Arquivo mensal para Dezembro, 2011

20?2

Por isso perguntamos: que trará 2012 para nós? E essa pergunta está errada: 2012 não nos traz nada, nós é que trouxemos até 2012 as coisas de que ele há-de ser feito.

No início do último livro de Haruki Murakami, 1Q84, há uma personagem com pressa para chegar a um compromisso com horário certo, mas que está dentro de um táxi num engarrafamento de uma autoestrada perto de Tóquio, e que decide seguir a indicação do taxista para sair do carro, escapar por uma escada de incêndio, e apanhar um comboio da linha suburbana que passa debaixo daquele viaduto. Antes de dar início ao seu plano de emergência, porém, o taxista avisa-a de que ela está prestes a fazer “uma coisa fora do comum” — “É verdade ou não? As pessoas normalmente não descem pelas saídas de emergência das autoestradas, especialmente as mulheres”. “E depois de se fazer uma coisa assim, o aspecto ordinário das coisas muda um pouco. As coisas vão parecer diferentes do que pareciam antes”.

A protagonista não liga, faz o que tem a fazer, segue a sua vida. Mas depois as coisas começam de facto a parecer diferentes. Continuar a ler ’20?2′

Uma aldeia

Ter uma aldeia é, no essencial, ser tido por uma aldeia. É ter sido feito pela aldeia e ter ficado propriedade dela, que ela reclamará sempre.

Uma música de António Variações ,“Olhei p’ra trás”, marca o fim do tempo em que ser português era, quase sempre, vir de uma aldeia.

É cantada na primeira pessoa e pode ser bem descrita como uma lista. A lista das coisas de que era feito Portugal até uns anos depois do fim do salazarismo.

Uma lista de conquistas: “Já fiz exame da quarta classe,  já fiz a comunhão solene. P’ra pensar na vida já tenho idade. Mãe, quero ir ganhar dinheiro; Pai, quero ir para a cidade.”

Uma lista de objetos: “mala nova na mão, feita de madeira e papelão”; Continuar a ler ‘Uma aldeia’

Bolsas 2.0

A resposta à primeira pergunta é muito simples: a bolsa teve uma taxa de sucesso de cem por cento. Mas — e como fazer para conseguir apoiar mais projetos? No ano passado escrevi que a resposta poderia ser a criação de uma “plataforma inter-bolsas”. Essa é a experiência para levar a cabo no próximo ano.

Há um ano e um mês, nesta coluna, expliquei que tínhamos conseguido, entre o meu contributo inicial e a crucial ajuda financeira de três amigos (Ricardo, Zé Diogo, Miguel) atribuir sete bolsas de estudo. Hoje gostaria de responder a duas perguntas que me fazem muitas vezes: como correu a coisa? que vai acontecer agora?

Há uns meses recebi uma carta de Itália. Tinha um postal do Museu dos Uffizi e um recorte do jornal L’Unità, fundado por Antonio Gramsci e antigo órgão oficial do Partido Comunista Italiano. No artigo aparecia uma foto onde estava eu, com ar encavacado, três dos quatro gatos fedorentos, e a Diana Ferreira, remetente da carta e estagiária no Museu dos Uffizi com uma das bolsas que nós inventámos. A Diana cumpriu o estágio e está agora a escrever um livro sobre monumentos e estilos artísticos.

A Isabel Duarte, bióloga, Continuar a ler ‘Bolsas 2.0’

“Até ao Ponto de Não-Retorno”

O ensaio publicado esta semana no Público sobre a cimeira de 9 de Dezembro último:

Até ao Ponto de Não-Retorno (Público, P2)

Um discurso de Hitler

Quando se dirige aos homens do Reichstag e lhes pergunta “o que é a Europa, meus deputados”? Aí, lança-se numa longa e rebarbativa passagem que é o Hitler que esperaríamos que ele fosse: um homem obcecado por questões de raça e de sangue, de que fala com tanta verve que é como se os seus fantasmas estivessem ali com ele.

Há setenta anos e três dias — a 11 de dezembro de 1941 — Adolf Hitler fez um discurso perante o Reichstag para declarar guerra aos Estados Unidos da América. Um discurso impressionante a vários títulos, permanentemente mudando de estilo e de sentido quase como se fosse da autoria de alguém com divisão de personalidade.

É sempre perturbante pensar ou escrever ou falar sobre Hitler, e perturbante também lê-lo, por aquilo que esperamos e por aquilo que não esperamos. Continuar a ler ‘Um discurso de Hitler’

A madrugada dos irresponsáveis

Os líderes da zona euro, com Merkel e Sarkozy à cabeça, e com a vergonhosa anuência de todos os outros, deram um golpe de morte à União Europeia. 

