em Washington, vão ser enviados cerca de 90 milhões de mensagens por mês, ou mais de mil milhões por ano.</p>
<p>O acordo vai ser votado nesta semana em Estrasburgo, em conveniente procedimento de urgência. Os grupos Popular, Socialista e Liberal preparam-se para o aprovar, declarando que temos aqui uma grande vitória. Em privado, sabem que o negócio é péssimo, mas dizem-nos que a chantagem dos governos sobre as suas carreiras políticas foi mais forte do que o costume &#8211; e eles, coitadinhos, assustaram-se. A imprensa também anda distraída, e assim os cidadãos não podem fazer o seu papel, que seria de escrever aos 736 eurodeputados a perguntar o que se passa. O <em>zombie </em>está mais forte do que nunca. Sendo realista, parece-me que desta vez ele ganha. Resta vender cara a pele.</p>
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		<title>Atualizado: regulamento das bolsas já disponível</title>
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		<pubDate>Sat, 03 Jul 2010 08:34:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Caros amigos e leitores: O regulamento para as bolsas já está disponível e dá uma ideia bastante concreta de como se candidatar. Podem descarregá-lo aqui (ou em formato pdf aqui). O formulário é um pouco mais complicado tecnicamente (em particular porque prevê a possibilidade de se enviar todos os documentos digitalizados através de upload) e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caros amigos e leitores:</p>
<p>O regulamento para as bolsas já está disponível e dá uma ideia bastante concreta de como se candidatar. Podem descarregá-lo <a href="http://ruitavares.net/bolsas/regulamento/">aqui</a> (ou em formato pdf <a href="http://ruitavares.net/ficheiros/regulamento_bolsas_rt_20100702.pdf">aqui</a>). O formulário é um pouco mais complicado tecnicamente (em particular porque prevê a possibilidade de se enviar todos os documentos digitalizados através de upload) e estará disponível no início da próxima semana. Mas entretanto, os interessados já podem ir verificando os requisitos necessários que se encontram listados <a href="http://ruitavares.net/bolsas/requisitos/">aqui</a>. Toda a informação sobre as bolsas irá sempre sendo atualizada em <a href="http://ruitavares.net/bolsas">http://ruitavares.net/bolsas</a>.</p>
<p>Estas primeiras 48 horas foram um pouco atribuladas por uma boa razão. Eu estava numa delegação parlamentar a Washington — sobre um caso, PNR ou Passenger Name&#8217;s Records, de que ainda haverei de falar aqui — e remotamente as coisas ficam um pouco mais difíceis de acertar. Não teria sido possível fazer nada disto sem as ajudas da Cláudia Oliveira, João Macdonald, Gei Fernandes, Tiago Ivo Cruz e José Nuno Pereira — algumas das pessoas que trabalham comigo e com a delegação europeia do BE, em Bruxelas e Lisboa. São eles, aliás, que passam a ajudar na gestão deste blogue (em particular na aprovação dos comentários) uma vez que eu já há algum tempo que não consigo fazê-lo sozinho. A Vera Tavares tem dado desde o início uma ajuda preciosa na arte gráfica deste sítio.</p>
<p>Um bom fim de semana a todos e, para quem não for candidatar-se, por favor ajudem a passar a palavra para ver se conseguimos projetos em qualidade, quantidade e variedade suficiente.</p>
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		<title>Formulário e regulamento para as bolsas</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Jul 2010 10:35:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Caros leitores, lamentamos, mas por questões técnicas não conseguimos inserir o formulário e o regulamento de candidatura às bolsas como prometido. Estes estarão disponíveis amanhã (02 de Julho) a seguir ao meio-dia. Pedimos desculpa pelo transtorno e agradecemos a compreensão de todos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caros leitores,</p>
<p>lamentamos, mas por questões técnicas não conseguimos inserir o formulário e o regulamento de candidatura às bolsas como prometido. Estes estarão disponíveis amanhã (02 de Julho) a seguir ao meio-dia.</p>
<p>Pedimos desculpa pelo transtorno e agradecemos a compreensão de todos.</p>
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		<title>A revolta da biblioteca</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Jul 2010 07:37:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A Biblioteca Nacional vai encerrar-se durante quase um ano, deixando pendurados os investigadores — os quais, depois de ter deixado pendurado o cidadão comum seriam a sua exclusiva preocupação. Sabem o que deveria haver? Um campeonato do mundo para o país do mundo desenvolvido que trata pior a sua Biblioteca Nacional. Estou a ver Portugal [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>A Biblioteca Nacional vai encerrar-se durante quase um ano, deixando pendurados os investigadores — os quais, depois de ter deixado pendurado o cidadão comum seriam a sua exclusiva preocupação.</strong></p>
<p style="text-align: left;">Sabem o que deveria haver? Um campeonato do mundo para o país do mundo desenvolvido que trata pior a sua Biblioteca Nacional. Estou a ver Portugal ganhar isso de caras.</p>
