Mundo cívico

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Campo de refugiados de Al Hol, Síria – Desenhada na parede a personagem que representa o destino dos refugiados palestinianos | Rui Tavares, abril 2010.

E temos obrigações legais, também. A primeira é o princípio de não-rejeição, subscrito por todos os países da União Europeia. Um refugiado tem sempre direito de poder explicar a sua situação e requerer asilo sem ser devolvido à procedência — um princípio que foi consagrado para nós, europeus, quando fugíamos à guerra.

Um jovem refugiado sírio foi entrevistado na sua fuga por uma televisão europeia e disse, em muito breves palavras, o que o fazia buscar asilo:

“Quero um país de que possa fazer parte, um país ao qual possa pertencer. Uma cultura, uma civilização. Não é pela comida nem pelo dinheiro, é pela liberdade. Pela liberdade de espírito, pela educação. É para poder fazer parte do mundo cívico.” Continuar a ler ‘Mundo cívico’

A geografia da crise em mudança (2)

Perspectiva do mundo – 1817

 Para que as coisas não corram mal será necessário extrair a política da cultura dominante de egoísmo e recriminação, e voltar a ter a grandeza de uma política com vocação humana, escala global e cultura cosmopolita. As ideologias atuais estão singularmente mal preparadas para o que nos espera.

Escrever sobre a bolha da China é mais fácil hoje do que na semana passada, na primeira crónica desta série, para não falar de há sete anos, quando pela primeira vez me referi a ela. A avaliar pelos títulos de jornais de ontem, ninguém fala de outra coisa.

O que nos deve preocupar é a possibilidade de esta ser uma crise em três vagas: a primeira, quando se iniciou, nos EUA; a segunda, a partir de 2010, com a transmissão à crise do euro; e a terceira, agora, com o retrocesso dos países emergentes.

Se assim for, estaremos apenas a meio de uma crise global muito dolorosa. Continuar a ler ‘A geografia da crise em mudança (2)’

E outra coisa?

Para a política ser outra coisa, seria bom que os políticos e quem os aconselha começassem por se lembrar que “os portugueses”, essa massa mais ou menos indistinta a quem eles ostensivamente servem mas que parecem não valorizar por aí além, são portugueses e mais do que isso. Os portugueses são estudantes e trabalhadores, desempregados e empresários, pais e mães, avós e netos. São ou foram emigrantes e — já agora — muitos dos que fazem Portugal não nasceram cá.

Ontem foi a rentrée política e lá nos serviram mais um prato de mesmo com mesmo. A menos de dois meses das eleições legislativas, a grande pergunta é se a política pode ser mais do que isto ou se devemos conformar-nós à ideia de que, após umas semanas perdidas a discutir cartazes, é possível que os discursos de Paulo Portas e Passos Coelho — após quatro anos de governo — tenham sido de um vazio tão confrangedor que os comentadores de serviço se vêem aflitos para encher os intermináveis minutos de televisão que lhes dão.

Sim, eu sei. Já há muito que a política portuguesa se tornou nesta coisa previsivelmente coreografada em que, mesmo quando há um assomo de conteúdo, o que se passa a mais das vezes não sai do “fulano acusa sicrano de pôr em causa x ou y”, “sicrano responde a beltrano devolvendo as acusações sobre fulano”. A que se deve isto? Em primeiro lugar, é mais fácil: há espaço para ocupar, e isto ocupa espaço sem arriscar nada. Em segundo lugar, os políticos e quem os aconselha acha que “os portugueses” não querem ou não precisam mais do que isso. E, em terceiro lugar, por desconfiança: estamos de tal forma habituados a esta forma desidratada de política que ficamos de pé atrás se nos propõem que a política seja outra coisa. Continuar a ler ‘E outra coisa?’

O que faria Aristóteles?

Os cobardes são aqueles que ficam paralisados pelo medo; os temerários aqueles para quem o medo não existe. E os corajosos aqueles que reconhecem o medo sem que isso os impeça de avançar.

Há dois géneros de pessoas: as que dividem o mundo em dois géneros de coisas e Aristóteles, que tinha hábito de dividi-lo em três.

Aristóteles, por exemplo, não dividia o mundo só em cobardes e corajosos, ou verdadeiros e mentirosos. Na sua Ética a Nicómaco, as categorias da coragem ou da verdade são sempre três. O corajoso, por exemplo, é apenas a categoria intermédia entre os cobardes e os temerários. O sincero, por sua vez, é apenas a categoria intermédia entre o modesto e o mentiroso.

Então é assim: Continuar a ler ‘O que faria Aristóteles?’

