A pasokização do PSD

Crónica de ontem no Público: “A pasokização do PSD”. Ou será a passos-coelhização? Começa assim:

“Há um par de anos, um espectro rondava a política portuguesa: era a “pasokização” do PS. Para quem não se lembra, o termo tinha origens no ex-grande partido socialista grego PASOK, que implodiu depois da sua participação em governos de austeridade, tendo sido ultrapassado à esquerda pelo Syriza. No PS, o medo da pasokização foi grande e era por vezes mencionado por dirigentes socialistas como uma das razões para evitar uma solução de bloco central no governo português.

Os tempos mudaram, as modas políticas também, e a “geringonça” veio para reinar no palco político onde antes a “pasokização” desempenhara um interessante papel secundário. Isso não quer dizer que o risco de pasokização tenha desaparecido completamente. Às vezes penso que foi simplesmente bater na porta ao lado. Hoje não é o PS, mas o PSD, que se arrisca a entrar numa espiral descendente.

Alguns dirão que esta previsão é absurda. O PSD ainda é o partido com o maior grupo parlamentar. O PSD ainda é um partido com uma enorme influência autárquica. O PSD ainda tem cerca de 30% nas sondagens. A palavra operativa em todas estas frases é, contudo, “ainda”. Ora, o PSD está sobretudo ainda em estado de negação: tem pelo menos três problemas que ignora como resolver e faz mesmo por ignorar que existem.”

A Universidade Feudal-Neoliberal

A crónica de ontem tem por título: A Universidade Feudal-Neoliberal. Leiam o texto integral no Público.

“Portugal deu, em poucos anos, um enorme salto na educação e na ciência. Quem olhar para os resultados do PISA ou para os números de novos doutorados poderá até pensar que tudo vai bem para Portugal na era do conhecimento. Tudo? Não. Bem no meio da paisagem, a universidade portuguesa continua como já era: irreformada, anquilosada, envelhecida.

À primeira vista, isto pode parecer injusto. Então onde estão os doutorados, bolseiros e investigadores? Na periferia do sistema.

(…) A chegada de um governo com um novo tipo de maioria parlamentar seria uma oportunidade para mudar este estado de coisas. Infelizmente pode ser uma oportunidade perdida. As propostas ministeriais em cima da mesa passam de facto os bolseiros para contratados, mas em contratos sucessivamente precários. Uma vez que o decreto-lei proposto pelo governo é omisso em relação à necessidade de os júris serem internacionais e independentes, o problema da endogamia não é resolvido e pode até agravar-se. E depois temos o escândalo dos supostos professores convidados, que em Portugal são frequentemente bolseiros dando de graça — ou quase — aulas em cargas horárias desproporcionadas. Aquilo que o Ministro considerou “normal em todo o mundo” — especialistas externos lecionando algumas cadeiras suplementares — não é o que se passa em Portugal, onde os professores convidados asseguram necessidades permanentes, muitas vezes no engodo de um dia poderem também entrar para o quadro num concurso feito à medida.

Ainda vamos a tempo de arrepiar caminho. Se queremos um país capaz de criar futuro é preciso fazer de uma vez por todas o debate sobre a renovação, abertura e rejuvenescimento do nosso ensino superior. Não é aceitável que esta maioria parlamentar passe ao lado da oportunidade de reformar profundamente a universidade portuguesa.”

