Melindrosíssima

                                                                                   Jornal O Século – 1914

“Às vezes, na sala de aula, mostro uma após outra duas primeiras páginas do jornal O Século num dia do começo de Agosto de 1914, mesmo antes de a Grande Guerra começar. São duas edições publicadas no mesmo dia, como era hábito dos jornais em tempo de muitos leitores e muitas notícias: na edição da manhã um título a várias colunas anuncia que a situação se apaziguou e que os esforços diplomáticos de várias potências permitiram evitar a guerra; na edição da tarde a machete vem substituída por um nervoso “A Situação É Melindrosíssima”. Passado algumas horas, começavam os combates.

Pois bem, 2016 foi preocupante. Mas 2017 vai ser, para usar a expressão secular d’O Século, melindrosíssimo. (…) Se há lição a reter de há cem anos, ela não está na coincidência dos factos precursores, mas na das culturas vigentes. Quando as forças da exclusão e do ódio passam a dominar a dinâmica política, o conflito generalizado nunca poderá estar longe. O próximo ano será o combate das nossas vidas para que isso não aconteça na Europa.”

Leia mais aqui: https://www.publico.pt/…/mu…/noticia/melindrosissima-1755561

Leituras do dia – 21.12.16

Foto: Freire de Andrade / 1859-1929

1 – Ignore claims about the EU falling apart – Europe knows Brexit was a terrible idea, and New York is the city which will benefit (Denis MacShane)

“No EU capital likes the European Court of Justice, which is more of a giant commercial court and administrative tribunal despite its grandiose title. The UK has won more cases than it has lost at the ECJ. But a rulebook needs an arbiter, and so the rest of Europe remains puzzled at the fact that Britain, the nation that invented “playing by the rules” and accepting the umpire’s decision, now can no longer bear to do so.”
http://www.independent.co.uk/…/brexit-europe-negotiations-a…

2 – India is displaying classic signs that foreshadow fascism (Harish C Menon)

“Mishra was expectedly roasted for dubbing Modi as a disaster in the making for India. However, the Indian prime minister’s lifelong association with Hindu nationalist organisation Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) inevitably leaves him open to such charges. RSS, with its avowed goal of the Hindu rashtra, or Hindu nation, and of which Modi’s Bharatiya Janata Party (BJP) is an offshoot, has always had a fascination for the likes of Benito Mussolini and Adolf Hitler. And with the BJP’s electoral triumph—in 2014, it formed India’s first full majority government in decades—the spectre of violent identity politics has once again raised its head.”
http://qz.com/…/along-with-narendra-modis-rise-india-has-d…/

3 – Leavers are angry, for their lies will return to haunt them (Nick Cohen)

“Why in these circumstances are Leavers angry? What the hell do they have to be angry about? A part of the answer is that raging is all the poor dears can do. Across the west, the populist right is as much a countercultural movement as a political movement. Its supporters are closer to satirists than thinkers and doers with practical plans to change society. The right feasts on undoubted hypocrisies and evils in the liberal mainstream. It picks them apart and examines their ghoulish contradictions. Like its counterparts on the left, it then rapidly loses itself in the magic world of conspiracy theory. If you genuinely believe a sinister force has organised 97% of climate scientists to lie about global warming, or Brussels has bribed economists across the world to lie about the danger of Brexit, you are not just assuming mass mendacity at an astonishing level. You are also assuming “the establishment” is capable of the astonishing level of organisation required to persuade tens of thousands to lie.”
https://www.theguardian.com/…/brexit-leavers-fear-their-lie…

Confusos?

Surpresas, reviravoltas e tuites contra potências nucleares. De uma série nos anos 80 à eleição de Trump na minha crónica de ontem.sopa

“Um jovem jornalista senta-se comigo para um copo e uma conversa e abana a cabeça, desolado. “As notícias estavam aí, foram publicadas e eram conhecidas”, diz, “como podem não ter feito diferença e as pessoas agora fingirem-se surpreendidas?”. As conversas que tenho nestes dias enquanto me preparo para regressar a Portugal começam quase todas assim: toda a gente tem uma instituição na qual acredita — o jornalismo, a independência judicial, o estado de direito, a existência de uma oposição, a constituição federal — e cada um procede confessando o seu receio, às vezes a sua quase certeza, de que essa instituição já falhou ou vai falhar no futuro. Os americanos, tal como os russos e os turcos e os húngaros e muitos outros no passado — por vezes com grande ajuda do aparelho de estado dos EUA — vão percebendo como as instituições democráticas são na verdade extraordinariamente vulneráveis quando há uma vontade política persistente em fazê-las desmoronar.

