Olhar para dentro

Pedrógão visto do espaço.

“Portugal tem um problema político. Nos últimos dias, não há melhor símbolo para esse problema do que o caso do SIRESP, o sistema de comunicações utilizado pelo estado para situações de emergência, e que no sábado falhou. Não sabemos se essa falha teve implicação direta na sequência de eventos que levou à morte de tantas pessoas, mas parece certo que o sistema já falhou em várias outras ocasiões e que nada garante que não venha a falhar no futuro. Ora, desfiar a história do SIRESP, como o Público tem feito nos últimos dias, é desfiar a história da nossa política na última década. Lá estão as antigas empresas do regime, da SLN e do BPN ao BES e à PT. Lá está uma PPP a carregar no sobre-faturamento e a prestar um serviço defeituoso, só porque o cliente é o estado e o estado paga a renda. E lá está a pergunta inevitável: faz sentido que tenhamos nacionalizado tantos bancos, e que o sistema de telecomunicações de emergência de que depende o estado não seja nacionalizado?”

A desforra dos “cidadãos de nenhum lugar” [texto integral]

Pintura: Dai Dudu, Li Tiezi e Zhang.

 | Do arquivo Público 14.06.2017 | Na passada quarta-feira sugeri que a rainha da Brexitânia, Theresa May, ia nua e que a única questão era saber quando alguém iria reparar. A resposta chegou na madrugada do dia seguinte. Os resultados eleitorais comprovaram a perda de maioria absoluta pelos Conservadores britânicos, a partir de agora dependentes dos sectários protestantes unionistas da Irlanda do Norte. É uma Theresa May sem peso negocial que se apresenta agora perante Bruxelas, perante o parlamento britânico e até perante Belfast, ou melhor, perante os bairros protestantes da capital norte-irlandesa.

O governo britânico, com o contra-relógio do Brexit a contar inexoravelmente, desejava ir para as negociações em Bruxelas com uma braçada de exigências incompatíveis entre si. Por um lado, dizia querer uma saída radical da UE, — a não ser quando lhe dava jeito um acordo feito à medida para benefício de Gibraltar, para a Irlanda do Norte, e para manter os refugiados encurralados do outro lado do Canal da Mancha, em Calais, na França. Por outro lado, queria sair do mercado único e da união aduaneira europeia, — a não ser quando se tratasse de manter acesso privilegiado ao mercado único para as suas exportações. Desejava acabar com a liberdade de circulação, mas sem atrapalhar a vida dos reformados britânicos no Sul da Europa, que têm acesso aos sistemas nacionais de saúde locais. Não obedecer a sentenças de juízes europeus, mas manter os “passaportes bancários” para a finança londrina. May e os seus ministros gostariam evidentemente de manter a lucrativa indústria de compensações da zona euro, que vale quase um bilião (não é engano: um milhão de milhões) de euros por dia… situada fora da zona euro. A certa altura, Continuar a ler ‘A desforra dos “cidadãos de nenhum lugar” [texto integral]’

Ao especialista instantâneo em incêndios

Ao especialista instantâneo em incêndios – hoje no Público.

“A sazonalidade dos fogos determina a dilatação do perímetro de especialistas e a multiplicação dos espécimes opinativos. São eles o preço a pagar por podermos ouvir também os especialistas não-instantâneos (ou, como eu lhes prefiro chamar, “aqueles e aquelas com quem se aprende qualquer coisa”) que estão cada vez melhores. Distingo-os à maneira possível aos pobres não-especialistas como eu: aquelas e aqueles com quem se aprende alguma coisa, além de não costumarem aparecer no resto do ano, são menos definitivos nas suas respostas, repetem muitas vezes que “é complicado” (para desespero dos entrevistadores) e têm, em geral, um ângulo ou abordagem que perseguem há anos, metodicamente: sabem que proteção civil não é idêntica a proteção ambiental, que o ângulo da desertificação não é o mesmo das alterações climáticas, que a prevenção e o combate não têm os mesmos princípios nem os mesmos objetivos, etc. Sabem que precisam uns dos outros para avançar no conhecimento e nos resultados.”

