Nó de problemas, nó de soluções

 

A cidade transforma qualquer coligação de minorias em gente que está junta no mesmo barco.

Escrevi várias vezes que Obama ganhou as eleições com uma coligação de minorias (dos negros aos latinos aos jovens e aos brancos com formação universitária) que se tornou uma maioria plural. Mas há outra forma de olhar para o mesmo universo de pessoas e concluir têm uma coisa importante em comum: a maioria vive em cidades.

 

Isto não tem nada de surpreendente. Uma vez que a maior parte da população humana vive agora em cidades, não se pode pensar em ganhar eleições sem ganhar uma grande proporção destes votos.

 

Surpreendente é ver como o discurso político se dedica pouco aos problemas urbanos Continue reading ‘Nó de problemas, nó de soluções’

Suspensão irónica da democracia

Desenho de informação

Teremos de rever e ampliar uma das grandes exigências políticas da sociedade civil nos últimos anos. Temos de concluir que a transparência não basta.

Se for comprar uma máquina de lavar, o mais certo é encontrar junto ao aparelho um gráfico com notas simples, de A a G, obrigatórios segundo os regulamentos da União Europeia. Os electrodomésticos classe A são os mais eficientes na utilização de energia. Ninguém é obrigado a comprar o elecrodoméstico mais ecológico. Mas uma vez que é fácil saber de qual se trata, a maior parte das pessoas acaba por fazer uma escolha virtuosa. A União Europeia chama-lhe “certificação”. Eu chamo-lhe “desenho de informação”.

Vamos supor que, para escolher a sua máquina de lavar, cada pessoa tinha de ler centenas de páginas sobre as peças utilizadas, conhecer a composição química dos materiais, etc. Continue reading ‘Desenho de informação’

Fragmentos de uma multidão

Antes de passar à espécie de reportagem/ensaio que saiu no Público com este título, uma história que talvez tenha algum interesse.

 

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Nas celebrações do Grant Park fiz esta foto. Reparem no rapaz de cabelo curto, no centro à direita. Quando mostrei a imagem a uma amiga, ela deu um pulo na cadeira, porque se tratava de um colega de universidade dela, apanhado ali por acaso no meio da multidão.

 

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Passado alguns dias, já em Lisboa, recebi esta outra foto. Foi encontrada na máquina fotográfica do amigo da minha amiga, o tal que eu tinha fotografado por acaso. No centro da foto, descaído para a esquerda, estou eu. Ele e a namorada (que foi quem fez a foto) vieram de Tel Aviv, eu de Lisboa. Aparecemos nas fotos uns dos outros. Três pessoas entre talvez centenas de milhares delas.

E agora o artigo.

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A maldição dos intelectuais

 

Os intelectuais podem ser inteligentes mas isso não garante que sejam espertos. A lição que muitos teimam em não aprender é a seguinte: “nunca, mas mesmo nunca, bajular uma categoria de pessoas para aceder ao poder com elas e depois tentar influenciá-las”.

 

De cada vez que vejo Valentim Loureiro ou Luís Filipe Menezes insultar um “senhor de barbas” que conhecemos pelo nome de Pacheco Pereira, a minha memória viaja até ao fim do cavaquismo e projecta uma cena em que Pacheco Pereira foi o único orador a conseguir acalmar (e ser aclamado por) um congresso do PSD. O que aconteceu entretanto? A maldição dos intelectuais.

 

Nos idos de 1990, era Pacheco Pereira o único intelectual encartado do seu partido e usava essa qualidade para explicar que o PSD era feito de “self-made men” sem ideologia mas com um pragmatismo e genialidade próprios. Os “self-made men” ficaram maravilhados; amaram-no como ele os amava. Mais tarde, já com o partido na mão, perguntavam-se: “mas quem é este gajo de barbas e por que ainda está aqui a falar?”