Tudo isto teria mais valor pedagógico se fosse só uma telenovela. Mas quando o tuíte matinal de Donald Trump é um ataque verbal sem precedente à China — em que Trump comete o lapso de escrever “sem presidente” em vez de “sem precedente” — e nos apercebemos, precisamente por causa desse lapso só corrigido 90 minutos depois, que ninguém lê ou aconselha o presidente-eleito antes de ele atacar perante milhões de pessoas outra super-potência nuclear, aí a coisa fica mais séria. Já houve guerras que começaram por mal-entendidos, e noventa minutos pode já ser tarde de mais para mandar os mísseis voltarem para trás.”

Leia o resto aqui: https://www.publico.pt/…/…/19/mundo/noticia/confusos-1755302

Tudo é Rússia

russia

Pavel Filonov

Tudo é Rússia, ontem no Público.

“Os opinadores e intelectuais que a partir do Ocidente teorizam sobre a importância benevolente da Rússia de Putin deveriam pensar no que significaria fazer algo em sinal contrário por lá.

O mesmo valeria para os políticos anti-sistema (na verdade, anti-política, quando não anti-democracia) na Europa, se estes se preocupassem com o destino que é dado aos opositores mais recalcitrantes na Rússia — uma bala vinda de algures disparada por não-se-sabe-nunca-quem. Mas para eles só interessa o mesmo que a Putin: não tentam sequer provar que na Rússia as coisas são melhores, mas antes que elas são más em todo o lado.”

Leituras do dia – 7.12.2016

Boyle’s air pump – Robert William Boyle

1 – Autocracy: Rules for Survival (Masha Gessen)

“Rule #6: Remember the future. Nothing lasts forever. Donald Trump certainly will not, and Trumpism, to the extent that it is centered on Trump’s persona, will not either. Failure to imagine the future may have lost the Democrats this election. They offered no vision of the future to counterbalance Trump’s all-too-familiar white-populist vision of an imaginary past. They had also long ignored the strange and outdated institutions of American democracy that call out for reform—like the electoral college, which has now cost the Democratic Party two elections in which Republicans won with the minority of the popular vote. That should not be normal. But resistance—stubborn, uncompromising, outraged—should be.”
http://www.nybooks.com/…/trump-election-autocracy-rules-fo…/

2 – Please, Theresa May, save my husband from death in Bahrain (Zainab Ebrahim)

“Their aim was to punish Mohammed for his participation in the pro-democracy protests by getting him to confess to a crime he did not commit. Eventually, Mohammed and his co-defendants signed false “confessions” to make the torture stop. Mohammed was not allowed to see or speak to his lawyer until after his trial had started. He was convicted on the basis of his forced confession, even though he had recanted it. This “evidence” – which would immediately be thrown out of any court in Britain – is the reason that my beloved husband and the father of my children is facing imminent execution.”
https://www.theguardian.com/…/theresa-may-save-mohammed-ram…

3 – After The Islamic State (Robin Wright)

“Daesh has distorted the image of Islam,” Rahim said, using an Arabic term for the Islamic State. “Everything it’s done—its videos of beheadings, burning prisoners alive, drowning them, the destruction of churches and places of worship—all of this has nothing to do with Islam. But I don’t see any country or leading figure coming in and offering new breath for the Sunni world.

