Author Archive for Rui Tavares

Do nosso tempo [texto integral]

|Do arquivo Público 06.11.2017| Imaginemos que nasce um bebé. Como todos os que vieram antes e depois de hoje, ganha no primeiro dia “um bilhete de graça para andar no carrossel dos planetas”, como chamou uma poeta à vida na terra. Tudo o resto pode vir a ser muito diferente. Não só porque é possível que durante a sua geração o bilhete para andar no carrossel dos planetas permita, pela primeira vez, não estar sempre no mesmo planeta. Mas principalmente porque o planeta onde o bebé nasceu está a ficar cada vez mais pequeno.

Quando for crescendo, o miúdo vai ter todas as ideias dos miúdos que se maravilham com coisas. Que está por detrás da porta quando não estou a olhar? O que pensa o gato? E uma das essenciais: será que do outro lado do mundo, neste preciso momento, está um menino ou uma menina a pensar na mesma coisa em que eu estou a pensar? Será que esse irmão gémeo em pensamento consegue imaginar que eu estou aqui a pensar isto, sem saber que eu existo e como me chamo?

Mais tarde, o miúdo vai esquecer-se que teve esta ideia ou deixar de lhe atribuir grande importância. Sei que é assim, porque Continuar a ler ‘Do nosso tempo [texto integral]’

CR7 do ano 147

Hoje, no Público, em “o CR7 do ano 147” escrevo sobre Caio Apuleio Diocles, conhecido por “Lamecus” por causa da cidade da sua infância, o atleta mais bem pago da Antiguidade e de sempre. Por acaso, também “português”, ou melhor, da província romana da Lusitânia. O resto a ler aqui.

60 mil polacos numa marcha de extrema-direita. Porquê?

“Se diminuir a taxa de desemprego ou manter uma sociedade culturalmente homogénea fizesse desaparecer as razões para alguém ser de extrema-direita, haveria sessenta polacos, e não sessenta mil, em manifestações destas. Enquanto a esquerda e a direita democráticas não perceberam que ideias se combatem com ideias, e que ideias nacionalistas, racistas e xenófobas se combatem com ideias cosmopolitas, anti-racistas e universalistas, continuaremos a procurar desculpas para não agir enquanto o perigo que já mergulhou a Europa em várias tragédias continua a crescer à frente dos nossos olhos.”

O texto completo da minha crónica de hoje no Público pode ser lido aqui.

Dos privilégios de andar em Lisboa. #wp #Lisboa

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Sol de espera. #Blog

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O meu amigo catalão que arrisca 30 anos na prisão [texto integral]

|Do arquivo Público 02.11.2017| Sempre que ouço as últimas notícias sobre a questão catalã preocupo-me pelos catalães, por Espanha, pela nossa península e pela Europa. Mas há um nervoso miudinho também pelos amigos que tenho de ambos os lados e por temer que o vórtice que toma conta das sociedades nestes momentos os leve também a eles.

Esse momento chegou. Um dos oito ministros catalães agora presos em Madrid é um grande amigo dos tempos do Parlamento Europeu, Raul Romeva i Rueda, conselheiro de relações exteriores da Catalunha. Um amigo que se tinha retirado da política para regressar a Barcelona, estar mais tempo com os filhos, ajudar a mulher na sua livraria. Um amigo que nasceu em Madrid, não é nacionalista e muito menos anti-espanhol. O amigo com quem fundei o LEFT Caucus, fórum progressista no Parlamento Europeu, e que me chamou para ser membro da Comissão de Direitos das Mulheres, onde ele já era um dos poucos homens feministas quando isso era coisa rara naquela casa. Um ativista de terreno que trabalhou no programa de Educação para a Paz da UNESCO no pós-guerra da Bósnia e Herzegovina. Alguém que está “nisto” apenas pelas suas ideias, que defendeu sempre pacífica e democraticamente. E que agora se arrisca a uma pena de 30 anos de prisão pelo crime de rebelião — deixar de aceitar a tutela do estado espanhol — que aparentemente é muito pior para alguns políticos e juízes de Madrid do que os roubos e a corrupção do PP ou de membros da família real espanhola.

Outros dos presos terão também os seus percursos de vida, o seu orgulho e as suas ideias. Continuar a ler ‘O meu amigo catalão que arrisca 30 anos na prisão [texto integral]’

Valha-nos São Cucufate

“Ora, isto de termos dos orçamentos culturais mais baixos da UE não é uma fatalidade de um Portugal pobre e periférico. Por comparação, temos felizmente na Saúde ou na Educação orçamentos em linha com a média europeia. Ter a cultura suborçamentada, e dentro dela o património, é triste. Mas é uma escolha. Uma escolha política, de sucessivos governos e parlamentos, com maiorias de direita e de esquerda. Uma escolha política que nem com a “geringonça” foi invertida — a Cultura nunca foi linha vermelha de nenhuma negociação orçamental entre PS, BE e PCP. Provavelmente por razões justificadas, que as prioridades são mais que muitas. Mas essas escolhas implicam depois responsabilidades no debate público.