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Dos comentários

Sabe que gosto muito de si Rui e é por isso o título “a cruel verdade” me suscita a pergunta: porque não retoma o tema, que o trazia tão entusiasmado na própria noite das eleições americanas a propósito do referendo na Califórnia, do casamento gay? Faço votos de que seja porque percebeu que se trata de tema irrelevante e mesmo ridículo, mas não deixaria de ser interessante vê-lo falar sobre uma desilusão neste contexto em que, lamento dizê-lo, está tão ilusionado sobre as vurtualidades da sua “grelha de análise da realidade”.

Bem, eu nunca fiz previsões sobre o referendo na Califórnia e se tivesse feito era para o casamento gay perder. Para ser sincero, acho que perdeu por pouco. As pessoas esquecem-se que só se fala deste tema há menos de uma década, depois de milénios em que um homem casar com outro homem (principalmente isto) era a própria imagem do mundo ao contrário. O que disse na noite eleitoral na SIC-N quando fui o primeiro a declarar que Obama ia ganhar as eleições, ponto final, foi que faltava saber a dimensão da vitória no senado (pelo menos 57 senadores em 100) e os resultados na Califórnia, que não eram importantes do ponto de vista eleitoral mas como barómetro cultural nada irrelevante nem ridículo. Mantenho.

Já agora, aproveito para dizer que sou contra o referendo neste caso. Estou à vontade, porque fui sempre a favor do referendo do aborto, apesar de isso ter dificultado a mudança no sentido em que eu pretendia (e muitos dos meus amigos de esquerda serem contra).

A diferença está nisto. No caso do feto, há uma decisão a tomar sobre o estatuto de um terceiro, ou de um potencial terceiro, cuja configuração é ambígua por parte da sociedade. É parte da mãe? É um ser autónomo? Se sim, merece a protecção jurídica da sua existência? Creio que faz sentido entender o que a maioria das pessoas pensam sobre isto, e que isso se entende indirectamente através do referendo.

Quanto ao casamento gay, não há tal ambiguidade. Trata-se de duas pessoas adultas e livres. A única razão para lhes negar o direito de casarem com quem amam é considerar que se tratam de cidadãos de segunda. Foi isso que ocorreu em tempos. Hoje vivemos nos resquícios desse tempo, mas sem qualquer sustentação legal, política ou científica que justifique tal posição. Pelo contrário, é aberrante a todos a ideia de que um gay seja um cidadão de segunda. Não sei então como poderemos ter as maiorias a decidir o que podem ou não fazer cidadãos na plena posse dos seus direitos que não prejudicam a liberdade de outrem. Não vou referendar o meu casamento, não vejo por que os meus concidadãos gay terão de passar por isso.

A cruel verdade

Para ficar apenas em território nacional, a cruel verdade é esta: ficaria muito mal informado sobre o que se estava a passar nos EUA quem lesse em exclusivo Pacheco Pereira, Vasco Pulido Valente, Alberto Gonçalves, João Miranda ou ouvisse (por exemplo) Nuno Rogeiro. Por outro lado, ficaria bem informado quem lesse o João Rodrigues, o Carlos Santos, o Pedro Magalhães, o Pedro Sales, o João Galamba ou a Palmira Silva (há outros, claro, só não ponho o João Pinto e Castro porque ele apostou um jantar comigo no resultado das eleições e perdeu).

Não precisam de acreditar em mim. Façam a experiência: em alguns casos ficarão a saber de factos e tendências que só semanas ou meses depois encontrarão na imprensa de referência estrangeira. Por outro lado, que apenas um destes nomes tenha pouso regular na imprensa nacional diz-nos muito sobre as razões da famosa crise dos jornais.

Deve-e-haver

No Financial Times de hoje: “Obama can be a Roosevelt and not a Carter“.

No New York Times, artigo do Prémio Nobel da Economia Paul Krugman: “Franklin Delano Obama?“.

