A culpa é dos outros e o passado era maravilhoso [texto integral]

|Do arquivo Público 29.01.2018| Escrevi na passada sexta-feira sobre violência doméstica. Não é tema em que haja muito para discordar, e portanto não gerou muitos comentários. Um dos que gerou, porém, chamou a minha atenção.

Era de um leitor que, como eu, se queixava da falta de meios na justiça e da pouca prioridade do tema na política. Logo a seguir, porém, justificava essa falta de meios por “quase toda a economia ser já de propriedade estrangeira e de civilizações afastadas da ocidental”. Não esquecendo, é claro, que o país está “dependente da UE”.

Ou seja: já repararam que até num tema duplamente doméstico e nacional se consegue encontrar maneira de lá meter os estrangeiros e, ainda para mais, “de civilizações afastadas da ocidental”? O leitor não chegou ao ponto de dizer que os estrangeiros são a causa do problema. Só acenou, casualmente como hoje se tornou habitual, para a culpa que eles supostamente têm de o problema da violência doméstica em Portugal não ser resolvido.

Esta atitude vai muito para lá das caixas de comentários. Enquanto escrevo estas linhas encontro-me, por razões académicas, em Itália. Numa livraria encontrei a mesma atitude nos primeiros três livros que folheei. Continuar a ler ‘A culpa é dos outros e o passado era maravilhoso [texto integral]’

Eu quero Maria lembrada no Parlamento [texto integral]

|Do arquivo Público 26.01.2018| Não sei o nome completo, nem sei o nome verdadeiro dela. No PÚBLICO chamaram-lhe Maria, assumindo que o nome fictício servia para proteger a identidade da vítima. Noutros órgãos de comunicação social chamaram-na de Laura, ignorando eu se era esse o verdadeiro primeiro nome dela.

Só sei que era uma concidadã minha, uma concidadã nossa, e que morreu assassinada pelo marido — de quem se encontrava separada — em 4 de novembro de 2015, em Valongo, no Porto. Maria foi assassinada 37 dias depois de ter feito queixa do seu marido ao Ministério Público por violência doméstica, tendo deixado claro que este lhe dirigia ameaças de morte (“vou-te matar!”, dizia ele). Passou mais de um mês até que Maria fosse chamada de novo a pormenorizar as suas queixas. Um mês em que Maria viveu no medo e durante o qual teve de ouvir novas ameaças, que de novo transmitiu ao Ministério Público: “rebento-te a cabeça se fizeres queixa de mim!”. Depois desse segundo testemunho, Maria voltou a casa. O marido desavindo estava escondido no quintal e matou-a à paulada. No dia seguinte, foi finalmente chamado ao Ministério Público e constituído arguido. Maria já estava morta e o Ministério Público não sabia. O corpo foi só encontrado três dias depois.

Como é que se costuma dizer? “O Estado falhou aos cidadãos”, não é? Pois é, o estado falhou a Maria. Continuar a ler ‘Eu quero Maria lembrada no Parlamento [texto integral]’

Então não era o Ronaldo contra os gregos? [texto integral]

|Do arquivo Público 24.01.2018| Um dos argumentos típicos contra a ida de Centeno para a presidência do Eurogrupo era mais ou menos assim: “então e quando ele tiver de lidar com o governo da Grécia? Vai ter de assumir o papel de Dijsselbloem e da troika? Agir como o polícia do austeritarismo alemão contra o Sul? Para tal triste função mais vale prescindir do lugar e passar a bola a um carrancudo ministro do Norte da Europa”.

Ontem Centeno presidiu à sua primeira reunião do Eurogrupo. E à saída, fez o seu primeiro anúncio sobre a Grécia: o de que vão ser abertas as negociações para um alívio da dívida pública grega. Seria portanto interessante ler algures uma análise com uma explicação para isto por parte de quem defendeu que o papel de Centeno seria o contrário disto: punir os gregos e não renegociar dívida grega.

Suspeito que se tal análise aparecer ela siga um de dois caminhos. Por um lado, assinalar que se Centeno anunciou a abertura de negociações para o alívio à dívida grega na sua primeira reunião é porque isso não se deve a Centeno, mas certamente a decisões que já vêm de antes da sua presidência e ficaram agora prontas a ser divulgadas em público: fruta madura, fácil de apanhar. Por outro lado, dizer que se não couber a Mário Centeno o papel de “polícia mau” do eurogrupo contra a Grécia é porque lhe caberá o papel de “polícia bom”. Continuar a ler ‘Então não era o Ronaldo contra os gregos? [texto integral]’

Os partidos-médium e os deputados-fantasma [texto integral]

|Do arquivo Público 22.01.2018| Como funciona um parlamento? Em qualquer café do país a resposta virá pronta: num parlamento tomam-se decisões através do voto. O lado de qualquer questão que tiver mais deputados ganha. Certo? Em praticamente todos os lugares do mundo, sim. Em Portugal, não.