Reestruturação: como e para quê

Quem acompanha esta crónica leu muitas vezes que a reestruturação das dívidas públicas europeias é necessária e porquê. Quem leu este jornal na semana passada ficou a saber que o FMI defende agora a reestruturação da dívida grega e que Mario Draghi do Banco Central Europeu se referiu à necessidade da mesma de forma adequadamente lacónica: “indisputável”.

Agora falta o “como” e o “para quê”. Mas antes disso vamos recapitular a posição de Wolfgang Schäuble, ministro das finanças alemão, que afirma que a dívida grega só pode ser perdoada caso a Grécia saia do euro.

Na última crónica expliquei que o artigo dos tratados que Schäuble cita se aplica à União e não só ao euro. Trata-se do artigo 125 do Tratado de Funcionamento da União Europeia (TFUE), era conhecido pela “cláusula anti-resgate” (onde isso já vai…), e começa por dizer simplesmente que a União não assumirá os compromissos dos estados-membros. O leitor sagaz pergunta: não será esse um problema? Continuar a ler ‘Reestruturação: como e para quê’

Onde há um impossível, arregaçar as mangas — e só agora começámos

[declaração de candidatura às primárias LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR]

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Ainda sou do tempo em que se dizia que era impossível juntar centenas de cidadãos numa eleições primárias abertas. Vocês também: foi apenas há umas semanas. Ainda somos do tempo em que nos diziam que era impossível fazer uma convergência para uma candidatura cidadã: foi antes da nossa Convenção de 31 de janeiro. Ainda sou do tempo em que diziam que não valia a pena introduzir uma novidade no panorama partidário português. E, no entanto, aqui chegámos.

A nossa missão é muito simples: cada descrença terá a sua resposta. Com cada passo sincero, com cada realização e conquista, esta candidatura cidadã irá aparecendo como a principal razão para acreditar que a política em Portugal pode mudar.

Onde há um impossível, arregaçar as mangas. E só agora começámos.

Falta muito a fazer. As próximas eleições serão, com a nossa determinação, o ponto de viragem de que Portugal necessita — e Portugal passará a fazer parte da viragem de que a Europa necessita. Isso, neste momento, só se garante com uma votação robusta nesta candidatura. Quem até aqui fez diferente dá mais garantias de que fará diferente após as eleições: com mais abertura, mais diálogo, com um espírito mais construtivo e inovador.

No dia a seguir às eleições, esta candidatura cidadã transforma-se em legislatura cidadã. Também durante o mandato traremos os nossos concidadãos para o centro dos debates mais decisivos sobre o futuro do país, de forma ampla e responsabilizada. Comprometo-me pessoalmente para que assim seja — nunca acreditei nos “impossíveis” da política portuguesa e sei que, se demonstrarmos o quão frágeis eles são, desaparecerão mais depressa do que pensamos.

Eu sou do tempo em que se diz que é impossível governar à esquerda em Portugal. Sou do tempo em que se diz que é impossível mudar a Europa. Sou do tempo em que se diz que não há alternativas à austeridade. Sou do tempo em que se diz que temos de nos conformar com a perda de direitos, a precariedade e o regresso da pobreza. Somos todos desse tempo.

Mas, com a força de todos, em breve seremos do tempo em que tudo isto se há de levar de vencida. Em que um grupo parlamentar saído desta candidatura apresentará as propostas da Agenda Inadiável: no desendividamento das pessoas, no combate às desigualdades, na expansão dos direitos fundamentais.

Seremos do tempo em que políticas implementadas por nós aumentarão o salário mínimo e diminuirão propinas, introduzirão um sistema fiscal mais progressivo, ampliarão as formas de financiamento da segurança social. Seremos do tempo em que a identificação de áreas de especialização para o nosso país e a aposta permanente na incorporação de conhecimento trarão mais dinamismo à nossa economia e atrairão de volta muitos dos que agora tiveram de sair. Seremos do tempo em que uma sociedade civil mais alerta e responsabilizada ajudará a preservar o estado de direito e combater a corrupção e a captura do estado por interesses privados.

Seremos do tempo — mais próximo do que se pensa — em que as nossas ideias entrarão no Conselho Europeu e em que começaremos a construir as alianças necessárias para que elas sejam vitoriosas. Do tempo em que as nossas leis na União Europeia não serão aprovadas por embaixadores mas por representantes eleitos no nosso parlamento. Do tempo em que o nosso governo não irá negociar às cimeiras europeias sem ter claramente definido um mandato na Assembleia da República.

Seremos desse tempo, por uma simples razão: porque faremos esse tempo. A melhor garantia de futuro é fazer acontecer. A transformar o país e a sua política dedicaremos todas as nossas forças — e para que eu possa continuar a dedicar todas as minhas forças a este projeto da forma mais eficaz peço que multipliquem comigo o vosso apoio.