<p>A história da Biblioteca Nacional começa por aquilo que ela não é. Portugal deve ter das bibliotecas nacionais menos democráticas do mundo. Uma pessoa distraída poderia imaginar que a Biblioteca Nacional fosse um lugar aberto e disponível para qualquer cidadão. Não, não, não. Mariquices dessas são para a Biblioteca do Congresso dos EUA, onde qualquer um pode entrar, ou para o velho edifício da Biblioteca Britânica, onde os anónimos se podem sentar nas cadeiras de Darwin ou Marx e mexer nos livros à vontade. Por contraste, se o cidadão tentar inscrever-se como leitor da Biblioteca Nacional portuguesa, o primeiro obstáculo que terá de superar é um interrogatório bastante chato no qual tem de provar que precisa mesmo de consultar os fundos da Biblioteca Nacional. Onde noutros países basta querer, em Portugal é preciso ser autorizado.</p>
<p>Isto passa-se porque a Biblioteca Nacional não tem capacidade para receber o público especializado e o público geral ao mesmo tempo. E houve um momento em que decidiu dedicar-se apenas aos investigadores (ou melhor, a uma relação abusiva e neurótica com os investigadores, mas já lá iremos) e em que, fiel à sua maneira de ser, não avisou a sociedade civil. Isso deixou o país na estúpida crença de que tem uma biblioteca pública — quando, de facto, não tem.<span id="more-1417"></span></p>
<p>A primeira vítima dessa crença foi a Câmara Municipal de Lisboa, que se encostou aos mínimos necessários nesta área. A capital do país acumula assim extraordinárias honras, todas elas raras em países da OCDE. O rácio entre bibliotecas e habitantes da cidade é embaraçosamente baixo. A biblioteca principal da cidade não tem uma política de compras de bibliografia recente, em particular estrangeira. E, finalmente, Lisboa é única entre as cidades dignas desse nome ao não ter uma biblioteca pública em horário alargado. Sabem, uma daquelas em que o desempregado, o reformado, ou o caixa de supermercado podem ir consultar livros de informática ou línguas, ler jornais, navegar na internet, etc. — a qualquer hora? Não, claro que não. Se não temos, como sabemos que nos faz falta?</p>
<p>O equívoco entre Portugal e a Biblioteca começou em 1777, quando Dom José I emitiu um decreto que atribuía a ala ocidental da Praça do Comércio, à &#8220;Biblioteca Pública do Reino&#8221; (&#8220;pública&#8221;, notem bem). Era lá que ela fazia sentido, pois era nesse lugar que antes do terramoto tinha estado a fantástica biblioteca de Dom João V. E era no coração simbólico do país, onde até hoje os nossos políticos não sabem se querem pôr ministérios, hotéis de charme ou esplanadas, que o poder político de então queria ter os livros e a leitura. No século XVIII sabiam fazer as coisas: dar centralidade à &#8220;sociedade do conhecimento&#8221; significava pôr o conhecimento no centro da cidade e não tanto no centro dos discursos. Mas Dom José I morreu um mês depois.</p>
<p>E esse equívoco continua hoje, quando a Biblioteca Nacional  — com uma antecedência de semanas — que vai encerrar-se durante quase um ano, deixando pendurados os investigadores — os quais, depois de ter deixado pendurado o cidadão comum seriam a sua exclusiva preocupação. As teses de mestrado ou doutoramento que ficam comprometidas, os projetos elaborados com anos de antecedência e já financiados, e os investigadores que vêm de todo o mundo para passar uns meses na BN que se lixem. Procurem no google.</p>
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		<title>regulamento e formulário</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Jun 2010 15:33:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tal como prometido amanhã a seguir ao meio-dia estarão disponíveis o regulamento e respectivo formulário de candidatura às bolsas. Esperem só mais um pouco.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tal como prometido amanhã a seguir ao meio-dia estarão disponíveis o regulamento e respectivo formulário de candidatura às <a href="http://ruitavares.net/textos/um-capricho/">bolsas</a>. Esperem só mais um pouco.</p>
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		<title>Crise!</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Jun 2010 02:42:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A palavra crise perdeu metade do seu sentido. Crise deixou de ser um momento; passou a ser um estado. Atenas. — A palavra é grega; a sensação também. Para os gregos antigos, crise era um termo médico. Significado: crise era o momento na evolução de uma doença em que o doente poderia ficar muito pior, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>A palavra crise perdeu metade do seu sentido. Crise deixou de ser um momento; passou a ser um estado.</strong></p>
<p style="text-align: left;">Atenas. — A palavra é grega; a sensação também. Para os gregos antigos, crise era um termo médico. Significado: crise era o momento na evolução de uma doença em que o doente poderia ficar muito pior, ou muito melhor.</p>
<p>Para os médicos modernos da crise, que são os tecnocratas em Bruxelas, os governos de Sócrates a Papandreou, e os comentadores um pouco por todo o lado, a palavra crise perdeu metade do seu sentido. Agora quer apenas dizer o momento em que as coisas estão mal e vão ficar consistentemente pior. Crise deixou de ser um momento; passou a ser um estado.</p>
<p>Visto de Portugal e da minha geração, <span id="more-1406"></span>crise passou a ser o nome da normalidade. No final dos anos 70, se o meu olhar infantil apanhou bem as coisas, a crise era quando o bacalhau deixou de ter preço a que lhe chegassem os pobres ou quando era preciso acordar de madrugada para fazer bicha para comprar um máximo de dois litros de leite. Mais tarde foi 1983 e o FMI, o desemprego e os contratos a prazo, e depois os empregos precários e a desqualificação. Oh, sim, houve uns interlúdios. Mas foram precisamente isso, interlúdios; a crise é o estado a que nos habituámos.</p>
