Nós não somos este escaravelho

Nós, os portugueses, não somos e não podemos ser o escaravelho de Ortobalagan. Não podemos ter perdido a capacidade de imaginar um outro país que não no fundo da gruta. 

A cientista portuguesa Ana Sofia Reboleira descobriu, numa gruta de dois mil metros de profundidade situada na Abecássia, ali nas montanhas do Cáucaso junto ao Mar Negro, uma nova espécie de escaravelho que não tem asas nem olhos viáveis. Segundo informa o Diário de Notícias, trata-se de “um escaravelho carabídeo”, e foi pela sua “adaptação à vida sem luz e às condições inóspitas” naquela que é a gruta mais profunda do mundo, que perdeu as suas asas e os seus olhos deixaram de servir para ver. A Dra. Reboleira, que batizou o seu achado de Duvalius abyssinius, considera “provável que ele habite outras cavidades do vale glaciar de Ortobalagan”.

Um dia um cientista português vai ganhar o Prémio Nobel. Já aconteceu uma vez com Egas Moniz e a lobotomia, o que nos deu a todos a duvidosa honra de sermos todos lobotomizados de nascença. Como é evidente, desejo uma carreira preenchida de sucessos à nossa brava cientista no Cáucaso, incluindo uma mão-cheia de prémios. O meu medo é que depois digam que nós portugueses somos como o escaravelho que ela descobriu, quase uma versão zoológica da Caverna de Platão, Continuar a ler ‘Nós não somos este escaravelho’

Barroso em negação

Aquilo de que a UE precisa é de um Mecanismo Europeu de Estabilidade inteiramente comunitarizado, com escrutínio do Parlamento Europeu, e sujeito às obrigações dos tratados de coesão, solidariedade e pleno emprego. 

Barroso reagiu mal ao Manifesto dos 74 pela simples razão de que lhe estraga a narrativa. Não sabem? Para Barroso, como para o seu partido europeu, o PPE, a crise já acabou. Eles, com Merkel e a troika, salvaram o Euro e a Europa. É inoportuno que logo em Portugal, nas vésperas da saída da troika, apareça gente da esquerda à direita dizendo que o país não pode continuar neste rumo.

É que dizer que Portugal não pode continuar neste rumo significa também que a União não pode continuar neste rumo. Que os problemas estruturais não podem ser varridos para debaixo do tapete até às eleições europeias. Que é necessário dar a todos os países da União uma oportunidade de crescimento e encontrar a necessária complementaridade entre as várias componentes da economia europeia. Que sob os problemas da dívida soberana se esconde uma necessidade absoluta de requalificar as economias de países como Portugal. E que nada disto foi feito. Continuar a ler ‘Barroso em negação’

Tempos históricos

A luta entre turcos tem consequências para nós todos.

A Turquia é o país onde as conspirações imaginárias têm tanto poder quanto as reais. A partir de certa altura, já ninguém sabe quais são umas e quais são as outras.

Ainda me lembro quando me falaram pela primeira vez dos gülenistas. Parecia uma coisa de um romance de aventuras. Uma sociedade secreta comandada por um teólogo que vivia em recolhimento no estado da Pensilvânia, nos EUA, mas que dominava milhares de escolas, colégios e centros de explicações — e através deles posicionava os seus acólitos em todos os lugares de poder, tanto no “estado real”, como no “estado profundo”.

Esta do “estado profundo” era outra digna das melhores séries de ação e suspense. Todos os turcos garantem que existe um estado paralelo, oculto, para lá da superfície do que é dado ver ao cidadão comum. A discordância começa em saber quão profundo é, que setores afeta (o exército, o judiciário, a polícia?) e quem o domina.

E há mais. Ergenekon, por exemplo: terá sido uma conspiração dos militares para derrubar o governo, ou uma invenção do governo para manietar os militares? E há mais, muitas mais conspirações ainda: religiosas e laicas, esquerdistas e direitistas, étnicas e nacionalistas.