Negócios à moda do faroeste

Imagem: Richard Kyaw

«Há uma coisa que temos de saber sobre o potencial novo dono do Novo Banco: não se consegue saber grande coisa sobre ele, e isso é mau. O Banco de Portugal confirma que ele tem dinheiro para comprar aquele que já foi o Banco Espírito Santo. Isto é mais do que podem dizer os outros candidatos a compradores, que não conseguiram fazer prova das centenas de milhões de euros que oferecem pelo banco. Mas se essa é a única razão para tomar uma decisão, é uma razão perigosa, e seria uma decisão errada.
Claro que John Grayken tem dinheiro. Desde que fundou a Lone Star Funds, há pouco mais de vinte anos, lucrou vinte por cento todos os anos, e este ano o seu fundo chegou a uma capitalização de 60 mil milhões de euros, ou seja, mais rico do que o Luxemburgo. O próprio Grayken tem cerca de seis mil milhões em seu nome. Uma coisa é certa: experiência na compra de bancos não lhe falta. Só que é a experiência contrária à de que precisamos: comprar um banco em apuros, aproveitar ativos, despedir funcionários, vender o que tem valor e desembaraçar-se do resto. Repetiu a receita mundo afora, da crise asiática de 1997 à Irlanda dos últimos anos. Agora desembarca na ocidental praia lusitana para comprar o Espírito Santo.

Países avisados não deixam John Grayken entrar no seu sistema bancário.» — leiam as razões na crónica integral a partir deste link.

Leituras do dia – 05.01.2016

evangelico

 

1 – Prepare For Regime Change, Not Policy Change (N. Turkuler Isiksel)

“If you trust in freedom of expression to expose the autocratic machinations of a Trump administration, think again. It is no coincidence that Erdoğan and Trump are both litigious in the extreme, regularly using personal lawsuits to bludgeon their critics into quiescence. Autocrats understand that freedom of expression is fragile, and seek to stifle it by hook or by crook. The American free speech tradition is stronger than Russia’s or Turkey’s, but a hyper-sensitive, bullying White House press office could easily cow the media into favorable reporting. It does not take much for the deleterious chilling effect of such measures to take hold. Conservative “news” outlets already enjoy overwhelming dominance in the United States, and Trump’s singular genius is for manipulating the media. That, after all, is how he fueled the birther movement that in turn made him into a political force. Finally, he can also be expected, like Berlusconi, to create his own private media empire to shape the “truth” to which a large part of the electorate is exposed.”
https://www.dissentmagazine.org/…/trump-victory-regime-chan…

2 – Trump in 2010: WikiLeaks ‘disgraceful,’ there ‘should be like death penalty or something’ (Andrew Kaczynski)

“The president-elect has repeatedly questioned the U.S. intelligence community’s assessment that Russia was the source of the hacks, which took place during the 2016 presidential campaign and targeted Hillary Clinton’s campaign chair John Podesta and the Democratic National Committee. During the campaign, Trump cited information released by WikiLeaks to attack Clinton and the DNC.”
http://edition.cnn.com/…/p…/kfile-trump-wikileaks/index.html

3 – Prefeitos entregam cidades a Deus e “cancelam pactos com qualquer outra entidade espiritual”

“No primeiro ato administrativo de suas gestões, os novos prefeitos de Guanambi (BA) e de Alto Paraíso (RO) entregaram a chave de suas respectivas cidades a Deus. Em decretos municipais semelhantes, os dois ainda determinaram o cancelamento “em nome de Jesus, de todos os pactos realizados com qualquer outro Deus ou entidades espirituais”. Ambos são evangélicos.

Jairo Magalhães (PSB), prefeito de Guanambi, a 675 km de Salvador, decretou: “Declaro que esta cidade pertence a Deus e que todos os setores da prefeitura municipal estarão sob a cobertura do Altíssimo”. “E a minha palavra é irrevogável!”, escreveu ao final do texto, publicado no Diário Oficialdo município nessa segunda-feira.”

(Imagem do artigo “Prefeitos entregam cidades a Deus e cancelam pactos com qualquer outra entidade espiritual”)

Afinal havia outra

afinalÀ direita interessava a ideia de que só havia uma política possível com o euro. Mas uma parte da esquerda também pensava o mesmo. Falta tirar as lições do último ano a ambos os lados.
“Foi o Financial Times que nos deu notícia do triste passamento da conhecida TINA — abreviatura para There Is No Alternative, ou seja, para o dogma de que em política Não Há Alternativa. Num artigo recente, a vetusta publicação especializada garante que o governo de António Costa “confundiu os críticos” com uma governação ancorada à esquerda que se desviou das políticas de austeridade e conseguiu atingir os objetivos do défice em que a direita falhou durante o governo anterior. Durante anos garantiram-nos que só era possível uma política. Mentira. Parafraseando o grande sucesso musical de Mónica Sintra, afinal havia outra.

