A Bolha Central

Minha crónica de hoje no Público: “Sem esquerda nem direita, mas apenas os de dentro contra os de fora, um governo de Bloco Central não dará alternativa, nem sequer alternância, nem sequer o suspiro de uma dança de cadeiras.” Ler o resto clicando abaixo:

A Bolha Central

Uma justa liberdade

Pablo Picasso – Boy Leading a Horse (1905-1906)

Nos tempos que correm, não há missão mais urgente e primeira do que exigir, para nós e para os outros, esta justa liberdade sem dominação.

Um rebelde e republicano inglês, Richard Rumbold, à espera de ser enforcado no ano de 1685, disse uma vez estas palavras: “não pude nunca acreditar que a Divina Providência tivesse dado ao mundo uns poucos homens, já calçados de botas e esporas, e prontos para cavalgar, e criado milhões de outros já com selas nas costas e rédeas na boca, prontos para serem cavalgados”.

Encontram-se estas palavras no início do último livro do filósofo Philip Pettit sobre o conceito cívico e republicano de liberdade (“Just freedom” — ainda não editado em Portugal). O sentimento que as anima não está desatualizado. Continuar a ler ‘Uma justa liberdade’

Nem tudo o que luz é ouro

Midas’s Daughter – Walter Crane (1893)

Má ideia para começar, má implementação para continuar. Tudo, a começar pelo nome pindérico em inglês (vistos “gold”), tresanda à desvalorização do país que este governo promoveu desde que tomou posse.

Os vistos dourados são uma má ideia desde o início. Ridicularizam o princípio da igualdade (“todos os estrangeiros sãoiguais desde que tenham meio milhão de euros para comprar apartamentos de luxo em Portugal”). Vendem aquilo que nãodeve ser vendido, a possibilidade de emigrar e residir primeiro, a nacionalidade e a cidadania depois. Criam entre os países europeus uma corrida indigna: Malta já oferece cidadania europeia a quem a compre por dois milhões de euros sem precisar de pôr os pés no país. E são uma porta aberta para a fuga de capitais e para a lavagem de dinheiro. Enquanto seres humanos morrem no Mediterrâneo por serem imigrantes e refugiados, alguns dos que roubam os recursos dos seus países podem comprar em toda a segurança a sua residência no espaço europeu. Continuar a ler ‘Nem tudo o que luz é ouro’

A solução está na cara

Esse plano é simples. A União Europeia não pode levantar impostos em nome próprio, mas a Comissão Europeia pode cobrá-los para os estados-membros. 

Numa época saturada por pequeno e médios escândalos, é de esperar que os grandes e verdadeiros escândalos passem despercebidos.

Falemos hoje, como prometido, das multinacionais que fogem legalmente a pagar impostos nos países onde realizam as suas transações. Não há como escamotear a dimensão do roubo. Falamos de multinacionais que beneficiam de investimento público na tecnologia e na investigação, que beneficiam de consumo privado em todos os nossos países, que na União beneficiam de um mercado único de 500 milhões de consumidores. Falamos de empresas que — no caso do setor financeiro — têm beneficiado de resgates pagos pelo trabalhador e contribuinte com cortes de salários e subidas de impostos. Falamos de um rombo anual de centenas de milhares de milhões de euros.

O escândalo não é só financeiro, mas moral. Continuar a ler ‘A solução está na cara’

A chave

Este modelo de esquerda partidária há muito que está esgotado. O desafio que se coloca é como suplantá-lo, e a chave é esta: precisamos agora de uma esquerda que em vez de só querer governar ou só querer não governar, queira saber porquê governar e sobretudo para quê governar.

No fundo, o drama da esquerda partidária portuguesa é este: há uma metade que só pensa em governar; a outra metade só pensa em não governar.

A esquerda partidária que só pensa em governar acha, que para isso, tem de ser centrista. A esquerda que só pensa em não governar acha que, para isso, tem de ser extremista. A esquerda partidária portuguesa anda há décadas a fazer a esparregata, e pagou-se um preço considerável por isso. Uma parte grande da população portuguesa nunca esteve representada na governação, com tudo o que isso implica. Política não é só parlamento, mundo sindical ou círculos de reflexão e debate. É poder, de forma decisiva, contribuir para o destino do país. Continuar a ler ‘A chave’

O camião-fantasma

Quanto a Portugal, que se ponha em guarda. Com uma força de trabalho com baixos níveis de formação, uma crise que nos deixou presos ao pensamento de curto-prazo e uma elite que não tem demonstrado capacidade de deliberar para o futuro, arriscamo-nos a ser atropelados pelo camião-fantasma.

Se querem conhecer o futuro, sigam os camionistas. Eles são uma das categorias profissionais mais numerosas em todos os países e continentes. Em 2006 eles representavam 1,3% da força de trabalho nos Estados Unidos da América: um milhão e seiscentos mil, mais do que todos os professores de escola primária. Na União Europeia, onde a sua atividade é enquadrada por regulamento comunitário, as rotas que eles fazem são as veias e artérias da economia.

