Arquipélagos

As cidades tendem a aglomerar-se e a interligar-se porque assim multiplicam os seus potenciais. Formam arquipélagos, e entre cada cidade desses arquipélagos (e cada arquipélago de cidades) trocam-se produtos, serviços e ideias.


Esta globalização em que vivemos é uma globalização de cidades. Foram elas que desde o início (desde o século XVI) contribuíram para amarrar os nós, as rotas, de que foi feito o comércio internacional. Sozinhas, valem pouco. Ligadas, valem muitíssimo.

As cidades tendem a aglomerar-se e a interligar-se porque assim multiplicam os seus potenciais. Formam arquipélagos, e entre cada cidade desses arquipélagos (e cada arquipélago de cidades) trocam-se produtos, serviços e ideias.

O valor económico desses arquipélagos de cidades é difícil de calcular. O economista Richard Florida tentou fazê-lo e as conclusões a que chegou são surpreendentes. A mega-região urbana mais rica da Europa não é a Grande Paris nem a Grande Londres. É o arquipélago urbano de Amsterdão-Antuérpia-Bruxelas-Colónia-Lille, onde vivem quase 60 milhões de pessoas e que produz mais riqueza do que a China, o Canadá ou a Itália. O seu valor aparece escondido porque se trata de um arquipélago cujas “ilhas” estão espalhadas por cinco países.

“O que fez antes do doente morrer?”

A posição convencional em economia e conservadora em política não tem neste momento a mínima confiança em si mesma para aguentar um debate, em igualdade de circunstâncias, sobre como chegámos à crise e como saíremos dela.

Vamos a ver se nos entendemos. José Manuel Fernandes diz que o « Manifesto dos 28 » contra as grandes obras públicas foi recebido de forma insultuosa. Como exemplo, dá à pergunta « Onde tinham estado antes da crise estalar », que eu próprio fiz.

Esta crise é o evento económico mais significativo do pós-guerra, não só em termos de efeitos reais como de debate teórico. Perguntar onde estavam os economistas em relação à crise é um insulto? Nesse caso, perguntar « que fez o médico antes do doente morrer » é também um insulto.

Tudo bem. Posso viver com o opróbrio do insulto. Continue reading ‘“O que fez antes do doente morrer?”’

Ay, Honduras

Entretanto, parece ter havido um golpe de estado nas Honduras. Vou tentar entender melhor o que se passa antes de fazer mais comentários. Mas, para já, parece interessante o facto de Obama só reconhecer como presidente Manuel Zelaya (apesar de este ser um aliado de Hugo Chávez e estar interessado em iniciar um processo constituinte no país) e recusar peremptoriamente legitimar o golpe de estado, sem hesitações, desde a primeira hora. Depois dos apoios indisfarçados ou semi-satisfeitos de Bush Jr. a este tipo de golpes, é um sinal de mudança na política latino-americana de Washington.

Um comentário de Henrique Neto

A pouco e pouco, este blogue ainda há-de regressar à regularidade. Esta semana em princípio voltarei a pôr aqui as crónicas do Público. O problema é que entretanto houve várias dessas crónicas que ficaram por blogar, e por vezes houve gente que deixou aqui comentários interessantes a essas crónicas (mais ou menos onde podiam, ou seja, nos posts que estavam visíveis) e que correm o risco de se perder. Um deles é o comentário de Henrique Neto sobre as minhas críticas ao manifesto dos 28. Pela seriedade com que visivelmente foi escrito e pelo interesse do conteúdo aqui fica na íntegra:

Sou leitor regular das crónicas de Rui Tavares e concordo na generalidade com aquilo que escreve. Não é o que acontece com o texto de hoje no Público, “Livres para escolher”. Sou um dos signatários do documento dos 28, mas não sou economista, nem sou de direita e não olhop para a questão das grandes obras públicas numa óptica partidária. Mais, diferentemente de muita gente não falo de cor, estudei os projectos em detalhe e fiz um Parecer sobre o assunto que terei muito gosto em disponibilizar. A razão principal porque não concordo com muitas das obras previstas ´é por serem mais obra pública desligadas de qualquer estratégia integrada de desenvolvimento. Pior, desligadas entre si, planeadas e justificadas de forma avulsa. Por exemplo,para que são precisas mais autoestradas quando em presença dos custos energéticos e ambientais tudo aponta para o transporte ferroviário como o transporte de futuro. Para quê a ligação a Madrid pelo Sul em direcção a Badajoz, servindo apenas o mercado de Leiria a Setúbal, quando a ligação pelo Entroncamento em direcção a Cáceres servia todo o mercado de Vigo a Setúbal? Qual a solução para reduzir a dependência do transporte rodoviário de mercadorias a favor do transporte ferroviário se nós insistimos na bitola ibérica na Linha do Norte e os espanhóis estão a mudar as suas vias para bitola europeia? Para que servem mais pontes rodoviárias de e para Lisboa, em vez de mais transporte público entre as duas margens do Tejo, na medida em que mais carros são mais custos energéticos, mais poluição e mais engarrafamentos? Para quê mais contentores em Alcântara em vez de mais paquetes de turismo, quando sabemos que os grandes navios portacontentores do futuro não poderão entrar em Lisboa, que em qualquer caso Lisboa deverá ser uma capital de serviços e não de infraestruturas pesadas?
Poderia escrever muito mais, mas se tiverem interesse envio o Parecer que fiz e que explica melhor tudo isto. Uma palavra final para dizer que sem estudo dos problemas, no mínimo do ponto de vista do modelo, as opiniões são sempre legítimas, mas frequentemente inúteis.

Cumprimentos

Henrique Neto

Resta agradecer o trabalho de Henrique Neto para escrever este comentário. E quero dizer que, sim, efectivamente gostaria muito de receber toda a informação sobre estes assuntos. Também em breve terei aqui uma caixa de correio permanente para envio de documentação, até para facilitar o trabalho europarlamentar que se avizinha.

Agenda

Este blogue anda pouco atualizado — e nos próximos tempos irá retomar gradualmente a sua atividade normal e até ganhar novo ritmo. Tenho andado a utilizar bastante o twitter para enviar a agenda de eventos em que participo, debates, coisas assim.

Hoje, às 21h00, estarei na “Casa do Futuro” do Museu das Comunicações (ali entre Santos e Cais do Sodré, LX) para comentar o projeto Olisipédia, do atelier de arquitetos Arkhetypos, numa sessão promovida pela Geração de Ideias. Falarão João Jácome, Rita Neves, e eu. Trata-se de um projeto muito interessante de utilizar as georeferências na internet para criar camadas de informação sobre a cidade. Isto pode significar estar numa café e consultar através do computador fotografias daquela rua ou praça em décadas passadas, como pode significar usar o iphone para tirar uma fotografia de um buraco na rua e enviá-la diretamente para os serviços camarários correspondentes. Apareçam que deve ser interessante.

[Este evento apareceu anunciado na imprensa como sendo um debate com António Costa por iniciativa da JS ou do PS. Não é o caso.]

É oficial

Europeias 2009 - Resultados Nacionais
Fonte: Sítio das eleições europeias no Ministério da Justiça. Clique para aumentar a imagem.

Logo que tenha um tempo para respirar, a atividade deste blogue será retomada, e começaremos precisamente por este tema.

Entretanto, um grande obrigado a todos. Vocês sabem de quem eu estou a falar: todos vocês.

Num debate a sério

Já deu para perceber que José Pacheco Pereira está numa daquelas fases em que culpa a realidade por não lhe dar razão. Agora anda numa série de posts e artigos cuja amargura de fundo é notar que “se este fosse um país a sério” as pessoas teriam as opiniões que José Pacheco Pereira achasse que elas deveriam ter. A maioria das pessoas concordaria com ele, está bem de ver, ou esperaria até que ele se pronunciasse para saber o que pensavam. Mas — e este é que é o pormenor de peso — uma minoria teria opiniões tão absurdas e descabeladas que por exclusão de partes qualquer pessoa de bom senso teria de se conformar com a opinião de José Pacheco Pereira. Reparem:


«Se Portugal fosse um país a sério, nós olharíamos para o Bloco de Esquerda como ele realmente é, a face do comunismo na sua roupagem actual, que nos cartazes por todo o lado, na sua súbita riqueza propagandística, propõe soluções só possíveis em sociedades totalitárias e não democráticas. Como é possível não perceber que se a energia “é de todos”, por que razão não o é a água, a terra, as minas, as casas e por aí adiante?»

O raciocínio de Pacheco Pereira é curioso: se alguém acha que a energia é de todos, como pode não achar que a minha casa não é de todos também? Se alguém acha que a energia é de todos, como pode acabar a não expropriar as casas aos velhinhos? Se X, logo Y, ou não?

Bem, o curioso deste raciocínio é que se pode também virar ao contrário. Se achamos que as casas são privadas, o que nos impede de achar que o ar também deve ser propriedade privada e que temos todos de andar com um contador para respirar e pagar todo o oxigénio que consumirmos?

