Author Archive for Rui Tavares

O salto no escuro

Na Alemanha, os políticos entretêm-se a fazer declarações incendiárias sobre a saída da Grécia do euro. Isto não é só uma afronta à democracia helénica. É uma afronta a todas as outras democracias europeias, aos tratados da União.

A democracia funcionou na Grécia; os políticos não. Na Alemanha, os políticos continuam a funcionar impiedosamente sem sequer ter em consideração uma ideia da democracia. E isto não pode acabar bem.

Sim, as eleições gregas deram um resultado dificilmente conciliável; mas esse resultado foi um retrato dos próprios eleitores gregos. Cabe aos políticos, se animados ao menos por um pouco de espírito republicano ou patriótico, conseguir fazer qualquer coisa com o resultado que os eleitores lhes deram.

Entretanto, Continuar a ler ‘O salto no escuro’

Ainda falta muito?

O que se passa com esta crise, desde o seu início, é que toda ela é a manifestação das dores de parto de uma outra Europa. E, como talvez dissesse Gramsci, a velha Europa sufoca a nova de uma maneira que talvez não a deixe nascer.

Vai dizer-se hoje que o panorama político da Europa mudou. Mas que quer isso dizer?

Que significa, em França, a vitória de François Hollande? De início, e não é nada pouco, significa uma derrota de Sarkozy, e portanto uma machadada na figura política e quase-mítica a que se chamou Merkozy — o misto da chanceler alemã Merkel com o presidente francês Sarkozy. Mas seria ingénuo pensar que, por si só, isto pudesse mudar a política europeia. A própria realidade económica alemã, que tem beneficiado escandalosamente com as dificuldades dos outros países europeus, contribuiu para criar uma mentalidade teimosa, arrogante e soberba que não é exclusiva de Merkel: qualquer ideia alemã, por estúpida que seja, tem hoje direito ao “amén” europeu, mesmo que ninguém acredite no que diz; qualquer ideia não-alemã, por genial que seja, não passará pela barreira da incredulidade germânica. Não é possível governar a Europa desta maneira, mas não é possível ainda governá-la de outro modo. Continuar a ler ‘Ainda falta muito?’

O fanatismo cega

O sectarismo paga-se caro. Não há maneira de a esquerda aprender isso.

Há duas maneiras de ver as eleições gregas.

Uma é a normal: a direita não tem maioria. A esquerda também não. Outra é a destes tempos: só há dois partidos, o pró-troika (que não tem maioria) e o anti-troika (que também não tem maioria). Excluo destas contas os neonazis anti-alemães, uma espécie que só existe porque ainda não estava tudo inventado.

Antonis Samaras, chefe da Nova Democracia, principal partido pró-troika, demorou menos de um dia a descobrir que não poderia formar governo.

Agora chegou a vez de Alexis Tsipras, o chefe do principal partido anti-troika Continuar a ler ‘O fanatismo cega’

Escrito a 1º de Maio

Mas não foi hoje, 1º de Maio, em frente à caixa do Pingo Doce, que começámos a ser mercadoria. Claro, o governo vendeu-nos como mercadoria quando permitiu que estes patrões usassem o estado como se fosse deles

No século em que o 1º de Maio nasceu, o XIX, duas forças entrecruzadas, uma económica e a outra política, transformavam a sociedade. Na economia, essa força era a indústria, que dependia da criação de uma classe de milhões trabalhadores mais ou menos uniformizados para as suas fábricas, a que depois se chamou proletariado. Na política, com o fim do Antigo Regime, deu-se a descoberta que por debaixo dos grandes impérios europeus, ou fragmentadas em inúmeros feudos, existiam coisas a que se chamou nações.

Mas vinda de trás, do século XVIII, havia uma ideia simples — a de que as pessoas, os homens e as mulheres, não precisavam de uma tutela superior para guiar os seus passos e mereciam ter condições para determinar a sua própria vida. A essa ideia chamou-se depois “emancipação”.