Ainda assim, há que admitir que poucas eram tão difíceis de aceitar como a história dos gülenistas. A sério? Continuar a ler ‘Tempos históricos’

A Europa e o refascismo

Uma democracia que não acredite no futuro pode bem acabar por não o ter.

Quando se pensa no fascismo, os países que vêm normalmente à cabeça são a Itália, em certo sentido a Alemanha, também Portugal e a Espanha. A certa altura dos anos 30 e 40, regimes aparentados ao fascismo dominavam no continente europeu, em particular no Leste, onde estavam na Polónia e na Eslováquia, na Hungria e na Roménia. Em 1936, apenas, a Frente Popular deteve a chegada do fascismo à França e é talvez por isso que não pensamos muito na França quando pensamos no fascismo.

E no entanto, foi na França que durante o meio século anterior foram germinando as sementes de ideias que depois ganhariam esse nome. Continuar a ler ‘A Europa e o refascismo’

A melancolia do patriota

Medeiros Ferreira em sua sala de trabalho (Lisboa) / Foto: Tiago Miranda / Expresso, 28.07.2012

Não é só que Medeiros Ferreira vai fazer falta. É que fazem falta mais pessoas como ele, à esquerda e à direita, nos Açores e no continente, homens e mulheres, novos e velhos.

Às vezes eu encontrava Medeiros Ferreira num debate e fazia para que saíssemos juntos. Aconteceu dar-lhe boleia para casa num par de ocasiões. A conversa começava sempre da mesma maneira: com a nota baixa que ele me deu num teste de História Política e das Instituições (do século XX) por uma fraca resposta minha a uma pergunta dele sobre as Nações Unidas. Foi merecida a nota, afirmava eu. Que exagero, foi certamente uma injustiça, retorquia ele. Serve esta história para concluir que, ao menos numa discussão com Medeiros Ferreira, quem teve razão fui eu.

Mas serve para mais algo, é claro. Para dar uma ideia da cortesia e sentido de humor com que Medeiros Ferreira tratava os ex-alunos e, imagino eu, todas as pessoas. Jamais se pensaria que no banco do lado, enquanto descíamos a Rua da Escola Politécnica, estava o inventor dos “três Ds” que viriam a ser as linhas diretrizes da Revolução do 25 de Abril — Democratizar, Desenvolver, Descolonizar (originalmente ele tinha acrescentado “socializar”). Ali não ia um senador da República; ia um sonhador da República. Continuar a ler ‘A melancolia do patriota’

Três para o caminho

O sistema partidário português está doente. O voto da semana passada sobre a co-adoção limitou-se a reforçar este diagnóstico.

Há uns anos em Moscovo, fiquei a saber que quem chega atrasado a um encontro deve pagar três copos de vodka a quem foi obrigado a esperar. Chegando atrasado às notícias da semana passada, divido a crónica de hoje em trêsbreves.

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A troika é, sim, ilegal. De várias formas: porque não teve base legal para a sua formação, porque se arrogou de poderes de decisão que ninguém lhe poderia ter dado, porque atropelou direitos e legitimidades nos países onde estabeleceu a sua jurisdição.

Acima de tudo, a troika estava contaminada por um pecado original, um conflito de interesses insanável. Continuar a ler ‘Três para o caminho’

70×7

A direita europeia, que tanto quis consagrar a herança cristã na construção da União Europeia, talvez pudesse reconhecer ao menos as palavra de Jesus a Pedro, quando este, no Evangelho de São Mateus, lhe pergunta se haveria de perdoar sete vezes: “sete vezes, não — mas setenta vezes sete”.

O primeiro-ministro descreveu como irresponsável um manifesto assinado por setenta economistas, patrões, sindicalistas, políticos e ex-governantes, todos defendendo a reestruturação da dívida portuguesa como condição sine qua non para que a economia possa crescer. Passos Coelho não tem razão. Ele considera que os signatários do manifesto pecam por excesso. No máximo, eles pecariam por defeito. Mas é um pecado menor.