<p>Nem sei quando foi, neste percurso, que passámos a aceitar o papel que nos foi atribuído. É até um pouco perturbador; não consigo lembrar-me de quando foi que nos convencemos de que o máximo a que podemos ambicionar é que as coisas sejam um bocadinho menos más. Desistimos de tentar fazê-las muito melhores. Estamos a falhar.</p>
<p>À vista da Acrópole reune-se uma pequena multidão para um encontro de esquerda. Eu sou um dos oradores, e antes e depois de falar (a &#8220;homilia&#8221;, como se chama em grego ao discurso e eu inadequadamente divertido para um ateu) vou circulando e conversando. Algumas pessoas querem resistir; outras querem adaptar-se. Das duas formas, é curto: é perder.</p>
<p>Todos se resignaram pois a perder; uns perdem com a cara conformada, outros perdem com a cara zangada, outros perdem fingindo que sorriem, outros ainda perdem querendo levar alguém com eles (uma bomba deflagrou no Ministério do Interior, matando estupidamente um trabalhador). Mas todos aceitam perder.</p>
<p>E no entanto o mundo à volta está a mudar. Sente-se isso nos ossos e nos mínimos pormenores também. Nas livrarias atenienses, mesmo as de aeroporto, o livro que mais vende é o do ministro dos Negócios Estrangeiros — da Turquia. O título é &#8220;A estratégia profunda&#8221; (ou &#8220;Profundidade  estratégica&#8221;, ou talvez &#8220;Amplitude estratégica&#8221;?); nele o seu autor, Ahmet Davutoglu, defende um reposicionamento da Turquia, passando por cima da União Europeia para estabelecer pontes no Médio Oriente ou mesmo mais longe, com potências regionais emergentes como o Brasil e a Índia. Isto segundo as críticas dos jornais: o livro ainda não saiu em língua que eu leia, mas embora seja um calhamaço de seiscentas páginas foi rapidamente traduzido para grego, e os gregos não querem perder pitada do que pensam os seus velhos rivais.</p>
<p>Entretanto, Durão Barroso decidiu fazer comentários sobre os riscos futuros da democracia grega. Esses comentários caíram aqui muito mal e, francamente, a dois passos da Ágora não parecem menos do que ridículos. Se Barroso quer refletir na democracia em risco, poderia começar para a instituição que dirige. Ainda não me parece que os membros da Comissão possam dar lições de democracia a atenienses.</p>
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		<title>Uma sinfonia de vuvuzelas</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Jun 2010 10:49:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quem quer cortar na despesa pública nunca se lembra de nos dizer como é que diminuirá a despesa privada. Há coisas que nunca vão pôr em risco a opinião de alguém. Uma delas: escrever que “é preciso cortar na despesa”. Posso escrevê-lo quando faz chuva, quando faz sol, quando faz vento e quando faz nevoeiro. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Quem quer cortar na despesa pública nunca se lembra de nos dizer como é que diminuirá a despesa privada.</strong></p>
<p>Há coisas que nunca vão pôr em risco a opinião de alguém. Uma delas: escrever que “é preciso cortar na despesa”. Posso escrevê-lo quando faz chuva, quando faz sol, quando faz vento e quando faz nevoeiro. Nunca parece mal, nunca parece pouco sério, é sucesso garantido. Em Portugal, então, deve haver um qualquer gene escondido que predispõe a nação para este discurso: nós portugueses nascemos sabendo que fizemos alguma coisa mal, apenas precisamos que alguém nos diga o que é e acreditaremos.</p>
<p>Dizer que é preciso cortar na despesa tem até um efeito curioso. Isenta quem o disser de qualquer relação com a realidade, de qualquer preocupação com as consequências do que dizem, de qualquer necessidade de avaliar as circunstâncias e adaptar o discurso ao contexto.</p>
<p>Diz-se que toda a gente tem de cortar nas despesas, e aplaudimos inclusive o corte nas despesas daqueles que nos compram coisas. Ao mesmo tempo, deseja-se que Portugal diminua as importações e aumente as exportações. Mas exportar para onde, se os outros cortam nas despesas?<span id="more-1404"></span> Não importa.</p>
<p>Diz-se que o estado tem de emagrecer e que a nossa dívida pública é arriscada, mesmo quando se sabe que se há alguma coisa assustadora na nossa economia, essa coisa é a nossa dívida externa (privada). Foram os nossos bancos que se endividaram mais do que praticamente quaisquer outros na União. Ora quem quer cortar na despesa pública nunca se lembra de nos dizer como é que diminuirá a despesa privada. Será por magia? A única coisa honesta a fazer seria admitir que não sabemos: pode diminuir a despesa pública e diminuir a privada ou pode também diminuir a despesa pública e aumentar a privada, o que nos deixaria numa situação aí mesmo preocupante. Mas não interessa.</p>
<p>Diz-se, a nível europeu, que é preciso diminuir a despesa agora para evitar a inflação. Quem o diz esquece-se porém de um pormenor: qual inflação? O risco de inflação é agora menor do que o risco de deflação, que aumenta a cada corte de despesas nesta fase — e que é mais intratável. Mas não há problema.</p>
<p>No fim da presidência Hoover, no início dos anos trinta, um Secretário do Tesouro norte-americano chamado Andrew Mellon proclamou que a solução era “liquidar emprego, liquidar ações, liquidar a lavoura, liquidar no imobiliário” — em inglês a fórmula ficou conhecida por “liquidate, liquidate, liquidate” —. Em teoria, parecia boa ideia; em tempos de incerteza gastar menos e poupar mais é boa ideia para cada um de nós. Infelizmente, é péssima ideia quando seguida por todos. Significa falências, desemprego e baixa de salários num momento em que a economia tem menos força para compensar.</p>
