Arquivo mensal para March, 2012

Máquinas de matar

Precisamos nos próximos dias de atingir metade das assinaturas dos eurodeputados, e estamos ainda longe. Se concordar com esta causa, escreva para os deputados do parlamento europeu pedindo-lhes para se juntarem a nós — e pararem com estas máquinas de matar.

Muitos milhares de mortos e amputados depois, as minas-anti pessoais — bombas-armadilha enterradas debaixo do solo que explodem quando alguém pisa nelas — são hoje consideradas das armas mais cruéis, cobardes e criminosas. Mas houve certamente um tempo em que foram consideradas grandes achados para os exércitos e para os países em risco de invasão, pois permitiam defender uma fronteira de um exército mais poderoso sem grandes custos económicos — uma mina anti-pessoal custa meia-dúzia de euros — ou de pessoal, pois elas substituíam linhas defensivas constituídas por soldados. A partir do momento em que as minas anti-pessoais se generalizaram, contudo, ficou claro que muitas das suas vítimas eram civis, em particular crianças e mulheres, que terrenos agrícolas ficam inutilizáveis muito depois dos conflitos acabarem e que os custos de desminar os terrenos são muitos maiores — às vezes dez vezes mais por cada mina — do que os custos de armadilhar o terreno. Alguém deveria ter parado com as minas anti-pessoais antes de elas se terem tornado correntes.

Algo de muito semelhante se está a passar hoje com os drones, aviões sem piloto que são comandados automaticamente ou à distância e que podem dispôr de lançadores de mísseis ou de outras armas letais para conduzir ataques assassinos. Continuar a ler ‘Máquinas de matar’

Elegia pelo TGV

É às elites portuguesas que fica agora bem repudiar os investimentos em transportes. E há toda uma paleta de preconceitos para o justificar.

Regressando a casa, fiz no outro dia escala no aeroporto de Madrid. Não nos terminais modernos e espaçosos de que Barajas, como se chama o aeroporto, dispõe. O voo para Lisboa partia de um dos terminais mais distantes, quase uma espécie de armazéns para passageiros, só acessíveis por autocarro. À espera do avião uma ou duas centenas de portugueses com ar cansado, pasta de trabalho na mão, uns com pinta de quem veio às reuniões do escritório de advogados, outros com ar de quem fazia aquilo todas as semanas. À entrada, alguém disse: “bem, vamos lá apanhar o autocarro”. O “autocarro” era, bem entendido, o avião Madrid-Lisboa.

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Será possível resolver os problemas da união europeia numa folha A4?

A minha apresentação nas conferências TEDx.


Resta dizer que a resposta é: numa folha A4 não, mas em duas A5 sim.

Os desenhos e a produção da apresentação são do João Macdonald.

O que é um louco?

O Assassino Ameaçado - René Magritte (1898-1967)

A loucura não existe fora da sociedade nem se trata de uma forma binária, louco ou não-louco. Há uma gradação, há momentos e há tipos de loucura.

No Verão passado, quando o assassino Anders Breivik matou na Noruega mais de setenta pessoas, na sua maioria adolescentes, passei dois dias lendo o seu compêndio de mais de duas mil páginas com elucubrações contra o multiculturalismo, descrições da preparação do seu atentado e uma enxurrada de  recriminações aos muçulmanos, aos sociais-democratas e à esquerda em geral.

Desde então a opinião de que esse assassino era um louco acabou por se tornar dominante. Tanto quanto sei, foi até validada num primeiro momento pelo sistema judicial norueguês, o que gerou controvérsia e levar ao pedido de uma segunda avaliação psiquiátrica do assassino.

A sociedade procura uma resposta a essa pergunta — é louco ou não é louco — como se ela fosse o fim do assunto. E, no entanto, ela é só o início. Continuar a ler ‘O que é um louco?’

Austeridade é desperdício

Arriscamo-nos a perder a geração que mais esforço e dinheiro nos custou a formar, e na qual depositámos esperanças na modernização do país. Se isso acontecer, os efeitos da austeridade de 2012 ainda estarão convosco em 2022.

Os gregos vão para a Austrália, para os países do Golfo, para onde podem. Os portugueses, já sabemos, vão para o Brasil e para Angola. Se a depressão durar, ficarão por lá. Quantos deles o farão depende do tempo e da severidade da crise. A outra variável é a incapacidade do governo para contrariar o fenómeno; infelizmente, com este governo, isso já deixou de ser uma variável para passar a constante.
Paremos um pouco para pensar no que isso significa. Continuar a ler ‘Austeridade é desperdício’

O facilitismo do facilitismo

O dificultês é a conversa que estes governantes usam para ocultar que desistiram. Ou às vezes pior.

