Arquivo mensal para Outubro, 2012

Falhas sísmicas

Uma das notícias mais perturbadoras de um tempo de notícias perturbadoras foi a condenação de seis cientistas italianos, e um funcionário público, a seis anos de prisão por “homicídio multiplo”. O crime dos cientistas foi, supostamente, terem falhado em avisar as populações para os riscos de um possível sismo na região italiana de L’Aquila que, em abril de 2009, matou cerca de 300 pessoas.

Lembro-me de ter lido na época uma excelente reportagem da revista italiana L’Europeo que fazia o historial dos sismos italianos na nossa geração. O ciclo era sempre o mesmo: Continuar a ler ‘Falhas sísmicas’

Contra o OE2013

Hoje foi o primeiro dia de discussão na Assembleia da República do Orçamento de Estado para 2013. Aproveito para deixar aqui a petição que o Congresso Democrático das Alternativas dirigiu aos deputados na AR e ao Presidente da República, em que pede o chumbo deste orçamento irrealista e cruel.

Esta iniciativa contará com todo o meu apoio. Se quiserem assinar a petição, por favor cliquem no link abaixo:

O fim não é o fim

Manuel António Pina
(Foto: crédito não encontrado)

Manuel António Pina escrevia bem e sabia muitas coisas e era bom amigo, todos o dizem, mas o que impressiona é que era sábio de uma maneira que às vezes parece que já não há muito no nosso tempo.

Leio que um filósofo, adaptando o argumento de Copérnico sobre a posição da nossa espécie no universo, chegou a um cálculo sobre o que já vivemos e sobre aquilo que nos resta viver. Garantem-me que o princípio está tecnicamente correto. A conclusão é a de que vivemos um pouco mais de cem mil anos e que nos resta viver um pouco menos de cem mil anos. Como no título do primeiro livro de poesia de Manuel António Pina: “Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde”. Continuar a ler ‘O fim não é o fim’

Prémio Sakharov 2012

Nasrin Sotoudeh é uma advogada iraniana conhecida pela defesa dos prisioneiros políticos no seu país – até ela própria ter se tornado numa prisioneira política. Jafar Panahi é um cineasta iraniano, premiado em Cannes, que foi condenado a prisão domiciliária e proibido de filmar.  A ambos o Parlamento Europeu decidiu atribuir o Prémio Sakharov numa escolha  que reconhece e valoriza a luta de toda a sociedade civil iraniana. Enquanto um dos coordenadores do parlamento para este prémio, apoiei e participei ativamente neste processo de escolha. O  Prémio Sakharov 2012 foi concedido por unanimidade e pela primeira vez foi atribuído a personalidades do Irão.

Plano de Ação Global Zero

Esta semana apoiei no Parlamento Europeu o Plano de Ação Global Zero para a eliminação das armas nucleares em todo o mundo até 2030. Trata-se da Declaração Escrita 026/2012, que será aprovada como resolução se tiver metade das assinaturas dos deputados europeus.

Esta é uma importante campanha cuja proposta incentiva os Estados-Membros a tomarem medidas que façam avançar o Plano de Ação Global Zero. Propõe por exemplo aos governos da Rússia e dos Estados Unidos a redução do seu arsenal para 1000 armas nucleares cada um, e a remoção das suas armas nucleares táticas do continente europeu. O Plano de Ação Global Zero encoraja também os países que são membros oficiais e não oficiais do “clube nuclear” a realizarem negociações multilaterais sobre a gradual destruição de todas as armas nucleares existentes no mundo.

Os cidadãos europeus podem também assinar a declaração online em http://unitedforzero.org/ e incentivar os eurodeputados a assinarem esta declaração, aprovando desta maneira uma resolução do Parlamento Europeu a este respeito.

E depois do adeus?

O nosso grande problema é o problema político. É na política que está a nossa grande falta de alternativas.

Este governo vive numa realidade inviável, na qual propõe caminhos inviáveis, que darão resultados inviáveis. Em tempos pedia-se alternativas a esta austeridade que reforça as desigualdades. A questão agora já é outra: de que é isto alternativa? Isto não serve para nada. Nada justifica insistir-se num caminho errado em que ninguém no país acredita.

