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Quero lá saber das expectativas

No diário El Mundo: “Portugal no es una provincia de España — enfatizó Manuela Ferreira Leite, exaltada, en el debate”.

A diferença entre um debate e o governo é que no debate é preciso ganhar às expectativas. No governo é preciso ganhar à realidade. A diferença entre uma coisa e outra é que, no primeiro caso, basta ser menos mau do que esperavam de nós. No segundo caso é preciso ser o melhor possível.

(Na verdade, ninguém ganha à realidade. Mas é preciso tentar sempre.)

A realidade, para Portugal, não é favorável. Um país pequeno e periférico ou quase, com mais tempo de autoritarismo do que de liberdade, mais tempo de ignorância do que de conhecimento. Ganhar à realidade, no nosso caso, significa fazer das fraquezas forças; onde há pequenez criar cosmopolitismo, onde há prepotência exigir democracia, onde há desvantagens naturais inventar possibilidades alternativas. Ganhar à realidade significa, pelo menos, fazer por isso.

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Mau para a imprensa, mau para a democracia

Já existe em Portugal uma barreira demasiado grande à entrada dos cidadãos na causa pública. Ela foi erguida pela opacidade dos aparelhos dos partidos, mas também por preconceitos larvares

Aqui há uns anos dei-me pela primeira vez conta da existência de um professor universitário que comentava nas televisões a Guerra do Iraque. O seu nome era Azeredo Lopes. Eu habituei-me a ouvi-lo com atenção porque as suas opiniões me pareciam interessantes e ponderadas. Admito que outros espectadores fizessem o mesmo.

Mais tarde, o mesmo professor Azeredo Lopes foi nomeado presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). Poderia dizer-se que o foi por causa da sua notoriedade como comentador televisivo? Talvez, na medida em que se ele fosse um completo desconhecido ninguém se lembraria dele. Mas por outro lado, a notoriedade dele não nasceu do nada: veio das opiniões que ele emitia, da forma bem articulada como o fazia e dos anos de estudo em que elas se alicerçavam.

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A sangue frio

Pensei que as eleições europeias tivessem bastado para se aprender esta lição: uma campanha eleitoral, por mais acalorados que pareçam estar os seus principais participantes, é um desporto que se destina a ser ganho pelos animais da sangue-frio.

Uma das piadas que prefiro é tão volátil que mesmo quando vista sob a forma original — um cartune que encontrei por acaso há uns anos — nem sempre consegue fazer despertar um breve sorriso. Mas eu afeiçoei-me a essa piada e, apesar de nunca ter tido sucesso, persisto em contá-la, em várias ocasiões e até línguas, sem mímica ou com mímica, tentando ou não descrever o desenho que a acompanhava. Algumas pessoas reagem quando eu a conto, mas é só por pena, ao verem o meu esforço. E é essa piada sem graça, que funciona mal sob desenho e não funciona nunca quando contada oralmente, que eu vou tentar agora reproduzir aqui por escrito. É uma estreia mundial; preparem-se.

A coisa é assim. Um crocodilo está sentado no banco dos réus de um tribunal (sim! um crocodilo no banco dos réus) sem trair qualquer arrependimento ou emoção no rosto, ou focinho. O advogado de acusação ataca-o por um qualquer crime hediondo cometido pelo crocodilo quando é interrompido pelo advogado de defesa, que lança uma objecção. “É claro que foi a sangue-frio, seu idiota!” grita o advogado de defesa, “Não vês que é um réptil?”.

Não é hilariante? Um réptil! A sangue-frio! Ah ah.

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Quinze anos

Há uma competição consciente pelo termo “esquerda” no plano partidário, que desembocou neste fim-de-semana com notícias sobre incursões à esquerda para a composição das listas de deputados.

Na campanha de 1995 contei o número de vezes em que ouvi Guterres pronunciar a palavra “esquerda”. No debates com Fernando Nogueira ocorreu uma vez, uma única. Pode ser que em comícios tenha acontecido outra vez.

Quinze anos depois José Sócrates apresenta recorrentemente o PS como “grande partido da Esquerda” moderna, ou democrática, ou progressista, conforme a ocasião. Há uma competição consciente pelo termo “esquerda” no plano partidário, que desembocou neste fim-de-semana com notícias sobre incursões à esquerda para a composição das listas de deputados.

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Conflito e conteúdo

Nunca se ouviu um político dizer, “sabem que mais? eu até gostaria de ganhar; mas na verdade acho que o país se sairá bem se o meu adversário me derrotar”. Nenhuma campanha eleitoral permitiria isso, é claro.

Todos nós somos mais complexos se tomados individualmente do que em interacção com os outros. Quer dizer que as nossas ideias são mais vagas, mais confusas e menos concretas se pensamos despreocupadamente do que quando nos colocamos em conflito. Em conflito, de repente, já todos nós somos certezas, vontades inequívocas e dogmas. Basta haver uma discussão para nos revelarmos assim.

Se nos derem um adversário, nós poderemos até passar a querer o cargo que nunca quisemos, a missão desinteressante, a honraria que na verdade nunca nos disse grande coisa. É o simples facto de estarmos em competição nos faz ir à luta como se aquela fosse a coisa mais importante da nossa vida. Quando conquistamos o que há a conquistar sentimos um certo vazio cá dentro e dizemos: “será que desejei isto? será que faz uma grande diferença tê-lo conquistado?” Mas enquanto queremos a mesma coisa que o nosso adversário, o que precisamos de dizer é “ele e eu não poderíamos ser mais diferentes”.

