Ir para fora cá dentro

Um país só sabe o que quer fazer no mundo se souber primeiro aquilo que quer ser.

Portugal tem diplomacia mas não tem política externa, dizia José Medeiros Ferreira. Infelizmente, isso nunca foi tão verdade como nos últimos anos. No plano europeu, a nossa estratégia tem sido mais seguidista do que alguma vez foi. Na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, os mandatos do atual governo e Presidente da República saldaram-se pela humilhante adesão da Guiné Equatorial. No plano internacional, nada. Não se vê um fio à meada.

Tendo em conta isto, é difícil entender a iniciativa do Presidente da República ao escrever um prefácio aos seus discursos sobre “Diplomacia Presidencial”. Este deveria ser um dos últimos assuntos para o qual Cavaco Silva desejaria chamar a atenção no fim do seu mandato. “Chamar a atenção” é uma maneira de dizer: a leitura do dito prefácio, para lá de uma introdução teórico-constitucional, mostra uma progressão metódica de reunião em reunião tão imaginativa ou interessante como um livro de ponto. Continuar a ler ‘Ir para fora cá dentro’

Passos juiz de si mesmo

É por isso que indigna tanto que Passos tenha para si a sensibilidade que negou aos concidadãos que governa. Razões para a sua demissão não faltaram durante todo o seu mandato. O que não há é razões para que ele possa ser juiz de si mesmo.

Diz muito sobre Pedro Passos Coelho que este tenha pensado dar uma novidade a alguém quando a semana passada nos anunciou que não é “um cidadão perfeito”. Nós já tínhamos desconfiado, e nem foi preciso esperar pela sua biografia fiscal e contributiva.

A questão é: qual deve ser a bitola? A não-perfeição do cidadão é claramente inadequada, porque nos inclui a todos, e porque inclui demasiada coisa. Ninguém consegue ser perfeito e, consequentemente, ninguém tem culpa de ser imperfeito. Há pois algo de inversão moral na forma como Passos Coelho se coloca perante os cidadãos, pretendendo dizer-nos que, porque nós próprios não somos perfeitos, ele é apenas um de nós.

Os comentadores declaram que ele falhou na sua missão de “fechar o assunto”. Continuar a ler ‘Passos juiz de si mesmo’

O nosso tempo

A grande questão que agora temos para responder é: que Europa é a nossa? Uma recapitulação da que nasceu há cem anos, democrática e problemática, instável e inevitável no conflito? Ou qualquer coisa de novo?

Não se comemoram apenas, por estes anos, os cem anos da Iª Guerra Mundial, mas também os duzentos da derrota definitiva de Napoleão, que deu origem à Europa que a Iª Guerra Mundial viria a destruir.

Há duzentos exatamente, Napoleão já tinha sido deposto uma vez e exilado na ilha de Elba, mas fugira de volta para França disposto a retomar o poder aos Bourbons. A 7 de Março de 1815, o exército francês apanhou-o em Grenoble. “Se me querem matar, aqui me têm, o vosso imperador”, terá dito ele. Os soldados mudaram de lado e no dia 21 Napoleão estava de novo em Paris e no trono imperial. Depois disso foram os famosos “Cem Dias”, Waterloo, a derrota final. Napoleão foi mandado para a ilha de Santa Helena e a Europa ficou controlada pelos impérios reunidos no Congresso de Viena. Continuar a ler ‘O nosso tempo’

Sim, a troika morreu

Como lembrei aqui várias vezes, a base legal da troika era reconhecidamente frágil, e a partir de que houvesse um governo disposto a usar esse argumento, ela estaria condenada.

A lista de reformas do governo grego foi entregue — a horas, ao contrário do noticiado. As instituições da UE (Comissão Europeia e Banco Central Europeu) declararam que o documento era um bom ponto de partida e o eurogrupo aprovou-o. Pormenor revelador, o FMI teve uma posição mais negativa, mas isso não influenciou o resultado. Os próximos meses dirão se estou certo, e se a crise do euro começou a acabar.

Tudo isto, contudo, está muito longe da forma como esta atualidade tem sido seguida, pontinho para aqui, pontinho para acolá, como num jogo de pingue-pongue. Vamos a um exemplo: a troika.

