Arquivo mensal para July, 2012

Uma refundação democrática? (3)

A minha proposta é que Portugal tome uma decisão semelhante, e inédita na UE, e passe a eleger o seu chefe de REPER (ou uma equipa de conselheiros que seriam os nossos “senadores” no Conselho Europeu).

De cinco em cinco anos, os portugueses votam como os outros europeus para eleger os seus deputados no Parlamento Europeu. São agora 22 eleitos e é possível que muitos cidadãos saibam o nome de pelo menos dois ou três dos seus “eurodeputados”. Sou capaz de arriscar, porém, que mais de 99% dos portugueses desconhece o nome do chefe da missão portuguesa no Conselho Europeu, ao qual compete a representação de Portugal e do qual se poderia argumentar que tem mais poder do que os 22 eurodeputados portugueses juntos. No fim desta crónica dir-vos-ei o nome. Mas antes, um pouco de história.

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Utøpya

Utøya

Aqueles jovens estavam ali por ideias que partilhavam — as da esquerda, e em particular as do socialismo, do trabalhismo e da social-democracia de estirpe escandinava. Vale a pena, um ano após a morte deles, lembrar que ideias são essas.

Passou ontem um ano sobre o massacre de jovens na ilha norueguesa de Utøya. Falou-se muito sobre os motivos do assassino, sobre se este era louco ou um terrorista, ou ambas as coisas, e quais eram as raízes da sua ideologia.

Falou-se pouco sobre quais eram as crenças e os ideias daqueles que morreram. Uma grande injustiça, também isto. Os jovens que ali estavam não deixaram “compêndios” de milhares de páginas com as suas elucubrações, nem pegaram em armas para deixar dezenas de cadáveres que lhes servissem de propaganda. Mas o horror perante a ideologia do assassino não pode deixar as vítimas condenadas ao silêncio, como meros sujeitos passivos. Continuar a ler ‘Utøpya’

Uma refundação democrática? (2)

Eis-nos, neste breve exemplo, perante uma das disfuncionalidades da democracia portuguesa. Podemos, é claro, escolher livremente, desde que escolhamos entre aquilo que os aparelhos partidários já mastigaram.

 Como evitar que a nossa democracia sofra o mesmo destino das experiências anteriores — o liberalismo e a Iª República, que soçobraram no clientelismo e na partidocracia — é a pergunta essencial a que teremos de dar resposta nos nossos dias. Começo hoje com um exemplo local, e nas próximas crónicas tentarei demonstrar como se pode refundar a democracia portuguesa a nível nacional e europeu.

A cidade do Porto, segunda maior do país, já foi um grande laboratório político para a nação. No princípio do século XIX, o liberalismo entrou no continente pelo Porto. No fim do século XIX a República poderia ter feito o mesmo caso a revolta republicana do 31 de janeiro de 1891 tivesse tido sucesso.

No próximo ano, o atual presidente da cidade abandonará a Câmara Municipal por ter atingido o máximo de mandatos; a acreditar no que dizem os jornais, as coisas encaminham-se para que ele seja substituído pelo presidente de Gaia, rival do mesmo partido.

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Uma refundação democrática? (1)

A nossa democracia começou com um apelo, no seu primeiro dia, a que soubéssemos “fazer de nós mesmos um exemplo”, e derrapa hoje no que poderíamos chamar de “relvismo”.

Uma das maravilhas da internet em português foi a disponibilização, pelo Portal da História (www.arqnet.pt), do Dicionário Histórico “Portugal”, que fora publicado entre 1904 e 1915 e que contém inúmeras biografias de políticos portugueses dos século XIX, muitas das quais, aparentemente, foram depois aproveitadas para a wikipédia portuguesa.

Com o auxílio destas fontes (e, já agora, também da página de José Adelino Maltez, http://maltez.info/respublica/), qualquer leitor pode fazer uma descida pela política do século XIX português. O resultado é pouco menos que inquietante Continuar a ler ‘Uma refundação democrática? (1)’

A mãe de todas as fraudes

Foi descoberto que o Barclays anda há anos a manipular a LIBOR e tentou também, não se sabe se com sucesso, manipular a EURIBOR. Outros dois bancos, o suíço UBS e o escocês RBS, também foram apanhados com a boca na botija por uma agência federal dos EUA.