A junção dessas duas forças poderosas e dessa ideia simples deu origem a uma realidade política muito mais criativa e paradoxal do que aquela que conheceríamos durante o século XX.

O 1º de Maio é um bom exemplo disso Continuar a ler ‘Escrito a 1º de Maio’

O aprendiz de feiticeiro

Sarkozy é um daqueles homens que, em vista de uma ideia má, consegue torná-la sempre numa ideia perigosa.

Quando os gregos pensaram em fazer um referendo ao seu segundo pacote de resgate, foi Nicolas Sarkozy, presidente da França, que subiu ao púlpito numa cimeira em Cannes e anunciou, com jeitos de gangster, que se os gregos quisessem democracia não teriam dinheiro.

E foi também ele que, aproveitando a ideia alemã de um novo tratado orçamental e uma objeção britânica irrelevante para o mesmo, forçou para que este tratado fosse feito fora da União, criando assim um precedente que pode voltar para nos atormentar. Não contente, Sarkozy queria esvaziar completamente as instituições comunitárias, pôr fora de jogo o Parlamento Europeu (no que teve um sucesso total) e a Comissão Europeia (no que teve um sucesso quase total); se fosse necessário, deveriam criar-se clones destas instituições para uso privado dos governos da eurozona, ou melhor, do diretório franco-alemão Continuar a ler ‘O aprendiz de feiticeiro’

Isto irá (Crónica de amanhã para o jornal Público)

Miguel Portas

Isto irá. Daqui a uma semana é 1º de maio. Ser-te-á prestada homenagem, quando já estivermos mais repostos. Os teus amigos farão outra coisa: festejarão o teu aniversário. 

Há quinze dias a crónica não saiu. Não fui capaz de a escrever. Eu tinha sofrido uma grande perda e não quis receber uma avalanche de mensagens. Recebi apenas algumas. Uma delas era do Miguel Portas: “internado em Antuérpia”, dizia, desejava-me força naquele momento difícil. Nestas duas semanas, enviei-lhe duas mensagens, desejando-lhe força também, para os tratamentos. “Brigado”, respondeu ele, “isto irá”.

Hoje a crónica sai, não sei se em condições para ser lida, peço desculpa por isso. É 25 de abril, e o Miguel Portas morreu ontem. É duro. Daqui a uma semana será 1º de maio. O dia de anos do Miguel Portas, data que o enchia de vaidade. Isto é mais do que duro. É cruel.

Foi cruel morrer assim o Miguel Portas, tão dolorosamente. Mas ele não se zangou com a vida. Logo o Miguel, que tantas vezes na vida se zangou sem razão, não se zangou com a vida, mesmo quando teve toda a razão para isso. Mas ele só podia gostar muito da vida. Tanto que nunca acreditou que ela lhe pudesse fazer esta desfeita. Há mesmo pessoas em que o gostar muito da vida está na raiz de tudo.

Isto irá, Miguel Continuar a ler ‘Isto irá (Crónica de amanhã para o jornal Público)’

O Estado contra a solidariedade

A direita no poder quer que a sociedade se ocupe daquilo que o estado vai abandonando, mas apenas da forma que a própria direita deseja.

Há uns tempos, Pedro Passos Coelho, na esteira do inglês David Cameron, ainda ensaiou uns discursos daquilo a que chamava a “big society”, ou seja, uma “sociedade grande” que substituísse o estado nas suas funções de combate à pobreza, solidariedade social e redistribuição de riqueza. Em nenhum dos casos a ideia era para levar muito a sério, mas antes de eleição os políticos neoliberais têm tendência a inventar umas coisas para não parecerem frios e impiedosos. Esta necessidade não é nova: quem tiver memória lembrará que em 2000 George W. Bush foi eleito com uma campanha em torno do “conservadorismo compassivo”. Após a conveniência eleitoral, estas etiquetas voltam a ser guardadas, provavelmente na mesma pasta dos marqueteiros políticos de onde saíram.

