Arquivo mensal para Fevereiro, 2012

As bruxas da desconfiança

Quando desenharam a moeda única, os pais e mães do euro poderiam ter escolhido fazer uma jangada. Mas olharam para o rio de águas calmas à sua frente e disseram “vamos só amarrar-nos a todos com uma corda e atravessar a vau”.

Num magistral estudo de “oito séculos de insanidade financeira” sugestivamente intitulado Desta Vez é Diferente — a expressão que nos deve deixar em sobressalto quando a ouvimos de alguém que vai fazer um negócio, pois é certo e sabido que quando se entra no convencimento de que nada vai dar errado porque “desta vez é diferente” o que acontece é que estamos ao virar de uma esquina para o colapso — os professores de economia Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, escrevendo logo a seguir ao colapso financeiro de 2008, têm a páginas 288 um curioso gráfico dos países que estão prestes a “diplomar-se”. E o que significa esse diplomar-se, para um país? Continuar a ler ‘As bruxas da desconfiança’

Um debate

Mario Monti - Primeiro-Ministro italiano

“Podemos permitir tudo menos que o euro se torne num instrumento de divisão entre europeus — expressões como «países centrais» e «países periféricos» são de recusar inteiramente”, disse Monti, lembrando que “a Alemanha e a França foram os primeiros responsáveis pelo desrespeito do Pacto de Estabilidade e Crescimento”

Há uma semana, a vinda ao Parlamento Europeu em Estrasburgo do Primeiro-Ministro italiano Mario Monti foi um momento inédito na construção de uma esfera democrática europeia e um momento importante no debate público sobre a crise que aflige a União Europeia.

Foi um momento inédito na integração democrática europeia porque, em geral, os chefes de governo que se dirigem ao Parlamento Europeu fazem-no apenas quando o seu país assume a Presidência do Conselho. A vinda de Mario Monti, um chefe de governo tecnocrático, marca a posição do Parlamento Europeu enquanto casa da democracia no  continente e lugar onde se deve fazer a discussão sobre a crise. Continuar a ler ‘Um debate’

Palavras estáticas e dinâmicas

As novas palavras da moda, em Bruxelas, são “solidez e solidariedade”.

Ver o carrossel de palavras que tem entretido os políticos desde que esta crise começou é revelador. Quase todos estiveram apaixonados por “austeridade”; fazia-os ser populares dizendo coisas que passavam por supostamente impopulares, e eles não resistiram ao seu charme. De cabeça perdida, fizeram tudo o que a austeridade queria. Meteram-se num buraco, e a nós com eles. Foi assim que começaram a ouvir os comentadores que diziam: “não pode ser só austeridade, é preciso falar também de crescimento”. E eles reuniram-se numa cimeira em Bruxelas, e fizeram a vontade aos comentadores: falaram de crescimento. E depois foram embora.

De forma que chegou a vez da solidez e da solidariedade. Ditas em inglês, como é da praxe, mas pensadas como se fossem de duas línguas diferentes. Continuar a ler ‘Palavras estáticas e dinâmicas’

Povos e circunstâncias

O Rapto de Europa – Gustave Moreau

Europa é nome de mulher. Mas, curiosamente, Europa não era europeia. Europa, a mulher por quem Zeus se encantou, era uma princesa fenícia, ou seja, da região do Líbano. O que significa que Europa era, na verdade, asiática. Além de mulher e estrangeira, Europa foi violada e sequestrada, e trazida para a ilha de Creta.

Foi desta história pré-moderna (que parece pós-moderna) que nasceu a ideia de Europa. Nasceu na Grécia, em grego, mas olhando o continente a partir de fora. Só assim poderia ser. Continuar a ler ‘Povos e circunstâncias’

Manifesto: SOMOS SOLIDÁRIOS COM O POVO DA GRÉCIA

Todos os dias nos chegam imagens e notícias da Grécia e do povo grego em luta contra o cortejo de sacrifícios que lhe tem sido imposto. É clara, naquele país, a crescente fractura entre os cidadãos e o poder político, em torno da invocada necessidade de cada vez maiores sacrifícios para que a dívida seja paga e o défice orçamental reduzido. Acentuam-se a tensão e a violência, tornando ainda mais difícil o diálogo indispensável à procura de soluções mais justas e partilhadas para a situação existente.

Avolumam-se o isolamento e a discriminação da Grécia, fortemente acentuados pelo discurso dominante dos principais dirigentes europeus e da comunicação social.

A preocupação doméstica em sublinhar que “não somos a Grécia” é, no mínimo, chocante no seio da União Europeia, onde mais se esperaria compreensão e solidariedade e, sobretudo, desajustada quando se sabe que a crise não é só grega mas europeia.

Face à agudização das tensões políticas e sociais na Grécia, os signatários apelam à solidariedade com o povo grego e à criação de condições que permitam respostas democráticas e consistentes de uma Europa solidária aos problemas sociais e aos direitos das pessoas.