<p>O conselho de Mellon esteve na origem da Grande Depressão. Não que isso faça pensar duas vezes aos seus descendentes. O “liquidate, liquidate” está aí No Expresso, Daniel Oliveira chamava a este o “discurso da vuvuzela”: sem melodia, sem ritmo, sem contraponto, sem variação. É um único som constante e repetitivo, indiferente à realidade ou às consequências. Sim, é verdade: algumas dívidas das maiores economias estão no nível mais elevado desde a IIª Guerra Mundial. Mas também é verdade que esta crise é a maior desde a IIª Guerra Mundial, e ainda não acabou. Desta forma pode até ser que se agrave.</p>
<p>De Merkel a Cameron, de Passos Coelho a Medina Carreira, a Banda Filarmónica Vuvuzelense não liga e segue indiferente a sua marcha.</p>
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		<title>De A a Z</title>
		<link>http://ruitavares.net/textos/de-a-a-z/</link>
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		<pubDate>Tue, 22 Jun 2010 13:21:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Saramago foi dos melhores escritores de sempre em pegar numa pequena ideia inicial, inverosímil, e desdobrá-la em palavras até construir um edifício à volta do leitor. Eu estava em Espanha, de férias com a minha irmã e a minha sobrinha. Elas foram para uma loja, eu entrei numa livraria. Estava folheando traduções de livros portugueses [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Saramago foi dos melhores escritores de sempre em pegar numa pequena ideia inicial, inverosímil, e desdobrá-la em palavras até construir um edifício à volta do leitor.</strong></p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 245px"><img class="  " src="http://tudopornada.files.wordpress.com/2008/12/jose-saramago.jpg" alt="" width="235" height="350" /><p class="wp-caption-text">José Saramago *da Azinhaga*</p></div>
<p>Eu estava em Espanha, de férias com a minha irmã e a minha sobrinha. Elas foram para uma loja, eu entrei numa livraria. Estava folheando traduções de livros portugueses quando uma mulher de cabelos negros, falando num sotaque andaluz cerrado, me interpelou. Eu fiquei atrapalhado, pedi desculpa e voltei a inserir o volume que segurava na prateleira. Ela disse-me, “¿eres portugués?”, e prosseguiu numa algaraviada de que só entendi a palavra “saramago”. Perguntei “há mais livros do Saramago aqui, é isso?”. Ela desapareceu por detrás da estante, e voltou com o escritor José Saramago pela mão.</p>
<p>Falámos durante três minutos, não mais. Eu tinha acabado de ler, nessa mesma tarde, O Ano da Morte de Ricardo Reis — e por isso buscara a tradução espanhola. Ele estava feliz; eu não me lembro do que ele disse. Ele brincava com Pilar del Rio — a mulher de cabelo negro —, inventava piadas, coisas para a fazer sorrir. Eles estavam apaixonados, eu tinha talvez quinze anos; inventei uma desculpa e fui embora. Eu não tinha palavras para conversar com Saramago e não tinha à-vontade para ficar ali boquiaberto a ouvi-lo.</p>
<p>***</p>
<p>Uma das melhores passagens de Saramago encontrei-a por acaso num livro que li na faculdade, O Tempo das Catedrais, do historiador francês Georges Duby. É na abertura do livro; uma descrição panorâmica tão bem vertida em português que eu tive de ir à ficha técnica e descobrir: “mas quem foi o tradutor?” E lá dizia: tradução, José Saramago.</p>
<p>Sem o Saramago que perdeu o emprego de jornalista e viveu de traduções, quando levava já quase meio século de vida, não teria havido o Saramago milagroso das décadas seguintes. Um escritor aprende muito traduzindo, ou até copiando à mão; aprende a cristalizar aquilo que observou. O solitário revisor de História do Cerco de Lisboa é pelo menos parcialmente a memória deste Saramago tradutor. Um escritor aprende muito lendo todo o género de coisas. Saramago gostava de literatura menor, gazetas antigas, sermões de Vieira ou ficção científica. Existe um livro de ficção científica chamado O Dia dos Trífidos que talvez Saramago tenha lido e no qual toda a gente acorda cega, menos um protagonista. Mas Saramago levou tão longe uma ideia semelhante que ao lê-lo nós sentíamos a “cegueira branca” e a angústia de tê-la. Ele foi dos melhores escritores de sempre em pegar numa pequena ideia inicial, inverosímil, e desdobrá-la em palavras até construir um edifício à volta do leitor.</p>
<p>Um escritor aprende também muito nascendo e vivendo num país onde as elites são medíocres e mesquinhas, e cujas imaginações não aceitam que pode ter nascido um génio na Azinhaga, Ribatejo.</p>
<p>Esta é uma história de que Alberto Caeiro gostaria. O Saramago da Azinhaga cresceu e a sua imaginação acabou por abarcar tudo de todas as maneiras. Padres barrocos e voadores, blimundas e baltasares, uma península que se desprende mar adentro, uma palavra mudada num livro, um poeta pela cidade em busca do poeta que o inventou, a cidade onde todos ficam cegos, um funcionário opaco numa conservatória do registo civil, um messias relutante e revoltado, um elefante em viagem, tudo. E mais polémicas, e indignações, e ideais, e o planeta e a humanidade e tudo. E depois ele mesmo, e um amor encontrado que nem na imaginação dele caberia, e uma mudança para uma ilha estranha, vulcânica. Nessa ilha construiu a sua casa, que com orgulho dizia ter sido feita apenas com as suas histórias, as suas ideias, as suas palavras. O Saramago da Azinhaga e o mundo que ele fez com vinte e poucas letras do alfabeto.</p>