Na sua crónica de ontem, João Miguel Tavares critica-me porque, segundo ele, a troika foi apenas substituída pelas “instituições” e, portanto, continua na substância. Prova? Um eurodeputado do Syriza e veterano anti-nazi, Manolis Glezos, declarou que chamar “carne ao peixe” não significava o fim da troika. Camilo Lourenço, no Jornal de Negócios, usa o mesmo argumento de João Miguel Tavares, e proclama derrota para Varoufakis.

Vamos então recuar a 30 de janeiro, em Atenas, Continuar a ler ‘Sim, a troika morreu’

Fim de crise

“Toda a Europa deve um grande agradecimento à razoabilidade e imaginação de Varoufakis. O Armagedão foi evitado. Agora vamos ao trabalho.”

Crise” é um termo médico de origem grega: o momento em que o paciente pode morrer ou melhorar substancialmente e recuperar a saúde. Por esta definição podemos dizer que a passada sexta-feira, com a aprovação de um mero comunicado entre a Grécia e o Eurogrupo, foi o momento em que a crise do euro começou a acabar.

Sei que já foram escritas inúmeras análises sobre este assunto e nenhuma tão taxativamente otimista como esta. Assumo esse risco e veremos daqui a uns meses. Mas primeiro deixem-me fazer alguns alertas.

Dizer que a crise do euro começou a acabar não significa que os nossos problemas crónicos tenham acabado, que o eurogrupo tenha decidido abolir a austeridade, ou até que não continuemos a ter estes momentos angustiantes com assustadora frequência. Já hoje teremos a análise da lista de reformas proposta pelo governo grego, depois os debates nos vários parlamentos do eurogrupo, e daqui a quatro meses repete-se tudo quando acabar este financiamento ao governo grego. Vai continuar a haver incerteza e essa incerteza continuará a gerar notícias de jornal e especulação. Mas o grau dessa incerteza vai progressivamente diminuir.

Por outras palavras, a Europa recuou na sexta um passo do precipício. Continuar a ler ‘Fim de crise’

Vamos lá lixar este continente?

É preciso dizer alto e bom som: isto não é um jogo. Estamos a falar da vida e dos futuros de uma união monetária com 300 milhões de habitantes, numa União e num continente com mais de 500 milhões de pessoas. Estamos a falar da melhor hipótese de prosperidade partilhada, democracia e direitos fundamentais que construímos após os horrores indizíveis das guerras europeias. Brincar aos ultimatos neste continente é — não digo já de uma suprema irresponsabilidade, mas mais do que isso, de um dolo imperdoável.

Havia na paz de Versailles, após a primeira Guerra Mundial, um par de homens a quem chamaram “gémeos celestiais”. Eram um juiz e um banqueiro, ambos lordes ingleses, cuja missão era a de espremer a Alemanha, como então se disse, “até ela guinchar”. Ora, ficou registado que os dois lordes andavam sempre com um sorriso beatífico, em particular quando se podiam escudar num qualquer regulamento ou termo contratual para arruinar a Alemanha nas gerações seguintes sem perturbarem a sua consciência de estar a fazer o melhor “pelo contribuinte britânico”. A Alemanha foi arruinada, chegou uma nova guerra, e o contribuinte britânico acabou por ter de contribuir com os seus filhos para o campo de batalha. Continuar a ler ‘Vamos lá lixar este continente?’

Uma ideia a explorar

O interesse da proposta é que ela tanto pode ter uma versão “federalista”, em que seria coordenada ao nível da União, como outra “soberanista”, em que seria emitida por iniciativa dos estados-membros. Claro que a ideia geraria grandes discussões sobre a possibilidade de esta ser uma moeda paralela que representaria uma saída não-declarada do euro. Essa dúvida, do meu ponto de vista, é exagerada: os estados norte-americanos fazem o mesmo e não consta que tenham saído do dólar.

