A corda

Burdens-Rope – by Donato (2012)

Os deputados e deputadas da comissão parlamentar levaram a sério o seu trabalho, dignificaram a Assembleia da República e honraram-se a si mesmos.

O país seguiu ontem as audições parlamentares aos dois primos e banqueiros do Espírito Santo — uma espécie de maratona em estafeta na qual os dois corredores se detestam. À hora a que escrevo, José Maria Ricciardi ainda responde às perguntas dos deputados, depois das mais de dez horas de interrogatório a Ricardo Salgado. Para digerir tudo isto vamos precisar de um longo relatório, um par de romances, meia dúzia de livros de não-ficção e, provavelmente acima de tudo, uma ópera. No estilo ópera do malandro. A grande família, o poder, o dinheiro, as desavenças e o fiasco final. Um tenor fará de Ricardo Salgado, fleumático, composto, envolvendo o seu discurso numa cuidadosa teia verbal. Um barítono fará de José Maria Ricciardi, sanguíneo, intempestivo, dando erros de português enquanto as suas palavras se atropelam para sair.

E seria injusto não incluir o coro parlamentar. Continuar a ler ‘A corda’

“Se não eu, quem?”

Minha crónica de hoje no Público: “Há 500 milhões de cidadãos na União Europeia, e mais ainda no resto do mundo, que têm razões para estar gratos a Antoine Deltour. Com um só ato, pacífico e ordeiro, ele pôs o dedo na maior das contradições da economia atual. Essa contradição exprime-se em três frases. A nossa sociedade está a ficar mais rica. Nós estamos a ficar mais pobres. E há quem ache que isto é normal.”

A crónica completa está em “Se não eu, quem?”.

Política é tempo

Como todos os políticos, Soares pode ter errado muitas vezes nas coisas pequenas. Como poucos, acertou na grande.

São várias as artes de que é composta a política. Para o desenho institucional e constitucional, a arquitetura. Para encontrar as palavras, a literatura. Para a representação do poder, a cenografia. Para a oposição de ideias e temperamentos, o drama. Para mover as pessoas, o arco narrativo do cinema. Para as juntar, a arte mais profunda que é a da psicologia, a leitura das almas. A política é uma arte de artes. Ninguém domina todas elas.

Mas fazer política — essa é a arte de ler o tempo. Como a música, portanto. Ler o tempo não é fácil. Para quem não o tenha de instinto, só se ganha com muita observação, mas toda a vida humana é feita de tempos, de ritmos que se cruzam. Há tempos longos, mais sinfónicos, e tempos curtos, mais metronómicos, e por cima dessa estrutura há uma total cacofonia de palavras e modas, exigência e temas, todos os dias, todas as horas, para confundir os incautos.

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Ao delator desconhecido

A minha crónica de hoje no Público: “Mas há dinheiro, muito dinheiro, por aí. Mais do que suficiente para recuperar as nossas economias e manter o essencial do estado social. E esse dinheiro é nosso, usado em transações quotidianas nos nossos países, mas em que as multinacionais têm facilidade em declarar como se tivessem sido realizadas nos países onde pouquíssimo imposto se paga, ao abrigo de acordos especiais e secretos.”

Leia o texto na íntegra: Ao delator desconhecido

 

Corrupção e corrosão

É ridículo combater a evasão fiscal com carros sorteados por faturas de cabeleireiro, quando as multinacionais fogem com todo o dinheiro que entendem por cima das nossas cabeças — e mesmo as grandes empresas nacionais o fazem através da Holanda.

A corrupção contribui para a corrosão, ou seja, o minar da credibilidade das instituições públicas. Mas a corrosão não se dá apenas por efeito de crimes, ou atos ilegais.

Vamos voltar aqui a um dos grandes escândalos morais dos dias de hoje, emblematizado pelo caso Luxleaks. É tudo perfeitamente legal. Alguns países europeus — por acaso, entre eles aqueles que exigem austeridade aos outros para que equilibrem as contas — organizam-se com as multinacionais para, por debaixo da mesa, roubar aos outros os impostos sobre as transações que se realizam no território das vítimas. É claro, “roubar” e “vítimas” são palavras aqui usadas com certo risco: se é tudo legal, não há roubo, e se não há roubo não há vítimas. Mas então que chamar às centenas de milhares de milhões de euros que já se comprovou que saem dos nossos países em direção, pelo menos, ao Luxemburgo, para que não paguem impostos?

Se há razão para minar a credibilidade da União Europeia, é esta. Continuar a ler ‘Corrupção e corrosão’

A corda

Minha crónica de hoje no Público – “E seria injusto não incluir o coro parlamentar. Polifónico, mas estudioso e bem ensaiado. Os deputados e deputadas da comissão parlamentar levaram a sério o seu trabalho, dignificaram a Assembleia da República e honraram-se a si mesmos. Ouvi taxistas atentos ao que transmitia a rádio, — “já estou faz horas nisto” —, soube de reformados que tiveram a televisão acesa todo o dia e fui seguindo jovens que foram comentando as audições nas redes sociais. Tenho a certeza que os deputados deixaram a todos eles, como a mim, a excelente impressão de que estávamos a ser representados nas nossas dúvidas e interrogações, melhor do que faríamos. Nestes tempos, é essencial registar isto, e esperar que a responsabilidade seja bem levada até ao fim do trabalho da comissão.”