E quando Mónica Sintra e o Financial Times estão de acordo, há que refletir.” — leiam o resto da crónica aqui.

Razões de esperança

Lamento: 2016 foi mau e 2017 vai ser a continuação. Mas se a pergunta for “há razões de esperança?”, eis uma tentativa de resposta: em nenhuma democracia consolidada há maiorias a favor do nacional-populismo, os jovens são esmagadoramente contra o fechamento do mundo e das fronteiras, a problemática UE tem mais potencial de progresso do que a Rússia, a Turquia ou os EUA trumpistas e há ideias de liberdade, democracia, cosmopolitismo e ecologia para o nosso tempo. Há um grande problema: falta dar representação política e encontrar intérpretes para esta cultura que é ainda maioritária — e que provavelmente será mais maioritária ainda nos próximos anos, com a chegada de um eleitorado mais jovem — mas às razões para esperança deverão seguir-se as razões para a ação.

Para ler toda a crónica clique aqui.

A cristandade está mal entregue

Três Reis Magos, mosaico em San Apollinare Nuovo, Ravenna, Itália. No muro da igreja, concluida em 569.

Na primeira crónica da semana escrevo sobre o “cristianismo” de Trump — que promete aumentar o arsenal nuclear dos EUA —, Putin — que bombardeia cidades indiscriminadamente — e Farage — que repreende o Arcebispo de Cantuária por este ter ousado falar em refugiados na Missa de Natal. Considerem-nos assim uma espécie de Reis Magos ao contrário.

“Desde o seu início há dois mil anos, o cristianismo teve crentes que tentaram ser sábios usando a religião. Também teve homens que usaram a religião para tentar ganhar poder. Os segundos, em geral, odeiam os primeiros. Não é por acaso que estes auto-proclamados defensores políticos e militares da cristandade rejeitam o Papa Francisco e pelos vistos também o Arcebispo de Cantuária, como detestam qualquer líder espiritual ou laico que lhes lembre as suas obrigações morais perante os refugiados, o planeta ou a humanidade.

Ora, qualquer outra pessoa, mesmo que de outra (ou nenhuma) religião, tem por seu lado também uma obrigação moral: a de tentar não confundir qualquer destes três homens com qualquer vestígio do cristianismo que eles por vezes tentam alegar defender.”

Leia mais aqui.

Melindrosíssima

                                                                                   Jornal O Século – 1914

“Às vezes, na sala de aula, mostro uma após outra duas primeiras páginas do jornal O Século num dia do começo de Agosto de 1914, mesmo antes de a Grande Guerra começar. São duas edições publicadas no mesmo dia, como era hábito dos jornais em tempo de muitos leitores e muitas notícias: na edição da manhã um título a várias colunas anuncia que a situação se apaziguou e que os esforços diplomáticos de várias potências permitiram evitar a guerra; na edição da tarde a machete vem substituída por um nervoso “A Situação É Melindrosíssima”. Passado algumas horas, começavam os combates.

Pois bem, 2016 foi preocupante. Mas 2017 vai ser, para usar a expressão secular d’O Século, melindrosíssimo. (…) Se há lição a reter de há cem anos, ela não está na coincidência dos factos precursores, mas na das culturas vigentes. Quando as forças da exclusão e do ódio passam a dominar a dinâmica política, o conflito generalizado nunca poderá estar longe. O próximo ano será o combate das nossas vidas para que isso não aconteça na Europa.”

