A solução está na cara

Esse plano é simples. A União Europeia não pode levantar impostos em nome próprio, mas a Comissão Europeia pode cobrá-los para os estados-membros. 

Numa época saturada por pequeno e médios escândalos, é de esperar que os grandes e verdadeiros escândalos passem despercebidos.

Falemos hoje, como prometido, das multinacionais que fogem legalmente a pagar impostos nos países onde realizam as suas transações. Não há como escamotear a dimensão do roubo. Falamos de multinacionais que beneficiam de investimento público na tecnologia e na investigação, que beneficiam de consumo privado em todos os nossos países, que na União beneficiam de um mercado único de 500 milhões de consumidores. Falamos de empresas que — no caso do setor financeiro — têm beneficiado de resgates pagos pelo trabalhador e contribuinte com cortes de salários e subidas de impostos. Falamos de um rombo anual de centenas de milhares de milhões de euros.

O escândalo não é só financeiro, mas moral. Continuar a ler ‘A solução está na cara’

A chave

Este modelo de esquerda partidária há muito que está esgotado. O desafio que se coloca é como suplantá-lo, e a chave é esta: precisamos agora de uma esquerda que em vez de só querer governar ou só querer não governar, queira saber porquê governar e sobretudo para quê governar.

No fundo, o drama da esquerda partidária portuguesa é este: há uma metade que só pensa em governar; a outra metade só pensa em não governar.

A esquerda partidária que só pensa em governar acha, que para isso, tem de ser centrista. A esquerda que só pensa em não governar acha que, para isso, tem de ser extremista. A esquerda partidária portuguesa anda há décadas a fazer a esparregata, e pagou-se um preço considerável por isso. Uma parte grande da população portuguesa nunca esteve representada na governação, com tudo o que isso implica. Política não é só parlamento, mundo sindical ou círculos de reflexão e debate. É poder, de forma decisiva, contribuir para o destino do país. Continuar a ler ‘A chave’

O camião-fantasma

Quanto a Portugal, que se ponha em guarda. Com uma força de trabalho com baixos níveis de formação, uma crise que nos deixou presos ao pensamento de curto-prazo e uma elite que não tem demonstrado capacidade de deliberar para o futuro, arriscamo-nos a ser atropelados pelo camião-fantasma.

Se querem conhecer o futuro, sigam os camionistas. Eles são uma das categorias profissionais mais numerosas em todos os países e continentes. Em 2006 eles representavam 1,3% da força de trabalho nos Estados Unidos da América: um milhão e seiscentos mil, mais do que todos os professores de escola primária. Na União Europeia, onde a sua atividade é enquadrada por regulamento comunitário, as rotas que eles fazem são as veias e artérias da economia.

Porquê os camionistas? Por causa disto: na semana passada, a fabricante de automóveis alemã Daimler mostrou um seu camião a viajar em piloto automático, e anunciou que espera estar em plena produção em série destes camiões em 2025. É certo que estes camiões ainda têm um condutor, que está ao lado do volante com um computador ou tablet, e que poderá tomar conta da condução quando necessário. Mas outras marcas já testaram automóveis inteiramente desprovidos de condutor humano. Por sua vez, a Volvo já testou camiões automáticos em pelotão: só o primeiro veículo tem condutor, e os três ou quatro a seguir seguem-no como camiões-fantasma.

Não nos iludamos. Aproxima-se o dia em que uma categoria profissional inteira se tornará desnecessária. Com o tempo que demora a substituir frotas e um período normal de habituação, pode ser daqui a vinte anos, mas a maior parte das pessoas que estão a ler este artigo verão esse dia.

A partir daqui, os argumentos bifurcam-se. Continuar a ler ‘O camião-fantasma’

Uma manhã produtiva

Assassinato de Sarajevo – 28 de Junho de 1914.

Parafraseando Churchill, aquela manhã em Sarajevo produziu mais história do que nós somos capazes de consumir.

Na semana passada, não no século passado nem no milénio passado, o mundo moderno assistiu a uma coisa estranha: um homem que decidiu declarar-se Califa, ou seja, descendente de Maomé, líder espiritual e político de todos os muçulmanos. Uma coisa tão estranha quanto um de nós decidir pôr uma coroa de louros na cabeça e declarar-se César.

