Vamos lá lixar este continente?

É preciso dizer alto e bom som: isto não é um jogo. Estamos a falar da vida e dos futuros de uma união monetária com 300 milhões de habitantes, numa União e num continente com mais de 500 milhões de pessoas. Estamos a falar da melhor hipótese de prosperidade partilhada, democracia e direitos fundamentais que construímos após os horrores indizíveis das guerras europeias. Brincar aos ultimatos neste continente é — não digo já de uma suprema irresponsabilidade, mas mais do que isso, de um dolo imperdoável.

Havia na paz de Versailles, após a primeira Guerra Mundial, um par de homens a quem chamaram “gémeos celestiais”. Eram um juiz e um banqueiro, ambos lordes ingleses, cuja missão era a de espremer a Alemanha, como então se disse, “até ela guinchar”. Ora, ficou registado que os dois lordes andavam sempre com um sorriso beatífico, em particular quando se podiam escudar num qualquer regulamento ou termo contratual para arruinar a Alemanha nas gerações seguintes sem perturbarem a sua consciência de estar a fazer o melhor “pelo contribuinte britânico”. A Alemanha foi arruinada, chegou uma nova guerra, e o contribuinte britânico acabou por ter de contribuir com os seus filhos para o campo de batalha. Continuar a ler ‘Vamos lá lixar este continente?’

Uma ideia a explorar

O interesse da proposta é que ela tanto pode ter uma versão “federalista”, em que seria coordenada ao nível da União, como outra “soberanista”, em que seria emitida por iniciativa dos estados-membros. Claro que a ideia geraria grandes discussões sobre a possibilidade de esta ser uma moeda paralela que representaria uma saída não-declarada do euro. Essa dúvida, do meu ponto de vista, é exagerada: os estados norte-americanos fazem o mesmo e não consta que tenham saído do dólar.

Na sua crónica de hoje no Financial Times (antecipada ontem na internet), Wolfgang Münchau sugere à Grécia que vá preparada para aguentar firme nas conversações de hoje do eurogrupo, mas que tenha um plano B. Esse plano B, curiosamente para um autor conhecido por ser o europeísta mais europessimista da Europa, não é a saída do euro. Münchau aconselha a Grécia a emitir uma espécie de créditos fiscais com que o estado possa cobrir as suas despesas atuais enquanto a economia não recupera.

Há anos que a ideia dos créditos fiscais me intriga. Em setembro de 2012, num texto que contava entre outros autores com António Peres Metello e Viriato Soromenho Marques, assinalámos a possibilidade de «criação de um sistema de “títulos fiscais” para cortar a fuga de capitais para os bancos estrangeiros, promover a poupança e aumentar o financiamento de curto prazo do estado, diminuindo a sua dependência dos fundos de resgate. Os “títulos fiscais” serão um produto financeiro voluntário que servirá ao contribuinte para pagar impostos do ano corrente ou de anos futuros, contra um desconto». Continuar a ler ‘Uma ideia a explorar’

Estrada para a Crimeia

 Putin não quer um compromisso. Quer uma estrada por terra até à “sua” Crimeia, e o que mais vier nos próximos tempos. Putin vive na ordem imperial, e quer — como toda a gente, achará ele — um império.

Pelas minhas contas, são quatro as guerras da Crimeia na era moderna.

Em primeiro lugar, no fim do século XVIII, quando Catarina a Grande da Rússia conquistou o Canato da Crimeia, vassalo do Império Otomano. Não só a Crimeia como quase todo o contorno do Mar Negro pertencia a povos turcos ou aparentados, embora polacos, lituanos, ucranianos, russos e até suecos tenham tentando descer o rio Don e conquistar aquela região (também um português por lá andou, o grande médico António Ribeiro Sanches, judeu fugido à Inquisição).

Em segundo lugar, a Guerra da Crimeia propriamente dita, Continuar a ler ‘Estrada para a Crimeia’

É a cultura, estúpido!

Se o debate na União Europeia fosse sobre como nos preparamos para o futuro, já teríamos saído da crise há muito tempo, não só porque teríamos um plano conjunto que interessasse tantos a uns como a outros, como sobretudo facilmente conquistaríamos o apoio do resto do mundo. A Europa tem recursos suficientes, humanos e materiais, para tornar um seu plano de recuperação credível ao mundo e apetecível aos seus investidores.

Em “O Visconde cortado ao meio”, de Italo Calvino, um homem vai para a guerra no centro da Europa e apanha com uma bala de canhão no peito que o racha ao meio. Uma metade é apanhada por monges cristãos, outra por nigromantes turcos, e ambas sobrevivem.