Na sua crónica de hoje no Financial Times (antecipada ontem na internet), Wolfgang Münchau sugere à Grécia que vá preparada para aguentar firme nas conversações de hoje do eurogrupo, mas que tenha um plano B. Esse plano B, curiosamente para um autor conhecido por ser o europeísta mais europessimista da Europa, não é a saída do euro. Münchau aconselha a Grécia a emitir uma espécie de créditos fiscais com que o estado possa cobrir as suas despesas atuais enquanto a economia não recupera.

Há anos que a ideia dos créditos fiscais me intriga. Em setembro de 2012, num texto que contava entre outros autores com António Peres Metello e Viriato Soromenho Marques, assinalámos a possibilidade de «criação de um sistema de “títulos fiscais” para cortar a fuga de capitais para os bancos estrangeiros, promover a poupança e aumentar o financiamento de curto prazo do estado, diminuindo a sua dependência dos fundos de resgate. Os “títulos fiscais” serão um produto financeiro voluntário que servirá ao contribuinte para pagar impostos do ano corrente ou de anos futuros, contra um desconto». Continuar a ler ‘Uma ideia a explorar’

Estrada para a Crimeia

 Putin não quer um compromisso. Quer uma estrada por terra até à “sua” Crimeia, e o que mais vier nos próximos tempos. Putin vive na ordem imperial, e quer — como toda a gente, achará ele — um império.

Pelas minhas contas, são quatro as guerras da Crimeia na era moderna.

Em primeiro lugar, no fim do século XVIII, quando Catarina a Grande da Rússia conquistou o Canato da Crimeia, vassalo do Império Otomano. Não só a Crimeia como quase todo o contorno do Mar Negro pertencia a povos turcos ou aparentados, embora polacos, lituanos, ucranianos, russos e até suecos tenham tentando descer o rio Don e conquistar aquela região (também um português por lá andou, o grande médico António Ribeiro Sanches, judeu fugido à Inquisição).

Em segundo lugar, a Guerra da Crimeia propriamente dita, Continuar a ler ‘Estrada para a Crimeia’

É a cultura, estúpido!

Se o debate na União Europeia fosse sobre como nos preparamos para o futuro, já teríamos saído da crise há muito tempo, não só porque teríamos um plano conjunto que interessasse tantos a uns como a outros, como sobretudo facilmente conquistaríamos o apoio do resto do mundo. A Europa tem recursos suficientes, humanos e materiais, para tornar um seu plano de recuperação credível ao mundo e apetecível aos seus investidores.

Em “O Visconde cortado ao meio”, de Italo Calvino, um homem vai para a guerra no centro da Europa e apanha com uma bala de canhão no peito que o racha ao meio. Uma metade é apanhada por monges cristãos, outra por nigromantes turcos, e ambas sobrevivem.

Contei essa história no meu livro sobre “A Ironia do Projeto Europeu” e repito-a aqui porque me parece uma das melhores descrições do problema que estamos a viver na União Europeia hoje Continuar a ler ‘É a cultura, estúpido!’

A atitude pode ser tudo

Ligar o pagamento da dívida grega ao crescimento económico do país é uma mera questão de bom senso, e deveria ser alargada a outros países da zona euro que têm pela frente serviços à dívida muito pesados — a começar por Portugal.

Dias decisivos na União Europeia, enquanto Yanis Varoufakis roda pelas capitais europeias para explicar qual é a atitude do novo governo grego, de que é ministro das finanças, em relação ao problema da dívida do seu país e à estabilidade da zona euro.

Escrevo “atitude” porque aí está muito do que é decisivo nestes dias. Haverá tempo para que os planos de saída da crise esbarrem em pormenores técnicos, ou sejam resolvidos em reuniões até às altas horas da noite em Bruxelas, Frankfurt ou Atenas. Mas o elemento mais importante para decifrar no imediato é, desde já, a atitude. A disposição dos atores em cena. Demonstram vontade política de chegar a um compromisso? Estão irredutíveis nas suas posições? Pretendem resolver um problema sério ou dar lições uns aos outros?

Ora, a única lição de política (ou de vida) que vale a pena ter em mente nestes momentos é a seguinte: não há vitórias absolutas para derrotas absolutas. O absolutismo é contrário à boa resolução dos assuntos humanos. Continuar a ler ‘A atitude pode ser tudo’