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		<title>A santíssima ignorância</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Jun 2010 11:40:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Rui Pedro Soares talvez não entenda que, enquanto este for lembrado, o seu nome será para os portugueses o emblema da mediocridade e da arrogância que chega ao poder e ao privilégio por intermédio de favorecimentos e favoritismos. Um dia Rui Pedro Soares será apenas um nome que ligaremos a um escândalo político que já [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Rui Pedro Soares talvez não entenda que, enquanto este for lembrado, o seu nome será para os portugueses o emblema da mediocridade e da arrogância que chega ao poder e ao privilégio por intermédio de favorecimentos e favoritismos.</strong></p>
<p style="text-align: left;">Um dia Rui Pedro Soares será apenas um nome que ligaremos a um escândalo político que já lá vai. Pouco antes de desaparecer na obscuridade, porém, decidiu fazer declarações em que comparava a comissão parlamentar de inquérito ao caso PT/TVI aos &#8220;tribunais da Inquisição&#8221;.</p>
<p>Rui Pedro Soares talvez não entenda que, enquanto este for lembrado, o seu nome será para os portugueses (incluindo, não pense ele outra coisa, aqueles que votam no seu partido) o emblema da mediocridade e da arrogância que chega ao poder e ao privilégio por intermédio de favorecimentos e favoritismos, que exerce esse poder da forma mais gabarolas e irresponsável, tendo como único objetivo satisfazer o mando do político que o pôs naquele lugar, e que para desempenhar tal tarefa é pago num ano muito mais do que muitos portugueses esforçados e honestos ganham trabalhando a vida toda.</p>
<p>Por gente como ele, Ricardo Rodrigues, e outros, se falará um dia de &#8220;tralha socrática&#8221;.</p>
<p>Para a maioria dos portugueses (incluindo os do PS) Rui Pedro Soares não passou nunca de uma espécie de capanga de luxo, encarregado de despachar os trabalhinhos sujos dos outros. Para lá disso, a sua atitude só surpreendia pela desfaçatez e descaramento. E agora juntou-lhe uma ignorância gritante e ofensiva.</p>
<p>Vamos recapitular brevemente as principais diferenças entre um tribunal da Santíssima Inquisição e uma Comissão Parlamentar de Inquérito.<span id="more-1397"></span></p>
<p>Num tribunal da Inquisição, Rui Pedro Soares poderia ser preso por denúncias anónimas ou meros rumores. Uma vez preso, ficaria nas masmorras até que os seus juízes se dessem por satisfeitos com as suas declarações. Ficar em silêncio não seria, evidentemente, um opção. Rui Pedro Soares seria provavelmente torturado para falar. O tribunal teria então de determinar se ele estava ou não arrependido e, para tal, agradeceria se ele pudesse denunciar mais três ou quatro pessoas. Depois de um tempo de prisão indeterminado, Rui Pedro Soares poderia ser sujeito a castigos corporais ou à pena de morte.</p>
<p>Tenha-se ainda em conta que o Tribunal da Inquisição (ou tribunais, por eram vários) tinham uma rede de milhares de espiões pelo país todo (os &#8220;familiares&#8221;) e que, além de um tribunal religioso era também uma agência étnica/racial que pôs durante um par de séculos milhares de portugueses a elaborarem certidões para provarem que não tinham antepassados judeus (as &#8220;habilitações de limpeza de sangue e geração&#8221;).</p>
<p>Agora a Comissão Parlamentar de Inquérito, vulgo CPI. Rui Pedro Soares foi chamado a uma comissão composta por representantes eleitos da nação que pretendiam extrair um julgamento político de certos acontecimentos de que ele tinha sido um ator-chave. Sendo o julgamento político, a CPI não se destinava a punir nem a castigar. Acresce ainda que, com razão ou sem ela, a CPI se auto-limitou na utilização de certos meios de prova (as célebres escutas). Lá chegado, Rui Pedro Soares decidiu não falar, tal como noutra comissão tinha decidido falar durante largos minutos sobre futebol e outros assuntos que ocuparam desnecessariamente tempo precioso. Toda a gente achou que ele estava no seu direito e não lhe aconteceu nada por isso.</p>
<p>As diferenças estão claras. Deveríamos estar todos satisfeitos por uma CPI não ser como a inquisição, a começar por Rui Pedro Soares. Em troca, ele deveria poupar este povo cansado à exibição da sua pesporrente ignorância.</p>
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		<title>Espanha, Espanha, Espanha</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Jun 2010 00:07:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Onde estavam os defensores da estratégia espanhola quando a crise grega vinha aí e a Península Ibérica poderia ter tido uma posição ativa comum? Espanha, Espanha, Espanha. Por que se costuma dizer que a Espanha deveria ser a principal aliada de Portugal na União Europeia? Por preguiça. Por que esta é uma estratégia fácil de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Onde estavam os defensores da estratégia espanhola quando a crise grega vinha aí e a Península Ibérica poderia ter tido uma posição ativa comum?</strong></p>
<p>Espanha, Espanha, Espanha.</p>
<p>Por que se costuma dizer que a Espanha deveria ser a principal aliada de Portugal na União Europeia? Por preguiça. Por que esta é uma estratégia fácil de enunciar e mais fácil ainda de pôr em prática. De resto, por nenhuma razão em particular.</p>
<p>José Sócrates disse-o no início do seu mandato: a prioridade da política externa portuguesa seria &#8220;Espanha, Espanha, Espanha&#8221;. Certos diplomatas continuam a repetir a ideia. E as comemorações dos 25 anos de ambos os países na CEE/UE ajudaram a reforçá-la. Parece simpático dizê-lo, afinal trata-se do país vizinho. Mas espero que não seja verdade, porque seria ingénuo.</p>