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Questões prementes

Se queremos que a democracia funcione — e não vejo outra forma, apesar dos cínicos — o debate público pode ser hiperbólico, pode ser agressivo, pode (deve até) ser irritante. Pode ser tudo; só não pode é deixar de ter conteúdo.

Tenho há tempos pensada uma crónica sobre a política e o comentário político mas tem demasiados palavrões para poder ser impressa na última página do público.

Essa crónica partiria de um desabafo, tido ao telefone com um amigo, no qual tentei descrever a minha reacção à espiral regressiva a que está sujeito o debate político-mediático. A coisa funciona assim: espera-se que um político diga um disparate qualquer; depois vai perguntar-se a todos os outros políticos o que acharam, na esperança de que eles venham a dizer mais disparates sobre o disparate do outro. Provavelmente regressa-se ao primeiro político, ou ao partido dele, para que diga mais disparates, cada vez mais destemperados, sobre os disparates que os outros disseram sobre o primeiro disparate. Deixa-se passar umas horas e chega a vez dos comentadores, os quais é suposto que digam uns disparates sobre aquilo tudo, de preferência aos berros e falando todos ao mesmo tempo.

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Cinco anos de oposição

Sarkozy comporta-se como se comportaram os líderes franceses, desde De Gaulle a Luís XIV, passando por Bonaparte: para ele, o tesouro nacional é para ser usado em função da magnificência — muito elástica — do Grande Líder. Para os alemães como Angela Merkel, a memória de um grande trauma económico não é a Grande Depressão, mas a hiperinflação que destruiu a República de Weimar, e durante a qual o Banco Central alemão chegou a ter de imprimir notas de 100 biliões de marcos.

Estrasburgo. É a primeira vez que estou nesta cidade, ainda não posso dizer que a conheço, não tenho cor local para emprestar à crónica. O nome não ajuda. Ou melhor, ajuda até demais: significa “cidade das estradas”, poderia escrever-se “cidade das encruzilhadas”, o que teria dado um bom título e permitiria uma série de figuras de estilo excessivamente fáceis sobre o lugar e os dilemas do futuro.

O problema é que a crónica que tenho em mente é isto mesmo. Numa cidade que já foi alemã, francesa, e depois alemã e francesa outra vez, que se dane a previsibilidade, não posso senão escrever sobre a França e a Alemanha.

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Três saídas

Perante uma crise, nós partimos sempre da ilusão de que há uma normalidade e que, depois da crise passar, voltaremos ao “normal”. No entanto, esquecemo-nos de que se uma crise for suficientemente forte (como esta), pode até mudar aquilo que se entende por “normal”.

Vamos descrever três saídas hipotéticas para a crise, e ao mesmo tempo pensar um bocadinho no que elas querem dizer para Portugal.

A primeira é a “saída” de que políticos e economistas convencionais vêm falando de vez em quando. Há uma razão para os anúncios do “fim da crise” soarem repetidos, ambíguos e, passado pouco tempo, a falso alarme. É que nesta alegada saída da crise não há exactamente saída nenhuma, muito menos bem demarcada e notória, que marque o momento em que transitámos entre a crise e a pós-crise. O que se passa é que a queda desembestada em que estávamos se pode ter desacelerado um pouco. Esta “saída” da crise não é pois saída: é antes um suspiro de alívio por nos termos “livrado do pior”. E se o “pior” for medido por cenários como os da Islândia ou da Estónia, ou da Argentina de há uns anos, ou dos EUA nos anos 30, o suspiro é até justificado.

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O que fazer à informação?

O problema essencial da civilização humana, durante séculos de história, foi o da escassez de informação. Havia enormes buracos naquilo que nos faltava saber; havia até continentes inteiros de que desconhecíamos. O nosso problema essencial agora continua a ser o da informação, mas de outra forma tão intratável que chega a ser exasperante. Porque o primeiro problema é sequer identificar qual é o problema.

Antes, como disse, era fácil concluir que o problema era informação a menos. Hoje chegamos muitas vezes a afirmar que o nosso problema é informação a mais. Não há quem não tenha sentido o bloqueio mental que provoca a sobrecarga de informação. Sobre qualquer assunto, sobre milhares de assuntos, há demasiada coisa para ver, demasiada coisa para ler — e enquanto o fazemos estamos a perder tudo o que há para ler e para ver nos outros milhares de assuntos. Será que é esse o nosso principal problema? Seria importante sabê-lo: se a sobrecarga de informação é o nosso problema fundamental, isso significaria uma enorme ruptura com o resto da história humana, e implicaria a criação de estratégias para lidar com o novo problema.

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O fim de um mito

Aqueles a quem os deuses querem destruir tratam primeiro de enlouquecer. E é de loucura que estamos a falar: só em puro desespero podem estes executivos alardear assim a própria incompetência.

Esta crónica começa pelo álibi da incompetência.

Vi na imprensa económica as alegações dos cinco arguidos do caso BCP sobre a criação de empresas fictícias, com sede em paraísos fiscais, para (entre outras coisas que podem ser crime) comprarem acções do próprio banco. O ex-presidente do banco não sabia quem tinha criado as tais empresas off-shore, parece que dezassete. Só poderia ter sido obra de algum subordinado que não lhe tivesse dado conta do facto. O ex-vice-presidente dizia que nunca tal coisa sem informar o presidente. Outro alto-responsável dizia que só tarde demais se tinha dado conta do caso, e por aí adiante. Uns sugeriam que as empresas só poderiam ter sido criadas por alguém abaixo deles, e outros aventavam que elas só poderiam ter sido criadas por alguém acima deles. Mas nenhum, que me lembre, excluía a hipótese de que elas tivessem aparecido nas Ilhas Caimão por imaculada concepção.
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