Leia mais aqui: https://www.publico.pt/…/mu…/noticia/melindrosissima-1755561

Leituras do dia – 21.12.16

Foto: Freire de Andrade / 1859-1929

1 – Ignore claims about the EU falling apart – Europe knows Brexit was a terrible idea, and New York is the city which will benefit (Denis MacShane)

“No EU capital likes the European Court of Justice, which is more of a giant commercial court and administrative tribunal despite its grandiose title. The UK has won more cases than it has lost at the ECJ. But a rulebook needs an arbiter, and so the rest of Europe remains puzzled at the fact that Britain, the nation that invented “playing by the rules” and accepting the umpire’s decision, now can no longer bear to do so.”
http://www.independent.co.uk/…/brexit-europe-negotiations-a…

2 – India is displaying classic signs that foreshadow fascism (Harish C Menon)

“Mishra was expectedly roasted for dubbing Modi as a disaster in the making for India. However, the Indian prime minister’s lifelong association with Hindu nationalist organisation Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) inevitably leaves him open to such charges. RSS, with its avowed goal of the Hindu rashtra, or Hindu nation, and of which Modi’s Bharatiya Janata Party (BJP) is an offshoot, has always had a fascination for the likes of Benito Mussolini and Adolf Hitler. And with the BJP’s electoral triumph—in 2014, it formed India’s first full majority government in decades—the spectre of violent identity politics has once again raised its head.”
http://qz.com/…/along-with-narendra-modis-rise-india-has-d…/

3 – Leavers are angry, for their lies will return to haunt them (Nick Cohen)

“Why in these circumstances are Leavers angry? What the hell do they have to be angry about? A part of the answer is that raging is all the poor dears can do. Across the west, the populist right is as much a countercultural movement as a political movement. Its supporters are closer to satirists than thinkers and doers with practical plans to change society. The right feasts on undoubted hypocrisies and evils in the liberal mainstream. It picks them apart and examines their ghoulish contradictions. Like its counterparts on the left, it then rapidly loses itself in the magic world of conspiracy theory. If you genuinely believe a sinister force has organised 97% of climate scientists to lie about global warming, or Brussels has bribed economists across the world to lie about the danger of Brexit, you are not just assuming mass mendacity at an astonishing level. You are also assuming “the establishment” is capable of the astonishing level of organisation required to persuade tens of thousands to lie.”
https://www.theguardian.com/…/brexit-leavers-fear-their-lie…

Confusos?

Surpresas, reviravoltas e tuites contra potências nucleares. De uma série nos anos 80 à eleição de Trump na minha crónica de ontem.sopa

“Um jovem jornalista senta-se comigo para um copo e uma conversa e abana a cabeça, desolado. “As notícias estavam aí, foram publicadas e eram conhecidas”, diz, “como podem não ter feito diferença e as pessoas agora fingirem-se surpreendidas?”. As conversas que tenho nestes dias enquanto me preparo para regressar a Portugal começam quase todas assim: toda a gente tem uma instituição na qual acredita — o jornalismo, a independência judicial, o estado de direito, a existência de uma oposição, a constituição federal — e cada um procede confessando o seu receio, às vezes a sua quase certeza, de que essa instituição já falhou ou vai falhar no futuro. Os americanos, tal como os russos e os turcos e os húngaros e muitos outros no passado — por vezes com grande ajuda do aparelho de estado dos EUA — vão percebendo como as instituições democráticas são na verdade extraordinariamente vulneráveis quando há uma vontade política persistente em fazê-las desmoronar.

Tudo isto teria mais valor pedagógico se fosse só uma telenovela. Mas quando o tuíte matinal de Donald Trump é um ataque verbal sem precedente à China — em que Trump comete o lapso de escrever “sem presidente” em vez de “sem precedente” — e nos apercebemos, precisamente por causa desse lapso só corrigido 90 minutos depois, que ninguém lê ou aconselha o presidente-eleito antes de ele atacar perante milhões de pessoas outra super-potência nuclear, aí a coisa fica mais séria. Já houve guerras que começaram por mal-entendidos, e noventa minutos pode já ser tarde de mais para mandar os mísseis voltarem para trás.”

Leia o resto aqui: https://www.publico.pt/…/…/19/mundo/noticia/confusos-1755302