Aqui vai outra pergunta. Qual é o número maior, 99 ou 98? Em qualquer lugar do mundo, incluindo Portugal quase inteiro, 99 é o número maior. No plenário da Assembleia da República Portuguesa, contudo, 98 é maior do que 99.

Confuso? Pois explica-se muito facilmente.

A história foi descoberta pelo site independente hemiciclo.pt e divulgada pelo DN de ontem. Continuar a ler ‘Os partidos-médium e os deputados-fantasma [texto integral]’

Um ano de trombas [texto integral]

|Do arquivo Público 19.01.2018| Anteontem subiu para falar ao pódio do Parlamento Europeu o primeiro-ministro da Irlanda, Leo Varadkar.

Varadkar é um dos dois chefes de governo na Europa com ascendência indiana (o outro é António Costa, de Portugal). É um de dois chefes de governo na Europa assumidamente homossexual (o outro é Xavier Bettel, do Luxemburgo). E discursou em inglês, francês, alemão e gaélico. Multiétnico, poliglota e homossexual, Leo Varadkar representa tudo aquilo que os nacional-populistas detestam. Pior ainda para eles é aquilo que um discurso como o de Leo Varadkar deixou claro: que o poder de um pequeno país como a Irlanda é extraordinariamente potenciado por pertencer a uma União Europeia de 500 milhões de cidadãos.

Vale a pena lembrá-lo hoje. Há um ano, quando Trump tomou posse, ouvimos um outro discurso, de um nacionalismo triunfante, agressivo, cheio de certezas. Para Trump, como para os nacional-populistas de todas as estirpes, os países não têm amigos; o mundo está compartimentado em jurisdições estanques cuja soberania nunca pode ser partilhada (porque partilhar é perder); a solidariedade internacional é, pois, por definição impossível. O futuro pertencia aos países fortes liderados por homens fortes: os Putin, Erdogan, etc. Organizações transnacionais como a União Europeia estariam inevitavelmente fadadas ao fracasso. O Brexit teria provado isso um ano antes, e em breve os países fariam fila para abandonar o projeto europeu. Duas vitórias eleitorais num ambiente de demagogia descontrolada teriam chegado para que os nacional-populistas e aqueles que por eles se deixaram impressionar nos falassem de cátedra.

Passado um ano, a pergunta que podemos fazer a Trump — como aos brexiteiros no Reino Unido — é a seguinte: porquê as trombas? Vocês ganharam. Porque não estão felizes? Continuar a ler ‘Um ano de trombas [texto integral]’

Tenham medo, vêm aí as listas transnacionais! [texto integral]

|Do arquivo Público 17.01.2018|Paulo Rangel alertou; Duarte Marques alertou; Adolfo Mesquita Nunes alertou. Três políticos e dirigentes da direita nacional tocaram a rebate porque António Costa, na cimeira dos países do Sul da UE, assinou umas conclusões que defendiam uma maior democratização da UE e nas quais se dizia que a criação de listas transnacionais nas eleições para o Parlamento Europeu “poderia” concorrer para essa democratização.

Paulo Rangel, em declarações ao Público, considera esta posição “inaceitável”. Duarte Marques, num artigo do Expresso, acha que é “grave”. Adolfo Mesquita Nunes, escrevendo no Jornal de Negócios revela-se incrédulo e pergunta mesmo “importa-se de repetir?”. Está visto que a direita está em polvorosa.

Só falta saber uma coisinha, talvez duas. Afinal, o que são listas transnacionais? E os nossos próceres da direita lusitana, são a favor ou contra?

As listas transnacionais — ou, como prefiro, listas pan-europeias — não caíram do céu. Há anos que se discute a necessidade de os cidadãos europeus poderem eleger o Presidente da Comissão Europeia e eventualmente os outros comissários. A proposta em causa sugere acrescentar um boletim de voto às eleições europeias de 2019 para esse efeito. No primeiro boletim de voto elegeríamos os eurodeputados nacionais, como até agora, mais de 700 deles. No segundo boletim de voto elegeríamos duas ou três dezenas de deputados a partir de listas pan-europeias, deputados esses que seriam também candidatos à Comissão Europeia, e nomeadamente ao posto de Presidente da Comissão. A proposta pode ter defeitos ou virtudes mas não se vê como não se possa dizer dela o que dizem as conclusões da cimeira dos países do Sul da UE: que “poderia” contribuir para democratizar a UE.

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Rui Rio, a esquerda e 2019 [texto integral]

|Do arquivo Público 15.01.2018| Quando acerto numa previsão sinto-me no direito de o dizer aqui, porque isso permite aos leitores acompanhar os pressupostos de que se fazem estas crónicas e perceber a prazo se estão certos ou não. Quando erro numa previsão, é o mesmo mas ao contrário: sinto-me na obrigação de o anunciar.

É o caso hoje. Na última crónica escrevi que, “se tivesse que apostar” diria que Santana Lopes iria ganhar as eleições no PSD porque foi aquele que obrigou o seu adversário, Rui Rio, a mais erros políticos não forçados. Foi mais um bitaite que uma profecia. Ainda assim, estava errado. Ora, tal como quando se acerta, o mais interessante é perceber os pressupostos que levaram ao erro.