O único problema do manifesto é ser de setenta portugueses, e não de setenta vezes sete, que poderiam ser portugueses, gregos, irlandeses, cipriotas, italianos, espanhóis e — porque não? — alemães.

Nesse manifesto pan-europeu com que sonho, dir-se-ia a mesma coisa, mas multiplicada: Continuar a ler ’70×7′

A paixão de Fernando Pessoa

Nessa Europa ainda estranhamente calma, a poucas semanas de se desequilibrar na Grande Guerra (que lhe daria “O menino de sua mãe”), Fernando Pessoa passou a sua ansiedade da influência a todos os escritores de língua portuguesa que lhe sucederam.

Harold Bloom, um estudioso da literatura, escreveu uma vez um livro chamado “A Ansiedade da Influência”, no qual lidava com a tensão entre o grande escritor e o escritor ainda maior. Para pôr as coisas em termos simples, o grande escritor que admira o escritor ainda maior passa pela tal “ansiedade da influência”, a admiração torna-se inveja, a inveja emulação, a emulação frustração, a frustração afastamento, e o afastamento (nos melhores dos casos) superação. Os maiores dos grandes escritores pairam como uma sombra sobre todos os outros: todo o escritor de língua inglesa vive na ansiedade da influência de Shakespeare (ou na sua rejeição), como o russo sob (ou contra) Tolstoi, etc.

Faz por estes dias cem anos, Fernando Pessoa encontrava a sua forma de escapar à ansiedade da influência, e de sair dela por cima. Continuar a ler ‘A paixão de Fernando Pessoa’

Cenários da crise

Se acham que isto é mau, pensem que ao menos não temos o quarto cenário: o nuclear. A Ucrânia tinha o terceiro maior arsenal nuclear do mundo, herdade da URSS, mas devolveu-o em troca da sua integridade territorial.

Quais são as opções daqui para a frente?

Um primeiro cenário é relativamente curto e benigno. Não chega a haver derramamento de sangue entre russos e ucranianos na Crimeia, nem invasão em larga escala de território ucraniano. Tanto a Rússia como os EUA e a UE conseguem salvar a face. No caso de Putin, porque as tropas que estão a ocupar a Crimeia não são assumidas diretamente como fazendo parte do exército regular russo. No caso de Obama e dos europeus, porque após esta rápida escalada há um desinvestimento na conflitualidade. Para compor as coisas, o novo governo ucraniano é levado a fazer concessões linguísticas e a conceder mais auto-governo às regiões russófonas. Toda a gente recobra os sentidos e entende que não podemos ter, em pleno século XXI, uma crise típica do século XIX. Para isso terá ajudado o tombo que deram os mercados nos últimos dias e a interdependência entre os líderes da Rússia e da União Europeia. O mundo acorda deste mau pedaço como quem se tivesse embebedado na noite anterior e agora não tenha mais do que encarar a ressaca.

O ponto de partida do segundo cenário é Continuar a ler ‘Cenários da crise’

Sigamos em frente!

O progresso é um processo contraditório e tem os seus zigue-zagues, mas às vezes faz-se. Há um ano entreguei à Comissão Parlamentar Especial contra o Crime Organizado, a Corrupção e o Branqueamento de Capitais um documento temático sobre lavagem de dinheiro no qual, entre outras medidas, se pedia um registo público de “beneficiários finais” de ativos, para impedir que os branqueadores de capitais se escondem através de empresas fictícias. Hoje o Parlamento Europeu aprovou quatro relatórios (fui relator-sombra num deles) em que esse registo passou a fazer parte da proposta de lei em curso. Falta convencer os estados-membros. Mas foi dado um bom passo na direção do combate ao dinheiro sujo e à evasão fiscal na Europa. Sigamos em frente!