A entreajuda

“O mais importante agora, pouco mais de um dia após o incêndio em Pedrógão Grande que vitimou mortalmente mais de meia centena de pessoas, é socorrer as populações afetadas, dar apoio aos sobreviventes e às famílias das vítimas e prestar auxílio aos bombeiros e à proteção civil. Essa é a primeira linha da solidariedade. Mas a solidariedade é necessária para lá do imediato: como torná-la mais perene e mais perfeita?”

Esta é a pergunta da minha crónica de hoje no Público. Podem ler a resposta aqui.

Calma pessoal, a galinha não pôs o ovo

(Foto: Daniel Leal-Olivas/Getty Images)

Há um ano e um dia, estava o Reino Unido a uma semana do seu referendo europeu, alertei para a luta por agências da UE que aí vinha. Defendi desde então, em público e diretamente ao governo, que Portugal — não Lisboa, mas Portugal — apresentasse a sua candidatura à Agência Europeia do Medicamento, o que foi feito, com a vantagem da antecedência sobre outros possíveis candidatos. E eis que agora o mundo político português acorda para o assunto. Não a tempo de melhorar a candidatura do país, à qual prestaram muito pouca atenção até agora, para lá de distraídos votos unânimes no parlamento, mas ainda muito a tempo de apimentarem a campanha para as autárquicas. Daqui a uns tempos, infelizmente, esquecerão o que hoje disseram sobre descentralização. É sobre tudo isso a minha crónica ontem no Público .

“Portanto, caros líderes políticos, façam o favor de se entenderem. Escolham rápido e definitivamente uma cidade candidata, seja aquela que defendiam unanimemente há um mês, ou qualquer outra. Unam-se em torno da excelente cidade portuguesa escolhida. E aproveitem a polémica para se decidirem, de uma vez por todas, a apresentar um plano bem feito, orçamentado e calendarizado, para ir retirando de Lisboa organismos relevantes do estado central.”

A desforra dos “cidadãos de nenhum lugar”

A desforra dos “cidadãos de nenhum lugar” – é a minha crónica de hoje no Público.

“Não admira, portanto, que a partir do primeiro “o rei vai nu!” já haja de repente muita gente a dizer o que antes calava. Mas a queda de Theresa May começou muito antes, quando tentou cavalgar a onda nacional-populista acusando os britânicos que se considerassem “cidadãos do mundo” de serem “cidadãos de nenhum lugar”. Esta aposta política pode ter parecido taticamente compensadora, mas — num país desenvolvido, com uma juventude cada vez mais educada e internacionalizada — constituiu um erro estratégico. O referendo tinha, em certa medida, criado a imagem de um eleitorado dividido entre as linhas anti-austeridade e pró-europeia. As eleições permitiram voltar a juntar essas duas linhas contra Theresa May, com Jeremy Corbyn defendendo vigorosamente a linha anti-austeridade, mas não hostilizando a linha pró-europeia, de forma a que os “cidadãos de nenhum lugar” pudessem também tirar a sua desforra e, através do voto trabalhista, meter um pau na engrenagem do Brexit mais extremista.”

(Imagem: Daily Mail Reporter)

França: a tática, a moral e a história

A política não é feita só, nem principalmente, de tática, mas de escolhas morais e históricas. Mas há quem só entenda os erros morais e históricos quando eles se revelam erros táticos. Os primeiros resultados das legislativas em França permitem revisitar esta verdade:

“À esquerda nunca pode ser indiferente de que lado da história se está. Estar contra a Europa para competir com a extrema-direita ou estar do lado da Europa para combater a extrema-direita não é a mesma coisa. No primeiro caso, opta-se por desistir do projeto europeu em nome de uma leitura do regresso da história à chave “nacional”. No segundo caso, faz-se o esforço de apresentar uma versão de esquerda daquilo que poderia ser um projeto europeu social e democrático e uma visão justa da globalização, se quisermos que a Europa e a globalização não sejam monopolizadas só pelo centro. As eleições francesas de ontem, dominadas por um Macron que afinal não é tão detestado como isso, e onde os socialistas foram arrasados e a dinâmica de Mélenchon se esvaziou, sugerem que em França estamos mesmo numa situação de monopólio do centro. Se a esquerda francesa quiser reconstruir-se para disputar a sério esse monopólio, uma boa ideia seria apresentar uma visão alternativa do que deseja para o projeto europeu, em vez de apostar só no suposto colapso da UE.”