Contei essa história no meu livro sobre “A Ironia do Projeto Europeu” e repito-a aqui porque me parece uma das melhores descrições do problema que estamos a viver na União Europeia hoje Continuar a ler ‘É a cultura, estúpido!’

A atitude pode ser tudo

Ligar o pagamento da dívida grega ao crescimento económico do país é uma mera questão de bom senso, e deveria ser alargada a outros países da zona euro que têm pela frente serviços à dívida muito pesados — a começar por Portugal.

Dias decisivos na União Europeia, enquanto Yanis Varoufakis roda pelas capitais europeias para explicar qual é a atitude do novo governo grego, de que é ministro das finanças, em relação ao problema da dívida do seu país e à estabilidade da zona euro.

Escrevo “atitude” porque aí está muito do que é decisivo nestes dias. Haverá tempo para que os planos de saída da crise esbarrem em pormenores técnicos, ou sejam resolvidos em reuniões até às altas horas da noite em Bruxelas, Frankfurt ou Atenas. Mas o elemento mais importante para decifrar no imediato é, desde já, a atitude. A disposição dos atores em cena. Demonstram vontade política de chegar a um compromisso? Estão irredutíveis nas suas posições? Pretendem resolver um problema sério ou dar lições uns aos outros?

Ora, a única lição de política (ou de vida) que vale a pena ter em mente nestes momentos é a seguinte: não há vitórias absolutas para derrotas absolutas. O absolutismo é contrário à boa resolução dos assuntos humanos. Continuar a ler ‘A atitude pode ser tudo’

Tudo se transforma

O passivo de uma pessoa, costuma dizer-se, é o ativo de outra. A questão é se a primeira tem condições para pagar; caso contrário, o ativo da segunda desaparece. Cabe então à política criar condições para que o problema se resolva. Nada se perde, tudo se transforma.

Dá-se hoje uma coisa muito bizarra: um governo social-democrata, na definição europeia, fazendo uma coisa social-democrata.

É ali no Balcãs, e é um membro da União Europeia. Não, não na Grécia. Mais acima, sim, um pouco mais a norte, ali na costa do Adriático — na Croácia. O governo da “coligação cocóricó” (a sério, tem mesmo esse nome, ou “kukuriku” em croata, por causa do nome do restaurante onde foi criada pelos quatro partidos de centro-esquerda que a compõem) anunciou um plano para desendividar os seus cidadãos mais pobres.

O plano chama-se “Começar de Novo” Continuar a ler ‘Tudo se transforma’

RTP1

A minha participação ontem na RTP1.

É a cultura, estúpido!

A minha crónica de hoje no Público: “Se o debate na União Europeia fosse sobre como nos preparamos para o futuro, já teríamos saído da crise há muito tempo, não só porque teríamos um plano conjunto que interessasse tantos a uns como a outros, como sobretudo facilmente conquistaríamos o apoio do resto do mundo. A Europa tem recursos suficientes, humanos e materiais, para tornar um seu plano de recuperação credível ao mundo e apetecível aos seus investidores.”

Para ler a crónica completa click em: É a cultura, estúpido!

Ouçam este homem

Para ultrapassar a primeira crise europeia do século XXI, precisamos de um tipo especial de europeus. Gente que entenda o papel do seu país na Europa, e o papel da Europa no mundo. Que queira reformular com as pessoas e não contra elas. Que tenha noção das consequências de um novo fracasso. Que esteja mais interessado em novas soluções do que velhos dogmas.

No segundo semestre de 2011, a situação na zona euro tornou-se crítica. O resgate grego tinha-se dado pouco mais de um ano antes, o português durante o primeiro semestre, o irlandês entre ambos. Mas os resgates não só não conseguiam acalmar os juros nos mercados da dívida soberana, como até os excitavam mais ainda. Após cada país que caía, a aposta era sobre qual seria o próximo a cair. E os próximos seriam a Espanha, e a Itália, e depois a França. E com isso seria o fim desordenado do euro, uma coisa pouco bonita de se ver.

Em setembro desse ano escrevi uma crónica chamada “Onde estamos”, onde defendi a implementação de uma solução para a crise do euro baseada na “Modesta Proposta para Salvar o Euro”, de Yanis Varoufakis e Stuart Holland. Ao contrário das anteriores propostas baseadas na mutualização da dívida, politicamente bloqueada, a proposta de Varoufakis e Holland baseava-se na emissão direta de títulos pelo Banco Central Europeu e na reciclagem da dívida soberana num prazo longo, ao passo que o Banco Europeu de Investimentos financiaria um plano de recuperação e relançamento da economia, em particular nos países do Sul e da periferia.

Não havia tempo a perder. Continuar a ler ‘Ouçam este homem’

Tempo de Avançar