Todos os dias, às onze da manhã, dezasseis bancos recebem uma chamada telefónica com uma pergunta: a que taxa fariam um empréstimo em diferentes prazos — diário, trimestral, semestral, etc.? O autor da chamada é uma instituição chamada British Banking Association, que depois de obter as respostas, procede da seguinte forma: primeiro exclui os quatro valores mais baixos, depois exclui os quatro valores mais altos, e finalmente, calcula a média dos oito valores intermédios. O resultado final é o valor da oferta de taxas de juros na praça londrina, ou LIBOR (London Interbank Offer Rate). Uma hora depois, um processo semelhante mas com recurso a 43 bancos, dá origem à sua congénere europeia, a EURIBOR.

O que é que isto tem a ver consigo? Tudo Continuar a ler ‘A mãe de todas as fraudes’

O relvismo

Talvez aqui estejamos vivendo num buraco negro da democracia: e, nesse caso, quanto mais certeza se tem mais indemissionável é o ministro.

 Foi só há duas semaninhas que, comentando um dos casos Relvas — perdão, um dos casos dr. Relvas —, escrevi aqui para condenar o ministro as autoridades competentes precisavam sempre “de uma qualquer prova indesmentível que não aparecerá antes do bosão de Higgs assomar no CERN”. O mínimo que se pode dizer é que ao menos os físicos já fizeram o trabalho deles e o bosão de Higgs apareceu.

O que eu não sabia é que existe uma medição, por assim dizer, da “certeza” da prova. A descoberta do bosão tem uma certeza de “5 sigma”, o que vem a dar que ele é 99,9999% certo. De “1 sigma” para “5 sigma” a certeza vem aumentando.
Com o dr. Relvas, porém, esta escala não chega Continuar a ler ‘O relvismo’

Do contra ao como

Qualquer ação contra este estado de coisas não tem a vida fácil: encontrará como resposta o cinismo, a ridicularização e a hipocrisia, de forma assumida ou velada. É natural: há interesses instalados para que as coisas continuem como estão.

 Nos debates sobre a esquerda portuguesa é sempre hábito alguém fazer o historial de porque são tão difíceis as convergências, desde que as rivalidades dos nossos partidos se consolidaram, há mais de trinta anos atrás. Trinta anos! Isso quer dizer que já andamos nisto há mais tempo do que aqueles soldados japoneses, perdidos na selva, que não sabiam que a guerra tinha acabado — os últimos dois aguentaram 28 anos, na Ilha de Guam, e 29, nas Filipinas.

Na verdade a guerra acabou — e a direita ganhou. Continuar a ler ‘Do contra ao como’

Viver com o pecado

Para ser mais escandaloso, vai ser preciso pecar para continuar a viver. Só os mortos não pecam, — mas também não pagam dívidas.

No substrato cultural desta crise está a absurda noção de que a dívida é pecado, à qual não é alheio o facto de as palavras “dívida” e “culpa” serem apenas uma na língua alemã — Schuld — e de os países endividados serem tratados como Schuldensündern, ou seja, pecadores da dívida.

Esta é uma extraordinária inversão de há uns anos a esta parte. Nas décadas de 1980 e 1990 não só este fundo religioso estava completamente obliterado como a dívida era uma forma de participação na gloriosa aventura do mercado livre. Sem dívida não haveria capitalismo, dizia-se. Os estudantes foram convidados a endividar-se para terminarem os cursos, os adultos para investirem em si, os trabalhadores para sentirem menos o declínio dos seus salários, as famílias para comprar casas, os países para se tornarem mais competitivos, todos para fazerem parte da humanidade contemporânea onde vergonha era não ter cartão de crédito. No mundo pós-2008 redescobriu-se que a dívida é pecado e que os humanos devem sofrer por isso Continuar a ler ‘Viver com o pecado’