Vamos recuar cem anos até um conflito que temos revisitado aqui muito, a Iª Guerra Mundial. Em 1914, por esta altura, havia ainda um califa e três césares. Os três césares eram o imperador da Rússia — cujo título não era Czar por acaso, mas precisamente por vir do romano Cæsar —, o imperador da Áustria e o rei da Prússia e imperador da Alemanha, ambos com o título de Kaiser pela mesma razão. O Califa era Mehmed V, Sua Majestade Imperial e Sultão do Império Otomano.


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Dizer para ver

Sophia de Mello Breyner Andresen não foi só uma das maiores escritoras da língua portuguesa contemporânea. Foi ela quem mais perto esteve de um ideal clássico da poesia: o da realização material das palavras.

Quando tinha quinze anos, passei um Verão trabalhando como guia turístico no Panteão Nacional quatro dias por semana (ao quinto, ia para São Vicente de Fora), num grupo de adolescentes em “ocupação de tempos livres”. Com as gorjetas comprávamos discos de vinil na Feira da Ladra. Com o salário, comprei uma bicicleta. Ao fim da tarde acontecia-me subir a colina da Graça, pela travessa das Mónicas, junto à Vila Sousa, até ao miradouro. Não sabia que ali morava Sophia de Mello Breyner. Continuar a ler ‘Dizer para ver’

Ainda mexe

 É necessário que nos unamos da próxima vez para ter uma candidatura ganhadora à presidência da Comissão Europeia.

Há cem anos e um dia, um título do jornal Vancouver Sun declarava convictamente: “Morte de arquiduque austríaco afasta perigo de conflito europeu”. Um mês depois estalava a primeira guerra mundial, precisamente pela causa que o jornal tinha defendido que a anularia.

É fácil sorrir por conta deste falhanço jornalístico. Mas cem anos (e um dia) depois, ainda é por nossa conta e risco que ignoramos as dinâmicas europeias. Vejamos. Durante anos, jornais e televisões proclamaram que a crise da zona euro estava ultrapassada. A cada cimeira do Conselho Europeia, disseram-nos que a União tinha dado um grande salto em frente e que não havia agora problema. Da mesma forma, muitos observadores, desta feita principalmente nos governos, continuam a desvalorizar o efeito que teve a frase de Mario Draghi (“faremos tudo o que for necessário para salvar o euro e, acreditem, será suficiente”) na superação da fase aguda da crise da moeda comum.

Mas há mais. Durante cinco anos o Parlamento Europeu defendeu que a escolha do presidente do executivo europeu se desse indiretamente através das eleições europeias. Quando essa proposta feita, porém, ela foi continuamente desvalorizada por todos aqueles que supostamente estavam “por dentro” dos temas europeus. Continuar a ler ‘Ainda mexe’

A bola

Eusébio, o Pantera Negra (Benfica x Manchester United / Taça dos Clubes Campeões Europeus em 01.06.1966)

A minha teoria é que cada um joga como a personalidade que tem, ou seja, que olhar para a forma de jogar futebol é a melhor maneira de entender com quem estamos a lidar.

Nas escadas rolantes do aeroporto tenho à minha volta dezenas de miúdos e miúdas vestidos com o equipamento vermelho do Benfica (e Olivais). Vão aos Açores jogar à bola num torneio infantil. Os pequenos sentem-se, e provavelmente são, os jogadores com mais pinta do mundo. Continuar a ler ‘A bola’

No fim da 7ª legislatura do Parlamento Europeu

Terminam hoje cinco anos duros, de uma responsabilidade grande perante uma crise temível, que continua. Cinco anos que nos puseram a todos perante dilemas sérios, que levei a sério. Pensei sempre: quando estiveres de volta à tua vida normal vais querer que lutem por ti. Por isso lutei muito, mas não lutei sozinho: tenho uma dívida de gratidão às pessoas que comigo trabalharam, às que sentiram este mandato como missão. Missão de defesa de pessoas que dela precisam: quando legislámos para dar uma nova vida a refugiados, trabalhávamos para pessoas que nem sabiam que existíamos. Missão de avanço para princípios e ideais: quando lutámos pelos direitos e liberdades de húngaros nossos concidadãos, pensando que um dia poderia ser um húngaro lutando por portugueses seus concidadãos. Missão de reciprocidade entre representantes e representados, como no Projeto Ulisses com o qual apresentámos uma resposta de futuro à tragédia que se vive ainda nos países do Sul e da periferia. E em tantas outras ocasiões, ideias e iniciativas de que seria impossível fazer agora um balanço. Por um projeto democrático europeu, que já defendia desde muito antes, e que continuarei a defender. E por um Portugal que possa cumprir o seu sonho de ser “livre, justo e solidário”. Sabendo não só que ambos esses ideais não são incompatíveis, como que são condição mútua um do outro. Por eles dei o meu melhor, e continuarei dando de outras formas. Agora é altura de desejar boa sorte e bom mandato àqueles que pegam no testemunho, com as suas ideias próprias, e espero que pelo menos com a mesma vontade de trabalhar. Por isso escrevi na crónica de hoje:

“Amanhã tomam posse os novos deputados ao Parlamento Europeu. Portugal terá no Parlamento Europeu 21 deputados e deputadas: é pouco, quase nada. É essencial garantir que eles e elas nos representem bem — ajudando quando necessário, criticando quando justificado, fiscalizando sempre — durante os cinco anos para que foram mandatados e durante os quais se comprometeram a representar-nos. E nos próximos cinco anos há muitos desafios a enfrentar, desde o tratado transatlântico à questão britânica, e ainda mais coisas por fazer, da união energética à recuperação económica dos países do Sul.

Quando se passa de representante a representado, como é o meu caso, sentimos ainda mais como é importante que os novos representantes nos representem bem e saibam lutar por nós. É pois isto que lhes (e nos) desejo: que façam por ser excelentes deputados. A velha Europa ainda mexe.”

Souviens-toi — Remember

20140626-081431.jpg À entrada e à saída, uma placa em francês e inglês, que diz “Souviens-toi / Remember”. Lembra-te. Recorda. Foi só há 70 anos.

Há uma semana comemorou-se no nosso país o Dia de Portugal. Permitam-me falar hoje de um outro 10 de junho.

Há setenta anos, e uma semana, uma divisão do exército nazi chamada “Das Reich” subia pelo interior da França, chamada a reforçar as linhas contra o desembarque aliado nas praias da Normandia. A Resistência e a sua guerrilha, o “maquis”, atrasavam-lhe a progressão. A “Das Reich” respondia com atos punitivos. Na véspera, a 9 de junho, enforcara 99 franceses na aldeia de Tulle, no Limousin. No dia 10 de junho chegou à aldeia de Oradour-sur-Glane, um pouco mais a norte.

Chamar aldeia a Oradour-sur-Glane pode ser enganador. Mesmo em 1944, a sua realidade não evocaria nada da pobreza das aldeias portuguesas. Embora ali morassem poucas centenas de pessoas, cerca de um milhar e meio vinha das quintas vizinhas fazer comércio. Oradour-sur-Glane tinha vários cafés, hotel, solicitador, seguradora, duas oficinas mecânicas, uma trintena de automóveis. Quase todas as casas tinham máquina de costura, fogão a lenha, algumas até fogão a gás. Mais surpreendente, a aldeia tinha uma linha de elétrico, que a ligava à capital provincial, Limoges, e de onde vinham regularmente turistas para fazer piqueniques à beira-rio. Por comparação, seria talvez como Colares, também já então ligada a Sintra por uma linha de elétrico.

Nesse dia de há setenta anos, por volta das duas da tarde, o exército nazi rodeou a aldeia e reuniu toda a população na praça principal. Continuar a ler ‘Souviens-toi — Remember’

Fantasmas dos Mundiais passados

Os eleitores são mais espertos do que aqueles polvos alemães que adivinham resultados.

Gol de Zico no jogo Brasil x Nova Zelândia na Copa do Mundo de 1982.

O primeiro jogo de futebol de que lembro lembrar-me, — o primeiro memorável — foi um jogo do campeonato do mundo, e logo uma final. Argentina-Holanda, em 1978, tinha eu seis anos. Na aldeia só havia duas tabernas, a da prima Ofélia e a da prima Artelina (e apenas uma mercearia, da prima Ilda, onde também era a caixa do correio e a cabine do telefone). O meu pai estava a ver o jogo na taberna da prima Artelina, e foi ali que eu decidi que apoiava a Argentina. Gostei do nome. E a Argentina ganhou, por 3-1, e eu festejei.

O problema é que a Argentina era “fascista”, e a minha aldeia no Ribatejo uma das mais comunistas do país. A Argentina era uma ditadura, e tinha presos políticos, e portanto “nós” estávamos contra a Argentina. Essa informação tinha-me escapado, e eu próprio tive de me escapar à fúria dos outros miúdos. Continuar a ler ‘Fantasmas dos Mundiais passados’