O curioso deste raciocínio é que não chega a ser um raciocínio. Se X, logo Y, é uma falácia. Indigna de um intelectual sério num debate sério. Se fosse admissível, poderíamos chegar a este argumento: “sabem que no Bloco de Esquerda há vegetarianos? se há vegetarianos, o que os impede de comer carne humana? afinal, eles são a favor de comer, ou não?!”

Num debate sério, toda a gente sabe que não há propriedade absoluta, seja ela privada ou não. E num debate sério, a discussão é sobre a diferença de opiniões sobre onde estão os limites. Pacheco Pereira quer-nos fazer crer que só numa sociedade totalitária há limites: isso faria de todos os países sociedades totalitárias. Os EUA, onde há parques nacionais, todos os países onde os cursos de água são públicos, o Brasil onde o petróleo é nacional, todos — todos seriam sociedades totalitárias. Esse seria um bom argumento para um programa de rádio da extrema-direita americana, mas não para um debate sério. Num debate sério, perde-se pouco tempo com as pessoas que acham que tudo é privado ou que tudo é coletivo. Num debate sério, perde-se ainda menos tempo com as pessoas que acham que os adversários só podem ser defensores do totalitarismo.

Não vos faço perder mais tempo, porque a intenção deste texto é a seguinte: vão comprar o Público de hoje e ler o texto de Pedro Magalhães sobre o Bairro da Bela Vista, em que se comenta o texto de José Pacheco Pereira sobre o mesmo assunto (e que foi o primeiro deste surto de “Se este fosse um país a sério”). Vejam como Pedro Magalhães, com método e paciência, deixa completamente desossado o argumentário de José Pacheco Pereira, por razões análogas às que atrás resumi, mas com mais saber e conhecimento do que o meu. Se calhar, começamos mesmo a ser um país a sério: num país a sério, há falácias que não se trazem para o debate sem ter que se pagar por isso — e levar resposta.

[Solicita-se divulgação!] Uma lição aberta, na quinta feira.

Caros amigos:

O cartaz acima é o primeiro de muitos que divulgarão uma nova iniciativa: as Conferências de Lisboa. A ideia nasceu-me depois de ter apresentado “A lição do vereador republicano” no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Lisboa, aqui há uns meses. Perante aquela estupenda sala, com a sua histórica varanda de onde foi proclamada a República Portuguesa, em 1910, pensei: não seria fantástico se os cidadãos soubessem que todos os dias, a uma certa hora, poderiam ali entrar de graça e assistir a um recital de poesia, um concerto de alunos do Conservatório, uma palestra sobre os temas mais variados? Fala-se muito na criação de novos espaços para a cultura, mas Lisboa tem já muitos espaços magníficos que precisam antes de outra coisa: rotinas. Saber que existe, saber que funciona com horários regulares, saber que a qualidade é assegurada e constante e, acima de tudo, saber que é para todos. O acesso livre e geral ao conhecimento, à arte e à cultura estão na base dos ideais de que eu falava na tal lição do vereador republicano.

Passei a ideia à vereadora da cultura, Rosalia Vargas, que me perguntou porque não propunha eu algo de formal à CML. E talvez não o tivesse feito se o Tiago Ivo Cruz, assistente do vereador Sá Fernandes, não se tivesse oferecido para ajudar no trabalho de acompanhar a ideia. Graças ao apoio dos dois vereadores, ao trabalho do Tiago, e à ajuda do Zé Nuno Pereira (que está a construir este sítio e a tratar da transmissão via streaming das palestras) e da Vera Tavares (que desenhou este belo cartaz) conseguimos levantar esta ideia em pouquíssimo tempo e com trabalho extra e voluntário de toda a gente.

Começámos pelas “Lições Abertas”, que parte do pressuposto de que trabalham em Lisboa, de forma independente ou distribuídos pelas suas universidades, intelectuais de carreira distinta a que a cidade deve a sua homenagem e que — por outro lado — podem dar ao grande público palestras sobre as mais variadas áreas do conhecimento. O primeiro nome que decidimos convidar, o de José-Augusto França, é certamente um desses: um dos grandes historiadores da arte e da cultura em Portugal, cuja obra sobre a Lisboa pombalina foi uma completa novidade na historiografia da época e cujos três volumes sobre o romantismo em Portugal são um manancial de informação e um deleite de leitura para quem os ler. José-Augusto França não tem parado nos últimos anos, escrevendo ficção ou publicando agora o seu Lisboa, História Física e Moral, um volume de quase novecentas páginas que é o resultado de décadas de investigação e reflexão sobre a cidade. Já há muito tempo que José-Augusto França merecia ser celebrado por Lisboa.