Porquê os camionistas? Por causa disto: na semana passada, a fabricante de automóveis alemã Daimler mostrou um seu camião a viajar em piloto automático, e anunciou que espera estar em plena produção em série destes camiões em 2025. É certo que estes camiões ainda têm um condutor, que está ao lado do volante com um computador ou tablet, e que poderá tomar conta da condução quando necessário. Mas outras marcas já testaram automóveis inteiramente desprovidos de condutor humano. Por sua vez, a Volvo já testou camiões automáticos em pelotão: só o primeiro veículo tem condutor, e os três ou quatro a seguir seguem-no como camiões-fantasma.

Não nos iludamos. Aproxima-se o dia em que uma categoria profissional inteira se tornará desnecessária. Com o tempo que demora a substituir frotas e um período normal de habituação, pode ser daqui a vinte anos, mas a maior parte das pessoas que estão a ler este artigo verão esse dia.

A partir daqui, os argumentos bifurcam-se. Continuar a ler ‘O camião-fantasma’

Uma manhã produtiva

Assassinato de Sarajevo – 28 de Junho de 1914.

Parafraseando Churchill, aquela manhã em Sarajevo produziu mais história do que nós somos capazes de consumir.

Na semana passada, não no século passado nem no milénio passado, o mundo moderno assistiu a uma coisa estranha: um homem que decidiu declarar-se Califa, ou seja, descendente de Maomé, líder espiritual e político de todos os muçulmanos. Uma coisa tão estranha quanto um de nós decidir pôr uma coroa de louros na cabeça e declarar-se César.

Vamos recuar cem anos até um conflito que temos revisitado aqui muito, a Iª Guerra Mundial. Em 1914, por esta altura, havia ainda um califa e três césares. Os três césares eram o imperador da Rússia — cujo título não era Czar por acaso, mas precisamente por vir do romano Cæsar —, o imperador da Áustria e o rei da Prússia e imperador da Alemanha, ambos com o título de Kaiser pela mesma razão. O Califa era Mehmed V, Sua Majestade Imperial e Sultão do Império Otomano.


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Dizer para ver

Sophia de Mello Breyner Andresen não foi só uma das maiores escritoras da língua portuguesa contemporânea. Foi ela quem mais perto esteve de um ideal clássico da poesia: o da realização material das palavras.

Quando tinha quinze anos, passei um Verão trabalhando como guia turístico no Panteão Nacional quatro dias por semana (ao quinto, ia para São Vicente de Fora), num grupo de adolescentes em “ocupação de tempos livres”. Com as gorjetas comprávamos discos de vinil na Feira da Ladra. Com o salário, comprei uma bicicleta. Ao fim da tarde acontecia-me subir a colina da Graça, pela travessa das Mónicas, junto à Vila Sousa, até ao miradouro. Não sabia que ali morava Sophia de Mello Breyner. Continuar a ler ‘Dizer para ver’

Ainda mexe

 É necessário que nos unamos da próxima vez para ter uma candidatura ganhadora à presidência da Comissão Europeia.

Há cem anos e um dia, um título do jornal Vancouver Sun declarava convictamente: “Morte de arquiduque austríaco afasta perigo de conflito europeu”. Um mês depois estalava a primeira guerra mundial, precisamente pela causa que o jornal tinha defendido que a anularia.

É fácil sorrir por conta deste falhanço jornalístico. Mas cem anos (e um dia) depois, ainda é por nossa conta e risco que ignoramos as dinâmicas europeias. Vejamos. Durante anos, jornais e televisões proclamaram que a crise da zona euro estava ultrapassada. A cada cimeira do Conselho Europeia, disseram-nos que a União tinha dado um grande salto em frente e que não havia agora problema. Da mesma forma, muitos observadores, desta feita principalmente nos governos, continuam a desvalorizar o efeito que teve a frase de Mario Draghi (“faremos tudo o que for necessário para salvar o euro e, acreditem, será suficiente”) na superação da fase aguda da crise da moeda comum.

Mas há mais. Durante cinco anos o Parlamento Europeu defendeu que a escolha do presidente do executivo europeu se desse indiretamente através das eleições europeias. Quando essa proposta feita, porém, ela foi continuamente desvalorizada por todos aqueles que supostamente estavam “por dentro” dos temas europeus. Continuar a ler ‘Ainda mexe’

A bola

Eusébio, o Pantera Negra (Benfica x Manchester United / Taça dos Clubes Campeões Europeus em 01.06.1966)

A minha teoria é que cada um joga como a personalidade que tem, ou seja, que olhar para a forma de jogar futebol é a melhor maneira de entender com quem estamos a lidar.

Nas escadas rolantes do aeroporto tenho à minha volta dezenas de miúdos e miúdas vestidos com o equipamento vermelho do Benfica (e Olivais). Vão aos Açores jogar à bola num torneio infantil. Os pequenos sentem-se, e provavelmente são, os jogadores com mais pinta do mundo. Continuar a ler ‘A bola’