Leiam o resto na crónica de hoje no Público

Não há opções boas para o “Brexit”

A crónica de hoje, escrita antes das urnas fecharem no Reino Unido, sobre um cenário que ficou mais provável após sabermos os resultados: o que acontece se houver Brexit sem acordo com a UE?

“Se o Reino Unido chegar a 30 de março de 2019 sem um acordo com a UE, tudo isto deixa de valer ao bater da badalada. Os camiões que tragam produtos até à fronteira terão de parar para ser fiscalizados. As peças que façam parte de linhas de montagem pan-europeias não serão entregues a tempo. Aviões de companhias britânicas que voem entre dois países da UE deixarão de ter base legal para o fazer. E, acima de tudo, milhões de cidadãos da UE no Reino Unido e britânicos na UE ficarão com as suas vidas viradas do avesso.” – No Público.

 

Um país macroeconomicamente aborrecido [texto integral]

| Do arquivo Público 31.05.2017 |

Contava-me há tempos um ex-correspondente de imprensa em Portugal durante os anos pós-revolucionários que um dia, quando ele estava à beira de terminar aqui o seu trabalho e abandonar o nosso país, o então Primeiro-ministro Mário Soares decidiu convidá-lo a ele e aos confrades da imprensa estrangeira para um almoço. E na altura do brinde, para surpresa de todos, não só Soares elogiou o correspondente de imprensa que partia como lhe disse: “ainda bem que se vai embora”. E acrescentou: “os correspondentes de imprensa gostam de estar onde há desgraças; a sua partida é sinal de que vamos passar a ser um país aborrecido”. Evidentemente, Portugal não iria deixar de ter problemas e os políticos como Mário Soares não iriam deixar de ter matéria com que se entreter. Mas, do ponto de vista da imprensa internacional, sem golpes e contra-golpes de estado, sem tanques nas ruas, sem estar à beira da guerra civil, Portugal perdia a graça. Pior para os correspondentes, melhor para os portugueses.

Ouvi esta história e contei-a a uns amigos aqui há um par de meses. E a primeira reação foi a seguinte: “não sei se sabes, mas o Wall Street Journal acabou de retirar o seu correspondente de Portugal”. Ou seja, um dos grandes jornais financeiros do mundo acha que Portugal deixou de ter interesse. Isto é interessante, mas para nós: não quer dizer que Portugal vá deixar de ter problemas económico-financeiros, mas quer dizer que Portugal, do ponto de vista do noticiário económico internacional, perdeu a graça. Passámos a ser um país macroeconomicamente aborrecido. Ainda bem.

A saída de um correspondente da imprensa internacional é, pois, um sinal dessa bem-vinda mudança de estatuto. Mas não é o único. Continuar a ler ‘Um país macroeconomicamente aborrecido [texto integral]’

A Brexitânia vai nua

White House in Washington, 27 January 2017 | EPA/Olivier Douliery / POOL

A crónica de hoje, sobre os insultos de Trump a Sadiq Khan, e o revelador silêncio de Theresa May.

“É aí que entra o silêncio, carregado de significado, de Theresa May. Por muito que me esforce não consigo imaginar outra situação em que a chefe de governo de um país se escusasse a defender o autarca da sua capital quando, após um ataque terrorista, este estivesse a ser atacado pelo líder de um estado estrangeiro. Não só porque a ausência de resposta resulta num enfraquecimento da autoridade pública no momento em que a população mais precisa dela, não só porque essa ausência representa uma falta ao dever de defender os poderes públicos do seu país, mas principalmente pelo que tudo isto nos diz sobre as qualidades morais da própria primeira-ministra. O silêncio, numa situação destas, é cobardia.”

O resto aqui.