Estas não serão conferências da cidade sobre ela mesma. Os temas são livres e da responsabilidade dos oradores. Nas próximas semanas teremos palestrantes das áreas do Design (Henrique Cayatte, no dia em que é inaugurado o Museu do Design e da Moda), História Política (Fernando Rosas, no dia 28 de Maio que se convencionou ter terminado com a Iª República), Musicologia (Salwa El-Shawan Castelo-Branco, especialista nas ligações entre o Fado e o Médio Oriente), Filosofia (José Gil, célebre pelo seu Portugal, o Medo de Existir), Filosofia da Ciência (Olga Pombo, que este ano tem estado nas comemorações darwinianas) e Matemática (Nuno Crato, que dará um passeio matemático pela cidade de Lisboa). E voltaremos após o Verão com novas Lições Abertas e outros desenvolvimentos desta ideia.

A primeira palestra será já na quinta-feira dia 14. Estou ao mesmo tempo ansioso para ver José-Augusto França falar no Salão Nobre e ver o Salão Nobre cheio para o ouvir. Solicito por isso divulgação a todos os blogues e à imprensa. Vamos criar um novo hábito cultural na cidade?

Gritai pelo Bloco Central!

O Engenheiro Sócrates quer que sejamos gastadores e a Doutora Ferreira Leite quer que sejamos poupadinhos? Seremos gastadinhos.

Não à força de acreditarem eles mesmos, mas à força de querer que os outros acreditem, há gente que ambiciona converter uma ideia má que dá jeito na única ideia que resta para salvar o país. Foi assim com a União Ibérica, em 1870. É assim com o Bloco Central, em 2009. Por conseguinte, talvez baste parafrasear o que escreveram os autores d’As Farpas sobre o primeiro assunto, substituindo-o por termos do segundo. Tentemos:

“O Bloco Central é um talismã que temos em nosso poder como instrumento de realização de todos os sonhos, mas de cujo uso persistimos estupidamente em nos abstermos! Tendes fome? Gritai pelo Bloco Central à mesa de um café, e os criados vos trarão bifes com batatas. Esta é a receita para satisfação de todas as necessidades nacionais! Experimentai-a, ó insensatos! ó cegos!”

O Bloco Central é, efectivamente, muito prático. Continue reading ‘Gritai pelo Bloco Central!’

Небольшая книга о Великом Землетрясении.

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Небольшая книга о Великом Землетрясении. Очерк 1755 года. (Nebol’shaia kniga o Velikom Zemletriassénii. Otcherk 1755 goda – O Pequeno Livro do Grande Terramoto. Ensaio sobre o ano de 1755) São Petersburgo, Imprensa da Universidade Europeia de São Petersburgo, 2009.

Em Novembro de 2005 recebi um email de uma colega historiadora da arte, Olga Roussinova, que tinha colaborado com o Museu do Hermitage e dava aulas na Universidade Europeia de São Petersburgo. Ela tinha estudado a forma como as catástrofes de São Petersburgo no século XIX — grandes inundações inesperadas, principalmente, causadas pelo degelo primaveril — tinham sido vistas pela Europa da época, e estava curiosa por saber se haveria semelhanças com a recepção do Grande Terramoto em 1755. Além disso, estava cada vez mais interessada pelo mundo lusófono e pela cultura portuguesa (mais tarde viria a Lisboa para encontros entre académicos eslavos e ibéricos) e tinha ficado interessada no meu livro, de que lhe enviei uma cópia. Muitos emails e visitas a Lisboa depois, ganhei uma amiga, além de uma leitora inteligente e uma colega brilhante.

Este livro cuja capa reproduzo acima a ela o devo. Foi a Olga Roussinova que achou que ele teria qualidade e interesse para os leitores russófonos. Foi ela que, nos dois extremos da Europa, tratou das burocracias e dos apoios necessários. Foi também ela que conseguiu interessar para o projeto uma tradutora conceituada e cuidadosíssima, Elena Golubeva. E nada disto foi fácil: pelo meio, ainda houve um fecho suspeito da Universidade Europeia e da sua editorial antes das eleições russas, um caso que deu que falar aqui e aqui. Para coroar a aventura, a Olga Roussinova ainda me honrou com o prefácio ao livro. Compreendam então que use este blogue para um agradecimento pessoal à amiga e colega: Спасибо больщой, Ольга!