Ou seja: enquanto não se financiar a cultura capazmente, a discussão sobre a mercantilização dos monumentos está a ser feita no vazio, e com não pouca hipocrisia, porque os diretores de monumentos estão a cumprir exatamente com o que os nossos políticos (de direita e agora de esquerda) lhes pediram: fazer muito com pouco. E enquanto as ordens de governos e parlamentos sucessivos forem essas, vêmo-nos compelidos a rezar para que um jantar em Santa Engrácia chegue um dia para iluminar e vigiar São Cucufate. Sendo certo que o escândalo que se daria se São Cucufate fosse deixado ao abandono ou vandalizado seria, como todos imaginamos, enorme. Porém, como todos sabemos também, não daria para encher as redes — ou sequer para uma notícia breve numa página interior de um jornal nacional.”

Leiam o texto completo no Público de hoje.

O que a AR deve fazer para nunca esquecer o combate à violência doméstica [texto integral]

|Do arquivo Público 01.11.2017| Eis uma coisa que aprendi com o parlamento da Catalunha, e que não tem nada que ver com a questão da independência. No princípio do mês liguei-me ao sítio do Parlament para assistir em direto a uma declaração sobre os resultados do referendo de 1 de outubro. Para minha surpresa a presidente do parlamento, Carme Forcadell, iniciou a sessão dando informações atualizadas sobre o estado de duas mulheres vítimas de violência doméstica, uma das quais tinha falecido. De seguida, atualizou os números de vítimas mortais de violência doméstica na Catalunha. E só depois deu a palavra ao presidente da Generalitat para que se pronunciasse sobre o assunto do momento. Nem a esperada (e logo suspensa) declaração de independência alterou o dever de memória perante as vítimas da violência doméstica.

Aquele ato — que presumo pouca gente tenha visto — foi um soco no estômago. Não sei se é uma obrigação regimental do parlamento catalão. Mas sei qual é a intenção do ato: obrigar os legisladores a encararem a realidade brutal da violência doméstica. Obrigar os representantes dos cidadãos a nunca esquecerem as vítimas. Obrigar a instituição máxima de uma democracia a nunca retirar o combate a este crime do topo das suas obrigações. Isto vale para o Parlamento da Catalunha como vale para qualquer outro parlamento, seja ele autonómico ou nacional. E eu defendo que deve valer para o Parlamento português.

Portugal não é o único país no qual a cultura adquirida desculpabiliza, Continuar a ler ‘O que a AR deve fazer para nunca esquecer o combate à violência doméstica [texto integral]’

Portugal hoje: patriotismo de teclado

A minha crónica de hoje no Público.

“Querem fazer do Panteão sacrossanto? Muito bem. Então lembrem-se que este é o país cuja Assembleia da República aprovou a trasladação de Eusébio para o Panteão um ano após o seu falecimento, mas que ainda não conseguiu para lá levar Aristides de Sousa Mendes quase oitenta anos depois de ele ter salvado milhares de vidas na IIª Guerra Mundial. Mais: este é o país no qual, se acontecesse a desventura de falecer Cristiano Ronaldo, a AR teria em toda a coerência de levar o CR7 para o Panteão ainda antes de lá pôr um “justo entre as nações” como Aristides. E repetir-se-ia para muitos dos escandalizados de hoje o aplauso geral com que não falharam ontem.
Querem respeitar o simbolismo dos monumentos nacionais? Muito bem. Reparem então, de cada vez que passarem pela Praça do Comércio, espaço central da nossa simbólica de Estado, que a República mais visível que lá encontrarão é a República… da Cerveja. Reparem que um pedaço da mesma praça está ocupado por uma coisa chamada o “WC mais sexy do mundo”, concessionado para permanente propaganda de uma marca de papel higiénico (é ao lado do Ministério das Finanças; paga-se 50 cêntimos para usar os urinóis e passam fatura com número de contribuinte, portanto deve estar tudo certo). Isto nunca escandalizou ninguém em Portugal. Perguntem-se se o mesmo aconteceria na Praça de São Pedro, no Louvre ou no Kremlin.”

O que a AR deve fazer para nunca esquecer o combate à violência doméstica.

“Dir-se-á que abrir cada sessão plenária da AR com a informação atualizada dos crimes de violência doméstica será uma estratégia de choque. Dir-se-á que lembrar as mulheres assassinadas antes de cada debate quinzenal com o primeiro-ministro será um gesto brutal. Sim, será brutal. Será também necessário.
Enquanto a cultura predominante — até no judiciário — continua a ser a de afastar o problema da vista, enquanto até um ex-ministro da cultura é condenado — com pena suspensa — por violência doméstica, o país precisará de reforçar as formas de encarar a sua realidade. O país político, representado pelo parlamento e o governo, não poderão mais esquecer a sua obrigação de agir. O estado não poderá mais desviar o olhar de todas as mulheres agredidas e assassinadas em casos de violência doméstica em Portugal.”

Podem ler o texto completo no Público de hoje.