Na New Yorker: “As Roosevelt did with the New Deal, Obama has represented different versions of moral leadership to different groups of voters“.

Vale a pena ler qualquer dos três artigos (ainda vou a meio no da New Yorker). Poderia ainda acrescentar este, da secção de negócios do NYT: “75 Years Later, a Nation Hopes for Another F.D.R.“.

A questão é mais de confirmação do que de seguidismo. A minha crónica sobre este assunto (”Roosevelt contra Roosevelt“) é de Agosto, antes do colapso financeiro. Nela descrevia-me como “obamaníaco” precisamente para dar ao leitor espaço de recuo, como quem diz: não podem contar com a minha imparcialidade, mas podem contar com a leitura mais atenta que eu consiga fazer. Acho que foi uma boa promessa. Desde o início, apoiei os candidatos anti-guerra (mais Edwards do que Obama, até) mas desejando que um desistisse para que o outro vencesse as primárias. Achei que Hillary não ganharia as primárias (nem as gerais, mas não temos maneira de confirmar isso), nem mesmo após o escândalo Wright. No meio do Verão, quando McCain ultrapassou Obama em algumas sondagens, disse que a nomeação de Sarah Palin destruiria o que restava da campanha republicana (foi a verdade; Sarah Palin puxou McCain para baixo nas sondagens junto de independentes; todos os jornais de referência, incluindo conservadores, que apoiaram Obama citaram a escolha de Palin como momento decisivo). E, antes da falência da Lehman Brothers e do Pacote Paulson, disse que o susto ia fazer os americanos lembrarem-se da Grande Depressão e procurar por um Roosevelt (não um Kennedy nem um Martin Luther King, que eram as comparações correntes que se faziam em relação a Obama).

Na minha crónica de hoje (que estará aqui mais tarde) pergunto como podem os obamacépticos querer comentar as ilusões dos outros quando não fizeram o seu trabalho de casa, nem antes nem depois das eleições. Quem os lesse não saberia nada sobre a crise financeira, julgaria que ela não teria hipótese de contaminar a economia real, consideraria que Sarah Palin foi uma boa escolha por John McCain (não foi; nem sequer em termos oportunistas). Quem subestimou Obama até agora, com a importância que ele já teve e tem, deseja que continuemos a subestimar Obama depois das eleições. Pode ser que até venham a ter razão. Mas que provas de confiança nos podem dar, quando nem sequer sabem fazer o seu deve-e-haver dos últimos meses?

Parem as máquinas

Morreu Miriam Makeba, após um concerto.

Pedro Magalhães um - Alberto Gonçalves menos que zero

Aqui:

Segundo Alberto Gonçalves, “Obama concentrou na quase totalidade o voto preto, avalanche que nem a tradicional predilecção das minorias pelo partido democrático justifica. Com a eleição de Obama, insusceptível de repetição noutra democracia, o racismo dos brancos americanos tornou-se, pelo menos oficialmente, uma memória triste. O racismo dos pretos americanos é, se calhar, uma questão actual. A que não convém aludir.

Suponho que isto quer dizer que o facto de John Kerry ter captado “apenas” 88% do voto dos negros que participaram na eleição em 2004 e Obama ter captado 95% do mesmo voto em 2008 deverá ser visto como expressão do “racismo dos pretos americanos”. Nem imagino como Alberto Gonçalves interpretará o facto de, em 2008, 62% do voto asiático ter ido para Obama, contra 56% do mesmo voto para Kerry em 2004. Ou o facto de 67% do voto hispânico ter ido para Obama, contra apenas 53% do mesmo voto ter ido para Kerry em 2004. Só pode ser, claro, o anti-branquismo dos castanhos e dos amarelos. Realmente, sobre questões de “raça” e voto, não tem sido fácil dar uma para a caixa.

Adenda — Ainda há isto: “Barack Obama performed 9 points better than John Kerry among urban whites“. É o terrível racismo anti-branco dos brancos urbanos…