Lembrei-me disto ao ver, na semana passada, as notícias sobre o despejo da Escola da Fontinha, no Porto. Como é sabido, a Escola da Fontinha era um espaço abandonado e degradado que foi ocupado, recuperado e dinamizado por um grupo de jovens, com apoio dos habitantes do bairro vizinho, que lá faziam desde aulas de recuperação a atividades artísticas. Não só a escola era abandonada como o bairro era também pobre e esquecido pelo Estado; a singularidade do projeto da Escola da Fontinha foi achar que uma escola abandonada poderia continuar a ser um local de aprendizagem para todos os envolvidos Continuar a ler ‘O Estado contra a solidariedade’

Há uma nova esquerda

A moleza, em época de crise, é tóxica. A inconsequência, em época de crise, é uma irresponsabilidade. A esquerda que não se revê na moleza nem na inconsequência precisa de uma infusão de esperança.

Uma vez fui a uma coisa chamada “Fórum de São Paulo”, que reúne as esquerdas da América Latina. Ouvi lá das melhores análises sobre a crise económica, curiosamente da autoria de políticos peruanos. Os brasileiros do Partido dos Trabalhadores eram pretendidos por toda a gente e, se é injusto dizer que tinham o rei na barriga, tinham pelo menos o Presidente Lula. Outros partidos tinham um discurso mais datado e simplista.A certa altura houve uma espécie de comício do Partido Comunista Cubano a que assisti por curiosidade. De repente ouço uma voz perguntar-me, num tom irónico e num castelhano de sotaque francês: “¿entonces, compañero, no aplaudes a los comunistas cubanos?” Era Jean-Luc Mélenchon, que agora é a grande surpresa nas eleições presidenciais francesas. Já tínhamos conversado muito nos dois dias anteriores e ele sabia muito bem que eu não aplaudiria o Partido Comunista Cubano, muito pelo contrário.

Ficámos amigos desde esse tempo. Mélenchon sentava-se umas filas antes de mim no Parlamento Europeu. Continuar a ler ‘Há uma nova esquerda’

Datas, somente datas

Titanic - 1912

Isto não são datas, somente datas. São memórias de como a história às vezes nos foge descontrolada.

O que me interessa no naufrágio do Titanic é o que aconteceu depois. Quando os passageiros embarcaram no grande paquete transatlântico, há pouco mais de cem anos, ainda havia um mundo, o da Europa Imperial, com mais do que apenas vestígios de Antigo Regime, e todo um otimismo industrial-colonialista para supostamente o levar à glória. Em 1912 havia um Império Austro-Húngaro; havia um Império Otomano; havia um czar na Rússia; havia um Império Alemão que era o herdeiro da Prússia Imperial. E não é só que “havia” este ou aquele império. Parecia que sempre tinham estado ali (embora não fosse verdade) e que ali continuavam para durar.
Na verdade, todo esse mundo estava à beira da falésia sem o imaginar. As ideias que o sustentavam tinham se esboroado já. O que não quer dizer que Continuar a ler ‘Datas, somente datas’

Três sílabas apenas

Depois de ter decidido acabar com o TGV, o governo de Pedro Passos Coelho anunciou que iria ser construída uma linha de alta velocidade para mercadorias, ligando Sines a Badajoz. Poucos dias bastaram para se descobrir que não haveria nada do outro lado da fronteira para levar os produtos portugueses até aos mercados europeus.

Depois de ter decidido que o Partido Socialista iria votar a favor do novo tratado do “bloco orçamental” (a razão: porque sim), António José Seguro anunciou a invenção de um “tratado complementar” sobre crescimento e emprego, a ser adotado pressurosamente pelos chefes de 25 países europeus para que sossegar no Largo do Rato as consciências dos socialistas portugueses.

Que hipóteses tem isto de acontecer? Continuar a ler ‘Três sílabas apenas’