“It makes me very sad,” he went on. “This is what makes me fear that Daesh may be defeated politically and militarily but the idea won’t die. If the region were stable, there would be no place for Daesh to reëmerge. But it isn’t stable. The same thing that happened in Syria or Libya could happen in Algeria or Morocco or someplace else in this chaos.”
http://www.newyorker.com/…/20…/12/12/after-the-islamic-state

Leituras do dia – 30.11.2016

Imagem: Francesco Clemente

1 – Italy’s Most Popular Political Party Is Leading Europe In Fake News And Kremlin Propaganda (Alberto Nardelli e Craig Silverman)

“The party, co-founded by former comedian Beppe Grillo and internet entrepreneur Gianroberto Casaleggio, has ridden the same wave of anti-establishment, nationalist anger that carried the Brexit vote in the UK and Donald Trump’s US election victory.”
https://www.buzzfeed.com/…/italys-most-popular-political-pa…

2 – Identity politics won the election — white identity politics (Lolgop)

“That “outreach” could be off-putting to white voters indoctrinated by conservative posturing and even more offensive to minority groups for two reasons: it requires humanizing people who have dehumanized you and it suggests that the only way to get white people to care about racism is to show that it hurts them.”
http://www.eclectablog.com/…/identity-politics-won-the-elec…

3 – What the alt-right actually wants from President Trump (Zack Beauchamp)

“The alt-right’s priority, first and foremost, is preserving America’s status as a white-majority nation. To that end, they want Trump to follow through on the most extreme immigration ideas he’s discussed — such as deporting millions of undocumented immigrants and banning Muslim immigration. These steps, they think, will slow what they call the “dispossession” of America’s whites.”
http://www.vox.com/…/137160…/alt-right-policy-platform-trump

 

Um ditador dos bons, ou dos nossos?

fidel Aqui está a minha crónica de ontem. Só posso, como de costume, publicar uma parte do texto, o que era uma escolha difícil desta vez por deixar o argumento truncado. O melhor mesmo será ler o texto completo no Público.

“A história de como isto foi acontecer é tanto uma história pessoal de Fidel como uma história coletiva de Cuba e, sem escapatória, uma história da arrogância dos EUA. O apoio à ditadura de Fulgencio Batista e a utilização de Cuba como traseiras do quintal estado-unidense terão justificadamente transformado a visão de Fidel enquanto crescia. Quando ele, já líder revolucionário, tomou o poder, a incompreensão dos EUA foi ainda maior do que esperaria. O bloqueio foi e é um absurdo cruel; a firmeza de Cuba contra ele é mais do que justificada. Até hoje se discute, e durante muito tempo se discutirá, se Fidel foi mais comunista sozinho ou porque a paranóia anti-comunista dos EUA o empurrou a isso, da aventura de Kennedy na Baía dos Porcos à instalação de mísseis soviéticos na ilha — e como essa paranóia e contra-paranóia quase nos levaram à guerra nuclear.

Discutir-se-á tudo isso, mas quase como curiosidade. Porque, no fundo, o que se discute hoje não é nada disso, mas antes: Fidel era um ditador bom, um ditador dos bons, ou um ditador dos nossos?

Deixem-me contar um episódio. Recém-chegado ao Parlamento Europeu, fui a uma reunião entre o embaixador cubano e o meu grupo parlamentar. Só um deputado irlandês, trotskista e ex-padre católico (duas coisas — trotskista e católico — que nunca fui), teve a coragem de perguntar pela situação de um líder operário que estava preso por tentar formar um sindicato independente do estado. O embaixador respondeu: não vos posso dizer porque é que está preso, mas posso dizer que é por razões muitos graves, e peço-vos que confiem em mim.

Essa lógica recusei-a então e recuso-a agora. O embaixador cubano, diga-se de passagem, era um aparelhista do estado igual ao de qualquer estado, de esquerda ou de direita. Esse aparelho de estado foi Fidel que o criou, como foi Fidel que decidiu as execuções, a repressão, a censura e a prisão política. Sim, em tempo de guerra fria, quando a brutalidade era a norma. Mas também em plenos anos 2000 quando já nem a guerra fria o justificava. Por isso recuso a lógica de reconhecer o lugar de Fidel na história sem ter hoje uma palavra de solidariedade para quem seja reprimido por tentar organizar trabalhadores ou lutar por ideias como Fidel defendia que se pudesse fazer noutros países que não Cuba. O mundo mudou de novo, e curiosamente é mais parecido com o mundo multipolar e confuso em que o pequeno Fidel escrevia a Roosevelt do que com o mundo bipolar em que eu cresci. Fidel até pode ser um ditador dos nossos — é da esquerda que é a minha família política — mas parem de dizer se a história o absolverá ou não. Isso não é tarefa da história. É tarefa vossa.”

Leia o resto aqui.