Monocultura

Não está em causa, como digo, a afeição que muito de nós temos pelos nossos clubes de futebol. O que está em causa é ter passado a ser natural quatro deputados da nação comentarem em exclusivo durante uma hora a atualidade desportiva, num programa de jornalismo não-desportivo, como se a instituição parlamentar não nos devesse também um pouco de consideração.

Quando era miúdo fui a um treino de captação no meu Benfica e ainda me lembro das duas vezes que toquei na bola. Infiltrava-me no estádio, com o meu primo, para ver jogos de borla. A paixão estendia-se ao hóquei em patins e às idas ao velho pavilhão da Luz.

Continuo a gostar muito de futebol, e a zombar de críticas pseudo-intelectualizadas ao futebol. Mas há limites para tudo.

Precisamente porque gosto muito de futebol, evito judiciosamente ver programas sobre futebol. É uma manha pessoal e intransmissível, não uma prescrição para o coletivo. Se há pessoas que querem ver gente a falar sobre futebol, e televisões que transmitem horas seguidas desses debates, posso viver com isso.

O problema é quando a coisa extravasa, e foi isso que aconteceu na semana passada. Continuar a ler ‘Monocultura’

Um novo velho debate

Hoje que os estados são de novo realidades mais fluidas, o velho debate está a voltar. E a fazer as inevitáveis divisões: além de esquerda e direita, libertário e autoritário, há que saber: localista ou cosmopolita?

Há quem acrescente à tradicional divisão da política em esquerda e direita uma segunda divisão: libertário ou autoritário. Teríamos assim uma esquerda libertária e uma esquerda autoritária, bem como uma direita libertária e uma direita autoritária — tese que se verifica em muita gente que a gente conhece.

Os últimos anos levam-nos a acrescentar uma terceira distinção: localista ou cosmopolita. O localista pode vir em várias versões: nacionalista ou nativista, xenófobo ou patriótico, regionalista ou municipalista. Umas são mais simpáticas, outras mais desagradáveis. O cosmopolita também pode vir em várias versões: internacionalista ou europeísta, federalista ou globalista, multiculturalista ou altermundialista. Esta divisão, que muitas vezes depende de questões de gosto ou temperamento, ainda não está muito estabilizada. Assim sendo, ela percorre várias famílias políticas: para dar um exemplo não muito corrente, há ecologistas mais localistas (principalmente preocupados com a preservação de redes locais de abastecimento, por exemplo) e outros mais cosmopolitas, preocupados com a construção de movimentos contra o aquecimento global. Continuar a ler ‘Um novo velho debate’

Em comum

“Não basta, contudo, falar de entendimentos. Para nos entendermos teremos, primeiro, de nos libertar. Essa é talvez a lição mais interessante das eleições em Espanha, embora tenha passado despercebida. Mais do que assinalarem a vitória de um ou de outro partido, as eleições em Espanha marcaram o aparecimento de novas formas de fazer política, através de candidaturas de convergência construídas num modelo participativo, com primárias abertas para a escolha de candidatos e democracia deliberativa para a redação do programa.”

Hoje no Público a crónica Em comum  .

Por um país descomplexado

Há milhares de ideias difíceis e caras para o país; descomplexá-lo deveria ser fácil e barato. Infelizmente é a mais improvável para as nossas elites institucionais e políticas, que herdaram o país muito cedo e ainda não se reformaram.

Toda a gente pode listar muitas razões pelas quais Portugal é um país acolhedor. Ser descomplexado não é uma delas. O nosso debate ortográfico não é descomplexado em relação ao Brasil, o nosso debate político não é descomplexado em relação à União Europeia — e por aí fora.

É raro encontrar um Portugal descomplexado. Por acaso entrevi esse país na semana passada. Fui chamado em cima da hora para substituir alguém num debate que tinha apenas duas regras: eu tinha meia hora para falar do meu tema e poderia ser interrompido a qualquer momento, por qualquer pessoa. Assim evitavam-se os três tipos de debate típico no nosso país: a) aquele em que toda a gente diz aquilo que toda a gente já sabe; b) aquele em que toda a gente fala do que não sabe mas “acha”; c) o debate interminável (note-se que, por causa da alínea ‘c’, todos os debates em Portugal têm tempo para cumprir sempre com a alínea ‘a’ e a alínea ‘b’).

A plateia era maioritariamente jovem, mas não só. O debate tinha sido organizado por mais do que uma organização: Continuar a ler ‘Por um país descomplexado’