Click no link para ter acesso ao texto integral: A corda

 

O Processo do Marquês

Quem for que tenha dado o nome de Marquês ao caso de José Sócrates prestou assim um mau serviço ao processo e ao país. Desde logo porque, para o bem e para o mal, Sócrates não é Pombal. E sobretudo porque o processo do Marquês, há 230 anos, foi o epítome do que este não deveria ser.

Foi por estes dias do início de dezembro, mas no ano de 1776, que apareceu um cartaz na esquina da casa lisboeta doCardeal da Cunha, Arcebispo de Évora, ex-Inquisidor-mor, ex-Presidente da Real Mesa Censória, e um dos homens que mais cargos e benefícios recebeu do governo do Marquês de Pombal. Como descrito numa carta da época que se encontra na Biblioteca Pública de Évora, era isto que se via no cartaz:

« dois ou trez homens, com tal ou insignia, ou Letra que indicavam serem Alfayates; e perguntava hum delles ao outro, ou aos outros: Que fazem aqui? Respondiam: Estamos para virar huma casaca.»

Era o fim do poder pombalino. Nas ruas sussurrava-se “isto está para acabar”; dentro das casas apostava-se sobre quem seriam os primeiros a abandonar o barco. Neste caso, acertaram. Quando o rei Dom José I morreu, a 24 de fevereiro doano seguinte, o Cardeal da Cunha foi mesmo o primeiro a receber o Marquês de Pombal no Palácio Real e a anunciar-lhe de maneira seca: “Vossa Senhoria não tem mais nada a fazer neste lugar”.

Pois é, tudo nos parece muito moderno nesta história de cunhas e de virar casacas num cartaz de 1776. Ficou mais moderno ainda quando alguém decidiu chamar à investigação sobre José Sócrates, presumivelmente por causa da proximidade do seu apartamento à rotunda lisboeta, “Operação Marquês”. É um nome muito mal escolhido — e só não é pior porque talvez só os historiadores dêem por isso. Continuar a ler ‘O Processo do Marquês’

Política é tempo

Minha crónica de hoje no Público: “Os políticos medíocres correm atrás do assunto do dia; os políticos talentosos antecipam os assuntos dos próximos meses, do próximo ano. Ambos cantam atrás da música, pior ou melhor. Os grandes políticos entendem ou pressentem a estrutura que lhes permite introduzir novos temas, marcar um ritmo diferente, efetivamente mudar a música. Sabem quando as pessoas se cansam, quando um tema se esgota; conseguem distinguir entre o que as pessoas dizem e a razão por que o dizem, que nem sempre é coincidente com aquilo que querem. E depois, erram, muito — porque a ninguém é possível prever tudo.”

A crónica completa está em: Política é tempo

“Restauremos a Democracia – Que papel para os emigrantes?”

No próximo dia 7 de Dezembro, estarei em Bruxelas para a conferência “Restauremos a Democracia – Que papel para os emigrantes?”. O evento será organizado pelo Núcleo de Bruxelas do LIVRE para celebrar o 1º de Dezembro, Dia da Restauração. Contaremos ainda com as participações de Manuela Tavares (EMAÚS), António Tomé (APEB) e José Campos (STCDE). Ajudem-nos a divulgar!

A Bolha Central

Sem esquerda nem direita, mas apenas os de dentro contra os de fora, um governo de Bloco Central não dará alternativa, nem sequer alternância, nem sequer o suspiro de uma dança de cadeiras. Será o pior daquilo que nos trouxe até aqui, mas em estertor.

Um julgamento não é suficiente para destruir o regime, e — defendi na minha última crónica — nem a prisão de um ex-primeiro ministro deverá ser suficiente para destruir o regime. O que poderia, então, destruir o regime? O BlocoCentral. O que é paradoxal porque, daqui a pouco tempo, ouviremos muita gente responsável clamando pelo Bloco Central para salvar o regime.

Escondida por detrás da prisão de Sócrates está uma notícia da semana passada que dá um exemplo de como seria o país se governado por uma “grande coligação” de PS e PSD, a que se poderia eventualmente acrescentar o CDS em nome do arco da governabilidade e de uma suposta salvação nacional. Falo da reposição das subvenções vitalícias para antigos políticos, decidida por um representante da ala direita do PS, José Lello, e uma figura do establishment do PSD, Couto dos Santos — e depois retirada à pressa, em resultado da pressão do Bloco de Esquerda e do escândalo geral da imprensa e da opinião pública. Sem sequer entrar no fundo da questão, a falta de sensatez dos dois deputados e dos seus aparelhos, aliada à arrogância de uma decisão em causa própria, dá-nos aqui uma prefiguração do que seria um governo em que PS e PSD estivessem amarrados um ao outro, bem longe do mundo real e dos cidadãos comuns.

Mas isto não é nada. Dispensados de se enfrentarem periodicamente no parlamento ou proximamente em eleições, vivendo numa bolha só para eles, não só os dois grandes partidos passariam tranquilamente medidas como estas em Conselho de Ministros e na Assembleia da República, como entre eles reinaria a auto-suficiência e arrogância perante os protestos do exterior, facilmente apodados de extremistas ou contrários ao interesse da nação e da estabilidade governativa. Continuar a ler ‘A Bolha Central’