Há uns anos iniciou-se uma voga no ataque ao ensino público que andava sempre em torno da ideia de facilitismo; o grande sucesso dessa voga foi a criação de uma palavra nova, o eduquês, que seria uma linguagem burocrática complicada que ocultava o facilitismo.
Retoricamente é um dispositivo brilhante. O problema é que é  facilitista. E tal como no seu espelho, este discurso está encoberto por um tipo específico de linguagem.
Chamemos-lhe o “dificultês”. O dificultês é sucesso garantido. Nós bem gostaríamos de criar mais emprego jovem mas, dadas as dificuldades do país, o melhor é emigrar. Nós bem gostaríamos de fazer Continuar a ler ‘O facilitismo do facilitismo’

O Pintas e o Professor

 Se isto fosse a rua lá do bairro, Relvas seria o pintas, sempre excitadiço; Gaspar seria o professor Pardal, um bocado esquisito, cromo que ficou fechado em casa a ler, usando um sentido de humor que o pessoal não apanha bem, mas — no que importa — o gajo deve ser mesmo um ás, pá.

Nota Medeiros Ferreira o erro que cometeu Pedro Passos Coelho ao deixar concentrar a implementação de políticas económicas nas mãos do ministro das finanças: “Os fundos serão a única alavanca para o crescimento do PIB em Portugal nos próximos dois anos. A coincidência no mesmo ministro monetarista de duas metas diferenciadas — a do equilíbrio orçamental e a do crescimento económico — vai matar a necessária tensão entre propósitos da governação do país. A gestão dessa ponderação caberia a um verdadeiro primeiro-ministro”.

Isto é verdade: Continuar a ler ‘O Pintas e o Professor’

Não, ainda não acabou

Os líderes europeus saem agora das cimeiras para declarar que estão descansados e que a crise finalmente acabou. Não, não é verdade — e as condições estão criadas para que ela seja pior ainda.

Se ainda tivéssemos capacidade para o escândalo, isto deveria chegar. Num único dia de dezembro passado o Banco Central Europeu disponibilizou 500 mil milhões de euros em empréstimos para os bancos europeus. Isto é mais do que o que foi emprestado à Grécia, à Irlanda e a Portugal em dois anos. Num único dia de março, o Banco Central Europeu decidiu reforçar a dose e os bancos europeus não se fizeram rogados: de assentada, tomaram mais de 500 mil milhões de novos empréstimos. E quem não o faria? O juro era de um por cento. Aos países pedem-se juros cinco vezes maiores, e mais.

Como bem sabemos, um país que recebe um empréstimo é obrigado a tomar medidas de austeridade, quer elas funcionem quer não. Com os bancos, passa-se o contrário: o Banco Central Europeu esforça-se por deixar claro que aqueles empréstimos são sem condições, que os prazos de pagamento foram triplicados e que, para os obter, qualquer garantia serve. Continuar a ler ‘Não, ainda não acabou’

Como as coisas funcionam

Jornal Público com novo grafismo. (05 de Março de 2012)

Aquilo de que precisamos mais do que nunca, num jornal, é uma explicação de como as coisas funcionam. As pessoas já sabem das notícias, já ouviram os comentários, mas continuam a querer tentar entender como funcionam as coisas.

 O recém-falecido fundador da Apple, Steve Jobs, dizia sobre o design: “as pessoas, na sua maioria, cometem o erro de pensar que o design é aquilo que uma coisa parece. Mas o design não é só o que as coisas parecem. O design é como as coisas funcionam.”

Vamos usar o exemplo que o leitor tem agora nas mãos: o desenho deste jornal é hoje diferente. Mas um desenho diferente não é importante por si, mas porque permite coisas diferentes. Aquilo que lemos com os olhos — o desenho — é o que nos permite ler o mundo com a cabeça.

Para que serve um jornal? Continuar a ler ‘Como as coisas funcionam’

No dia das doenças raras

A maior parte dos medicamentos não custa milhares de euros a produzir. O que custa é pagar os preços que as grandes farmacêuticas se permitem exigir, por deterem monopólios que os estados lhes concederam (as patentes).

Em Portugal já toda a gente ouviu falar da doença dos pezinhos: uma doença rara, endémica em localidades costeiras do Norte (Póvoa do Varzim, Vila do Conde, Caxinas), que se manifesta em geral por volta dos vinte anos, e cujos primeiros sintomas são as dores nas pernas. A doença dos pezinhos, ou paramiloidose, vai degradando as suas vítimas até atingir o coração e os rins. A doença, a menos de um transplante de fígado, é fatal.

Estas são as más notícias. A boa notícia é que Continuar a ler ‘No dia das doenças raras’