<p>Vamos lá a ver:<span id="more-1395"></span> na União Europeia, salvo em certas temáticas regionais e naquelas coincidências que advêm de os dois países serem governados por partidos da mesma &#8220;família&#8221;, os interesses de Espanha não coincidem com os de Portugal. Espanha não tem nenhuma objeção ao &#8220;diretório&#8221; de grandes países, a não ser que não faça parte dele. Só que para Portugal, como para a maioria dos 27, esta é a questão fundamental para o futuro da União. A nossa estratégia deve partir daí.</p>
<p>Eu chamar-lhe-ia a &#8220;estratégia dos países-charneira&#8221;, e passa por concertar as posições de vários países de média-dimensão e posição intermédia no mapa da União. Este grupo de países não é estático, — poderia incluir a Irlanda, a Holanda, a Suécia, a Hungria, a Grécia, e outros, dependendo da evolução política de cada um dos seus elementos, — o que implica ter de adaptar e afinar em permanência as posições deste grupo. Por outro lado, é um grupo que oferece mais possibilidades de escolha, e que constitui a maioria dos países da União. A estratégia de que precisamos, admitamo-lo, é muito trabalhosa.</p>
<p>Alinhar as nossas posições com as de um país apenas não dá muito trabalho. Mas nem isso temos feito: onde estavam os defensores da estratégia espanhola quando a crise grega vinha aí e a Península Ibérica poderia ter tido uma posição ativa comum?</p>
<p>Se na União Europeia nós e a Espanha somos aliados na verdade intermitentes, no continente americano somos principalmente concorrentes. A Espanha quer que o resto do mundo saiba que existe uma coisa chamada América Latina, de que o Brasil faz parte. A Portugal interessa que o mundo saiba que o Brasil é uma coisa à parte. Quando até a Espanha se dá conta disto, — como no ataque da Telefónica à PT por causa da brasileira Vivo — pode passar de parceira a predadora.</p>
<p>É natural. Como todos os países, a Espanha é diferentes coisas em diferentes momentos. Para alguns concidadãos nossos é uma forma fácil de atacar os nossos políticos dizendo-lhes que &#8220;vocês são tão maus que eu preferia ser espanhol&#8221;. Uma cidade minhota descobriu recentemente que pendurar uma bandeira espanhola à janela é uma maneira segura de acordar o país e chamar a atenção da imprensa. A Espanha tornou-se mais frequentável e conhecida, o que não é de estranhar e aconteceu também ao resto da Europa. Os espanhóis podem ser sócios ou patrões. A maioria dos portugueses preferiria ter um patrão espanhol competente do que um português incompetente (muitos parecem ter desistido de ter um patrão português e competente).</p>
<p>No entanto, não sei se partilhamos muito com a Espanha. Antes partilhávamos as origens e uma relação conflituosa. As origens vão se distanciando. E agora já nem partilhamos o conflito.</p>
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		<title>Telhados turcos</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Jun 2010 00:00:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Se as autoridades escolherem não usar já a indignação popular, será apenas para demonstrar sentido de responsabilidade agora e cobrar o preço mais tarde. Praça Taksim, Istambul, Turquia —. Não deve haver muitas cidades no mundo onde se possa ir à manifestação islamista e depois beber um copo nos bares da moda. Em Istambul, a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Se as autoridades escolherem não usar já a indignação popular, será apenas para demonstrar sentido de responsabilidade agora e cobrar o preço mais tarde.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<div class="wp-caption alignleft" style="width: 190px"><img src="http://www.uniglobalunion.org/Apps/UNIPics.nsf/vwLkpById/E3E1D056DF11250FC12576F500383CF8/$FILE/murad%20akincilar.jpg" alt="" width="180" height="135" /><p class="wp-caption-text">Murad Akincilar foi preso em Setembro de 2009 na frente de sua casa, em Istambul, por policias à paisana.</p></div>
<p>Praça Taksim, Istambul, Turquia —. Não deve haver muitas cidades no mundo onde se possa ir à manifestação islamista e depois beber um copo nos bares da moda. Em Istambul, a semana passada, pude fazer ambas as coisas no mesmo bairro.</p>
<p style="text-align: justify;">Na manifestação entrei distraído no setor onde estavam as mulheres devotas. Um rapaz chamou-me a atenção e, com firme cortesia, fez-me sinal para me juntar aos homens. Eles estavam em frente ao palco segurando uma enorme bandeira da Palestina. Na tela em frente eram projetados filmes sobre a faixa de Gaza. Se passava a imagem comovente de uma criança ferida, por exemplo, a multidão exprimia-se lamentosa. “Allahu akbar, Allahu akbar&#8221;, como num gemido coletivo. Nos momentos de maior indignação o mesmo “Allahu akbar!” saía de uma vez só, troado por milhares de gargantas ao mesmo tempo. Uma explosão de adrenalina.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas isto não é só uma manifestação de islamistas.