Este governo, na verdade, acabou em setembro, quando ficou exposta a sua pelo empobrecimento competitivo. Falhada a via da TSU para baixar os salários, o governo optou pelo assalto fiscal para pagar o défice. Entre uma coisa e outra, “tudo se desmancha e o centro não aguenta”, como diz um poema — não aguenta o centro ideológico do governo, nem o seu centro político, nem o Centro Democrático e Social.

O governo acabou, pois, e a única questão é como removê-lo.

E aí Portugal regressa ao seu grande problema. Continuar a ler ‘E depois do adeus?’

O prémio de consolação

Europa em 1914
(Ilustração de Keith Thompson na obra de ficção Leviathan, escrita por Scott Westerfeld)

Se houver progresso humano — uma questão em aberto — a ascensão do resto do mundo é a melhor notícia para a Europa. E, na verdade, o resto do mundo não quer a desgraça da Europa.

A União Europeia tem uma população de cerca de 500 milhões de cidadãos, num continente densamente povoado que quase pode ser considerado uma mera península da grande massa eurasiática. É menos de metade da população da Índia ou da China, mas é o dobro da do Brasil ou um terço mais do que a população dos Estados Unidos da América. A economia da União Europeia, tomada no seu conjunto, é a maior ou segunda maior do mundo, em comparação com a dos Estados Unidos, embora ambas possam vir a ser ultrapassadas pela China nas próximas décadas.

A Europa tem outra grande vantagem por ser uma península muito recortada: nenhuma cidade está muito longe de um porto marítimo. Estas cidades são grandes nós da economia global. Continuar a ler ‘O prémio de consolação’

Estúpida europa

Estúpida Europa: se tivesses emitido eurobonds não seriam agora os alemães a pagar as dívidas dos gregos, mas os países emergentes a pagarem-te a reconversão da tua economia. A União teria ganho um lugar no mundo. Em vez disso, a desunião regressou ao continente.

E, décadas depois, a visita da Chanceler da Alemanha a Atenas é de novo a visita de uma Europa a outra, divididas por uma fronteira mental. Os nomes dos lugares mudaram, a linha mudou também. Antes a cortina de ferro dividia a Europa em duas metades pela longitude: Leste de um lado e Oeste do outro. Agora as duas metades estão divididas pela latitude, entre Norte e Sul, por uma cortina da dívida.

Como foi suceder que uma visita de uma chanceler alemã a um país parceiro da União, coisa que ainda há poucos anos seria banal, sonolenta e quase indigna de menção, se tenha agora tornado numa questão de polícia de choque e gás lacrimogéneo, com a chanceler escondendo-se dos gregos e alguns gregos vestindo-se de nazis?

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E por que não muito melhor?

E é sempre possível, como diziam os antigos, que o pensamento leve à palavra, a palavra à persuasão, e a persuasão à boa vida e o bom governo. É bom que voltemos a aprender essa verdade.

Há anos que o debate se faz em torno destes pólos: há os que dizem que temos que ficar muito pior, e os que querem resistir a isso para não ficarmos tão mal. Fala-se em “resgatar” do desastre ou em “travar” o desastre, no máximo em “inverter” a tendência. A próxima geração, diz-se, vai viver pior do que esta — ou luta-se para que não perca ao menos as conquistas da geração anterior. Mas por que não se diz, nem se imagina sequer, que ela possa viver muito melhor?

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O envelope

Dizer “este governo deve cair” sem dizer como chegar a outro governo, infelizmente, não representa nada de novo.

Lembram-se da primeira vez que receberam um daqueles envelopes que dizem “você é o vencedor — venha receber o seu prémio!”, e o prémio (que nunca se chega a receber) pode ser um carro, ou um milhão de euros, ou uma torradeira? É difícil recuperar a memória de ilusão e imediata desilusão desse momento, porque a maior parte de nós já não leva a sério quando recebe o envelope. Já fomos desiludidos demasiadas vezes. Ainda assim, os envelopes continuam a chegar, e temos vontade de acreditar.

Para um português de certo tipo, como eu, o equivalente é a promessa de unidade da esquerda. Há quarenta anos que nem nos sai uma torradeira, mas de cada vez que recebemos o envelope ainda nos enchemos de esperanças.

Foi isso que aconteceu no passado domingo com a notícia de que o PCP e o Bloco se iriam “unir” Continuar a ler ‘O envelope’