Lisboa, 15 de Fevereiro de 2012

(assinaturas:)

Mário Soares

Mário Ruivo

Alfredo Caldeira

Ana Gomes

Ana Lúcia Amaral

Anselmo Borges

António de Almeida Santos

António Reis

Boaventura Sousa Santos

Diana Andringa

Eduardo Lourenço

Isabel Allegro

Isabel Moreira

D. Januário Torgal Ferreira

José Barata Moura

José Castro Caldas

José Manuel Pureza

José Manuel Tengarrinha

José Mattoso

José Medeiros Ferreira

José Reis

José Soeiro

Manuel Carvalho da Silva

Maria de Jesus Barroso Soares

Maria Eduarda Gonçalves

Paula Gil

Pedro Delgado Alves

Rui Tavares

Sandra Monteiro

Simonetta Luz Afonso

Vasco Lourenço

Vítor Ramalho

Sobre o vazio

Porque segredava Gaspar ao ministro alemão Schäuble? Porque precisou depois de negar a evidência do que disse, ao passo que o ministro alemão a negava de outra forma? Porque ficámos com a sensação de que naquela conversa-de-pé-de-orelha se discutiam coisas com mais importância e substância do que nas reuniões formais dos parlamentos e das cimeiras?

Resposta: porque a política na União Europeia assenta num vazio. Três vazios, aliás: de linguagem, de representação e de eficácia.

O governo da União Europeia não se chama governo, mas Comissão. A União Europeia tem leis, que têm força de lei, se aplicam como lei, e até têm precedência sobre as leis nacionais; todavia, não se chamam leis, mas sim diretivas e regulamentos. Essas leis são feitas num processo de “co-decisão” entre duas câmaras, mas há um problema: Continuar a ler ‘Sobre o vazio’

Crédulos e incrédulos

A linguagem vazia dos governantes, quando sentem necessidade de parecer que estão ao controle dos acontecimentos, acabou criando uma sociedade dividida entre crédulos de um lado e incrédulos do outro.

Nessa sociedade as reações são sempre as mesmas independentemente dos factos. Seja como for, o crédulo acredita em tudo o que lhe dizem, o incrédulo não acredita em nada. O crédulo acreditou que Saddam tinha armas de destruição em massa e deixou que se fizesse uma guerra no Iraque por causa disso; o incrédulo não acreditou nos massacres do Ruanda, da Jugoslávia (ou quaisquer outros) e ficaria de braços cruzados à espera que Khadafi chacinasse a cidade de Benghazi. Ambos podem ser, portanto, perigosos à sua maneira. Continuar a ler ‘Crédulos e incrédulos’

A voz das consoantes sem voz

Salvé, Vasco Graça Moura, insigne auctor que desafiaste o dictame do governo e reintroduziste a escripta antiga no teu Feudo Cultural de Belém! Povo português, imitai o exemplo deste Aristides Sousa Mendes das consoantes mudas, como lhe chamou o escriptor e traductor Jorge Palinhos. Salvai as sanctas letrinhas ameaçadas pela sanha accordatária.

Mas ficai alerta, portugueses! As consoantes mudas são muitas mais do que julgais! O “c” de actual e o “p” de óptimo são apenas os últimos sobreviventes de um extermínio secular que lhes moveram os medonhos modernizadores da escripta. Há que salvar agora estas pobres victimas, até à septima geração. Continuar a ler ‘A voz das consoantes sem voz’

ACTA: o que é e como chumbá-lo no Parlamento Europeu

É preciso votar contra o Acordo Comercial Anti-Contrafacção e impedir o fim da privacidade online.

Deixo aqui um PDF que desmonta o acordo e que mostra como ainda vamos todos a tempo de fazer com que não ele passe em sessão plenária no Parlamento Europeu: ANTI-ACTA.

E um vídeo que resume bem o problema:

Desengonçado

As derivas verdadeiramente graves começam sempre por coisas pequeninas, daquelas que se pergunta: “mas que importância tem isso”?

E assim com esta questão dos feriados. Que importância tem isso? Pergunta-se. Afinal, é só o 1º de dezembro e o cinco de outubro. Afinal, o 1º de dezembro significa apenas a auto-determinação e o cinco de outubro significa apenas a república. São apenas ideias.

E depois paramos para pensar que ideias são essas. Como pode um governo ignorar a auto-determinação sem a qual não seria governo e nem haveria país para governar? E como poderá algum presidente da república promulgar a supressão do dia da república sem a qual ele não existiria?

Quem não respeita essas coisas pequeninas que são as ideias — as ideias que nos unem, as ideias que lhes dão existência, mesmo que eles não saibam — não é certo que respeite o resto. Continuar a ler ‘Desengonçado’