<span id="more-1384"></span>Um pouco mais afastados há casais de jovens namorados, mulheres sem véu, homens barbeados — ou seja, a normal diversidade de uma multidão turca. E nas ruas que daqui saem, enchendo os bares, as pessoas não estão menos indignadas com o ataque israelita a barcos turcos. Todos asseguram que Israel cometeu um grave erro. Todos fazem questão de dizer que a Turquia não é o mundo árabe — aquele “Allahu akbar”, ou “Deus é Grande”, é mesmo a única frase em língua arábica que se ouve aqui — e dizem sobretudo que a Turquia não é o Irão — que está estranhamente silencioso depois do ataque israelita, porque vai fazer um ano das eleições que Amahdinejad roubou e ao regime iraniano não dá muito jeito convocar manifestações nesta altura —. Em Istambul as manifestações não param; no dia seguinte passará aqui outra, entre as lojas de piercings e tatuagens e as discotecas. Desta vez são universitários com uma bandeira pacifista em arco-íris e pinta de ocidentalizados. As raparigas com véu são aqui uma minoria. A sociedade turca, dividida em tanta coisa, está nisto unida. Se as autoridades escolherem não usar já a indignação popular, será apenas para demonstrar sentido de responsabilidade agora —  e acordo com o seu estatuto de membros da NATO, candidatos à UE e potência regional em ascensão — e cobrar o preço mais tarde.</p>
<p style="text-align: justify;">Palácio de Justiça de Beşiktaş, Istambul, Turquia. — Vim para assistir ao julgamento de um sindicalista e académico chamado Murad Akincilar, que foi preso pelas mais espúrias das razões (dois artigos numa revista legal e uma impressão digital na capa de um livro que foi achado em casa de uma acusado de terrorismo). Os nove meses que foi forçado a passar na prisão não o trataram bem. Fez um descolamento de retina em cada um dos olhos, ficando praticamente cego do olho direito. Entre os outros acusados, há gente presa por razões igualmente ridículas. No entanto, um dos quatro juízes dormita. Outro dorme profundamente durante toda a sessão e ainda tem a coragem de votar contra a libertação de quatro dos acusados. Felizmente, um voto vencido. Murad voltou a respirar a liberdade. A sua mulher, uma curda que também já esteve presa por “independentismo”, vai ansiosa buscá-lo à prisão. Esta história terminou feliz, mas ainda há guerra no curdistão, partidos ilegalizados, e metade de Chipre ocupado.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, a Turquia tem plena consciência da sua importância. Espero que tenha também consciência dos seus telhados de vidro.</p>
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		<title>Um capricho</title>
		<link>http://ruitavares.net/textos/um-capricho/</link>
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		<pubDate>Tue, 08 Jun 2010 08:57:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Até final de Junho publicarei um regulamento no meu blogue, ruitavares.net (os interessados podem escrever para bolsas@ruitavares.net). Entre Julho e Setembro, candidaturas. Primeiras bolsas em Outubro. A crónica de hoje ė um pouco diferente, tenham lá paciência. As bolsas de estudo são importantes para a sociedade e por acaso para mim também. O que devo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Até final de Junho publicarei um regulamento no meu blogue, </strong><a href="http://ruitavares.net/"><strong>ruitavares.net</strong></a><strong> (os interessados podem escrever para </strong><a href="mailto:bolsas@ruitavares.net"><strong>bolsas@ruitavares.net</strong></a><strong>). Entre Julho e Setembro, candidaturas. Primeiras bolsas em Outubro.</strong></p>
<p>A crónica de hoje ė um pouco diferente, tenham lá paciência.</p>
<p>As bolsas de estudo são importantes para a sociedade e por acaso para mim também. O que devo às bolsas de estudo ainda não acabei de pagar, e há uns tempos tive uma ideia: tirar uma bolsa do meu bolso. Não o faço para dar a ninguém lições de política, redistribuição, caridade ou o raio: faço-o porque quando satisfazemos um capricho nos sentimos mais livres e porque este é o momento adequado.</p>
<p>Uma bolsa pessoal não substitui as bolsas do estado, das universidades ou das fundações. Pelo contrário, acho que a nossa política de bolsas é insuficiente, e tenciono exigir mais (e não menos) depois disto. Uma bolsa pessoal, porém, permite coisas que uma bolsa institucional não pode fazer: é mais flexível e imprevisível. No meu caso, mais simples também: tiro 1500 euros por mês para uma conta-poupança e abro candidaturas no meu blogue. Estas bolsas não têm limite de idade, nem critérios de nacionalidade, nem <span id="more-1379"></span>restrições temáticas.</p>
<p>Interessam-me tanto perfis quanto projetos. Pode ser o adolescente timorense que quer fazer um estágio em Portugal. Pode ser o jornalista que tem um projeto de investigação que o seu jornal não pagaria. As candidaturas podem ser nas áreas em que trabalho no Parlamento Europeu &#8211; liberdades e direitos civis, educação e cultura, política urbana, refugiados &#8211; ou não. Podem ser nos meus temas de estudo — História, História de Arte, o iluminismo &#8211; ou não. Podem ser sobre algumas das minhas predileções — história do anarquismo e do pensamento libertário, a esquerda portuguesa desde os setembristas &#8211; ou talvez nada disto. Projetos das humanidades, artísticos, literários, científicos, políticos, humanitários, ativistas. Tanto faz. E, ah, eu vou ter de gostar da ideia. O júri sou eu mesmo.</p>
<p>Questões práticas. Até final de Junho publicarei um regulamento no meu blogue, <a href="http://ruitavares.net/">ruitavares.net</a> (os interessados podem escrever para <a href="mailto:bolsas@ruitavares.net">bolsas@ruitavares.net</a>). Entre Julho e Setembro, candidaturas. Primeiras bolsas em Outubro.</p>