 

Carta aberta a Paulo Rangel

Ontem no Público.

“E acontece que a situação, entretanto, piorou. No dia em que Oettinger foi à Hungria fazer um evento com o autoritário primeiro-ministro Viktor Orbán quem o trouxe no seu jato privado foi o consul da Rússia em Budapeste, um magnata alemão bem conhecido por ser um homem-de-mão de Putin. Se isso tem alguma relação com os negócios de centrais nucleares de Orbán, feitos propositadamente para serem ganhos pelos russos, não se sabe (e Orbán será uma conversa para outro dia).

Mas o que se sabe já é mais do que suficiente para se entender que Oettinger não tem condições para gerir o orçamento de uma União de 500 milhões de cidadãos precisamente no momento em que esta luta para ultrapassar uma crise de credibilidade e para se distinguir dos autoritarismos à sua volta. Oettinger não só não se distingue de Putin e dos seus imitadores como demonstra uma visão do mundo muito semelhante à deles e uma prontidão demasiado grande para lhes aceitar os favores. Por menos do que isto já caíram comissões e comissários no passado. E nós continuamos sem entender o silêncio do PSD enquanto se prepara para apoiar que este homem fique com o orçamento da UE e passe a vice-presidente da Comissão. Paulo Rangel, não acha que já chegou a hora de esclarecer isto?”

Leia mais aqui: https://www.publico.pt/…/carta-aberta-a-paulo-rangel-1752177

Leituras do dia

1 – Donald Trump call for apology to ‘harassed’ Mike Pence rejected by Hamilton cast (Olivia Blair )

“On Saturday, the President-elect called the speech “harassment” on Twitter and said the “theatre must always be a safe and special place” branding the cast of the award-winning musical “very rude”.”
http://www.independent.co.uk/…/donald-trump-claims-mike-pen…

2 – Alt-Right Exults in Donald Trump’s Election With a Salute: ‘Heil Victory’ (Joseph Goldstein)

“But now his tone changed as he began to tell the audience of more than 200 people, mostly young men, what they had been waiting to hear. He railed against Jews and, with a smile, quoted Nazi propaganda in the original German. America, he said, belonged to white people, whom he called the “children of the sun,” a race of conquerors and creators who had been marginalized but now, in the era of President-elect Donald J. Trump, were “awakening to their own identity”.”
http://www.nytimes.com/…/alt-right-salutes-donald-trump.htm…

3 – Globalism: A Far-Right Conspiracy Theory Buoyed by Trump (Liam Stack)

“Those conspiratorial beliefs were bolstered when former President George Bush celebrated the end of the Cold War in a 1991 speech by saying it was the dawn of a “new world order.” His use of the phrase was taken as proof by many that a globalist conspiracy really was afoot.”
http://www.nytimes.com/…/politi…/globalism-right-trump.html…

(Vídeo: elenco do musical Hamilton – http://www.independent.co.uk)

musical

 

A terceira metade da história

taxiA minha crónica de ontem no Público.

“A questão é se devemos ser deixados a sós perante a ceifadeira prontos a sermos tragados fieira a fieira ou se, como sociedade, temos alguma obrigação de usar as mudanças no ambiente tecnológico e económico para ajudar a moderar as suas piores consequências e, se possível, melhorar a condição de vida de todos. A chave está, para mim, numa frase dita pelo representante da Cabify à RTP quando perguntado sobre a precariedade nos seus serviços: “essa não é uma questão que nos caiba a nós”. Pois é, mas cabe-nos a nós fazer com que lhes caiba a eles também.

As empresas como a Uber e Cabify orgulham-se de serem disruptoras. Essa disrupção não lhes pode sair barata a eles e cara a todos nós, o que não significa satisfazer as reivindicações de “contigentação” dos taxistas, mas obrigar as novas empresas a pagar para mitigar os problemas que causam e ajudar a resolver outros problemas que temos. Recolhendo recursos que permitam, por exemplo, aumentar o investimento nos transportes públicos coletivos e na formação e renovação dos taxistas. (…) Numa sociedade civilizada não há “isso não nos cabe a nós”. Cada um de nós é ao mesmo tempo consumidor e trabalhador; se decide por-se apenas de um lado está a decidir contra outros hoje e contra si mesmo no futuro.”