Quando escrevi que Rui Rio cometeu “erros políticos não forçados” estava a pensar sobretudo na sua admissão de que poderia apoiar um governo minoritário do PS. Como é fácil de perceber, esta posição pode ter bons argumentos de politica nacional a favor, mas como posição de política partidária assemelhou-se a um tropeção. Em primeiro lugar, espera-se do candidato à liderança de um dos dois maiores partidos portugueses que diga o que fazer quando vai ganhar e não quando o outro partido ganhar. Mas isto é o menos. O mais importante é que seria de esperar que os militantes do PSD, no pós-geringonça, queiram tudo menos viabilizar um governo do PS. A análise de Rui Rio é fria, mas as emoções dos militantes do PSD ainda estão a quente. O meu pressuposto era: é taticamente errado ir contra essas emoções.

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PSD: ideias não, social-democracia nunca [texto integral]

|Do arquivo Público 12.01.2018| Numa visão piedosa, seria bom que o PSD revelasse ser outra coisa que não aquilo que nos mostrou nas últimas semanas. Seria bom para o PSD e seria bom para o país. Seria até bom para o governo e a maioria parlamentar que teriam de dar o seu melhor para responder a uma oposição renovada, cheia de ideias e bem liderada.

Essa visão piedosa depende, porém, de o PSD realmente existente ser substancialmente diferente do PSD que a gente vê. E para melhor. Caso contrário, que será então melhor para o país? Ter ilusões sobre o que representa o maior partido da oposição? Fazer votos para que um dia apareça outro PSD sem que tenha que haver uma profunda mudança de cultura no partido? Disfarçar perante a miséria que esteve à vista de todos durante semanas? Definitivamente não.

O PSD apresentou-nos duas versões do vazio. As análises dos debates entre Rui Rio e Santana Lopes foram unânimes: os candidatos passaram mais tempo falando do passado do que do futuro, mais tempo falando das quezílias do que das propostas, mais tempo falando daquilo que fariam quando perdessem em 2019 do que aquilo que fariam se por acaso ganhassem as próximas eleições.

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Até meio da queda está tudo bem [texto integral]

|Do arquivo Público 10.01.2018| Imaginem que um amigo vos diz que está farto de pagar o seguro do carro e que tenciona deixar de fazê-lo. Vocês poderão responder de várias formas: lembrar que o seguro é obrigatório e a multa pesada, alertar para o facto de que ter um acidente sem estar coberto pode arruiná-lo, ou dizer-lhe que não há problema desde que ele esteja disposto a andar a pé, de transportes públicos ou à boleia. A resposta dele, porém, não se faz esperar: “tu estás é no bolso das grandes seguradoras, seu vendido!”.

O descrito no parágrafo acima resume a essência de uma conversa com os chamados “populistas”. É certo que nem todos os populistas são iguais, mas a conversa é sempre a mesma: o populista começa e acaba com a primeira frase, o primeiro instinto, a primeira reação — e não deixa que se passe daí. Quando pedimos que ele se explique, que nos diga o como e o porquê, quando lhe perguntamos o que vai fazer a seguir, quando pretendemos que a conversa passe da primeira frase para a segunda e a terceira e a quarta — ou seja, que se torne numa verdadeira conversa — já sabemos o que vêm a seguir: um ataque ao mensageiro das dúvidas e das questões, a sugestão de que qualquer crítica só pode significar que estamos feitos com o sistema, etc. Ele está ali para se fazer ouvir e não para responder a perguntas.

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Início e fim do século americano [texto integral]

|Do arquivo Público 08.01.2018| O século americano começou há exatamente cem anos em 1918, neste dia 8 de janeiro, quando o presidente Woodrow Wilson discursou perante o Congresso dos EUA propondo um entendimento para a paz na Europa baseado em quatorze pontos.

Os Quatorze Pontos de Wilson, como ficaram conhecidos, foram uma coisa notável. Em quatorze parágrafos tão curtos que muitos caberiam hoje num tweet, pela primeira vez as condições de uma paz na Europa foram impostas de fora do continente por um poder que antes se julgava de segunda ordem. Talvez mais importante, Wilson propunha uma revolução na forma de entender a diplomacia e as relações entre potências. Os Quatorze Pontos fundaram as bases do sistema internacional e do mundo em que ainda vivemos. No mundo de Wilson, os tratados deveriam ser negociados publicamente; a navegação nos mares deveria ser irrestrita; à maneira liberal, o direito de comerciar não deveria ser tolhido; em aliança com o nacionalismo ascendente, o direito à auto-determinação deveria ser reconhecido. A Alemanha, julgando que estava a aceitar os pressupostos de um armistício, aceitou parar com a guerra. Os aliados europeus de Wilson, em Paris e Londres, aproveitaram para proclamar a derrota alemã, e depois impô-la no Tratado de Versalhes.

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