<p>O dinheiro dá para uma bolsa grande ou mais bolsas pequenas. O remanescente pode servir para extras (bilhetes de avião, seguros de saúde). Para atingir mais projetos, eu privilegiaria bolsas de duração curta (entre um trimestre e um ano). As candidaturas podem ser apresentadas pelo próprio, uma instituição ou pequenos grupos com projectos bem delimitados. Para a coisa ser séria, vai ser preciso apresentar documentação e assinar um contrato; para ser transparente, publicarei tudo no blogue.</p>
<p>Porque divulgo isto? Para garantir qualidade. Quanto mais candidaturas, mais hipóteses de boas candidaturas e mais hipóteses de colaboração com parceiros que ajudem a fazer deste capricho uma coisa com cabeça tronco e membros. Esta bolsa não irá para amigos ou conhecidos (nem para funcionários do parlamento europeu, assembleia da república ou Bloco de Esquerda, embora os militantes possam concorrer, ao contrário do que foi erradamente anunciado). Também me reservo o direito de não atribuir ou cessar a bolsa caso não haja projetos de qualidade ou os termos da candidatura não estejam a ser cumpridos.</p>
<p>Que têm a ver com isto o Público e os seus leitores? Bem, o Público aceitou ser parceiro recebendo um dos primeiros bolseiros (se houver candidatura compatível) e deixando-me divulgar a ideia aqui.</p>
<p>E é tudo. Não sei o que vai sair disto que, para ser realista, é quase nada. Mas eu gostei da ideia e estou contente com isso. Disse um jornalista que pode ser demagogia mas não é barata, o que já me fez rir. E quarta-feira a coluna volta ao normal, com uma crónica sobre a Turquia.</p>
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		<title>Mandem livros para Timor</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Jun 2010 10:29:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gei Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[blog]]></category>

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		<description><![CDATA[Caros leitores, recebemos este apelo e achamos importante. &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211; TIMOR &#8211; pedido de professora Caros amigos, Alguns sabem e outros nem por isso (e assim aqui vai a notícia) mas estou em Timor a dar aulas na UNTL (Universidade Nacional de Timor Leste) no âmbito de uma colaboração com a ESE do Porto. Aquilo que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<table border="0" cellspacing="0" cellpadding="0">
<tbody>
<tr>
<td valign="top">
<div><em>Caros leitores,</em></div>
<div><em>recebemos este apelo e achamos importante.</em></div>
<div>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</div>
<div style="text-align: center;">TIMOR &#8211; pedido de professora</div>
<div style="text-align: justify;">Caros amigos,</p>
<p>Alguns sabem e outros nem por isso (e assim aqui vai a notícia) mas<br />
estou em Timor a dar aulas na UNTL (Universidade Nacional de Timor<br />
Leste) no âmbito de uma colaboração com a ESE do Porto.<br />
Aquilo que vos venho pedir é o seguinte: livros. Não vou dar a grande<br />
conversa que é para montar uma biblioteca ou seja o que for, porque<br />
não é. O que se passa é o seguinte&#8230; não sei muito bem como funcionam<br />
as instituições, nem fui mandatada para angariar seja o que for, mas o<br />
que é certo é que sou (somos!) muitas vezes abordados na rua por<br />
pessoas que desejariam aprender português mas não possuem um livro<br />
sequer e vão pedindo, o que é mto bom.<br />
O que é certo é que a minha biblioteca pessoal não suportaria tanta<br />
pessão e nem eu, nos míseros 50 quilos a que tive direito na viagem,<br />
pude trazer grande coisa para além dos livros de trabalho de que<br />
necessito.</p>
<p>COMO MANDAR?<br />
Basta dirigirem-se aos correios (CTT) e mandarem uma encomenda tarifa<br />
económica para Timor (insistam porque nem todos os funcionários<br />
conhecem este tarifário!) e mandam a coisa por 2,49 €. Claro que a<br />
encomenda não pode exceder os 2 quilos para poder ser enviada por este<br />
preço.</p>
<p>Devem enviar as encomendas em meu nome (*Joana Alves dos Santos*) para:</p>
</div>
<div>*Embaixada de Portugal em Díli</div>
<div>Av. Presidente Nicolau Lobato<br />
Edifício ACAIT<br />
Díli &#8211; Timor Leste*</p>
<p>E O QUE MANDAR?<br />
Mandem por favor livros de ficção, romances, novela, ensaio, livros<br />
infantis etc, etc. Evitem gramáticas e manuais escolares. Dicionários,<br />
mesmo que um pouquinho desatualizados são bem vindos. Este critério é<br />
meu e explico porquê. Alguns timorenses (estudantes e não só) são um<br />
bocado fixados em aprender gramática mas ainda não têm os skills<br />
básicos de comunicação. Parece-me melhor ideia que possam ler outras<br />
coisas, deixar-se apaixonar um bocadinho pelas histórias mesmo que não<br />
entendam as palavras todas, do que andarem feitos tolinhos a marrar<br />
manuais e gramáticas. O caso dos dicionários é outro. Um aluno, por<br />
exemplo, usa um dicionário português-inglês para tentar adivinhar o<br />
significado das palavras. Como o inglês dele tb não é grande charuto<br />
imaginam como é a coisa.</p>
<p>Bom, espero ter vendido bem o peixe do povo timorense. Falam pouco e<br />
mal mas na sua grande maioria manifesta simpatia pela língua<br />
portuguesa. De qualquer forma isto não vai lá (muito sinceramente) com<br />
umas largas dezenas de professores portugueses por cá. É preciso ter a<br />
língua a circular em vários meios e suportes. Espero que respondam ao<br />
meu apelo!! Eu por cá andarei sempre com um livrito na carteira para alguém que peça!</p>
</div>
<div style="text-align: justify;">
<p>*SE NÃO MANDAREM PELO MENOS DIVULGUEM*</p>
</div>
</td>
</tr>
</tbody>
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