 

Na noite de 8 para 9 de dezembro passado, em Bruxelas, os 27 chefes de governo da União não resolveram a crise do euro. De madrugada, tinham criado uma crise na União.

O que aconteceu talvez ainda não tenha sido digerido completamente. Ou talvez haja demasiada gente a atribuir-se o papel de explicadores de poderosos, justificadores de impasses, douradores de pílulas. Mas, não tenhamos ilusões, este foi o pior momento da Europa no novo século.

Os líderes da zona euro, com Merkel e Sarkozy à cabeça, e com a vergonhosa anuência de todos os outros, deram um golpe de morte à União Europeia. O novo tratado em que se lançaram vai ter de ser construído, por razões legais, fora da União. A construção que resultar daqui será puramente intergovernamental, porventura com a Comissão Europeia convocada para fazer de polícia. Esta será uma confederação feita à força mas que nunca terá força para lidar com as debilidades de uma moeda federal. Continuar a ler ‘A madrugada dos irresponsáveis’

A modesta e ambiciosa proposta

Se a União Europeia tivesse a decência de ter objetivos económicos como o crescimento e o emprego, a “Modesta Proposta” tem ainda outra proposta: a de se poder combinar os títulos do BCE com os do BEI para realizar investimentos nos quais hoje os estados deveriam entrar com 50% de dinheiro vivo que simplesmente não têm.

 E se houvesse uma solução para a crise do euro que não implicasse os alemães pagarem as dívidas dos outros países, nem qualquer outro tipo de mutualização da dívida, mas também não implicasse perdão da dívida; que não implicasse “monetizar” a dívida nem arriscar inflação; e que não implicasse a mudança dos tratados? E se essa solução nem sequer implicasse a emissão de eurobonds como são vulgarmente entendidos? Nem a transformação do Banco Central Europeu num “emprestador de último recurso”? Ou seja: e se houvesse uma solução que respeitasse todas as condições políticas que até agora têm impossibilitado uma solução?

Resposta: essa solução seria rejeitada.

Como sei? Por uma razão simples. Essa solução existe. Continuar a ler ‘A modesta e ambiciosa proposta’

Uma pequena tragédia

Em nenhum momento se parou para pensar no que são estes feriados, e o que eles significam. E nisto deu a aberração de estar para acabar o 1º de dezembro, que significa simplesmente a auto-determinação, mas não acabar o 8 de dezembro, que significa a Nossa Senhora da Conceição.

Influenciado pelos meus professores da faculdade (não estudei diretamente, nem sozinho, a época em questão) faço quase sempre questão de precisar que entre 1580-1640 o nosso país viveu sob uma “união dinástica” e que, formalmente, não perdeu a sua independência. Seguindo esta raciocínio, o 1º de dezembro de 1640 não teria restaurado a independência nacional, o que não quer dizer que a restauração de uma dinastia nacional não tenha sido crucial para a nossa história até hoje; na verdade, todas as coroas que estão estavam unidas na Península Ibérica acabaram por ser incorporadas no Estado Espanhol, e sem o Dia da Restauração é bem possível que isso tivesse também acontecido a Portugal.

Um país independente é, de todas as formas, uma coisa muito bonita — e só não o entende quem não pára um momento para pensar no que é não ter direito de auto-determinação por via do referendo ou ter tido a língua nacional proibida e perseguida, coisas que de uma forma ou outra ocorreram às nacionalidades históricas de Espanha em décadas recentes — e não é de estranhar que seja dado a algumas simplificações inevitáveis na comemoração do seu passado. Oficialmente, o 1º de Dezembro é o dia da Restauração da Independência. Continuar a ler ‘Uma pequena tragédia’

O infocídio

Um governo com um mínimo de sentido de responsabilidade, mesmo que sem dinheiro, estaria a pensar como preservar este laço, num momento em que (mais do que nunca) é importante que a voz portuguesa não se cale, e que os portugueses ouçam a voz europeia.

Se há coisa que se tornou incontestável, é esta: a importância da Europa para o futuro próximo de Portugal.

(Há anos, tinha amigos que me diziam “não escrevas tanto sobre a Europa, pá — ninguém quer saber”. Hoje toda a gente quer saber, e esses amigos escrevem sobre a Europa todas as semanas.)

E no quadro dessa evolução incontestável, que faz o governo? Decide acabar com as emissões em língua portuguesa na Euronews.

Ah, mas diz o leitor. Não há dinheiro. Não podemos certamente dar-nos a esse luxo.

E eu pergunto-lhe: quanto custa ter emissões em português na Euronews? Um pouco menos de dois milhões de euros (os fogos de artifício na Madeira custam três milhões). Continuar a ler ‘O infocídio’